BEM-VINDO AO BLOG DE ELIANA BELO
Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

O muro de taipa da frente do Casarão - Fatos e Questões

          A expansão urbana aliada à industrialização têm provocado o crescimento desordenado de cidades como Indaiatuba e, consequentemente, a destruição de áreas com edificações antigas, cuja importância arquitetônica ou histórica - muitas vezes, infelizmente,  passa despercebida pela maioria da população.

          Em Indaiatuba restaram tão poucos exemplares de edificações antigas, que nem sequer poderíamos pensar na possibilidade de colocá-las em risco. O moderno foi tomando o lugar do antigo sem que as consequencias culturais dessa mudança fossem consideradas por aqueles que a empreenderam.

          Para que essas mudanças não continuem dessa forma inconsequente, o correto é fazer o tombamento de imóveis declarados de interesse para a preservação, quer seja por sua importância arquitetônica, histórica, artística, arqueológia ou ambiental. Com leis que garantam o tombamento, está garantida a preservação da cultura material.

          Mas não é bem essa teoria que estamos vendo sendo colocada em prática em nossa Indaiatuba, já dita tão carente de sua memória edificada. Refiro-me ao muro de taipa construído na frente do Casarão do Pau Preto.

          O muro está bem no meio de nosso centro velho: na frente do Casarão do Pau Preto (aquele, que eu já escrevi que CHOVE DENTRO*), do lado da matriz Nossa Senhora da Candelária (que mesmo tombada, foi reformada), no quintal da Casa número 1 (essa, a Norma cuida) perto do Busto do Dom José e na mesma quadra da Casa Paroquial. Também próximo da Rua Augusto de Oliveira Camargo e os poucos casarões que ali restam, da Estação de Trem onde está a locomotiva número 1, a nascente  do Córrego Belchior e o Hospital Augusto de Oliveira Camargo.

          Essa área encaixa-se perfeitamente no conceito do artigo 216 da Constituição federal que define patrimônio cultural como "bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupo formadores da sociedade brasileira, nos quais incluem: (....) V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico."

          É nesta área que está construído o muro de taipa. Só que ele está em um terreno vazio, de inquestionável valor imobiliário que pertence há muito tempo à iniciativa privada e onde está sendo construído um arranha-céu de 17 andares. A construção encontra-se- na fase de execução da fundação. O empreendimento já foi lançado em mídias escritas, tem um logotipo que remete à formas antigas (históricas, melhor explicando) e recebe o nome de "Casarão". Em uma primeira análise, obviamente surpreende-se com o oportunismo da construtora, ou da empreendedora (não sei se é a mesma empresa) ou melhor, dos responsáveis pela obra, que utilizam descaradamente a área que deve ser preservada (sua história, sua imagem e até o nome de um de seus logradouros) em alusão à um interesse privado. Mas não vou me ater nesse nível de discussão. A iniciativa privada é livre para definir e propagar o produto como bem entender, mesmo que fique esse oportunismo gritantemente agressivo à pessoas que interpretam o fato como eu, os chamados preservacionistas, memorialistas, historiadores formados ou não ou vítimas em geral desse amor que temos incondicionalmente por nossa Indaiatuba. E pelo pouco de patrimônio edificado que lhe resta.

          O primeiro ponto em que se deve se ater de verdade, é o do risco a que todos esses logradouros vizinhos correm, principalmente o Casarão, que já TREPIDA QUANDO PASSA CAMINHÕES E ONIBUS** na frente. Imaginem quando habitantes de 17 andares entrarem e saírem de lá com seus carros e motos. Muitas cidades fazem o exatamente o contrário: proíbem o trânsito em áreas definidas como de preservação e fazem calçadões. Lá passam caminhões e ônibus da Guaianazes toda hora. E também todos os carros que desviam do calçadão da Matriz; ou seja; já é um corredor de fluxo inadequado.



