BEM-VINDO AO BLOG DE ELIANA BELO
Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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CITE A FONTE ao fazer uso de textos ou imagens publicados neste blog; grande parte do material foi cedido generosamente por colaboradores.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Luto

Estou de luto por uma perda muito significativa
Que está relacionada há várias outras perdas de elementos materiais:
É a morte do cerrado campineiro, com sua fauna e flora;
É a morte de inúmeras nascentes, que do fundo da terra jorram límpidas águas;
É o fim de sítios e fazendas sustentáveis;
É o término da comunidade histórica de Friburgo;
E de grande parte da também histórica Helvetia.

Mas meu luto não advém apenas dessas perdas,
De tudo isso que ficará em minha memória.
Minha maior dor, vem da perda da dignidade,
da perda da força das pessoas
e da consciência de constatar,
que muitos são à favor desse projeto doentio e megalomaníaco,
que tecnicamente não precisava ser assim,
que socialmente não precisava ser assim,
mas que políticamente só se viabilizará assim.

Meu luto é profundo por que  hoje não é verdade que
"quem sabe faz a hora, não espera acontecer".


.....oooooOooooo.....

Referente ao obituário: em janeiro de 2010 foi emitida a Licença Prévia
para a ampliação do Aeroporto de Viracopos

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Industrialização em Indaiatuba

Periodicamente, a Revista Exemplo Imóveis publica artigos sobre diferentes logradouros (bairros, vilas, distritos) de nossa Indaiatuba traçando um perfil do local enquanto "produto" imobiliário e, ao mesmo tempo, transmitindo dados sobre a História.

Abaixo, texto publicado sobre o Distrito Industrial em dezembro de 2010,
cedido pela jornalista  Mariana Corrér.

(Clique para ampliar)





Caso tenha imagens ou informações sobre a industrialização em Indaiatuba e queira compartilhar, escreva para elianabelo@terra.com.br

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Noites de Arte

 texto de Francisca Nadir Ferreira Menck*
.
A partir de 1947, algumas crianças e jovens de nossa cidade iniciaram seus estudos de piano com D. Tereza Zoppi, filha de D. Elvira e Sr. Rêmulo, sendo que as aulas eram ministradas em sua casa, que ficava no Largo  do Randolfo (Praça D. Pedro), onde hoje (1) está a Loja Esplanada.

Todos os anos havia uma audição de piano chamada de “Noite de Arte”. Os dias que antecipavam essa audição eram de muita ansiedade para nós alunos, pois tínhamos que exercitar até decorar as peças que íamos tocar. Mas quando não conseguíamos, D. Tereza deixava que levássemos a partitura.

Essas “Noites de Arte” eram realizadas no “Salão da Lita”, que era chamado de “Indaiá Clube” (único Clube existente na cidade), e ficava na Rua Bernardino de Campos, onde hoje se encontra o Banco Itaú.

Era um acontecimento esperado pela sociedade e pelos pais dos alunos, orgulhosos de seus filhos.

Os próprios alunos iam procurar flores nos jardins de nossos amigos e familiares (folhagens nos vasos, samambaias, margaridas, copos de leite, dálias, rosas, lírios etc...).

Os meninos vestiam ternos, gravatas e sapatos bem engraxados. As meninas e jovens faziam vestidos novos e arrumavam o cabelo com bonitas fitas. Ao fim de cada apresentação, os alunos recebiam um ramalhete de flores e a audição terminava com a reunião dos alunos com D. Tereza numa foto de recordações do evento.

Tais “Noites de Arte”, assim como as audições de sanfona, que também eram realizadas naquela época, eram esperadas com expectativa por nossa sociedade. Era uma grande satisfação para os pais que assistiam a apresentação de seus filhos todos os anos.

Assim, muitas crianças e jovens de Indaiatuba desenvolveram, juntamente com suas habilidades ao piano, características de dedicação aos estudos, disciplina, educação, caráter, força de vontade. E, futuramente, muitos desses alunos vieram a se destacar em nossa sociedade como professores, engenheiros, médicos, advogados, etc.


.....oooooOooooo.....

* Originalmente publicado no livro "Um olhar sobre Indaiatuba" 2006.
(1) Texto escrito em 2006.
 
