BEM-VINDO AO BLOG DE ELIANA BELO
Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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domingo, 31 de outubro de 2010

A presença da Mulher na história de Indaiatuba


texto de  Ana Ligia Scachetti
 publicado originalmente no Jornal Tribuna de Indaiá de 12 e março de 1998.

(...) este espaço será dedicado à lembrança de algumas mulheres que marcaram (e ainda continuarão marcando) a história de Indaiatuba, seja na política, na vida social ou na educação.

Pouca gente se lembra, mas Indaiatuba já teve uma prefeita. Trata-se de Helena Tomasi, que exerceu a chefia do Executivo de 25 de março de 1947 até 10 de junho de 1947. Ela era tesoureira municipal e foi nomeada para o cargo do ex-prefeito Jácomo Nazário com base no Decreto no. 17754 de 24/3/47, do governo Adhemar de Barros.

Tal decreto determinava a exoneração de todos os prefeitos municipais e transferência do cargo aos secretários. Na ausência destes, a Prefeitura deveria ser comandada pelo tesoureiro municipal, no caso Helena.

Em 10 de junho, ela transmititu  o poder a Jacob Lyra, nomeado pelo governador. Helena voltou ao seu cargo anterior e deixou o serviço público com direito a termo de louvor, em 1962. A ex-prefeita faleceu em Campinas, em 28 de abril de 1990.

Alguns anos antes da posse de Helena, mais precisamente em 1937, a Fundação Pró-Memória de Indaiatuba possui registros da participação da mulher na política municipal, na posse do Major Alfredo Camargo Fonseca.

Na cerimônia, as "senhoritas" Sylvia Teixeira de Camargo, Antonietta Milani, Júlia Steffen, Auta Groff, Romilda Civolani, Maria Luíza Cordeiro, Leonina da Silva, Maria João, Sarah Nicolau, Ida Tomasi, Lázara Galvão de Paula Leite de Iracema Steffen apresentaram um discurso oferecendo um ramalhete de flores ao "novo" prefeito.

Por direito

Só em 1983 a primeira mulher indaiatubana foi eleita para um cargo. A pioneira foi Hélen Béssie Leite de Morais Castilho, que exerceu a vereança de 1983 a 1988. Durante este mesmo espaço de tempo, Itamar da Silva Maciel, eleita segunda suplente, assumiu o cargo substituindo vereadores titulares em alguns pequenos períodos.

Mas foi no final do ano de 1997 que as damas bateram seu recorde na Câmara. No dia 8 de dezembro, a vereadora Celi Aparecida Brandt (PT) assumiu o cargo deixado por Carlos Alberto Rezende Lopes (PT), o Linho.

Celi juntou-se às outras duas representantes femininas eleitas em 1996: Rosana de Souza Magalhães (PDT) e Rita Francisca Gonçalves (PT) que tiveram 1073 e 668 votos, respectivamente.

Professoras

Boa parte das mulheres que tê força na memória dos indaiatubanos são professoras aposentadas. Maria Nazaret Pimentel, Lúcia Steffen e Sylvia Teixeira de Camargo Sannazzaro.

Maria Nazareth tinha um extremo gosto por estudar e demonstrou tal determinação ao se formar com a primeira turma ginasial da cidade aos 33 anos. Depois disso cursou o Magistério em Itu, formou-se em Administração Escolar pela Universidade de Mogi das Cruzes (1968) e fez vários cursos de especialização.

Sua carreira profissional teve início na Fazenda Quilombo Grande. Na década de 60, ela ingressou na rede estadual e foi dar aulas em São João do Pau D´Alho, na divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul. Depois de passar pela diretoria, aposentou-se como assistente de direção do Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes.

(...) ela e Lúcia Steffen foram homenageadas há alguns anos [ainda vivas], emprestando seus nomes para escolas municipais de educação infantil, demonstrando que o trabalho delas justifica a exceção à regra de se nomear escolas com pessoas já falecidas.

Lúcia foi professora de Educação Física do EEPSG Dom José de Camargo Barros. Ela é vista como um símbolo de eventos como Desfile de Sete de Setembro que criou e realizou por muitos anos na cidade, tanto que foi homenageada quando esta tradição foi retomada... [em 1997].

A realização de eventos também tem uma presença forte na carreira da professora Sylvia Sannazzaro, que  publicou suas memórias no livro O Tempo e a Gente, em 1997. Sylvia, formada com a primeira turma de normalistas da Escola Nossa Senhora do Patricínio de Itu, foi responsável por várias campanhas beneficente, entre elas a que possibilitou a construção da Maternidade Albertina Sampaio de Paula Leite, prédio demolido para a construção do Forum.

Sombra

"Por traz de um grande homem, há sempre uma grande mulher", diz o velho ditado. Mas o fato é que há grandes mulheres que ficam apenas atrás dos homens e não são lembradas por seu valor, mas sim por serem "esposas de fulano de tal".

Um exemplo disso é encontrado em dona Cleonice, esposa do compositor Nabor Pires Camargo. Vista apenas como companheira do célebre músico, ela é responsável, por exemplo, pela letra do celebrado Luar de Indaiatuba.

Na peça musical Ara-Erê-Uçu (Um grande dia de festa), Cleonice escreveu as letras em tupi-guarani. No entanto, recorrendo-se aos jornais da época, o máximo que se encontra é uma afirmação de que o lirismo dela combinava-se à inspiração musical de Nabor.

Embora seja a "esposa do médico Jácomo Nazário", Catherina Ioan Nazário também teve sua importância e chegou a abalar a estrutura da sociedade indaiatubana. Catherina nasceu na Romênia, foi educada na Itália e chegou ao Brasil beirando os 15 anos.

Um ano mais arde, casou-se com Don Sebatian Gomes, em Araraquara, com quem teve sua primeira filha.  casamento durou apenas quatro anos, pois seu marido faleceu em 1929. O tempo passou e Rina (é assim que ela é mais conhecida) encontrou o doutor Nazário, que possuía três filhos do primeiro casamento.

Rina aceitou o que ela definiu como missão e veio para Indaiatuba, em 1945, tendo que enfrentar preconceitos para poder continuar a usar calça comprida ou mesmo andar de bicicleta. Um pouco disso está registrado no acervo da Fundação. " (...) enfrentei uma sociedade muito dura na época, pois mulher que se casasse com homem separado era vulgar". relata. "Sempre andei muito bem arrumadinha, penteada, o que já não acontecia com as "beatas" que ora me procuravam para angariar donativos e, ora, quando me encontravam na rua, passavam para outra calçada".

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Leia mas textos de Ana Ligia, adquirindo o livro dela, à venda na biblioteca do Casarão.

Este livro tambem estará à venda na 1a. Feira Literária de Indaiatuba.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Biografias feitas pelos alunos das 3as. séries da Rede Municipal



Demais!

Este é um post que eu publico com especial satisfação, uma vez que são poucas as notícias de ações educativas relacionadas à historia, memória e patrimônio de nossa cidade, principalmente feitas entre tantos parceitos comprometidos.

As professoras e alunos das 3as séries da rede de ensino municipal da Prefeitura Municipal de Indaiatuba estão de parabéns!

Foram publicados neste mês o resultado do trabalho que desenvolveram durante este ano letivo  com o patrocínio da Toyota, através da Lei de Incentivos Fiscais do Munistério da Cultura do governo Lula.

Durante o ano foram realizados encontros mensais com  as professoras de 22 escolas e uma técnica da Secretaria de Educação de nossa Indaiatuba, onde desenvolveram com os formadores do Museu da Pessoa e do Instituto Avisa lá atividades de memória oral. A cada etapa do projeto, os professores planejaram situações didáticas para os alunos de leitura, escrita, desenho e pesquisa a partir das histórias de vida dos moradores de Indaiatuba.

