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Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Viagem técnica e representação da Fundação Pró-Memória em Colóquio Internacional

Introdução

Ao ser convidado para falar sobre o processo de preservação do bem tombado, Casarão Pau Preto de Indaiatuba, no Colóquio Internacional de Arquitetura Popular no Instituto Internacional de Lisboa, algo inédito para Indaiatuba e para a Fundação, além do reconhecimento internacional de nosso trabalho, percebi que, também, seria uma boa oportunidade de buscar nas experiências externas, exemplos de gestão patrimonial que pudessem melhorar ainda mais nossa prática. Nas minhas férias tinha tido contato com a experiência de preservação na cidade de Paraty, na qual a Organização não governamental, Casa Azul, mesmo órgão que organiza a Flip, propunha algo inovador na preservação do patrimônio histórico do município, colocando em prática o conceito de Museu de Território. Tal proposta de gestão se singulariza por dois fatores. Primeiro, enxerga todos os bens materiais e imateriais, como acervo museológicos, ou seja, a Arquitetura, os demais bens materiais e as práticas culturais são vistas como “peças” de um mesmo Meta-Museu territorial. Segundo, o processo de preservação se deve dar a partir da participação social da comunidade, ou seja, cabe a sociedade não somente ajudar e a elencar o que deve ser preservado, mas também deve ter como parte do processo de preservação suas práticas culturais. Para tanto deve ter incentivo sustentável dessas práticas e de seus lugares de memória, podendo-se pensar numa preservação sustentável. Logicamente que, no que se refere ao município do Rio de Janeiro tal prática está longe do ideal, mas só de propor tal inovação já se destaca dentre as propostas preservacionistas brasileiras.  Nesse sentido em Paraty me indicaram que o exemplo mais bem-acabado de tal proposta estava ao Sul de Portugal, fronteira com a Espanha, na pequena Vila Museu de Mértola, região de Alentejo.  O acaso me fez, após seis meses, ser convidado para estar em Portugal. Eu sabia que não poderia desperdiçar a oportunidade, talvez única de tentar entender tal proposta e adaptar par nossa realidade.
Nesses seis meses estudei muito e fiquei sabendo que tal iniciativa estava de acordo com uma linha da museologia, conhecida como Nova Museologia que, por sua vez, se transmutava na Museologia Social ou Sociomuseologia em Portugal.
De um movimento surgido nos anos 1970 com Hugues de Varine na França com a ideia de Ecomuseus, experiências de Museologia Comunitária adaptadas às exigências de desenvolvimento sustentável, foi em Portugal que se desenvolveram principais exemplos de tal gestão e também se localizavam os mais relevantes intelectuais  da área, entre eles Mario Moutinho, professor da Universidade Lusófona de Lisboa e Claudio Torres, professor da Universidade de Lisboa, ativista e o principal idealizador da Vila Museu  de Mertola. Nessa mesma região de Alentejo descobri que Évora também preservava um importante trabalho nesse sentido, juntamente com a Universidade da cidade.  Então a ideia seria visitar as duas cidades em busca de tal experiências, depois entrar em contato com a Universidade Lusófona e após tudo isso apresentar o trabalho da Fundação no Instituto Universitário de Lisboa.