 
(clique na imagem para ampliar)

Foto original de Sonia Maria Domingues Barnabé
Publicada originalmente no grupo virtual Dinossauros de Indaiá de Patrick Ribeiro (Facebook).
 
 
Em pé da esquerda. para a direita:
Clemente Sannazzaro,
Zaira Ciciliato,
Elza de Franceschi Vieira,
Nelson Norberto de Souza Vieira Sobrinho,
Ruth Seabra,
Sonia Mazzoni,
Gioconda Campos,
Silvia Fiori,
Denizie Julia Capovilla,
Maria Aparecida....,
José Machado de Campos Filho (Zezito).
 
Sentados:
Sonia Maria Domingues,
Virginês Antonia Pilotto,
Angelina Giaquinto,
Maria Thereza Zoppi,
Abigail Zoppi,
Valderez Stocco,
Sidney Mazzoni,
Maria Regina Machado de Campos.
 
Primeira fila:
 Marina Limongi,
Maria Luiza Lins,
Walda Maria Stocco,
Márcia Giomi,
Valderez Limongi,
Donária Silvia Sannazzaro,
Leda Mazzoni e
Silvia Campos do Amaral.
 
Identificação feita por José Aristides Barnabé.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Escoteiros de Indaiatuba - Década de 1940

(clique na imagem para ampliar)

Escoteiros de Indaiatuba posam para foto em 1947.
Em pé na 3a. fila, da esquerda para a direita:
Archimedes Prandini (instrutor),
Valdir Ferrari,
Romeu Scisci,
Hermoni Luiz Escodro (Alemão),
Tasca,
Ataide Dias de Oliveira,
Renato Cordeiro,
Darci Martinez,
Antonio Petrilli,
(não identificado),
Rubens Wof e
Roberto Wolf (filhos da professora Alice de Matos Wolf),
os três filhos de Domingos Di Ciero e
o filho do soldado João Ventura.

Na 2a. fila:
Acácio Modaneza,
(não identificado),
Cézar Garanhani,
Paulo Steiner,
Claudionor Civolani (Nono),
José Antonio Lui (Zico),
José Calunga,
Luiz Edson Bimonti,
Walter Ferigatti,
Benedito Zoppi,
Flávio Sureira (auxiliar).

Na 1a. fila:
Anatole França (diretor do Grupo Escolar),
Jacob Lyra (prefeito),

Agachados:
Israel Germani,
Rubens Martinez,
Itamar Alves,
Mário de Genaro,
Benedito Vaciloto e
Luiz Adalberto Pinto.



Mais informações, consulte a fonte: "O Ofício de Compartilhar Histórias", de Ana Lígia Sacachetti (2001), disponível na Biblioteca do Casarão e à venda no mesmo local, para quem quiser seu exemplar.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Verão de 2011 - As enchentes

Imagens da manhã de hoje, 13 de janeiro de 2011, entre 9:30 e 9:45,
no Parque Ecológico, do Córrego Barnabé, que transbordou.

A rotatória do Colégio Objetivo ficou impedida no sentido Elias Fausto-Centro. Quando a água diminuiu um pouco, saindo da rua, tirei essas fotos.

O laguinho atrás do Colégio Objetivo transbordou, invadindo as ruas e formando um córrego por cima da rua em direção ao outro lago.

(clique na imagem, caso queira ampliar)












A assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Indaiatuba informou que entre 8h30 e 10h30  choveu em Indaiatuba 55 mm.

Ninguém ficou desalojado ou desabrigado.
 