As crianças entrevistaram pessoas da comunidade e registraram as suas narrativas de vida como fontes de conhecimentos que revelam a memória coletiva do lugar.

Uma iniciativa que merece destaque e congratulações para todos os envolvidos! Valorizar a história de cada um e contribuir com a riqueza da memória da cidade possibilita aos alunos e às educadoras socializar com o outro as transformações do mundo a que pertencem.


As histórias estão reunidas em uma galeria do site do Museu da Pessoa, que você pode acessar através dos biografados abaixo.




























Também foi biografada Maria Izabel Seabra Pigatto, mas o link referente à este trabalho não está disponível no site do Museu da Pessoa.

Além dos depoentes, dos alunos  e das educadoras - professoras das 3as. séries, participaram:
Rita de Cássia Transferetti - Secretária da Educação de Indaiatuba
Silvia Carvalho, Diretora do Instituto Avisa Lá
Sonia Helena Dória London, Coordenadora do Museu da Pessoa
Simone Alcântara, Formadora do Museu da Pessoa
Elaine Cristina Marucci, representando a Toyota.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

João Tibiriçá Piratininga no Rotary de Indaiatuba



Para quem nunca foi em uma das reuniões do Rotary, ou também para quem não conhece, é muito comum que nas festivas um dos rotaryanos falem sobre assuntos relacionados à sua profissião, formação ou especialidade, rotina que faz dos encontros também eventos culturais.

Não foi diferente no dia 18 p.p. , data em que o convidado Sr. Milton Ottoni, do Rotary de Itu esteve em Indaiatuba com outros ituanos e discorreu palavras sobre a nossa história regional, mais especificamente sobre um notável personagem do nosso passado: João Tibiriçá Piratininga.


Sr. Milton Ottoni em 18 de outubro de 2010
crédito da imagem: Boanerges Gonçalves

O Sr. Milton é empresário, dono da Editora Ottoni, localizada em Itu. Ele gosta muito de história regional e além de conhecer muitos fatos, pessoas e outros itens, é um grande incentivador de publicações a respeito da história, memória e patrimônio da região.

Abaixo transcrevo o discurso do Sr. Milton, texto que nós dá a oportunidade de conhecer ou relembrar sobre João Tibiriçá Piratininga:

"Afinal, por tradição, quem visita leva o orador da noite. Por isso, e só por isso, estou aqui.

Pretendo fazer uma abordagem diferente, pouco praticada, buscando preencher um, sei lá, um dever dos Rotary’s, qual seja, o de reconhecer o valor dos ícones da comunidade.

Escolhi para falar sobre João Tibiriçá Piratininga, grande cidadão ituano/indaiatubano que viveu, e como viveu, nos finais do século XIX.

Dois motivos me levaram a essa escolha:

1- Foi, sem dúvida, um dos maiores nomes que habitou o planalto paulista do alto médio Tietê; e

2- Tive a felicidade de recebê-lo como patrono quando do meu ingresso ao Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Sorocaba, em decorrência do que travei conhecimento com sua biografia.

Ensina-nos o pesquisador ituano Ignaldo Lepsch que nascido João de Almeida Prado Filho, primogênito de João de Almeida Prado Junior, que por sua vez foi o 5º filho do Capitão-mor de Itu João de Almeida Prado e de sua 1ª mulher D. Anna de Almeida Pedroso, esta filha do Ajudante João de Almeida Pedroso e de D. Izabel Caetano do Pilar, que se casaram em Sorocaba a 06/fevereiro/1770, neta paterna de João de Almeida Pedroso, “o Ruivo” e de D. Gertrudes Ribeiro de Sampaio Botelho, esta neta materna do Sargento-Mor de Sorocaba Antonio Loureiro da Silva, de Vallongo, Portugal, e de D. Anna de Almeida Leme, de Sorocaba.

Mostramos, amigos, nessa pequena Genealogia as raízes sorocabanas do nosso homenageado.

O primeiro a adotar o apelido Tibiriçá Piratininga foi o pai de nosso patrono, que, quando estudante em Coimbra, Portugal, recebeu de colegas o apelido, por ter nascido nesta parte nobre de nosso território, o Planalto de Piratininga, onde viveu e reinou o Cacique Tibiriçá.

Pesquisa junto a descendentes e familiares diretos e remotos, contesta esta tese, dizendo ter o mesmo inventado o apelido, ele próprio, para poder viver incógnito em suas andanças pela Europa, nesses tempos de estudante.

Seu filho, nosso homenageado, natural de Itu, nasceu a 7 de agosto de 1829, em território que hoje pertence a Indaiatuba.

E foi com o apelido de João Tibiriçá Piratininga que após algum tempo de estudo em Coimbra, transferiu-se para Paris, França, onde completou seus estudos em Geologia e Mineralogia. Estudou também Física e Química e participou de Congressos sobre Ciências Naturais, enquanto esteve no Velho Mundo. Foi, ainda, um costumeiro visitador de museus e coleções de acervos mineralógicos.

Quando de sua permanência em Paris, presenciou ao vivo, o desenrolar da revolução republicana de 1848, inclusive as verdadeiras batalhas urbanas entre o povo e as tropas leais ao rei. Acreditam os historiadores que esse tenha sido o momento mais forte a influenciar a instalação das idéias de liberdade em seu espírito. Idéias essas que aflorariam, em seu esplendor maior, três décadas à frente.

Já no Brasil, em 1856, com pleno domínio dos mais avançados conhecimentos técnicos da época, buscou colocá-los em prática. Fundou em Itu o Instituto do Novo Mundo buscando a divulgação dos conhecimentos europeus, aplicando-os num avançado programa de ação. Dedicou-se também à lavoura nas fazendas “Ressaca”, em Mogi-Mirim e “Pimenta”, em Indaiatuba. Teve também importante atuação na fundação e desenvolvimento da Estação Agronômica de Campinas.

Inovador, trouxe da Europa, como nos diz Roberto Machado Carvalho:

“moderno equipamento destinado às usinas de açúcar. Tratava-se de material e maquinário estudados conforme os planos de reputado engenheiro, para proceder à fabricação de açúcar de cana com maior aproveitamento de sacarose e obtenção de um produto acabado de melhor qualidade. Em fase de crise que ameaçava atingir o açúcar e deslocava as culturas canavieiras em favor do café, impunha-se aprimorar o processo de fabricação, sob pena de os escassos proventos agora proporcionados pelos métodos rotineiros do passado virem a prejudicar a rentabilidade do produto”. Dessa forma, “caldeira, fornalha, tubulagem, cubas metálicas, eixos, cilindros de ferro, rodas e engrenagens pesadíssimas e de grande volume seguiram para Itu”, ou melhor para Indaiatuba."

Este procedimento, simples para nossos dias, mostra, na época, arrojo e grande disposição para a atualização técnica de nossa nascente agro-indústria.

Nessa altura, alguns anos após sua volta da Europa, já era conhecido e respeitado nos meios empresarial e cultural da Província de São Paulo, quando espontaneamente ingressou na política, ao que tudo indica, com o objetivo maior de contribuir de forma eficaz e dinâmica para a implantação da República em nosso país.

O historiador Roberto Machado Carvalho, que estudou profundamente o movimento republicano, destaca João Tibiriçá Piratininga como “o maior propagandista do regime republicano em Itu” e na Província, sem ter sido escritor.

