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domingo, 22 de janeiro de 2017

Alterações Climáticas e Aquecimento Local em Indaiatuba

texto de Charles Fernandes.
Não são apenas datas, personagens e locais que moldam a história de nossa cidade.
 Com o crescimento da atenção voltada para as questões ambientais, torna-se necessário que se tenha um constante inventário de nossa fauna e flora, tanto nativa quanto URBANA, cuja interação com o homem estabelece dinâmica de transformação, alterando consequentemente o nosso clima. É comum achar relatos em documentos e textos literários, sobre nossa vegetação original, e como os primeiros habitantes de Indaiatuba interagiam com a flora e fauna local, mostrando como isso vem se modificando até a atualidade. Ter consciência de como o meio ambiente vem se alterando, e as  consequências que isso causa, é fundamental para estabelecer novas ações de preservação.
Em termos simplificados, podemos dizer que clima é a história do tempo (no sentido meteorológico), e que alterações climáticas são FATOS de relevante importância, 
e que necessitam ser relatados para um entendimento de nosso habitat, 
e de nossa própria história.

Como dado oficial, retirado de nosso Plano Municipal de Saneamento Básico podemos afirmar que o estado de São Paulo mantém 17,5% de sua cobertura vegetal nativa, um índice muito baixo se comparado ao resto do território nacional, fato preocupante e digno de programas efetivos para recomposição de mata nativa. Indaiatuba por sua vez, tem índices inferiores a estes: nossa vegetação nativa, mesmo somando remanescentes e recomposições, determina 8,15% do território do município, menos da metade da média do estado. (segundo o Inventário Florestal do Estado de São Paulo)
           
Com a constante preocupação mundial sobre mudanças climáticas, faz-se necessário que voltemos nossa atenção para as alterações climáticas locais, muito mais perceptíveis, observando os históricos de médias de temperatura e de pluviosidade, e determinando como o clima de Indaiatuba tem sofrido modificações ao longo de quase 2 séculos de antropização (ação do homem no meio ambiente), avaliando se as alterações do meio ambiente, necessárias para receber a nossa cidade, possuem sustentabilidade a longo prazo, e até onde será viável manter o ritmo destas alterações e principalmente, estabelecendo alternativas viáveis.
Em estudo divulgado pela UNESP, de autoria de Giovana Girardi, (www.unesp.br/aci/revista/ed10/pdf/ UC_10_Aquecimento .pdf ), um panorama de médias diárias de temperatura entre os anos de 1961 e 2008 de várias cidades da região, entre as quais Sorocaba, São Carlos, Piracicaba e Itapetininga, estabelece clara alteração do clima e indicam que nossa região aumentou em cerca de 2°C suas médias históricas para este período, devido a Urbanização e substituição da vegetação nativa por edificações. Mais que isso, constatou-se que as temperaturas mínimas tem ultrapassado constantemente a média de 22°C e as máximas diárias, muitas vezes são superiores a 32°C.
Fonte: Revista UNESP (Artigo de Giovana Girardi)
Fenômenos de alteração climática local, antes somente constatados em cidades de grande porte como São Paulo, agora são observados em pequenos e médios municípios e seus efeitos são sentidos por toda a população.
Indaiatuba tem se tornado uma ILHA DE CALOR!