Além do transbordamento do Córrego do Barnabé, são esses alguns dos outros problemas:
  • Boca-de-lobo entupida causa inundação: um guarda-roupas dentro de uma boca-de-lobo, na rua Ignácio Wolf, no Jardim Pedroso, causou inundações no local. A garagem do prédio número 195 da rua ficou inundado.
  •  Ruas que alagaram e problemas ocasionados: Ademar de Barros (centro); ruas no entorno da Praça D. Pedro II (centro); região do Parque Corolla; rua Agide Scachetti, 136, Jardim Esplanada I (o terreno dos fundos jogou água que atingiram o quintal da referida residência); rua Domacir Stocco Júnior, bairro costa e Silva (residências foram inundadas); rua 73 (Morada do Sol);  
  • Cabo da Espingarda (Morada do Sol):  a água chegou no quintal das residências. Cerca de 10 casas foram invadidas pelo transbordamento do Córrego do Barnabé.
  • Semáforos que apresentaram problemas:  da avenida Itororó com a rua XV de Novembro e semáforo da avenida Presidente Kennedy com a rua 13 de Maio.
  • A ETA V (Estação de Tratamento de Água) teve a casa de bombas inundada, mas os reparos já começaram. O SAAE fez previsão de que a situação seria resolvida por volta de 14h. Informou também que o problema não afetou a distribuição de água devido aos reservatórios existentes.
  • Cras Tombadouro: infiltração derrubou teto de gesso e alagou a unidade. O atendimento foi suspenso.
  • Caps II Pau Preto: Calha não deu vazão às águas e vazou água pelo teto em algumas salas.
  • Projeto Guri: parte do teto de gesso da sala de ensaio musical caiu. O chão está inundado. Medidas terão que ser tomadas pela Secretaria da Cultura, para não desabar tudo.
  • O córrego Barrinha, afluente do rio Jundiaí no Jardim Oliveira Camargo, passou por cima da ponte e atingiu o interior de 05 casas com mais ou menos 50 cm. Foram 06 famílias atingidas, um total de 30 pessoas. A água atingiu o quintal de outras 06 residências. As águas já baixaram (por volta de 10h30) e os moradores começaram a limpar o local. A Secretaria da Família e Bem Estar Social enviou cestas básicas e cobertores para os moradores.
  • Ambulatório de Pediatria e Farmácia (Morada do Sol) foi inundado porque voltou água pelos ralos. O atendimento foi suspenso. Iniciou-se a desinfecção do espaço e  os funcionários foram remanejados.
  • Derefim (Morada do Sol): inundou duas salas com retorno de água, mas já foi realizada limpeza e o atendimento foi retomado.
  • Cras IV (Morada do Sol) : foi alagado com retorno da água pelos ralos e  o atendimento  foi suspenso.
  • Escola do Tombadouro: problema com o sistema de águas pluviais que encheu o prédio parcialmente. Com o fim das chuvas a situação normalizou.
  • Escolas Municipais  tiveram problemas com telefonia e energia elétrica.
  • Itaici: a Estrada Ezequiel Montoanelli teve o asfalto danificado (que liga o bairro Tombadouro à avenida coronel Estanislau do Amaral).
  • A segunda represa dentro do Mosteiro de Itaici transbordou e inundou as alamedas Andorinhas e Peroba. Não há possibilidade de trânsito.
  • Caminho da Luz: a Avenida Lix da Cunha na altura do pesqueiro Santo Agostinho ficou inundada. Não passam carros ou caminhões.
  • O córrego São Lourenço  também transbordou.
  • Estrada que liga Indaiatuba a Itupeva: a ponte sobre o rio Jundiaí na avenida Coronel Antônio Estanislau do Amaral ficou com o asfalto danificado.
  • Jardim Kioto: residências inundadas.
  • Nipo: o barranco atrás do clube cedeu e a terra derrubou o muro de uma residência que fica na parte de baixo. O muro de um vizinho está comprometido. Engenharia no local para providências. O barro atingiu duas residências. Foi adquirida uma lona de 20x50 metros para contar novos deslizamentos. O problema ocorreu na rua Ignácio Ambiel, o muro da residência 1.312 foi o que caiu.
  • Saúde: algumas unidades tiveram transtornos momentâneos durante as chuvas.
  • O Rio Jundiaí subiu 2,5 metros além da média normal; a prefeitura de Indaiatuba solicitou à Prefeitura de Salto a abertura das comportas. Com a medida o nível do rio Jundiaí já baixou e a situação está se normalizando.
  • E já que é o assunto, completo esta desagradavel lista registrando que dentro do Casarão do Pau-Preto, um patrimônio tombado, também chove há algum tempo. Eu escrevi e repito: chove DENTRO do Casarão, onde está a Biblioteca Pública, entre outros departamentos/processos da Fundação Pró-Memória.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Em Indaiatuba... Um Empregador

texto de Arlete Schimidt Doi
originalmente publicado no livro "Um Olhar sobre Indaiatuba II"


Existem muitas riquezas ao nosso redor.