          Essa questão da trepidação é até anterior ao futuro e mais intenso fluxo. Passa também pelos riscos que os próprios processos de construção contêm. Esses, os responsáveis pela obra já assumiram que não existirão. Quero confiar que a Análise de Riscos feitas por eles conseguiu mapear (identificar, mensurar e tratar) todos eles, e conseguirá fazer uma gestão desses riscos de forma eficaz, sem nenhuma não-conformidade como algo ou alguém (credo!) que despenque em cima do muro. O fato é que, se na construção, o muro for abalado, será obviamente reconstruído ou reformado, afinal ninguém colocará sua marca em risco. Nesse ponto confio no "abraço" que os responsáveis estão fazendo em torno do muro, comprometendo-se à preservá-lo.

          Por último, deve-se destacar também outro importante item´, este sim, também de muita importância para se atear em uma análise: a visibilidade. Como não concordar que não há coerência em se cravar 17 andares na área de preservação mais antiga e importante do nosso centro urbano? Alguns responderão rapidamente que já existem outros prédios nos arredores. Para estes, respondo com dois argumentos: sim, mas nenhum está na frente do Casarão (e usando seu próprio nome) e nem foi construído após OS BENS JÁ TEREM SIDO TOMBAAAAAAAAAAAAADOS!!!!!***
         
  • A prefeitura aprovou a construção?
  • Se sim, como é que a Prefeitura aprova uma construção de 17 andares em uma área de preservação?
  • ... Onde os bens do entorno já  estão tombados?
Para que meus argumentos não sejam reduzidos a um texto feito simplesmente por quem ama Indaiatuba desvairadamente e por isso está cega de subjetividade, lanço mão mais uma vez de uma referência legal e legítima:

 Diz a lei: é necessária a prévia avaliação e autorização do órgão competente para a liberação de construção nas áreas do entorno de patrimônio histórico e cultural, objetivando resguardar a visibilidade do bem tombado.

  •           Um prédio de 17 andares resguarda a visibilidade dos bens tombados da área?
Para uma obra desse porte em um local como esse, também diz a lei que é obrigatória a elaboração de um Estudo de Impacto na Vizinhança (EIV), cujas diretrizes teóricas apontam que ele deve ser realizado de forma objetiva, sem "subjetividades" que beneficiem  o interesse privado a despeito do interesse da coletividade.

  • Foi feito um Estudo de Impacto na Vizinhança antes da aprovação da construção do prédio?
  • Quem analisou e aprovou esse Estudo?
São questões que precisam de respostas.

A preservação do nosso patrimônio edificado não é tarefa apenas de uma instituição. É, também, responsabilidade de todos nós, legítimos proprietários que somos dos bens coletivos. (Caramba, gente! Isso tudo é nosso!). Por responsabilidade, além dos deveres definidos e aqui citados na Constituição e  também presentes em nossas leis (inclusive municipais) referentes aos patrimônios já tombados também compreende-se ações individuais e coletivas consonantes com a prática cotidiana de resguardar a memória daqueles que nos procederam na História. 

Todos os cidadãos são guardiões do passado a fim de que seja testemunhado pelas gerações futuras. 

.....oooooOooooo.....

* Desculpem-me os leitores pelas letras maiúsculas, sei que na etiqueta da web significa que estou gritanto, mas estou mesmo. Perdão.

** Perdão, mil perdões. Gritei de novo. É a insistência, a vontade de ser ouvida.

*** Agora eu perdi a classe de uma vez por todas e nem vou mais pedir perdão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Prêmio Nabor supera expectativa de público e surpreende pela qualidade musical

colcaborou: Elaine Rangel
texto de Darlene Ribeiro

O público lotou o auditório do Instituto Deco20 na última sexta-feira (15) durante a realização do Prêmio Nabor Pires Camargo, promovido pela prefeitura de Indaiatuba por meio da Fundação Pró-Memória. Durante a abertura do evento o prefeito Reinaldo Nogueira parabenizou a Fundação Pró-Memória pelo importante trabalho desenvolvido na preservação da memória da cidade assim como de personalidades que fazem parte dessa história.