Sua atuação mais importante estaria por acontecer quando, junto com seu primo José de Vasconcellos de Almeida Prado, foi um dos organizadores da “Convenção Republicana de Itu de 1873”. Nela participou como membro da delegação de Indaiatuba.

Seu trabalho não se restringe ao evento maior. Ele destacou-se como o maior propagandista do movimento convencional e não parou em abril de 1873, pelo contrário, continuou muito ativo no Partido Republicano Paulista, agora, já, em toda a província.

É sempre bom lembrar que no dia marcado para a Convenção (a data fora escolhida porque “na véspera, 17.04.1873 ocorreria na próspera e rica cidade de Itu a inauguração da linha férrea, atraindo para a “fidelíssima cidade” a presença de enorme número de visitantes), em sua casa, na praça Pe. Miguel, centro de Itu, durante o dia foi feita uma reunião prévia, preparatória à grande sessão noturna, que teria lugar no casarão de Carlos de Vasconcellos de Almeida Prado, atual Museu Republicano de Itu.

Instalada a memorável reunião de Itu, foi o nosso homenageado escolhido seu presidente, pois entendiam os convencionais que o mesmo devesse ser homem idôneo, culto, firme nos seus procedimentos e acima de tudo integrado ao objetivo maior que era o de implantar novo regime político no país.

A reunião de Itu trouxe como resultado imediato o fortalecimento do Clube Republicano de Itu cujo presidente era João Tibiriçá Piratininga que tinha como secretário João Tobias de Aguiar.

Em seguida ocorreu a constituição e fundação do Partido Republicano Paulista, e, inúmeros desdobramentos políticos que levariam à República.

E, amigos, é ainda muito bom lembrar que João Tibiriçá Piratininga, em 15 de dezembro de 1887, na Grande Assembléia dos Agricultores da Província, propunha a emancipação imediata e incondicional dos escravos, mostrando mais uma vez seu apego as idéias de liberdade e o quanto era “um homem a frente de seu tempo”.

Entretanto, João Tibiriçá, tão ativo, sempre apegado ao “FAZER”, não aparece em nenhum momento como escritor, aliás, Odilon Nogueira de Mattos nos lembra que:

“não são comuns, ao contrário são até bem raros na bibliografia brasileira os escritos de fazendeiros. Mesmo quando ocupando cargos públicos ou exercendo profissões liberais, dotados portanto, de excelente lastro cultural, nossos homens de fazenda quase nada escreviam sobre assuntos agrícolas, que tivesse significado permanente”.

João Tibiriçá Piratininga teve um só filho, Jorge Tibiriçá, que viveu atuação política destacada no Estado de São Paulo nos primeiros tempos republicanos.


Crédito da Imagem: Almanak Admnistrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro


Nosso homenageado faleceu em pleno inverno europeu a 1 de dezembro de 1888, sem ver instalada a República no Brasil, seu grande sonho.

Para encerrar queremos lembrar que Indaiatuba perpetua sua memória com a criação da comenda “Medalha João Tibiriçá Piratininga” com a qual privilegia os seus filhos ilustres e Itu perpetua sua memória mantendo no Museu Republicano rico acervo sobre este grande homem e no cemitério da cidade, um belo túmulo, verdadeiro monumento, doado pelo Jornal “A Província de São Paulo” onde em bronze, se lê a notícia conforme publicada em 02/12/1888.

“Faleceu em Paris, o Sr. João Tibiriçá, um dos membros mais proeminentes do Partido Republicano Paulista e uma das inteligências mais esclarecidas da geração passada. Dele se pode dizer que era paulista dos antigos, paulista de velha têmpera. Não teve solução de continuidade a sua longa vida de cidadão exemplar e de chefe de família, que foi sempre apontada como modelo. Não se sabia curvar aquele caráter altivo, integérrimo; mas aquele brando coração sempre se moveu piedoso em presença de uma desgraça a socorrer, de um infortúnio a minorar.
... a Província de São Paulo chora um dos seus filhos mais ilustres.
... à beira do túmulo que se abre para tragar esta personalidade gigantesca, este vulto verdadeiramente talhado à romana, descobrimo-nos cheio de respeito e com o peito ralado de saudades. Que descanse em paz o grande lutador”.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sítio São Miguel

texto de Bernadete Ambiel

Maria Gut nasceu em Giswil, Cantão de Obwalden, Suiça, no dia 9 de julho de 1872. Veio para o Brasil como imigrante em 1881, indo morar na Fazenda Santa Maria, município de Santa Cruz das Palmeiras-SP. Em 1893, casou-se com Ignácio Ambiel, de nacionalidade suíça também e pertencente a família de fundadores de Helvetia. Ficou viúva em 1916, com onze filhos, todos menores, exceto Maria Emília com 22 anos, residentes em Helvetia.


Maria Gut Ambiel
(foto original de Bernadete Ambiel)

No período de 1900 a 1930, Helvetia consolida sua economia e desenvolvimento na cultura do café. Como consequência, muitas fazendas e sítios são adquiridos pelos imigrantes suiços e seus descendentes. Estas propriedades invadem os municípios de Indaiatuba, Monte Mor, Campinas, Valinhos, Vinhedo e Jundiaí. Dessa forma que Maria Ambiel Gut e seus filhos, com determinação, religiosidade e fé em Deus acima de tudo, além de manter a propriedade que já possuíam em Helvetia, tiveram a capacidade de adquirir em março de 1927 de Izacco Forti, casado com Luiza Forti e de João Forti, casado com Maria Forti, a Fazenda São Miguel, situada no Bairro Bentoca deste município, Comarca de Itu e freguesia de Nossa Senhora da Candelária.

A Fazenda São Miguel era constituída de oitenta à cem alqueires de terra, mais ou menos, dezoito mil pés de café entre novos e velhos, duas casas de moradia e duas para colonos, ranchos, tulha, paiol, 78 cabeças de gado, 30 porcos, 3 burros com uma carritela arreiada, 1 cavalo e 1 trole arreiado também e outras benfeitorias existentes.

O valor da negociação foi de duzentos e cinquenta e cinco contos de réis (Rs 255:000$000). A transação comercial foi feita com o termo “porteira fechada”, isto é, não se retira objetos ou utensílios existentes após o fechamento do negócio.


Registra-se que em fevereiro de 1926 os irmãos Forti, lavradores e domiciliados em Indaiatuba, compraram este imóvel de outros imigrantes suíços, João Ifanger Júnior, casado com Carolina Müller, e nele viveram por mais de uma década. O casal Ifanger constituiu uma família com nove filhos, sendo que os 2 menores, Paulo e Eduardo, nasceram nesta propriedade. Paulo em 1912 e Eduardo em 1917. Paulo, até hoje, em suas visitas ao sítio, entrando alegremente na casa, diz: “Esta é a casa aonde nasci!”.

Em abril de 1927, Maria Ambiel Gut pede para um dos seus filhos, Eduardo Ambiel, já casado com Josepha von Zuben, residir no São Miguel. Acompanhou Eduardo seu irmão Walter José, que por seis anos dedicou-se as duras lidas agrícolas neste chão.

Já em 1934, outro filho de Maria Ambiel Gut, Ignácio Ambiel Júnior, após ter se casado com Elza Bárbara Jührs, passa a residir também no São Miguel.

Os anos se passaram, as lutas foram muitas, o trato da terra sempre exigindo o suor e a abnegação destes irmãos, que ao longo do tempo sempre se refugiaram na fé inquebrantável. Contudo, constituíram suas famílias, sendo que de Eduardo nasceram treze filhos e de Ignácio, cinco, os quais, hoje, reservam para o São Miguel um cantinho especial em seus corações.