Dia 6 a 8 de Dezembro- Évora-Beja

Cheguei em Lisboa às 6 da manhã do dia 6 de dezembro e aluguei um carro para me dirigir numa viagem de duas horas em direção ao Alentejo, primeira parada Évora. No local fui recebido por representantes da Câmara Municipal, o que equivale aqui à nossa Prefeitura. Évora é tida como uma das cidades mais belas da Europa. A cidade viveu várias fases, romana até o século V, pertenceu depois aos visigodos até ao século VIII, aos mouros durante quatro séculos e, finalmente, aos portugueses desde 1165.  O primeiro exemplo que tive de cidade Museu, preserva a arquitetura destas suas cinco fases, destacando-se as colunas do Templo de Diana da época Romana. Mas o que mais me chamou a atenção foi a diferença de concepção da ideia de cidade histórica, tipo Ouro Preto (que Évora lembra muito) e Cidade Museu. Na cidade Museu o acervo museológico está naturalmente integrado ao cotidiano social da cidade. O maior exemplo disso são as termas romanas presentes na Câmara Municipal que estão expostas nesse espaço, mas não somente como acervo patrimonial distante do público, mas estão preservadas como acervo arqueológico com suas escavações integrada ao dia a dia da Câmara Municipal, espaço no qual desde o dono da cantina até chefe da Câmara podem servir de mediadores, pois todos sabem o que significam aqueles acervos e  escavações, pois se sentem partícipes de tudo aquilo, já que as escavações e bem faz parte de forma natural, da vida dos moradores.
Dia 7 fui convidado a fazer uma fala na Universidade de Évora sobre meu trabalho como pesquisador na área do Patrimônio e principalmente como gestor na Fundação Pró-Memória e como organizamos nossa cidade a respeito do conhecimento histórico. Muitos alunos se sentiram incentivados a virem estagiar na Fundação e conhecer nosso trabalho.
No dia 8, no meio do caminho para Mértola parei em Beja, cidade romana sede da região da administração do Império, na Península Ibérica, conhecida como Pax Julia. Foi aí que fiquei sabendo da importância da região para Roma por causa de sua riqueza em grãos, situação imprescindível para alimentar a população territorial do Império. A grande diferença é que quem me deu essa aula foi um garçom, que como os demais eram conhecedores dos todos por menores desta, também, cidade museu. Resultado segundo eles de extensas aulas de educação patrimonial e cursos públicos dados na cidade por arqueólogos, professores e profissionais ligados ao Museu Municipal.     

Dia 9 a 10 de Dezembro – Mértola

Da mesma forma de Évora fiz contato com Mértola, vila museu de 1000 habitantes que cada vez mais se destacava pela experiência da gestão patrimonial, principalmente a partir do conceito de Museu do Território e da nova museologia. Situação que fica clara na apresentação do site da Vila Museu

Mértola é uma vila com um passado muito importante, que a coloca desde há alguns anos num local de destaque nacional e internacional no que à arqueologia e ao património diz respeito. Este passado e todo o trabalho até hoje realizado traz-nos uma responsabilidade acrescida, uma responsabilidade de conservar, valorizar e divulgar toda esta riqueza patrimonial.
O Museu de Mértola, criado pela Câmara Municipal de Mértola em 2004, é composto por vários núcleos dispersos geograficamente, na sua maioria localizados no Centro Histórico de Mértola. Tem sido a sua função estudar, inventariar, tratar, conservar e divulgar todo o espólio que, ao longo dos últimos 30 anos, foi sendo descoberto nas inúmeras intervenções patrimoniais e arqueológicas. O património é assim um dos vectores fundamentais para o desenvolvimento do concelho de Mértola, pois é aquilo que nos diferencia de todos os outros concelhos do país, é a nossa mais valia.
O investimento e a aposta no património não deve ter apenas um objectivo turístico, mas também objectivos pedagógicos e científicos, os serviços educativos do museu recebem anualmente milhares de alunos de todas as idades e de todo o país
(...) Quando em finais dos anos setenta do século passado foi iniciado o projecto que hoje chamamos Mértola Vila Museu, os seus objectivos não eram muito diferentes daquilo que agora, felizmente, é já um lugar-comum: envolvimento da população, numa tentativa de consolidar a sua identidade e contribuir para o desenvolvimento local. A grande opção de fundo do nosso projecto integrado foi também a aposta sobretudo na divulgação local que passa necessariamente pela musealização. Além da divulgação científica, codificada na sua linguagem própria e dirigida a um público especializado, falar claro e acessível é a única forma convincente de justificar localmente os trabalhos em curso, capaz de identificar as mais fortes referências culturais e, por conseguinte, consolidar potenciais endógenos. Na dinâmica museográfica não só se difundem os resultados de uma forma mais eficiente pelo público em geral, sobretudo o local, como se torna possível atrair outro tipo de visitantes, desde que esta oferta seja devidamente divulgada. Assim Mértola foi-se tornando um conhecido destino de turismo cultural.
Estes visitantes procuram não tanto exotismo ou espaços monumentais, e sim um projecto dinâmico e ambicioso que, numa zona isolada e longe dos grandes centros, conseguiu envolver a população local, construindo propostas científicas e museológicas de grande qualidade.
[1]