Há também riquezas dentro de nós. São os sentimentos considerados nobres, as emoções que dão vida.
Uma dessas riquezas interiores é nossa memória, porque dela nada pode ser subtraído, tudo o que realizamos na vida é nela que guardamos.

A história é assim, conhecemos o passado para compreendermos o presente.

Indaiatuba possui muitas riquezas em seu passado, no presente e no futuro muitas se apresentarão.
Buscando na memória, gostaria de apresentar uma pessoa, que demonstrou com sua vida uma participação importante na história de Indaiatuba.

Seu nome, David Silvério, nascido na cidade de São Paulo aqui se estabeleceu desde a sua juventude. Dedicou-se ao trabalho de transformar madeira em peças de arte e em seguida para móveis para muitos lares.

Constituiu em 1948, uma empresa que levava seu próprio nome, estabelecida na Rua Candelária, Centro, onde hoje está o prédio da Telefônica; nela ensinou muitos meninos aquilo que sabia, formando neles não só uma profissão, mas pelo exemplo de honestidade, formou caráter e dignidade.

Mais tarde, em 1977, mudou sua empresa para um novo prédio estabelecido na Rua Almirante Tamandaré, no Bairro Cidade Nova. Não manteve mais a empresa em seu nome, deu-lhe o nome de Viber, fazendo uma homenagem ao seu sogro Vicente Bernardinetti.

Com a empresa instalada em lugar maior, empregou muito mais pessoas e passou a produzir e a enviar móveis de cozinha para vários estados brasileiros como: Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro entre outros e para grande parte do interior do Estado de São Paulo.

Deixou posteriormente a produção industrial e voltou à atividade artesanal de fazer móveis. De seu trabalho, há peças nas Igrejas e em muitos lares.

Sofreu perdas pessoais e materiais, mas sempre recomeçou.

Importante para o “Sr. David” era efetuar os pagamentos de salários a seus funcionários no prazo certo, empenhava seus esforços para isso.

Sempre honrou seus compromissos, não fazendo conta de que muitas vezes sofria prejuízos.

Deixou um legado de honra para aqueles que o conheceram, uma rua do Bairro denominado Jardim Regente leva o seu nome e o prédio da Viber, que continua em evidência, sendo usado pela Prefeitura Municipal para a realização de eventos importantes.

Todos nós deixamos uma história construída com as nossas vidas e, muitas delas continuam nos falando e fazendo a história continuar viva.



.....oooooOooooo.....


Pavilhão da Viber em julho de 2010
13a. FENUI - Festa Nações Unidas de Indaiatuba
Crédito da imagem: Mais Indaiá



Pavilhão da Viber em agosto de 2010
Feira do Sushi
Crédito da imagem: Programa Por Aí


Pavilhão da Viber em setembro de 2010
Feira das Indústrias e Negócios de Indaiatuba
Crédito da imagem: Notícias Indaiá


Pavilhão da Viber em novembro de 2010
Feira da Bondade
Crédito da imagem: Mais Indaiá

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Menino e o Trem

texto de Alexandre Luiz Barbosa,
originalmente publicado no livro "Um Olhar Sobre Indaiatuba II"