As responsabilidades assumidas por Eduardo e Ignácio eram compartilhadas com seus irmãos até 1953, quando Maria Ambiel Gut doa seus bens aos seus filhos: Maria Emília, solteira; Josepha Maria, casada com Luiz Emílio Bannwart; Constantino, casado com Cândida von Zuben; Cristina, religiosa da Ordem de São Bento; Lina Catarina, casada com Francisco Xavier Sigrist; Walter José, solteiro; Maria, casada com Léo Ming; Rosa, casada com Emílio Gut; José Arnaldo, casado com Maria Elisa Gut, em primeiras núpcias e com Dalva Marques em segundas núpcias, além de Eduardo e Ignácio.

Hoje, uma parte do São Miguel desmembrou-se em pequenas propriedades rurais, onde moram filhos e netos de Eduardo e Ignácio mais a Estância Santa Maria. E gradativamente, a outra parte restante transformou-se em loteamentos e condomínios fechados a saber: Jardim São Luiz, Jardim Dom Bosco, Vila Suiça, Jardim Alpes Suiços, Condomínio Residencial Solar dos Girassóis, Condomínio Portal das Acácias, Residencial Jardim da Villa Suiça e agora despontando o Maison Du Parc.

Para demonstrar a extensão da propriedade, enfatiza-se que as terras do São Miguel passavam pelo início do Parque Ecológico, alcançando os limites do cemitério velho da rua Candelária ao sul e ao norte o Jardim Morumbi.

Neste 81º aniversário do São Miguel, quero manifestar o meu reconhecimento e gratidão a minha avó Maria Ambiel Gut e filhos pela aquisição desta querida propriedade, carinhosamente, chamada de “Sítio São Miguel”. Homenageio também meus pais, Eduardo e Josepha, meus tios Ignácio e Elza, que por mais de sessenta anos viveram e preservaram, quase que integralmente, a herança recebida. Expresso grande admiração aos que trabalharam e ainda trabalham nestas terras, especialmente ao meu irmão João Tadeu, que ainda hoje lavra um pedaço deste chão abençoado por Deus.

Testemunhando todas estas mudanças e fatos descritos permanecem, passivamente, suas mangueiras centenárias e majestosas que guardam muitos segredos e contam muitas histórias... histórias do Sítio São Miguel...


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* texto originalmente publicado no livro "Um Olhar sobre Indaiatuba (2)" da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba (à venda no Casarão do Pau Preto).

BIBLIOGRAFIA

1- “A Memória Histórica de uma Comunidade Revela a Identidade de sua Gente”- Helvetia 100 anos de Brasil-1988.

2- Documentos Cartoriais da Comarca de Itu.

3- Fragmentos de Memórias- Henrique Ifanger- 2004.

4- Memórias de um Filho da Colônia Helvetia no Brasil-Indaiatuba-São Paulo; Pe. Polycarpo Amstalden- Ordem de São Bento.

5- Minha Genealogia de São Nicolau von Flüe até Bernardete Ambiel; Pesquisa e Desenhos de Delfino F. Bannwart.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Maria Fumaça em Itaici (1) - a Locomotiva # 411 da Sorocabana


Imagem 1 - Locomotiva 411 da Sorocabana, estacionada em Itaici, em data não-definida.

Características:
Fabricante: Baldwin Locomotives Works
Procedência: Estados Unidos
Ano de fabricação:  1913
Número de série: 30605
Bitola: 1 metro
Configuração das rodas: ten-wheel 4-6-0
Diâmetro dos cilindros: 406 mm
Curso dos pistões: 508 mm
Comprimento: 16596 mm

Na década de 1950 ela estava em operação, prova disso é o desenho abaixo, feito em 1950, como parte de um Inventário das Locomotivas da Estrada de Ferro Sorocabana que estavam em operação.

Consta que em  30/06/1954 ela foi vendida para a E.F. Resende-Souzas.

A locomotiva não existe mais, infelizmente foi sucateada.

Imagem 2 -  Planta da Locomotiva 411 da Sorocabana com dados técnicos completos
(clique para ampliar)


Imagem 3 - Capa do relatório final do inventário das locomotivas em operação da
Estrada de Ferro Sorocabana no ano de 1950.


Imagem 4: A locomotiva #411, estacionada em Piracicaba (SP), sem data

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 Colaboraram para este post:
Alex Leão
Denis W. Esteves
Eduardo Bento
Ernesto Almeida Paparelli
H. Wolff
Hélio Gazetta Filho da ABPF
Jorge Hereth
Tiago Garcia Amato
Wanderley Duck

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Pós-escrito

Esclarecimento sobre este post, feita pelo leitor Chico França Camargo Filho:


Boa tarde, Eliana.

Procurando alguma coisa sobre a Sorocabana na web, cheguei no seu blog, onde vi uma foto da máquina 411 e o seu maquinista.
Permito-me observar que a 411 está estacionada no pátio de manobras da estação da Sorocabana em Piracicaba (SP), anos 1930 e não como consta na legenda.
O maquinista é o Sr. Suzano Marques de Oliveira, meu padrinho de batismo. A foto foi tirada com o propósito de que uma cópia fosse levada para a igreja do Bom Jesus de Pirapora (São Paulo), como agradecimento pelo meu padrinho ter sobrevivido e se recuperado de ferimentos causados por um desastre ferroviário. Tenho a foto original em meus arquivos.
Uma outra foto mostrando ferroviários ao lado de uma composição também foi tirada em Piracicaba (SP), nos anos 1950. O funcionário em pé e de guarda-pó é meu padrasto Antonio Teixeira Poças, foto registrada um pouco antes de sua aposentadoria como mestre-de-maquinista. O ferroviário sentado na direita da foto, é o Sr. Orlando Pistolini, que trabalhava no depósito (oficina) da estação como mecânico. Os demais não consigo identificar. A via da foto que me pertencia foi entregue ao neto de meu padrasto. 
Mando-lhe uma foto tirada por volta de 1875, na antiga estação da EFS em Piracicaba, mostrando um grupo de ferroviários. Sentado, na primeira fila, á direita, de chapéu, está Luiz de França Camargo, meu avó paterno. 
 
 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A vida em uma Ferrovia

texto organizado por Eliana Belo com as memórias de José Luiz Sanchez (maquinista da FEPASA)
colaboraram para a revisão e adequação do texto:
Coaraci Oliveira Pais de Camargo
César Sacco
Hélio Gazetta Filho
Luiz Carlos de Almeida Souza e
Ralph Mennucci Giesbrecht (1)

Na década de 1950, Itaici foi uma estação ferroviária de entroncamento (2) da Estrada de Ferro Sorocabana, numa época em que ainda esse meio de transporte era reconhecidamente importante e muito ativo. Meu pai veio para Indaiatuba justamente para trabalhar nela, transferido da estação de Embu Guaçu onde, por volta de 1954, as locomotivas a vapor foram definitivamente extintas. Inicialmente ele trabalhava com as caldeiras (3) , um dos componentes do sistema que fazia as marias-fumaça expelir aquela densa nuvem de vapor e fuligem por suas chaminés. Depois passou a trabalhar como truqueiro (4) , função que exerceu até se aposentar em 1968.


Estação Ferroviária de Itaici

Eu tinha 7 anos quando viemos para cá. Ficamos apenas durante um ano morando em Indaiatuba, na Vila Furlan e logo depois, em 1955, mudamos para Itaici, perto da estação onde ele também cumpria a mesma função. Ali poucas composições ferroviárias ainda eram propulsionadas por locomotivas a vapor, mas muitas manobras eram feitas com elas e por isso o trabalho dele era muito importante: estava relacionado com o próprio funcionamento das máquinas. Com meu pai ferroviário, crescendo em uma família imersa nesse assunto e nessa vida, logo cedo desenvolvi não só o interesse, mas uma verdadeira paixão por trens e nem me lembro quando, exatamente, resolvi também ser um ferroviário. Creio até que já nasci para ter minha vida em uma ferrovia.