Crédito da foto: Eliandro Figueira (PMI)

Os dez concorrentes, todos jovens, deram um verdadeiro show de musica popular apresentando o melhor do chorinho brasileiro. “O Prêmio Nabor Pires Camargo superou todas as nossas expectativas tanto com relação ao número de concorrentes (54) quanto a qualidade musical dos candidatos, que surpreendeu até mesmo os jurados”, destacou o superintendente da Fundação Pró-Memória, Marcelo Alves Cerdan. A comissão julgadora foi formada por João Tomás do Amaral, Mário Albanese, Franscisco Araújo e João Alves da Silva (Bonfim).

Na opinião de Marcelo o público presente também superou o registrado nas edições anteriores. “Acredito que isso demonstre a consolidação do prêmio, que procura destacar e relembrar a obra do músico indaiatubano Nabor Pires Camargo”, afirmou. Após a apresentação dos concorrentes a animação ficou por conta do grupo ‘Isaías e seus chorões’ que recebeu como convidados Derico Scioti e Pernambuco do Pandeiro.

Vencedores

Tocando ‘Quando me lembro’, de Luperce Miranda, e ‘Comendo fogo’, de Nabor Pires Camargo, o acordeonista Bruno Moritz Neto, de Brusque (SC), foi o grande vencedor da noite conquistando o 1º lugar do Prêmio Nabor Pires Camargo. Bruno começou a tocar aos quatro anos e com nove fez uma turnê com Sivuca por Santa Catarina. Estudou piano na ULM (Universidade Livre de Música), composição na USP (Universidade de São Paulo) e cursa licenciatura em música na UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí). Tem três cd’s gravados e foi campeão do 1º Concurso Latino Americano de Acordeon, do 1º Rolandv Acordion Contest etapa do Brasil e obteve a 4ª colocação na copa mundial de acordeonista em Auckland (Nova Zelândia) em 2009.

O 2º lugar ficou para o paulistano Márcio Modesto que tocou na flauta transversal ‘Deixa o breque pra mim’, de Altamiro Carrilho, e ‘Passarinho verde’, de Nabor Pires Camargo. Modesto é formado em música pela Unicamp (Universidade de Campinas) e aluno do flautista Antonio Rocha. Participou do Coletivo Orquestral Unicamp de 2006 a 2010, foi arranjador e compositor, tendo sua obra tocada em 2009 em Illinois (EUA).

O clarinetista Matteo Ricciardi, de Belo Horizonte (MG) conquistou a terceira colocação no prêmio tocando ‘Choro X’ de Gilson Brito e ‘Comendo fogo’, de Nabor Pires Camargo. Nascido na Itália, Ricciardi começou os estudos musicais aos nove anos tocando sax. Aos 14, começou a dedicar-se aos estudos eruditos e migrou do sax para o clarinete, ingressando no conservatório Giuseppe Verdi, de Turim, onde completou bacharel e mestrado. Atuou em várias orquestras sinfônicas.

O 4º colocado foi Pablo Dias, de Belo Horizonte (MG), que tocou ‘Aquarela na Quixaba’, de Hamilton de Holanda, e ‘Quanto dói uma saudade’, de Nabor Pires Camargo, no cavaquinho. Dias Começou a tocar cavaquinho aos 16 anos e já tocou com grandes nomes da música brasileira como Ataulfo Alves, Noca da Portela, Moacyr Luz e Pedro Miranda. Venceu o Festival Jovem Instrumentista promovido pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG).

A menção honrosa este ano foi dada ao violonista Rafael Thomaz, de Campinas, que tocou ‘Jongo’, de Paulo Bellinati, e ‘Suspiros’, de Nabor Pires Camargo. Thomaz estudou no Conservatório de Tatuí, é bacharel em Música Popular pela Unicamp (Universidade de Campinas) e atua como professor em diversas instituições na região de Campinas.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mais sobre moda dos anos 60

Alunos do curso de Moda de uma universidade de nossa vizinha Salto gostaram do post sobre as costureiras que faziam aulas com a D. Santa, conceituada modista de nossa cidade.