Nem sempre todas aquelas construções estiveram ali.
Não aos montes, como os olhos de qualquer um pode ver hoje.
Houve uma época onde as ruas se enchiam de crianças e os vizinhos se enchiam com os gritos delas.  Talvez ninguém soubesse dizer, naquela época, o quão saudoso seria a ausência daqueles gritos em tempos futuros. Não eram gritos de medo, nem de raiva... Na verdade eram gargalhadas, música solta no ar, e assim se divertiam todos os que foliavam por aquelas ruas.
Era a Vila Furlan de vinte e tantos anos atrás. A exatidão das datas teima em fugir, mas isso não impede que levemos esta prosa. As palavras que se completam relatam um tempo simples, onde ser criança era filosoficamente mais simples e tecnologicamente menos complicado.
Na sala da sua casa, onde a família se reunia todos os fins de tarde, um menino encaixava os trilhos de plásticos para montar uma singela estrada de ferro. Mas o pequeno nem mesmo sabia daquele nome, ele jamais falaria que aquilo que montava era uma estrada de ferro. Dizia, sempre, que montava a “linha do trem”. Solta e esparramada pelo chão estava a locomotiva, que como sabem, jamais seria chamada de locomotiva, era simplesmente o trem. Os vagões do trem eram encaixados à máquina. Com isso estava pronta a obra para a sua brincadeira. Uma linha de trem oval,  juntamente com o próprio trem e os seus vagões. Sem muito cuidado, colocava o brinquedo nos trilhos e se maravilhava quando o botão liga – desliga era acionado. Com ouvidos atentos, prestava atenção nos barulhos que ouvia. Um pequeno motor, alimentado à pilha, dava para o pequeno trem “comida” suficiente para entreter o menino.
Mas nem sempre a brincadeira se encerrava com o brinquedo. Por vezes e por varias delas, podendo ser à tarde ou no começo da noite, os ouvidos do menino percebiam outro barulho que vinha até ele trazido pelo vento. Era um barulho mais forte, quase que um tremor. O menino ficava fascinado com aquele barulho, mas quando o apito ressoava por aquelas bandas, uma certeza vinha junto com ele. Era o trem... E estava chegando.
O menino corria até o seu pai e pedia para que o levasse para ver o trem. Enquanto os dois se aprontavam para descer a rua e ir de encontro com a maravilha da época, muitos dos vizinhos também atendiam o chamado da máquina... Era inexplicável... As pessoas simplesmente saiam das suas casas, sem se importarem tanto com a novela, e desciam a rua para observarem o trem passando. Então o pai e o menino cruzavam os limites do portão e desciam à rua. Algumas pessoas sempre chegavam antes. O menino via que os adultos sempre se cumprimentavam e cruzavam seus braços para ver o trem. O som se aproximava e as perguntas das crianças aumentavam. Eles queriam saber como funcionava aquele trem, se haviam pessoas dentro dele, para onde ele ia... Para onde ele iria (?) (!).
Antes que a máquina passasse por eles, o menino ainda teve tempo para dar uma olhada por toda aquela área. A noite caia, mas dava para ver o horizonte diante deles. A visão do menino acompanhava o barranco e via no fundo da descida os trilhos que se conectavam, entre os trilhos muitas madeiras retangulares e pedras que preenchiam os espaços entre as madeiras completavam a famosa “linha”. Seguindo com os olhos avistava adiante muitos eucaliptos que acompanhavam a encosta do outro lado da “linha”. Além daquelas árvores que podiam ser vistas do outro lado, adiante delas, um trecho de terra batido entre a vegetação permitia certo movimento por ali. E os seus olhos seguiam sempre observando a vegetação, o matagal, que por sinal atingiam a altura do peito de uma pessoa adulta. Aquele lugar o fascinava, mas ele nem ao certo tinha palavras para explicar aquilo, apenas sabia que gostaria de descobrir. Nenhuma rede de computadores lhe daria a resposta, até porque os computadores da época só eram vistos nos gibis e em alguns filmes, ele nem sabia o que era... De repente o chão começava a tremer e as suas pernas podiam sentir o toque através do som, na mesma hora o menino se encontrava nos seus pensamentos perdidos e a sua atenção era novamente única e exclusivamente daquela máquina. O barulho era estrondoso, os vagões eram muitos, mas a velocidade era insignificante. O trem não era rápido. E era essa insignificância sobre a velocidade que significava alguma coisa. Dava pra ver, atentar para cada detalhe, nenhuma piscada de olhos...
O trem estava passando.