Em Itaici existia um conceituado Centro de Formação em Transportes (CFT) (5) , que funcionava no próprio pátio da estação e que preparava novos técnicos para trabalhar na ferrovia como telegrafista. Ansiosamente esperei atingir a idade para ser admitido nessa escola, que era uma porta de entrada para um futuro seguro, um embrião para uma profissão sólida, que atraia obviamente não só a mim, mas muitos jovens da época. O curso era só para meninos, durava dois anos e era equivalente ao que hoje seriam as duas séries iniciais do segundo grau. Era composto com aulas do currículo comum, como matemática, português, história e geografia. Mas o que me interessava mesmo eram as aulas específicas: operação de rádio morse, telegrafia e noções de composição de cargas, ou seja, o planejamento de qual locomotiva servia para quais carros e vagões. Iniciei o curso em 1962 com 16 anos e terminei em 1964. Repeti um ano, quem repetisse dois, não poderia se formar. Dos mestres dessa época, lembro-me do professor José Fernandes e do professor João Domingues. Para freqüentar as aulas, todos os estudantes eram registrados como aprendizes e recebiam um determinado valor, uma espécie de bolsa-estudo que podia variar de acordo com o desempenho que tinham. Mas minha aprendizagem também foi enriquecida por outros profissionais, na época um pouco mais velhos, mas que também generosamente ensinavam o que sabiam. Entre eles estão Osvaldo Salvaterra, Benedito Guimarães, Ítalo Presta e Nelson Soliani, todos funcionários da extinta Sorocabana que por muitos anos prestaram serviços e que também tiveram, de uma forma e de outra, suas vidas trilhadas em ferrovias.

Itaici - aula para ferroviários
Crédito da imagem: Museu Ferroviário de Indaiatuba (FIEC)



Terminar o curso no CFT era apenas o fim do primeiro degrau. Todos ficávamos esperando o momento de poder ingressar definitivamente ao trabalho, que nos acenava um futuro seguro. Fiquei aguardando a abertura de novas vagas disposto, como tantos, a ir trabalhar em qualquer lugar, em qualquer outra estação. Durante essa espera que me pareceu tão longa, fiquei trabalhando em Indaiatuba. Fui funcionário da Yanmar e da Singer. Mas finalmente no dia 02 de setembro de 1968 tive minha carteira carimbada pela Estrada de Ferro Sorocabana e fui para Mairinque, trabalhar como ajudante de maquinista. Mas não disse “adeus” para Indaiatuba, nem tão pouco para Itaici, onde vivi minha meninice ao redor do pátio e das linhas em que queria trabalhar.

Em Mairinque trabalhei inicialmente como ajudante de maquinista até 1970, quando fui transferido para a Barra Funda na mesma função. Em 1972 , quando a Estrada de Ferro Sorocabana passou a ser FEPASA(6) sai de lá, mas ainda não foi a hora de voltar para Indaiatuba. Fui novamente para Mairinque, promovido como maquinista. Iria finalmente comandar uma locomotiva, as composições iriam caminhar sob o meu comando! Primeiro comecei como maquinista de manobras e depois passei a ser maquinista de cargas. Com a realização do sonho, sentia que a responsabilidade também aumentava...

Em 1982 fui transferido para Campinas, onde além de passar a ser maquinista de passageiros, tive a grata oportunidade de trabalhar também como monitor de novos aprendizes no Centro de Treinamento daquele município, da FEPASA. Foi um trabalho muito gratificante, uma oportunidade de dar, de certa forma, continuidade da minha vida ferroviária. Hoje, ao lembrar que aprendizes que foram meus estão sobre os trilhos, é como se uma parte de mim ainda estivesse lá. Com a criação da FEPASA, muitas mudanças aconteceram: alguns colegas foram removidos e a identidade da saudosa Sorocabana se perdeu. Particularmente, as pessoas com quem eu trabalhava na época tiveram a mesma impressão que eu tive: que o pessoal da Sorocabana era mais respeitado, ou melhor, eram reconhecidos pelo treinamento que tinham. Por isso, todos os funcionários da Sorocabana acabavam se destacando em todas as repartições da FEPASA.

Com a transferência para Campinas pude voltar para minha Indaiatuba, onde moro até hoje. Por motivos que não posso chamar de “coincidência” sempre procurei morar perto de onde pudesse ouvir o apito de um trem. Atualmente resido em uma chácara em Itaici, de onde ouço constantemente meus amigos maquinistas apitarem, não por motivos técnicos, mas para me dar saudade. E mesmo longe de um painel de condução, ainda sinto minha vida trilhar em uma ferrovia nesses momentos.

Aposentei-me em 1992, como Maquinista. Sempre amei minha profissão, sempre disse com orgulho que era um ferroviário, função que para mim representava – por incrível que possa ser – sentimentos aparentemente contraditórios: a liberdade e a segurança. Liberdade por poder andar por tantos lugares, por tantas estações, por tantas paradas e com tanta gente; por lembrar de vários trilhos, principalmente os que me levavam até Santos, destino aonde se chegava após passar por 34 túneis! Segurança por eu ter um emprego reconhecido, seguro, onde puder crescer e obter o sustento da minha família pelo meu próprio esforço e trabalho. E não foram poucas as horas extras! Mas de forma geral posso definir as condições de trabalho como satisfatórias, inclusive com uniforme. O único desconforto, mas que era um costume na época, era ter de levar a marmita para almoçar nos horários de folga nas paradas ou dentro das próprias locomotivas.

Olho para meu passado e lembro-me do meu pai, que muitas vezes colocava lenha para queimar na locomotiva para aquecer a água da caldeira e movimentar as composições. Nessas locomotivas a vapor - que foram as primeiras que manobrei - também tantas vezes coloquei água na caldeira, impulsionando seus movimentos como quem alimenta um filho. Depois da “maria-fumaça”, que andava em uma velocidade entre 50 e 60 quilômetros por hora, veio a locomotiva diesel-elétrica, que não dava tanto trabalho para o maquinista e seu auxiliar. Enquanto que na maria-fumaça o maquinista ajudava na manutenção da caldeira, controlava a pressão, movimentava as alavancas para frente e para trás e ficava atento ao tráfego e a carga, com a tecnologia diesel-elétrica tudo ficou mais fácil e mais rápido. Cheguei a locomover grandes composições puxadas por elas em uma velocidade de até 90 quilômetros por hora carregando areia, petróleo, bauxita e outros minérios, soja e outros grãos, principalmente até o porto de Santos. Infelizmente trabalhei muito pouco com carros de passageiros, mas tenho orgulho de poder ter sido reconhecido com um maquinista onde o passageiro podia comer com o garfo. (7)

Aos poucos o governo deixou de investir nas ferrovias. Lembro-me muito bem dos políticos que eram donos de frotas de caminhões e de ônibus bem na época da formação da FEPASA, que nenhum interesse tinham na manutenção ou crescimento do sistema ferroviário. Uma pena. O transporte ferroviário é mais seguro e constante. De tão constante, muita gente tem a infeliz certeza de que ao se jogar na frente de uma locomotiva é morte certa, uma vez que frear uma composição é algo praticamente impossível.