No primeiro dia quem me recebeu de forma muito receptiva foi a Dra Suzana, pesquisadora da Vila e professora da Universidade de Évora, que me explicou e me mostrou os vários pólos museulógicos da cidade, dentre eles as próprias escavações arqueológicas  e arquitetura da cidade (entre elas casas de taipa, um castelo medieval, uma mesquita que virou  que Igreja e uma igreja paleocristã), que   como em Évora, ficam “expostas”, mas de forma muito mais didática com placas explicativas, funcionando como verdadeiros acervo museológico ao céu aberto distribuído pela pequena cidade. Assim, o que caracteriza essa Vila Museu, não são só os museus tradicionalmente constituídos, mas sim a própria cidade que inclusive tem um Hotel no meio de um sítio arqueológico. Nesse caso o Hotel ajuda financeiramente as escavações, que não deixaram de ocorrer no seu entorno. O que nos ajuda a entender o conceito de Museu Social e polinucleado de Mértola;
Os museus são espaços de sociabilidade que potenciam a troca de ideias e promovem a aprendizagem social e cultural. O contato entre os indivíduos e os objetos ou os espaços é um processo privilegiado de troca e desenvolvimento de experiências.O Museu de Mértola pelas suas caraterísticas de museu polinucleado, que integra desde estruturas arqueológicas a um acervo que abarca desde o século I até ao século XX d.C., detém um manancial por explorar quase ilimitado em termos socioeducativos. O Museu é um espaço que deve atuar como repositório da identidade das gentes e do território de Mértola pelo que, os serviços educativos terão que desenvolver, em primeiro lugar, acções direcionadas para a população local onde esta se aproprie dos espaços museológicos, os entenda como seus e que a eles traga os seus familiares e amigos.[2]


No segundo dia algo de inesperado me aconteceu, o próprio Claudio Torres se tornou meu cicerone. Com uma história de vida incrível, de foragido político de Salazar a ícone da Museologia Lusitana Claudio se colocou à inteira disposição de mim e minhas dúvidas grosseiras acerca da museologia territorial. Ele passou o dia a relatar sua experiência como idealizador do projeto e me disse uma frase que nunca esquecerei:  “sem a comunidade, a valorização das histórias das pessoas comuns e seu envolvimento, nada é possível”. Falou da importância da função social do Museu, como essa estrutura possibilitou empregar e educar tanta gente de uma Vila agrária que hoje subsiste de tal projeto. Salientou a importância de financiar as práticas culturais como o Museu da Rendeiras, no qual podemos acompanhar a prática do uso manual das rendeiras do Alentejo.
No final, após um almoço oferecido pela Vila para mim e após uma pequena fala para a cidade sobre minhas atividades no Brasil, o professor Claudio no alto de seus 85 anos me pediu uma parceria para que o projeto pudesse continuar, pois a população envelhecida e o êxodo diminuía muito a possibilidade de mão de obra especializada. Para tanto solicitou que enviasse meus alunos para trabalhar na Vila Museu, na qual em troca financiariam a moradia e a alimentação e formação em nível de Mestrado e Doutorado na Universidades parceiras de Évora e Algarve. Fiquei muito feliz com o convite e pensei nos Alunos da Universidades que sou ligado, mas também daqueles que buscam formação especializada por meio da Escola do Patrimônio, projeto de parceria entre UNICAMP e Fundação Pró-Memória.   

Dias: 11 ao dia 15- Lisboa
Universidade Lusófona e parceria com a Fundação Pró-Memória

A capital Portuguesa me revelou algo muito interessante, o uso pedagógico de seus museus e de seu Patrimônio. Todo programa educacional tem uma visita técnica à um Museu ou ao Centro Histórico. Situação que, por sua vez, é incentivada pelas Universidades de Humanidades, principalmente pelos programas de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio Histórico, que dentre suas iniciativas tem o objetivo de envolver o ensino básico nas práticas patrimoniais e fazer material didáticos para os mesmos. Dentre esses programas destaca-se o de Museologia da Universidade Lusófona que me recebeu no dia 13 de dezembro na sala da Reitoria, por nada mais que o professor Mario Moutinho, reitor da referida instituição. Arquiteto, historiador e sociólogo, ele foi iniciador do conceito de Nova Museologia. Ele e Judith Primo, coordenadora da Pós-Graduação me receberam por mais de 2 horas e ouviram minhas angustias e dúvidas a respeito da gestão museológica e patrimonial e se colocaram à disposição para assessorar na implantação de algumas medidas no nosso Museu Municipal e organização do Patrimônio. Se ofereceram inclusive para participar de vídeos-conferências e colocaram à minha disposição também a Universidade para ajudar (por meio de reuniões, troca de experiências e aulas) para que eu trazer para Indaiatuba algo dessa nova proposta.
Mario me disse que é um idealista militante de ideias sérias e compromissadas socialmente, situação que sentiu na minha fala e nas propostas da Fundação que apresentei, por isso aceitou tal apoio.