           Aquecimento Local e Ilha de Calor em Indaiatuba
          No início de janeiro deste ano, notou-se um fenômeno recorrente: um tremendo temporal assolando o Centro da cidade e bairros adjacentes sem sequer cair um pingo em Itaici. Alguém já se questionou qual a lógica desta diferença tão grande entre o volume e intensidade das chuvas dentro de um mesmo município? E porque parece que esse fenômeno tem aumentado nos últimos anos?
Para quem habita Indaiatuba há muito tempo, e se lembra de um agradável frescor rural que amenizava as temperaturas da cidade no verão, sobretudo ao fim do dia e a noite, e que trazia uma brisa molhada vinda do mato, que destampava o nariz seco, em dias de inverno, deve se perguntar: O que aconteceu com nossa cidade?
            Nos últimos anos nosso perímetro urbano cresceu de maneira sensível, trocando áreas onde originalmente se possuía cobertura vegetal, por cimento, asfalto, pedra e tijolo. Aumentou a circulação de veículos motorizados, que dispersam gases poluentes na atmosfera, situação que é agravada pela distribuição modal de nosso transporte urbano, composto de mais de 54% de veículos particulares, onde a média ideal estimada seria 33%. As áreas ocupadas possuem tímida arborização entre os lotes, e as áreas verdes, obrigatórias em loteamentos, muitas vezes não se prestam a recompor a vegetação nativa em margens de rios e córregos, diminuindo nossa cobertura vegetal. Esse adensamento de áreas construídas e impermeabilizadas, criadas pelo homem em substituição à vegetação nativa, ou culturas agrícolas, tem criado em Indaiatuba um fenômeno climático chamado “ILHA DE CALOR”.
            As construções de nossa cidade e o asfalto das vias, possuem capacidade de reter energia, gerando calor, de maneira mais intensa que a cobertura vegetal original, e é capaz de manter esta temperatura por mais tempo, criando inércia térmica, proporcionando noites mais quentes. Enquanto a zona rural se esfria rapidamente após o fim do dia, a cidade se mantém quente por mais tempo. Os dias na cidade são mais quentes, e durante as noites a diferença é muito maior.
            A Ilha de Calor cria uma área de baixa pressão, mais quente, de ar mais leve, que tende a subir e criar uma coluna ascendente sobre a cidade, por consequência retirando a umidade e deixando o ar mais seco que em áreas rurais, aumentando também a quantidade de partículas em suspensão, seja de poeira, água ou fuligem , vindas de combustível automotivo, atividade industrial, ou mesmo de queimadas ilegais. Como impactante decorrência, as ilhas de calor agravam a poluição atmosférica, diminuem a umidade relativa do ar, e aumentam a ocorrência de problemas respiratórios, sobretudo em crianças e idosos.
            Estas partículas em suspensão, de água, poeira ou fuligem, chamadas também de aerossóis, sobem com as correntes ascendentes e quando entram em contato com nuvens carregadas, criam gotas, que como bolas de neve na ribanceira, puxam a água das nuvens para baixo, e que acabam se precipitando sobre o perímetro urbano, criando um aumento da pluviosidade, se comparada às regiões rurais ou mais densamente arborizadas. Este fenômeno se intensifica no final das tardes, quando a diferença de temperatura entre cidade e campo se torna maior, chegando a uma diferença de até 10°C, criando as tempestades de fim de tarde, que curiosamente não incidem em áreas verdes com a mesma frequência e intensidade que na área urbana. O aumento da Ilha de calor indaiatubana pode atrair chuvas desastrosas e desproporcionais à infraestrutura de drenagem urbana da cidade, sobretudo em nossa plana região central.


Imagem de Satélite de Obra sobre a Área de Preservação Permanente do Rio Jundiaí em Itaicí em 2016.


Imagem de Satélite do mesmo local em 2014.
            Observando a relação da cidade com o meio ambiente ao seu redor, podemos dizer que ao construir e sequencialmente expandir uma região estéril de áreas verdes, também criamos um imã para tempestades, que acaba também alterando a relação de precipitação e recursos hídricos em direção a montante de nossos cursos d’água, no ponto em que literalmente roubamos a chuva que deveria ir para os reservatórios de captação para consumo, na região das represas do Capivari-Mirim e Cupini, e direcionamos estes valiosos recursos a jusante da cidade, em direção a Salto, para o Jundiaí e depois ao Tietê. Fenômeno semelhante assola também a grande São Paulo, prejudicando os recursos advindos da região da Cantareira.
            Uma das mais eficientes maneiras de se reter o aquecimento demasiado da cidade é proporcionar amplas áreas verdes, ou cravejar as áreas urbanizadas com árvores para diminuir a incidência solar e também aumentar a umidade através da evaporação, transpiração, jogando para a superfície a água retida no solo pela vegetação.
            Nossa Arborização Urbana já foi pujante, diria até corajosa, em tempos em que se plantavam jequitibás, como os grandes indivíduos localizados na Rua Itororó; ipês e sibipirunas como as dos bairros adjacentes ao Centro; a exemplo do Jardim Pau Preto, o nosso Centro era cravejado de espatódias, onde restam apenas algumas, como as da Rua 15 de Novembro. Lotes urbanos e praças possuíam jatobás, paineiras e alecrins, que aos poucos tombam com a impermeabilização do solo. Nas últimas décadas, trocamos o porte de uma sibipiruna, comum na arborização urbana até a década de 80, pela canelinha, nos anos 90, pois seu porte é menor e interfere menos nas instalações aéreas de energia e nos passeios públicos, e também caduca menos, ou seja possuí menor deiscência de folhas. Pelas mesmas razões a canelinha, foi substituída pela aroeira pimenteira, e depois  pelo resedá, e se tudo caminhar neste rumo, logo estaremos plantando buxinhos em nossas ruas.
Tratar a arborização urbana como prioridade ambiental, e estender esta atenção para a cobertura arbórea nativa de nossas áreas de preservação ambiental, dispostas em perímetro urbano, recompondo-as e conservando-as, é fundamental para diminuir a ação do fenômeno da Ilha de Calor na cidade. 
            Arborizar a cidade adequadamente, e trabalhar a recomposição de áreas florestais nativas como condição sine qua non a expansão urbana, são atividades sustentáveis que podem reter ou até diminuir a ação do aquecimento urbano em Indaiatuba deixando a cidade tão agradável, quanto sempre foi.

Fontes.:


www.unesp.br/aci/revista/ed10/pdf/ UC_10_Aquecimento .pdf

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