Tenho orgulho de ter tido minha vida trilhada nas ferrovias, de ter trabalhado no que gostava, de ter ensinado o que sabia para quem ainda está na ativa. Mas não é um orgulho de soberba, é um orgulho positivo, de satisfação, de sensação de que tudo valeu a pena. Tenho também saudade de tudo, do pessoal, das máquinas, do movimento, de olhar para trás e ver como os vagões e carros estavam se comportando nas curvas, nas manobras nas descidas e subidas, dos apitos e do ritmo que meu corpo, que se acostumou nessa vida como se fosse um embalo vital. E a cada vez que ouço um apito tenho, sobretudo, saudade do som ouvido por este – para sempre – maquinista, de dentro de sua cabine: tem-dem, tem-dem, tem-dem... da composição nos trilhos da minha vida... tem-dem, tem-dem, tem-dem...






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(1) Texto originalmente publicado no livro "Um Olhar sobre Indaiatuba 2"
(2) Estação de entroncamento é onde duas ou mais rotas se cruzam ou dela se iniciam, por isso podem ocorrer baldeações. As linhas podem ser de diferentes bitolas, podem ou não ser o tronco principal ou apenas ramais. No caso de Itaici, a estação estava entre Jundiaí e Itu e também era o início para o ramal até Piracicaba.
(3) Foguista era o nome da função de quem trabalhava com as caldeiras dos sistemas ferroviários.
(4) Truqueiro é o ferroviário que inspeciona e conserva os troles de sustentação dos vagões.
(5) Os antigos centros de formação de profissionais das ferrovias foram embriões para o futuro SENAI, onde até hoje muitos ferroviários atuam como instrutores. Inclusive o SENAI de Sorocaba tem como patrono o nome de um ferroviário da EFS – o Engenheiro Gaspar Ricardo Júnior.
(6) FEPASA – Ferrovia Paulista S/A foi criada em 1971 através de um decreto do governador Laudo Natel, que uniu 5 ferrovias em paulistas uma só. Assim, passaram a ser exclusivamente FEPASA: a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a Estrada de Ferro Araraquara S/A, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, a Estrada de Ferro São Paulo e Minas e a Estrada de Ferro Sorocabana. Atualmente a antiga malha está concedida para a Ferroban administrada pela ALL – América Latina Logística
(7) “Comer com o garfo” era uma expressão usada para definir a suavidade de uma viagem, quando a composição trilhava sem solavancos, em uma cadência suavemente ritmada.
 
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Retalhos de uma vida na Terra dos Indaiás

texto de Orlando Guilherme Kräenbühl *

Quando olho minha querida Indaiatuba, em minha mente passa um vídeo tape fazendo-me recordar dos trajetos de minha vida, nesta maravilhosa e querida Terra dos Indaiás. Sim, Terra dos Indaiás! Lembro-me de centenas de pés de indaiás (palmeira que produz coquinhos), de onde se retirava a polpa para comer... Como era delicioso... Íamos buscar no antigo campo de avião, hoje, bairro Cidade Nova, onde existiam centenas de pés, espalhados pelo campo. Como era gostoso quebrar aqueles coquinhos e saborear sua polpa. Hoje não se encontra mais nenhum pé desta fruta, que é o símbolo da cidade.

Sou descendente de alemães e suíços que foram acolhidos por essa terra há mais de 149 anos atrás. Não posso deixar de falar um pouco deste carinhoso acolhimento, dado ao meu bisavô e demais imigrantes que resolveram aqui se fixar para formar a colônia Alemã do Bairro Friburgo, que assim passou a se chamar.

Quando eu tinha apenas um ano de idade, meus pais resolveram mudar-se para Indaiatuba. Fomos morar em uma casa na Rua Cinco de Julho, 1095, onde permanecemos poucos meses. O trabalho era difícil para o meu pai, que trabalhava como cortador de lenha. E nós éramos seis pessoas: meu pai e minha mãe e os meus irmãos: Francisco (10), Olga (08) e Leonilda que com apenas 11 anos e sendo a filha mais velha, era quem cuidava de mim, para que minha mãe pudesse cuidar da casa.

Até a mudança para a cidade, meus irmãos estudaram na escola de Friburgo; aqui eles entraram para o Grupo Escolar Randolpho Moreira Fernandes situado no centro de Indaiatuba, na praça D. Pedro II. Quando eu estava com aproximadamente seis anos, lembro-me que já mudado em vários endereços, minhas irmãs Leonilda e Olga foram trabalhar em Campinas como empregadas domésticas. Naquele tempo era muito difícil para elas virem nos visitar, as visitas aconteciam mais ou menos a cada um ou dois meses. A estrada velha era de terra e muito perigosa e o único transporte era o ônibus da empresa “Viação de Transportes Bonavita” com poucos horários. Quando chovia, os ônibus atolavam na estrada, agravando ainda mais a situação. Hoje os ônibus são modernos, bonitos, confortáveis e a estrada é asfaltada e espaçosa. Mas naquele tempo a viagem a Campinas durava mais ou menos 2 horas, hoje vamos em menos de 30 minutos; temos até circular até Campinas!

Lembro-me de uma das casas em que moramos. Era uma casa na Rua Onze de Junho, vizinho onde é hoje o Supermercado Pistoni. Ali fiz novas amizades; próximo a minha casa tinha um moinho de beneficiar arroz e fazer fubá da família Amstalden, gostávamos de brincar no monte de palha de arroz, que era tão alto que podíamos subir no telhado e pular sobre ele. Divertíamos muito com isso e a vida ia passando. Quando não íamos nesse lugar estávamos jogando pião, soltando pipa, jogando bolinha de gude ou às vezes jogando bola de pano feita de meias. As brincadeiras eram muito simples e muito gostosas; meninos e meninas brincavam juntos sem maldade... Sinto muita saudade daqueles tempos.

Naquela época não existiam os clubes ainda, somente o Cine Rex que funcionava, mas como eu ainda era pequeno para sair à noite e sem dinheiro meu pai não deixava ir, tinha que entrar cedo em casa, pois todos tinham que dormir muito cedo.

Por volta do ano 1948, mudamos para uma casa próxima dali, na Rua Hércules Mazzoni. Eu ainda não estava freqüentando a escola, meu pai era servente de pedreiro dos irmãos suíços: Felício e o Sr. Jacó Dambit. Há uma passagem muito engraçada que guardei dessa época: meu pai nos contou que o Sr. Felício gostava de mascar fumo e, um dia, quando meu pai estava catando os tijolos em baixo do andaime em que ele se encontrava, eis que solta uma tremenda cuspida, certeira na mão do meu pai, que se espatifou com aqueles musgos de fumo preto por todos os lados. Meu pai olhou para cima, lá estava o Sr. Felício rindo a valer da cara do meu pai. Moramos nessa casa pouco tempo, estávamos no ano de 1948 para 1949 quando mudamos para a casa do Sr. Silvio Ferreira do Amaral, na Rua Padre Bento Pacheco, 63. Era uma casa velha, não tinha instalação de luz elétrica, não tinha água encanada e nem esgoto ligado na rua; precisamos fazer tudo por nossa conta, mesmo não tendo dinheiro para pagar. Mas o Sr. Silvio foi descontando aos poucos do aluguel.

Nessa altura eu já contava com oito para nove anos, meu pai continuava como servente de pedreiro do Sr. Felício, a família se reuniu novamente, minhas irmãs voltaram de Campinas e meu irmão estava morando com meus avós na Rua Cerqueira Cézar, próximo de nossa casa.