Dias 14 e 15: Conferência- Instituto Universitário de Lisboa


A conferência seguiu tais pontos:

1. Apresentar a Fundação Pró-Memória e sua sede, o Casarão Pau Preto, também sede da Fazenda Pau Preto-um dos últimos remanescentes do núcleo urbano da cidade de Indaiatuba- São Paulo
2.  Região de Itu – Vila mais rica do Estado de São Paulo no século XVIII-XIX: Entreposto comercial, produção açucareira e depois cafeeira, politicamente forte.

3. Casarão: Técnicas construtivas vernaculares: taipa de mão e de pilão – mistura de técnicas características da região; muito comum devido aos “torna viagem” paulistas que trouxeram de Minas técnicas de taipa de mão e a integraram à de pilão na Região de Itu.
4.Há uma parte de alvenaria Inglesa do final XIX-Beneficiar café- parte desta que foi destruída e desencadeou o processo de preservação e recuperação do bem.
5.As técnicas vernaculares foram invocadas para preservação, mas houve um certo artificialismo em tal prática para se adequar ao modelo requerido pelo IPHAN –órgão nacional de preservação  
6. IPHAN- Lucio Costa: Defendia a tese de que qualquer estudo da arquitetura brasileira devia recuar até o século XVII para definir um parâmetro
7. Luis saia, discípulo e herdeiro de Mário de Andrade, que passou a dirigir a regional de São Paulo em 1939 e seguiu no cargo até 1975, quando faleceu[3]. Ele foi o primeiro a estigmatizar os traços da arquitetura paulista a partir do estilo colonial que ele denominou “casa bandeirista” (termo criado por ele para casa rural paulista), dividindo seu estilo arquitetônico em duas vertentes, a pura e tardia, o que deixava evidente um juízo de valor em tal definição, pois julgava pura aquela construção que se aproximasse do estilo colonial luso brasileiro do século XVII e XVIII.
8.Legitimou “restaurações de casas bandeiristas orientadas para a recuperação da imagem ‘pura’, autorizando a destruição de elementos arquitetônicos desconformes com o estilo arquitetônico” e removendo “dos exemplares, sempre que possível os traços da ‘decadência’ social, cultural e estilística
9. A ideia de um programa de “tradição bandeirista” tornou-se um relevante argumento para aqueles que defendiam o estilo colonial como principal representante da arquitetura de São Paulo, ainda mais se pensarmos que, na realidade, a maioria das cidades paulistas, foi “fundada ou profundamente reconstruída entre o século XIX e XX”, sobrando muito pouco da arquitetura essencialmente colonial no Estado
10. A luta pela preservação do Casarão Pau Preto se apoiou em tal discurso, abarcado pela a hipótese que suas características coloniais seriam o motivo para que fosse preservado e outras edificações históricas da cidade não.  Situação que nos possibilita afirmar que não foi descabida, do ponto de vista político, a estratégia utilizada por aqueles que buscaram preservar o Casarão,  adequando a sua proposta de preservação àquela vigente na época e praticadas por órgãos oficiais, ou seja, valorizar a preservação das moradas de tradição colonial, especificamente bandeirista, nem que para isso tivesse que abrir mão de um estilo peculiar da edificação, que tinha como sua marca a representação de, pelo menos, mais de um estilo arquitetônico
11. Os critérios de intervenção para restituir a “originalidade” do Casarão Pau Preto em 1982-1984 seguiram evidentemente os preceitos dominantes dos órgãos de preservação atuantes em São Paulo: quando a técnica construtiva vernacular se encontrava deteriorada a solução era imediatamente a sua demolição e substituição por métodos construtivos modernos (alvenarias de tijolos ou mesmo concreto).
12. Mas ao final, a visibilidade completa do bem recorria aos velhos valores do patrimônio colonial e imperial, como a pintura a cal, a irregularidade dos rebocos, a rusticidade de janelas e portas novas, mas manufaturadas como se fossem recentemente extraídas de troncos da mata Atlântica, pintadas com tinta moderna, em um padrão bicromático legitimador (branco e azul) de todos os bens de um passado nacional homogêneo.

