quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

As tradicionais moringas e talhas de barro




O uso do barro constitui uma tradição fundamental do interior paulista desde o início de sua ocupação, no século XVI. Distante do litoral e desprovido de recursos construtivos como o cal de ostraria — amplamente utilizado nas edificações em pedra das regiões costeiras —, o bandeirante paulista dispunha basicamente do barro e de ferramentas rudimentares. Com o tempo, esse modo de construir consolidou-se em uma linguagem própria, mais tarde reconhecida como Vernáculo Paulista, caracterizada pela racionalização do uso do barro por meio de técnicas como a taipa, o adobe e o pau a pique.


Casinha dos primeiros paulistas - uso intenso do barro


Na nossa Indaiatuba, cuja ocupação remonta ao século XVII, inicialmente às margens dos rios Jundiaí e Piraí, e que se expandiu, a partir do final do século XVIII, em direção ao Córrego Indaiatyba — atual Barnabé —, as construções mais antigas ainda preservam essa tradição construtiva baseada no barro e na madeira falquejada à mão. A Igreja da Candelária, parte do Casarão Pau Preto, os muros da rua lateral à igreja e trechos dos muros do Cemitério da Candelária foram edificados em taipa de pilão. Já a Casa nº 1 e grande parte do Casarão Pau Preto utilizam a técnica do pau a pique. Alguns muros antigos da cidade, hoje remanescentes, foram construídos em adobe, com grandes blocos de barro assentados e rebocados com o mesmo material.


Imagem do autor, do Casarão Pau Preto (quando em reforma)

A difusão do uso do barro ganhou novo impulso com a introdução dos tijolos cozidos, ainda no final do século XIX. Embora as primeiras cerâmicas paulistas tenham surgido antes mesmo da chegada das ferrovias, o cimento permaneceu pouco acessível até a década de 1970. Por essa razão, diversas construções de Indaiatuba — especialmente as residências erguidas nas décadas de 1960 e 1970, tanto no Centro Histórico quanto no bairro Pau Preto — utilizavam o barro argiloso como argamassa para o assentamento dos tijolos. A abundância de argila na região favoreceu, inclusive, a instalação de várias cerâmicas locais, produtoras de tijolos, telhas e revestimentos, em um passado relativamente recente.


Moringas de barro


O barro também foi amplamente empregado na fabricação de utensílios domésticos, alguns dos quais permanecem em uso até os dias atuais. É o caso das talhas e das moringas, recipientes destinados ao armazenamento de água potável, capazes de manter seu conteúdo em temperaturas mais amenas do que as do ambiente. Em termos práticos, podem ser consideradas verdadeiras precursoras dos refrigeradores.

Mas como isso é possível?

A memória nos conduz à casa dos avós: a talha suspensa sobre uma placa de granilite fixada à parede, ao lado da porta da cozinha; a moringa posicionada junto à pia, sempre com água fresca, mesmo nos dias mais quentes do verão. Como explicar esse fenômeno?

A genialidade do barro reside justamente em sua simplicidade. 

Os recipientes de barro mantêm a água fresca porque “suam”. As talhas e moringas não são impermeáveis: sua superfície externa torna-se constantemente úmida, permitindo que a evaporação da água retire calor do recipiente. Trata-se do mesmo princípio físico que regula a temperatura do corpo humano por meio do suor. Por essa razão, não se deve impermeabilizar nem pintar uma talha, sob pena de comprometer sua função.

Do ponto de vista físico, as moléculas de água necessitam de energia para mudar de estado. Ao evaporarem — seja da superfície da talha, seja da pele humana —, retiram calor do meio, à razão aproximada de uma caloria por grama. Talvez você se recorde das aulas de termodinâmica do colegial: boas professoras sempre souberam tornar compreensíveis conceitos aparentemente complexos.

Essa tradição no uso das moringas remonta aos povos originários, que já dominavam tais técnicas muito antes da colonização. Os filtros de vela de barro, posteriormente incorporados às talhas, foram introduzidos pelos imigrantes europeus, sobretudo no período republicano. As próprias talhas também se relacionam com o início da industrialização paulista, especialmente na primeira década do século XX.

Ainda hoje, moringas e talhas permanecem como soluções sustentáveis, econômicas e eficientes para o resfriamento da água, reafirmando a atualidade de saberes tradicionais profundamente enraizados na história do interior paulista.


FILTRO DE BARRO


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