No citado post, escrevi que D. Santa guardou muitos dos figurinos que usava quando era professora de Corte e Costura. Por serem imagens muito representativas da época, com modelos de cortes elaborados, os alunos pediram mais imagens. Êi-las, todas elas de revistas de moda da década de 1960.

(clique nas imagens para ampliar)















sexta-feira, 15 de abril de 2011

Outro goleiro de Indaiatuba no Santos F.C.

Muitos sabem que Indaiatuba teve um ilustre esportista com notoriedade nacional: trata-se de Laércio José Milani, filho de Clofas Mosca Milani e Humberto Milani e irmão dos indaiatubanos Isolina Milani (Cordeiro), Marcos Milani, Adele Milani (Pucinelli), Walda Maria Milani (Ibraim), Hélio Milani, Maria Inês Milani (Domingues) e Antonietta Milani (do Amaral Gurgel), estas duas últimas já citadas neste blog.



O indaiatubano Laércio Milani  com o uniforme do Primavera - mostra as mãos que levaram Indaiatuba para o mundo em gloriosas defesas.


Laércio José Milani começou sua carreira no Esporte Clube Primavera e foi goleiro do Santos Futebol Clube, na áurea época do Rei Pelé.



O goleiro indaiatubano Laércio José Milani, seguido pelo Rei Pelé (na época apenas um jovem princepezinho) desembarcando para outro dos grandiosos jogos do Santos F.C.


Mas o que muitos não sabem, e que pode ser confirmado na imagem abaixo, é que outro goleiro indaiatubano também jogou no Santos Futebol Clube, na mesma época.


Equipe do Santos F.C. num amistoso em Santa Catarina (Taió) em 1964
Imagem publicada originalmente no grupo virtual do Facebook "Dinossauros de Indaiá"

Carlos Alberto, Wilson, Zito, Clodoaldo, Ramos Delgado, Douglas, Joel, Coutinho, Gilmar, Edu, Elcio (Mineiro), Rildo



Trata-se do goleiro é Benedito Zerbinatti,  mais conhecido como "Élcio". Mas aqui em Indaiatuba ele era mesmo conhecido "Mineiro".

Conforme conta José Aristides Barnabé, "ele foi descoberto pelo Moacir Martins, num campo que havia onde é hoje a pracinha depois do Cemitério na Rua Candelária e levado para o Esporte Clube XV de Novembro onde começou a despontar, chamando a atenção de olheiros, sendo assim contratado pelo Guarani F.C. de Campinas. De lá para o Santos F.C. foi muito rápido. Para sua infelicidade, na época o Santos F.C. tinha como goleiros o Gilmar e o Laércio". (1) Por jogar com esses dois craques, acabou não ganhando tanta notoriedade.

Na viagem retratada nessa imagem (acima) para Santa Catarina, o Laércio não pode jogar, provavelmente por estar contundido e ele foi no lugar.

Pelé também não estava no jogo, embora outros jogadores do time principal estivessem. Talvez por ser amistoso, talvez por suposta contusão como Laércio.
A foto original é de Moacir Martins e nela consta uma dedicatória de Benedito-Élcio-Mineiro, que agradece a oportunidade que lhe foi dada.

Mas um indaiatubano que merece destaque!



.....oooooOooooo.....

Colaborou: José Aristides Barnabé

(1) Depoimento originalmente publicado no grupo Dinossauros de Indaiá, em texto postado por Patrick Ribeiro.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A modista e suas costureiras aprendizes

Foi na década de 1950 e 1960 que a Dona Santa, famosa costureira de nossa cidade, além de fazer elaborados modelos na sala de costura que mantinha em sua casa, também dava aulas de corte e costura para jovens senhoritas.