Balanço

O Fato de ter sido convidado para falar sobre a experiência de Indaiatuba na preservação do Patrimônio Histórico já é motivo de orgulho para Fundação e para todo e qualquer Indaiatubano. No entanto, depois de minhas falas e das perguntas a respeito da instituição e de seu trabalho, que monopolizaram essa parte do colóquio, percebi que estamos no caminho certo. Ainda mais quando nos parabenizaram pela iniciativa de envolvimento da comunidade e os cursos da Escola do Patrimônio. Acredito que esse convite foi um marco na nossa trajetória de concretização de uma prática preservacionista sustentável e com responsabilidade social. Após a Palestra recebi a proposta de um representante de um órgão Inglês que financia entidades sérias comprometidas com a preservação do Patrimônio arquitetônico Popular, a INTBAU. O professor José Franqueira Baganha disse que gostaria que conversássemos mais e fizéssemos um projeto pois tinha sentido credibilidade na instituição. A forma como fui recebido pelas instituições e a grande gama de possibilidades de crescimento de apoio internacional para nossa prática, nos dá uma ótima expectativa para 2017. Ano que, de acordo com tais contatos, podemos implantar na nossa instituição um modelo pioneiro de gestão e preservação em escala nacional.




Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus
Superintendente



[1] Disponível em: http://museus.cm-mertola.pt/actividades/actividades.php. Acesso em 20 dez.2016
[2] Idem
[3] MAYUMI, Lia. Taipa, canela-preta e concreto: estudo sobre o restauro de casas bandeiristas. Tese (Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005, p. 16.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Presépio


E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem
Lucas 2:7




Era um verdadeiro acontecimento religioso, cultural, turístico e porque não dizer tecnológico em nossa Indaiatuba antiga.

Fez parte durante muitos anos das mudanças que aconteciam na época do Natal, esse período que, ainda hoje e creio que para sempre, muitos ficam mais sensibilizados principalmente pela renovação da fé.

Praticamente todos os cidadãos da (ainda) terra dos indaiás iam até a casa dele para ver o presépio, que não era pequeno, nem tão pouco tradicional.

Não era somente composto pelos pais Maria e José, pelos Reis Magos e pelos seus presentes, pela estrela-guia e pelo menininho, que deitado sob o “tabuleiro em que se coloca comida para animais estabulados” é sempre representado de forma a percebermos que, pelos supostos movimentos das perninhas e bracinhos, que não descansam acomodados, oferece-se para o colo do primeiro que espicha os olhos para ele, como toda criança normal.

Era composto por tudo isso e muito mais. Elementos relacionados ou não ao nascimento do menino Jesus compunham aquele atraente presépio, que todos os anos ele montava e desmontava caprichosa e generosamente; afinal, ele abria o quintal de sua casa para quem quisesse ver e sentir.

O quintal que abrigava esse presépio ficava na esquina do Largo da Matriz Nossa Senhora da Candelária, em frente da casa número 1, onde hoje tem um prédio de apartamentos. Local mais adequado, impossível: a vida religiosa e social dava-se ali naquele Largo, que juntamente com o Largo da Cadeia – atual Praça Prudente de Moraes, onde dava-se a vida política, compunham os principais logradouros públicos daquela Indaiatuba que não conheci, mas que por motivos não racionais tenho saudade.

Silvio Ferreira do Amaral era o nome daquele senhor, que proporcionava a todos aquela contemplação.
Influenciado pela importância da expansão ferroviária, até um trenzinho – que funcionava! – ele colocava na paisagem, que harmoniosamente unia o antigo com o moderno, o pagão com o religioso, tudo em uma fiel representação do mundo cotidiano vivido pela então pequena população urbana. Ali, os contrários se uniam e tudo parecia um elemento só: o presépio.