Vislumbrava-o na esperança de enxergar alguma pessoa. Ele queria ver, precisava ver... Ver uma pessoa no trem significaria, hoje, receber um e-mail que você tanto espera e que, talvez, seja de alguém que tão pouco conhece... Tudo pelo fato de quebrar barreiras e encurtar as distâncias. Parecia tudo muito estranho, mas era dessa forma, quando avistavam um dos funcionários do trem, geralmente na máquina que puxava os vagões, as crianças tinham o costume de levantar o braço direito, cerrar os punhos e subir o polegar. Eles chamavam esse sinal de “jóia”. Talvez fosse mesmo uma jóia esse tal de “jóia” que as crianças tanto gostavam de fazer para os maquinistas ou qualquer outro no trem. A maior recompensa para cada criança era ver seus sinais correspondidos. Mas naquele dia, nem ao menos viram uma pessoa. Depois que o último vagão passava, os adultos começavam a subir a rua. O pai do menino ia com os adultos enquanto mais atrás, ele vinha com algumas outras crianças. Na rua que subiam encontravam pessoas com as quais se punham a conversar. Os mais velhos chamavam aquelas conversas de prosa.
Diziam que estavam proseando.
E de fato era o que faziam.
Contavam ali coisas sobre as suas vidas, piadas, causos sobre o folclore. Eram histórias sobre onças, sacis, lobisomens, curupiras, entre muitas outras. As pessoas se aglomeravam para ouvir as histórias e causos. Naquele dia o menino e o seu pai pararam por ali para prosearem junto com os demais. O pai do pai do menino estava sempre entre os mais velhos. O menino o chamava de “Vô”. Não precisava de nome. Só aquilo servia. O fim de tarde já era noite e sentados na calçada e num banco em frente a uma das casas conversavam durante horas. Depois de tudo cada um seguia o seu caminho, o pai, o menino e o avô também voltavam para casa. A história do menino se confunde com um período, em que muitas das ruas da Vila Furlan ainda nem eram revestidas de asfalto e se fundi com um outro em que o asfalto chega juntamente com alguns novos moradores para o bairro.
Ainda pequeno, o menino pensava que a vida seria sempre daquele jeito.
A mudança começaria a aparecer quando avistou o último trem que passou por aquelas bandas. E naquele dia ele sinalizou com um “jóia” para o maquinista, o homem sorriu e estendeu o seu braço para fora do trem correspondendo o sinal do menino. Nenhuma lembrança relata se o menino correu para contar a todos ou se simplesmente ficou ali, imóvel. Anos depois toda aquela área coberta de mato e vegetação, que por sinal havia servido às brincadeiras e aventuras do menino, começava a ser povoada e as casas eram erguidas aos poucos.
Os vestígios de vegetação foram sumindo, os tijolos ganhavam seu espaço.
Novas ruas foram abertas e o único vestígio da vegetação que um dia ali crescia, é o nome do bairro que conhecemos hoje como Jardim Primavera.
A Vila Furlan tinha outra cara.
O menino começava a perceber que todos os seus ideais de infância estavam a desaparecer. Muitas das crianças que ali cresceram foram embora e poucos ficaram e permanecem.
O trem havia partido para nunca mais cruzar a Vila Furlan.
Muitos moradores pereceram com o tempo. Afinal ele passava para todos ali, inclusive para o menino. Outrora o pai, o avô e o menino subiam a rua. Hoje apenas o pai e o menino ainda fazem o percurso. Por vezes o menino ainda desce a rua, pouco se sabe sobre a sua idade ou o que acontece na sua vida nos dias atuais. Mas ainda assim ele se atreve a parar diante do barranco, que hoje é uma esquina, e de lá imagina a “linha do trem”. Dá até pra ver o trem passando e seguindo. Não se sabe dos passageiros, e nem quem comanda o trem nos seus pensamentos. Mas a pergunta que sempre pairava na sua cabeça nos tempos de infância ainda permanece, e por vezes o menino a repete: “Pra onde vai o trem?"
 Não há destino conhecido, ele apenas sabe que o trem não pode parar. Fisicamente o trem ainda está em Indaiatuba, como símbolo da história, numa estação que não nos deixa esquecer que ele passava por aqui.
Na memória, permanece.    


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As imagens seguintes foram cedidas por Antonio da Cunha Penna.

É o último "trem" de carga (na verdade o correto é dizer "composição") que passou em Itaici.

Segundo Ralph Menucci Giesbrecht, pesquisador especialista em estações ferroviárias, o último trem de passageiros deve ter passado em Itaici em 1976 e o último trem cargueiro passou em 1987.







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