As aprendizes tinham que levar para aula jornais velhos. Com eles, tentavam reproduzir moldes copiados de revistas famosas, não tão numerosas, mas muito conhecidas e respeitadas como referência.

As que conseguiam fazer moldes adequados com os jornais, partiam então para cortar o tecido com base no molde, isso após análise e aprovação de Dona Santa.

As imagens abaixo (da moda da década de 1960) foram cedidas por ela, que guardou algumas revistas da época, chamadas de "manequins".

Além de figurinos com imagens desenhadas, Dona Santa  guardou revistas doadas pela Casa Nicolau, estas mais recentes (décadas de 1970 e 1980 e com fotos). A loja de propriedade da família Nicolau, instalada no primeiro sobrado construido em Indaiatuba (rua XV de Novembro, esquina com Bernadino de Campos), revendia tecidos finíssimos e para estimular as modistas e costureiras, trazia das tecelagens essas revistas, que eram doadas com a última moda para suas clientes.


LOJA NICOLAU
loja de fazendas, armarinhos e máchinas de costura de Júlio Nicolau
 na Rua do Commércio no. 8 - telephone 8


Anúncio publicado no Jornal o Indaiatubano de 4/12/1938



(clique nas imagens para ampliar)






sábado, 2 de abril de 2011

Gestão em Ferrovias - Charges



Gestão de Pessoas - Sinergia do Trabalho em Equipe

Divisão dos Esforços em Foco Único



Aplicação de Tecnologia de Ponta - Processo de Alinhamento



Inovação  nos Processos -  Colocação de Linha 


Inovação nos Processos - Colocação de Trilhos



Comunicação Integrada e Controle da Qualidade


Gestão Eficaz da Não-Conformidade
e
Gestão de Riscos


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Colaboraram com as imagens: Antonio Pastori e Ernesto Almeida Paparelli
"Comentários" - Eliana Belo
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O Ódio nosso de cada dia

O Brasil não tem terremotos ou furacões. Carecemos de tsunamis. O fundamentalismo religioso, aqui, é mais lembrado pela estética da saia e cabelos compridos que por genocídios. Mesmo não sendo um paraíso, todo brasileiro sabe que não vivemos no inferno. A Terra de Santa Cruz é um cálido purgatório, no máximo.

Esse quadro tem sido pintado, com cores mais fortes ou mais fracas, desde nossa cena fundacional, em 1500. Sérgio Buarque de Holanda usou a celebrada expressão “homem cordial” para descrever nossas raízes, em 1936. Ainda que tenha defendido que o cordial deriva de impulsivo pelo coração, não o dócil, o texto do pai do Chico foi lido sob o prisma do pacifismo. Na mesma década, Gilberto Freyre tinha pintado um latifúndio no qual a escravidão emergia com uma toada malemolente. Os dois clássicos foram absorvidos por um público pátrio que amou encontrar, mesmo onde não havia, uma base narrativa para nossa representação pacifista.

Contraponto necessário a nossa ilusão: nossos vizinhos são agressivos. Guerras civis devastaram Argentina e Colômbia. A escravidão custou mais de 600 mil mortos para ser abolida nos EUA. Aqui? Uma penada de ouro de uma princesa gentil num belo domingo de maio de 1888.

A expressão guerra civil não aparecia nunca nos livros didáticos do Brasil. Cabanagem, Balaiada, Farroupilha? Eram revoltas regenciais, termo didático, não sangrento e asséptico. A violência? Uma exceção. Euclides da Cunha destacou que a repressão a Canudos era algo único: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo”. Lá nos sertões ainda sobrevivia uma possibilidade de violência sem concordata, mas era excepcional. Caso ímpar num país de “acordões” e de gabinetes de conciliação, atavismo do século 17 que insistia em não morrer.