Muitas vezes olhamos para imagens que por si nada valem, mas o que elas despertam em nós sim, é que deve ser considerado. De que vale a imagem de uma criança de barro? Nada!

O que vale em nossas mentes e em nossos corações os sentimentos, as reflexões e as ações advindas de uma contemplação dessa mesma imagem, quando essa mesma criança de barro é de um menino Jesus recém-nascido? Tudo!

Que as luzes do Natal que iluminam os presépios com seus meninos inquietos, tragam-nos o principal insight que a ocasião deve proporcionar: o encontro com Jesus, este personagem histórico revolucionário que foi crucificado por poderosos que temiam seu discurso igualitário, fraterno, caridoso e generoso.

Que o espírito de natal ilumine mente e corações dos que se dizem cristãos para que reconheçam a essência das palavras ditas por Jesus Cristo de Nazaré e que no ano de 2017 possam agir sem desvincular sua crença de sua prática cidadã.


Pois de nada adianta ‘ir na igreja rezar e depois fazer tudo errado’, já dizia uma melodia da década de 1970. Portanto, que sigamos a verdadeira lição desse mestre, executando ações comunitárias incluindo aquelas advindas de mais consciência crítica e ambiental.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A surpreendente história de São Roque regresso

texto de Eliana Belo Silva

com memórias das irmãs Maria de Lourdes, Maria Apparecida, Cecília, Ruth,  e Bernadete Ambiel.


Podemos dizer que a história de São Roque regresso começou em 1881. Foi nesse ano que o casal José Leôncio Gut e Josefa Von Flüe, pais de Maria Gut, e José Ambiel e Ana Maria Shäli, pais de Inácio Ambiel, chegaram no Brasil, vindos da Suíça, de onde saíram com coragem impulsionada pela fé, na esperança de encontrar em terras brasileiras a prosperidade que a terra-mãe já não proporcionava.

Tanto como outras famílias suíças que imigraram na segunda metade do século XIX, foram trabalhar no regime de colonato na fazenda do cafeicultor escravocrata Francisco Queiroz Telles, em um imenso latifúndio onde os pés de café iam até onde os olhos alcançavam na linha do horizonte, onde hoje estão os municípios de Itupeva e Jundiaí. Ali executaram as diversas tarefas do processo de produção de sacas e mais sacas de café - lado-a-lado com os trabalhadores negros escravizados - que escoavam para o porto de Santos e dali para o mundo: limpeza de novos áreas, seleção e plantio das sementes, irrigação, retirada contínua de ervas daninhas, colheita a dedo, transporte, secagem, processamento, embalagem, tudo da forma tipicamente ‘caipira’ da época. Ali, em Sítio Grande, formaram uma pequena comunidade religiosa e faziam festas de tiro-ao-alvo, evento típico do esporte suíço, sempre economizando tudo o que era possível, vivendo em casinhas de chão batido para alcançar o sonho de comprar a própria propriedade rural. Assim foi até 1888 quando o Coronel Chico Telles resolveu pagar 600 réis por alqueire de café colhido em vez dos 640 pagos nos anos anteriores. 

Quatro famílias demitiram-se (Ambiel, Amstalden, Bannwart e Wolf) e a comunidade suíça em regime de colonato até então submetida a um patrão latifundiário, dissolveu-se e começou a dar origem a Colônia Helvetia, um agrupamento de sítios, fazendas e latifúndios pertencentes aos próprios suíços, cujo início deu-se às margens do Rio Capivari-Mirim em Indaiatuba.

Maria Gut casou-se com Inácio Ambiel e um dos filhos, nascido nessa nova realidade - a Colônia Helvetia -  foi batizado como Eduardo Ambiel. Quando o regime de colonato suíço do Sitio Grande dissolveu-se por completo, alguns suíços foram para outros lugares, entre eles a família de Josepha von Zuben, que se mudou para o Distrito de Paz da Rocinha (atual Vinhedo). Mas o destino uniu Eduardo Ambiel e Josepha Von Zuben, que se casaram em 20 de outubro de 1924 na catedral do município de Campinas e foram morar em Helvetia.