A vida para mim começava a se tornar mais séria, pois eu ainda não tinha nove anos e já começara o meu primeiro emprego com Sr. José Balabem que morava na Rua Candelária, próxima a Rua 24 de Maio. Ele era um vendedor de frutas. Passei a trabalhar para ele vendendo bananas, carregando uma cesta no braço, ia de casa em casa oferecendo as bananas a quem quisesse comprá-las. O segundo emprego foi em uma lavanderia e tinturaria de nome “Lavanderia Brasil”, na Rua XV de Novembro no centro da cidade, era o proprietário o Sr. Fabio Scachetti (o popular Italiano). Trabalhei somente uma semana com ele, pois ele vendeu para Sr. Luiz Felix Denny que era, até então, seu funcionário. Eu gostei, porque o Sr. Luiz era meu vizinho de frente da minha casa. Neste trabalho fiquei mais tempo; na segunda-feira eu tinha que buscar os ternos nas casas dos fregueses, que naquele tempo usavam-se muito ternos de casimira e os de linho, que seriam lavados e passados e só no final da semana entregá-los impecáveis aos seus donos. O Sr. Luiz ia para o bairro de Itaicí buscar os ternos, pois como era longe para mim, ele ia de bicicleta e só no sábado eu ia com ele para entregá-los. Tínhamos que ir de trem ate Itaici e tínhamos que tomar muito cuidado com as roupas, para que não caísse faísca da locomotiva, que era movida a lenha. Era e a tal de Maria Fumaça.

Como já disse, minha vida a partir dos nove anos começou a ser mais séria, comecei a sentir o peso da responsabilidade, minha mãe colocou-me na escola, não quis colocar-me com menos idade, que é hoje com sete anos. Dizia que eu sairia da escola muito cedo, com 11 anos. E ai eu não poderia trabalhar em fábricas ou em outro trabalho que fosse registrado, por estar com menos de 14 anos idade que o menor poderia trabalhar em qualquer estabelecimento, não era como hoje que o menor só pode trabalhar após os 16 anos o que eu acho muito errado, pois a criança deve sim, trabalhar. Não em trabalhos pesados e sim em trabalhos que sejam compatíveis a sua idade e físico, pois é de pequeno que se torce o pepino, é de pequeno que a criança deve apreender o que é a vida e dar valor a tudo e a formação de sua personalidade. Em Provérbios 22.6, está escrito: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.”

Foi em janeiro de 1949 meu primeiro dia de aula. Minha professora, dona Áurea Moreira da Costa era casada com Sr. Jango, proprietário da Farmácia Candelária. Ela era muito brava, mas muito competente, ótima professora, hoje tudo que sei devo aos seus ensinos. Tive muitas professoras, mas a primeira nunca se esquece. Entrava na escola as 7:00 horas e saia as 11:00 horas e as 12:00 horas eu entrava no trabalho. Recebi o diploma do quarto ano primário em dezembro de 1945, ano do quarto centenário da cidade de São Paulo.

Durante o meu período escolar, trabalhei em vários estabelecimentos que foram: Lavanderia Brasil, uma doceria, que funcionava nos fundos do Clube 15 de Novembro, na Rua XV de Novembro onde hoje é a Cristal Jóias em frente ao Banco Real, onde fiquei pouco tempo. Depois, fui trabalhar na loja de armarinhos do Sr.Jorge, (que era um Libanês), local que hora é a loja Candel, onde hoje esta instalada a grande loja das Casas Bahia na Rua Candelária, também fiquei por pouco tempo. Voltei para Lavanderia Brasil, fui chamado para aprender a lavar os ternos, mas não deu muito certo. Fui trabalhar na fabrica de móveis do Sr. Davi Silvério na Rua Candelária esquina com Onze de Junho, hoje neste local é o prédio da Telefônica em frente ao Condomínio Edifício Comercial Córdoba.

Lembro-me de uma tarde quando cheguei ao serviço o Sr. Davi ordenou-me que eu trabalhasse na máquina desengrossadeira, é uma espécie de plaina que funciona verticalmente, como eu já estava me habituando em trabalhar com máquinas, ele ensinou-me como operar esta, ele regulou a máquina e comecei a aparelhar pé de cadeira de marfim, uma madeira muito dura, a operação transcorra normalmente de repente a madeira soltou-se da maquina e veio bater violentamente na minha boca, soltando os dentes da frente. Fiquei desmaiado e as pessoas que trabalhavam perto de mim vieram ao meu socorro, Sr.Juvenal Zerbini, nosso colega de trabalho, nos levou até o consultório do Sr. Roque Torce que eram enfermeiro bem conhecido na época que resolvia os casos de primeiros socorros da época por suas habilidades nos cuidados com pessoas. Fiquei afastado do trabalho por 15 dias ate ficar bom. Minha mãe e minha irmã estavam trabalhando no Cotonifício Trevisoli, que hoje funciona o nosso “SHOPPING JARAGUA”.

Na casa da Rua Padre Bento Pacheco, foram os tempos mais alegres de minha vida, aconteceram tantas coisas que ficaram gravadas em minha memória. Nosso quintal era imenso com aproximadamente 2000 m², ali, eu e minha mãe plantávamos verduras, milho e mandioca e vendíamos para a vizinhança, lembro-me que íamos buscar esterco na Fazenda Bicudo, do outro lado que hoje é o Parque Ecológico, hoje esta totalmente loteado e com casas muito bonitas, ate a nova prefeitura foi construída, e funcionando há quatro anos.

Algumas vizinhas que ainda me lembro-me o nome delas, tais como a Dona Brígida, Dona Josefina Marinaz (a dona Pina) assim conhecida, outras crianças e eu, assim íamos todos juntos para trazer o esterco cada um para suas hortas. Como não tínhamos muitas opções de divertimento como hoje, quando tínhamos dinheiro íamos ao Cine Rex para os filmes de bang-bang. Os filmes do Mazzaropi eram exibidos em duas seções, no sábado e no domingo. Além dele, que atraia o pessoal que fazia grande fila na porta do cinema, eram os filmes de Cantiflas. “Após o fim do filme, no próprio cinema, ficávamos para assistir grandes seriados como “A Máscara do Zorro”, “Perigo de Moca”,” A “Deusa de Joba”, que fez muito sucesso e outros que no momento estão apagados da minha memória. Ou então íamos ao Clube do Primavera que era na Rua XV de Novembro em frente a praça principal, Prudente de Moraes, para assistir televisão que era a novidade na época, foi exatamente em 1954 que tivemos a primeira TV em Indaiatuba, primeiro na loja Líder do Sr. Paulo Ifanger, ficava em exposição para que todos pudessem ver a novidade. Depois ficou no Clube do Primavera, lembro-me que aos sábados o Clube enchia de pessoas para assistir o programa de mais audiência, era o “Cirquinho Bombril” e quem apresentava eram os palhaços Fuzarca e Torresmo; existiam poucos programas. E aos sábados e domingos existiam também os divertimentos na Praça Prudente de Moraes para as paqueras, onde os homens andavam de um lado e as mulheres o sentido contrario, sempre ao som das musicas da época que faziam muito sucesso, e a cada momento ouvia-se assim: “fulano de tal oferece esta música a ciclana de tal com prova de muito amor”.

E assim resultavam muitos casamentos que alguns até hoje resistem a este grande amor, estes momentos de nossas vidas trazem muita saudades a aqueles que participaram naquela época.

Quando se ouvia o som do encerramento do serviço de alto falantes alguns jovens deixavam a praça com a garota que aceitara que acompanhasse a te o portão da sua casa pensando no próximo final de semana.