Nosso racismo? Completamente aguado em comparação ao apartheid sul-africano ou estadunidense, dizia-se. Aqui jamais houve negros separados de brancos em ônibus. Antagonismos homicidas entre islâmicos e judeus no Oriente Médio? Abaixo do Equador os dois filhos de Abraão dividiam calçadas de lojas e se cumprimentavam varrendo a frente de seus estabelecimentos. O campo de prisioneiros de guerra alemães no Brasil, em Pouso Alegre (MG), em 1943/1944, era quase uma colônia de férias se comparado aos similares europeus. Que país bucólico e pacífico! Que terra bafejada pela harmonia!

Esse quadro sem desastres naturais de monta nem ódios ancestrais e genocidas foi passado a várias gerações, a minha inclusive. Em plena ditadura, na escola, cantávamos “as praias do Brasil ensolaradas” onde Deus plantara mais amor e onde “mulatas brotam cheias de calor”. Nesse Éden tropical e erótico, nada se falava sobre repressão a dissidentes. E, combinação maravilhosa: o céu nos sorria e a terra jamais tremia.

Os momentos de polarização política, como 1935 (Intentona Comunista) ou 1964 (golpe militar), foram retratados na versão oficial e conservadora como infiltração de doutrinas estrangeiras de ódio. Era o marxismo pantanoso em meio a um povo cristão e pacífico. Foram os primeiros momentos nos quais a elite pátria pensou em “nós”, ou seja, os pacifistas que queriam construir uma país de progresso e prosperidade, contra “eles”, os grevistas, sindicalistas, agitadores e outros que insistiam em inocular no corpo nacional o vírus do dissenso. “Nós” correspondia aos patriotas, aos que só desejavam a paz. “Eles” correspondia à cizânia e aos cronicamente insatisfeitos. Sempre fomos bons em pensamentos maniqueístas, em dualismos morais perfeitos. Ninguém é católico por séculos e emerge ileso desse destino...

A grande política foi criada nessa duplicidade: os getulistas e lacerdistas, Arena e MDB, PT e PSDB. Briga de torcidas sim, porque cada lado sempre retirou sua agenda da outra facção. Mais do que briga, dança coreografada. “Nós” somos éticos, “eles” são corruptos. “Nós” trabalhamos por um Brasil grande e disciplinado, empreendedor. “Eles” querem só as benesses do governo numa vida ociosa e vampiresca. “Nós” sustentamos o Brasil. “Eles” apenas se aproveitam. Qual o grande problema nacional? “Eles” não entendem que “nós” estejamos corretos.

A microfísica do poder e da sociabilidade repetia esse padrão. No trânsito, o que atrapalha? Se eu for motociclista, óbvio, carros, ônibus e pedestres não funcionam. Sou taxista: esses carros particulares estão a passeio e são descuidados. Ciclista estou? Falta cidadania aos outros. Infelizmente, todos erram e, desgraçadamente, apenas eu sei dirigir.

O primeiro problema da nossa intensa violência no trânsito (estamos entre os quatro países que mais matam pessoas) é que não participo, como sujeito histórico, da barbárie. A violência é do outro, nunca minha. Aliás, rodo como um Gandhi orientado pela Madre Teresa de Calcutá. Os outros? Gêngis Khan no banco de passageiros com Átila ao volante.

O trânsito é uma metáfora trágica. Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar.

Passei duas semanas fora do País às vésperas do segundo turno presidencial. Desembarquei no sábado, faltando poucas horas para a abertura do horário de votação. Distante do meu país, fui invadido, via internet, por textos duros, propagandas furibundas, imagens de escárnio e análises corrosivas. Todas tinham um ponto em comum: o outro era a fonte do deslize ético e do método ilícito de campanha. A campanha do outro partido era D-E-P-L-O-R-Á-V-E-L. “Nós” apenas nos defendíamos no interior do castelo puro da civilização, jogando contra-ataques em direção à horda nauseante.

Findo o pleito, uma ressaca nacional: o Brasil descobriu-se raivoso. Os brasileiros ficaram surpresos com a carga de ódio que fluiu pela rede. Estávamos ainda nas praias do Brasil ensolaradas? Na terra do leite e do mel sem terremotos? Este ainda seria o país do futuro? Dormimos num vale suíço e acordamos numa guerra em Serra Leoa.