Em 1927 o casal mudou-se para um sítio em Indaiatuba comprado pela família de Maria Gut - que ficou viúva com 11 filhos - o sítio chamado São Miguel, uma extensão de terra que somava quase 100 alqueires, que ia do cemitério da Candelária ao Jardim Morumbi (sentido sul/norte), pegando toda a extensão de onde hoje é a Vila Suíça, incluindo a Mata do Parque Ecológico; a porteira ficava onde hoje é a rotatória do Pastel da Feira. Embora a escritura inicial pertencesse a Izacco Forti que situava a fazenda - na época em que ele escriturou - no Bairro Bentoca de Indaiatuba, Comarca de Itu e freguesia de Nossa Senhora da Candelária - a propriedade pertencia, de fato, a família de João Ifanger Júnior.

Foi ali que Eduardo Ambiel e Josepha Von Zubem, que já tinham o filho José Ignácio, nascido em Helvetia, tiveram outros rebentos: primeiro, Terezinha. O sítio tinha dezoito mil pés de café, duas casas de moradia e duas para colonos, ranchos, tulha. Nasceu depois Flávio, Lino Atanázio, Eduardo Júnior, Simão Luiz, Waldemar, Maria de Lourdes, Maria Apparecida, Cecília, Ruth, João Tadeu e Bernadete. Eram 13 filhos para criar. O sítio tinha, ainda, paiol, tulha, bois, porcos, galinhas, cavalo, e quando foi comprado, tinha uma carritela arreiada e um trole arreiado, que foram usados por muito tempo tanto no lavor que gerava produtos para comércio como para os de subsistência da numerosa família.

A rotina do trabalho era dura: a tecnologia no trato com a terra pouco evoluiu no período entre o tempo em que os pais do Sr. Eduardo chegaram da Suíça e o nascimento do seu último filho: o uso de adubos químicos comprados era raro – usava-se estrume, não existia a maquinação na lavoura – o instrumental continuava sendo a enxada, foice e cavadeira, e quando a terra ficava improdutiva, o único método de recuperação era o rodízio.

A fé sempre foi referenciada em todas as histórias contadas pelos suíços: crônicas, livros, relatos de memória oral, todos fazem referência à importância da religião católica para a consolidação da Colônia Helvetia e para a união dos helvetianos em uma comunidade essencialmente pacífica, tanto que a construção e manutenção da igreja foi uma das principais preocupações dos fundadores. E essa fé, que aparece impulsionando os primeiros imigrantes, direcionou um grave problema que colocou em risco a sustentabilidade dos negócios do Sr. Eduardo Ambiel na década de 1930.

A PESTE E A FÉ.

Foi exatamente em 1934. Uma peste começou silenciosamente ceifando a vida de alguns suínos. Logo começou a se espalhar. Como avaliar e tratar corretamente uma peste naquela época, sem acesso à veterinários, exames e remédios corretos?  Sr. Eduardo não teve dúvida: foi consultar o vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Candelária, o padre Luiz Soriano. Católico fervoroso, precisava de uma diretriz para salvar a criação de suínos, elemento fundamental no sustento de seus filhos, de sua família, de sua propriedade.  Em 1932 o padre Soriano havia dado início em um processo de reforma na Matriz: removeu o assoalho velho de madeira e substituiu-os por mosaicos de cimento, colocou lustres que pendiam do alto da nave, instalou iluminação no altar-mor e aumentou a iluminação dos altares da Imaculada e de São José. Dos lados, haviam os nichos, sendo que do lado direito já tinha um santo.

- Ore muito, peça para São Roque, protetor dos bichos contra doenças contagiosas.
 Ele vai te abençoar.

A crença na sua fé era tamanha, a certeza que sua prece seria atendida era tal, que o Sr. Eduardo já perguntou para o padre qual seria o tamanho da imagem de seu ‘salvador’ que ele teria que doar para preencher o nicho. Os dois mediram a imagem de Santa Bárbara com um barbante – que estava do lado direito - ela tinha cerca de 80 cm. Foi, então, Sr. Eduardo para Campinas de ônibus, na casa de Dom Neri com o pedaço de barbante, solicitando indicação para a confecção da imagem de São Roque que, encomendada, viria do Rio de Janeiro.