Da oficina do Sr. Davi retornei na Lavanderia do Sr.Luiz Denny para tomar conta da Lavanderia, mas durou pouco tempo com a entrada dos famosos ternos de tergal e que eram lavados em casa e não amassavam, já não tínhamos mais tanto trabalho, daí fui para a fabrica do Sr. Guerino Lui onde permaneci por dois anos de 1956 ate 1958, Nessa época eu já estava com 15 anos de idade, fui trabalhar na Cerâmica Indaiatuba onde permaneci 20 anos, de 12 de junho de 1958 até março de 1978. Já formado como técnico Químico, em março de 1978 fui para a Mercedes Benz do Brasil onde trabalhei 14 anos. Hoje já aposentado, fico a olhar por onde minha querida terra dos Indaiás, sinto saudades daqueles tempos em que andávamos pelas ruas sem se preocupar em ser atropelado por moto ou um carro que passam velozmente sem se preocupar com alguém que esteja atravessando a rua.

Vejo ainda o quanto a cidade cresceu, quantos bairros novos e quantos estão sendo projetados ainda, as indústrias novas as novas família que aqui vem residir em nossa cidade para criar seus filhos e outras gerações, e assim o tempo vai passando e criando-se muitas outras histórias.


* Originalmente publicado em "Um Olhar sobre Indaiatuba (1)" 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Fazenda que virou Cidade

texto da radialista Aydil Pinesi Bonachela (in memorian)
originalmente publicado no livro Um Olhar sobre Indaiatuba (1)


Vasto campo pontilhado de cabeças de gado pastando calmamente, arbustos, árvores, canavial e o riozinho de águas tranqüilas, correndo livremente. É assim que me recordo da fazenda do tio Ario onde passei doces e inesquecíveis momentos da minha vida na década de 50.

A majestosa Fazenda Engenho d´Água ocupava 360 alqueires de terra produtiva. Começava onde hoje (1) é a Cecap, indo além de onde está a Toyota. Sabem onde é a Fundituba? A doação de terra foi feita pelo Sr. Ario Barnabé na gestão do então prefeito em exercício Odilon Ferreira, seu genro.

Voltando a falar da fazenda, o antigo casarão  foi palco dos melhores momentos de sadia diversão. A Nelly, quinta filha do casal Ario Barnabé e Lilia Curti (irmã de minha mãe Filomena), minha prima-gêmea, foi companheira de bancos escolares e grande amiga de folguedos. Saíamos da escola Randolfo ao cair da tarde, atravessávamos o canavial, seguindo trilhas, chegando ao casarão ao cair da noite, sem medo de nada, cruzando com colonos que retornavam da dura lida de mais um dia de trabalho.

No casarão, tia Lilia dava uma bronca nas duas... Mas sempre tínhamos uma desculpa pelo atraso. Jantávamos na enorme mesa ao lado dos demais primos: Darcy, Léia, Gioconda, Ari e Tércio...

Com saudade recordo das brincadeiras na roda d'água (onde hoje é a Praça do Lago) que colocávamos para funcionar sem autorização e depois... lá vinha bronca dos primos mais velhos.

No verão, nadar no riozinho era nossa distração predileta, ainda que no silêncio do canavial pudéssemos ouvir o rastejar e chocalhar de uma cobra. Medo? Que nada! Quanto trabalho ao nosso anjo da guarda!

A nova sede da fazenda, com os confortos da vida moderna, foi construída onde hoje é a UNOPEC com muitos cômodos, toda azulejada. Guardo nitidamente na memória a sala de visitas, chiquérrima para a época, onde tio Ario recebia pessoas importantes e tratava de negócios enquanto tia Lilia fazia o delicioso cafezinho naquele enorme coador de pano. Como era bom ouvir e ver as visitas com seus trajes domingueiros e aquele cheirinho de lavanda e alfazema.

Onde hoje é a Igreja de Santo Antônio, era uma graciosa capelinha, cujo maior evento realizado foi o enlace da Leia com o Aubner Lyra. Que casamento! Que festa! Só gente importante de chapéu e tudo. Foi a noiva mais linda que já vi.

Neste dia, um “detalhe”: Nelly e eu entramos às escondidas no aposento destinado às madrinhas e extasiadas diante dos vestidos esvoaçantes e perfumados acompanhados dos chapéus cheios de véus e plumas e provamos um a um! Descalças e sujas de correr pelo pasto afora, abrindo porteira para os convidados que chegavam em carros. Fomos descobertas e - “dá-lhe mais bronca”; sem falar da ameaça de não marcamos presença na festa.

Além da capela surgia a colônia com suas 20 casinhas pintadas de cor-de-rosa, lembrando as casas populares de hoje. Nos finais de semana sempre tinha sanfona e aquele arrasta-pé em uma destas casas e nos era permitido participar apesar de sermos crianças. Que delícia! Que saudade!

Em 1974 a fazenda foi vendida para ser o Distrito Industrial de Indaiatuba, fato que não ocorreu por motivos diversos. Ali, então, nasceu o loteamento Jardim Morada do Sol (2), que em pouco mais de 30 anos conseguiu se transformar no bairro mais populoso da cidade e que continua crescendo sendo chamado de “segunda Indaiatuba”.

Hoje, o candidato a um cargo eletivo que conseguir ser popular na Morada do Sol, está eleito, com certeza.

Para a comemoração dos 25 anos da Rádio Jornal de Indaiatuba, qual foi o lugar escolhido? Claro: a Morada do Sol, onde a emissora tem audiência quase total.

Nestes 30 anos muita coisa mudou. A fazenda desapareceu para dar lugar às construções e em vez de colonos há um grande número de pessoas vindas de todas as partes do País.

Aqui buscam um novo começo, sonham com uma vida melhor para seus filhos e netos.

Como gostaria que o espírito de despreocupação, alegria de viver, ausência de maldade e libertinagem, tanta droga envolvida, voltasse a imperar nas terras que percorri ao lado de meus primos numa época sem preocupações!

Hoje está lá, majestoso, como o Cristo de braços abertos recebendo todos seus moradores. É o Jardim Morada do Sol, respeitado, populoso e irrequieto; berço hoje, de muitos novos indaiatubanos.

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Nota do Conselho Editor:

1. Texto escrito em 2006.

2. O Jardim Morada do Sol derivou de um loteamento – aprovado pelo Decreto Municipal no. 2081 de 19/03/1980 pelo então prefeito Clain Ferrari - de parte da Fazenda Engenho d´Água


Imagem publicada na Revista Exemplo
Edição número 7
Ano III

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Curta Metragem sobre Preservação Ferroviária - Imagens de 1989/1990



O curta-metragem Preservação Ferroviária no Brasil é um ensaio para um projeto de maior envergadura, ligado a ferrovias, idealizado pelos produtores da VIA WEB TV, Edson Piron, Andrei Schoba e Elton Frias Zanoni.

As imagens do curta foram captadas no antigo sistema VHS, entre 1989 e 1990, com o intuito, à época, de se criar um registro histórico para a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF). Isso não foi levado em frente e, a partir dessas cenas com mais de 20 anos – jamais utilizadas – e de um roteiro escrito há uma década, recuperou-se parte da memória dos trabalhos pioneiros de preservação ferroviária no Brasil.

A intenção, agora, é multiplicar em muitas vezes essa produção inicial. A VIA WEB TV já tem o projeto de um vídeo-documentário que abordará a história de implantação da ferrovia no Brasil, com destaque para o Estado de São Paulo, a situação atual no que se refere aos trabalhos de preservação, bem como os planos futuros de diversas cidades paulistas na área.

O vídeo, que foi disponiblizado em setembro p.p. e que  contém - entre outras - cenas do trem turístico de Paranapiacaba em pleno funcionamento e a restauração  in loco da Estação de Anhumas, em Campinas, está disponibilizado aqui.

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