Esse ódio sempre esteve lá. Ódio não é dado a ter infância. Nasce adulto em lugares úmidos onde o ressentimento germina. O ódio é parte central da identidade de indivíduos e grupos. Os regionalismos raivosos (calabreses contra lombardos, bascos contra castelhanos, etc.) sempre foram, antes de raivosos, regionalismos. Em outras palavras: eu preciso constituir uma região antes de odiar outra. Mas ódios são circulares com a identidade: eu preciso odiar também ANTES para constituir uma região. Uma contradição interessante.

Aqui começa a delícia do ódio. Ao vociferar contra outros, o ódio também me insere numa zona calma. Se berro que uma pessoa x é vagabunda porque nasceu na terra y, por oposição estou me elogiando, pois não nasci naquela terra nem sou vagabundo. Se ironizo com piadas ácidas uma opção sexual, destaco no discurso oculto que a minha é superior. Todo ódio é um autoelogio. Todo ódio me traz para uma zona muito tranquila de conforto. Não tenho certeza se sou muito bom, mas sei que o outro partido é muito ruim, logo, ao menos, sou melhor do que eles. É um jogo moral denunciado por dois grandes judeus: Jesus e Freud.

Mas o ódio apresenta outra função interessante. Ela aplaina as diferenças do meu grupo. O ódio, como vários ditadores bem notaram, serve como ponto de união e de controle. O ódio é gêmeo xifópago do medo, e pessoas com medo cedem fácil sua liberdade de pensamento e ação.

Há que se lembrar: a brisa do amor fraterno é mais etérea do que o furor da tempestade de ódio. Insultar no trânsito é mais intenso do que dizer eu te amo na cama, ao menos considerando-se a abundância da primeira frase e a escassez da segunda.

O ódio é uma interrupção do pensamento e uma irracionalidade paralisadora. Como pensar é árduo, odiar é fácil. Se a religião é o ópio do povo para Marx, o ódio é o ópio da mente. Ele intoxica e impede todo e qualquer outro incômodo.

Por fim, o ódio tem um traço do nosso narciso infantil. O mundo deve concordar conosco. Quando não concorda, está errado. Somos catequistas porque somos infantis. A democracia é boa sempre que consagra meu candidato e minha visão do mundo. A democracia é ruim, deformada ou manipulada quando diz o contrário. Todo instituto de pesquisa é comprado quando revela algo diferente do meu desejo. Não se trata de pensar a realidade, mas adaptá-la ao meu eu. As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais de 50 anos como eu) batem o pé, fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos, desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado. Selecionamos os fatos que desejamos não pelo nosso espírito crítico, mas por uma decisão prévia e apriorística que tomamos internamente. Grosso modo, isso foi explicado em Uma Teoria da Dissonância Cognitiva, de Leon Festinger.

Seria bom perceber que o ódio fala muito de mim e pouco do objeto que odeio. Mas o principal tema do ódio é meu medo da semelhança. Talvez por isso os ódios intestinos sejam mais virulentos do que os externos. Odeio não porque sinta a total diferença do objeto do meu desprezo, mas porque temo ser idêntico. Posso perdoar muita coisa, menos o espelho.

Mas o ódio é feio, um quasímodo moral. A ira continua sendo um pecado capital. Assim, ele deve vir disfarçado da defesa da ética, do amor ao Brasil, da análise econômica moderna. Esses são os apolos que banham de luz a fealdade. E, como queria o rebelde (que odiava o Estado), sempre teremos 999 professores de virtude para cada pessoa virtuosa. Em oposição, encerro acrescentando: sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa. Isso às vezes me dá um ódio...

*

Texto (irretocável) de Leandro Karnal, Historiador e professor de História Cultural da Unicamp, originalmente publicado em http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-odio-nosso-de-cada-dia,1586401

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