A imagem foi doada para a Igreja Nossa Senhora da Candelária, onde ficou no nicho até o final da década de 1960, quando o então pároco da matriz, o padre Hermínio Bernasconi, engajado na então chamada linha progressista da igreja católica após o Concílio Vaticano II, fez mudanças radicais na Matriz, uma delas a retirada de todas as imagens de todos os altares e nichos, em atendimento ao “Cristocentrismo”. Todas as imagens foram colocadas para fora da igreja, literalmente “jogadas fora”, menos a de Cristo e da padroeira. A família Ambiel achava que a história de São Roque havia terminado aí.

DEPOIS DE MUITOS ANOS...

Em uma conversa corriqueira, uma das filhas de Eduardo Ambiel, a Maria Apparecida, contou essa história para sua empregada doméstica Benedita Sampaio. Ela juntou a história da patroa com outra história que sua mãe – Benedita - contava, que havia pego uma imagem na porta da igreja, como tantas outras pessoas fizeram, e levara para casa. Era São Roque, que após um tombo, estava aos cacos, debaixo de um abacateiro. Sua mãe não havia tido coragem de jogar os cacos fora.

Maria Apparecida e a irmã Terezinha foram até a casa dela. D. Benedita já havia falecido, mas os cacos de São Roque, estes estavam lá, sob sol e chuva, nas intempéries de nossa Indaiatuba. As irmãs pegaram os caquinhos e entregaram para o restaurador João Colalillo, que com técnica e capricho, refez a imagem.

_ Restaurei muitas imagens entre elas a Nossa Senhora da capela da Aparecidinha outra para a Igreja Santa Maria Gorete, mas lembro-me muito bem do São Roque, que chegou literalmente em cacos, trazidas pelas irmãs Ambiel, indicadas pela D. Sylvia Sannazzaro. Juntando tudo, ele não tinha perna e parte do cão. Fui refazendo, enquanto orava para ele, para que me provesse de inspiração digna da importância do trabalho. Surpreendi-me com o resultado final. Tenho trabalhos de restauração expostos em São José dos Campos, Santo André e até Londres, mas o São Roque, dado ao estado que chegou e como ficou, foi muito especial.

Ela foi dada de presente para o Sr. Eduardo quando ele fez 80 anos em 27 de setembro de 1981! As irmãs lembram muito bem a expressão emocionada do pai, que faleceu em 7 de maio de 1988.

_  Será que é o Roque?

_ O meu São Roque?

E até hoje, a filha mais nova, Bernadete Ambiel, guarda em sua casa, com devoção, a imagem de São Roque regresso, que testemunhou não só a fé do seu pai, mas a história de luta e perseverança de muitas gerações da família.
Esta foi a história de São Roque, que regressou para o seu lar
Os suínos? 
Sim.
Nenhum mais morreu após a oração de fé de Eduardo Ambiel.


Brasão da família Ambiel
Fonte: http://www.helvetia.org.br


Eduardo Ambiel
Imagem do acervo pessoal de Bete Ambiel


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A Fundação Pró-Memória de Indaiatuba está procurando informações sobre as demais imagens para relatarmos em textos como este a "tragetória" de cada uma. Memórias orais dizem que certa Dona Benedita que trabalhava na igreja ficou com uma delas; a sra. Antonieta Boscatti provavelmente tenha ficado com a de São Judas Tadeu; Santo Antonio ficou com a sra. Terezinha Frizarin.

Você sabe se essas informações procedem?

Você sabe o que aconteceu com as demais imagens? 

Entre em contato conosco para que possamos registrar sua história também: elianabelo@terra.com.br ou diretamente na Fundação Pró-Memória através do site ou do facebook.

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Nota: parte deste texto foi originalmente publicado no Jornal Exemplo, no suplemento em alusão ao 186o. Aniversário de Indaiatuba neste link












quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Esteios da Cidade - Permanências e Mudanças em Indaiatuba

Em alusão ao 186o. aniversário da cidade, Conselheiros da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba liderados pelo arquiteto Charles Fernandes, preparrarm a exposição virtual "Esteios da Cidade - Permanências e Mudanças em Indaiatuba".
























































































Confira a exposição na página do facebook da Fundação Pró-Memória aqui ou no site da Fundação aqui.

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