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Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eleições em Indaiatuba: o que os programas de governo citam sobre a preservação da nossa história, memória e patrimônio material e imaterial.

Este post tem como objetivo oferecer informações para que se analise o futuro da História, da Memória e do Patrimônio material e imaterial de nossa Indaiatuba, tendo como base os Programas de Governo oficiais (que foram apresentados e registrados no cartório eleitoral) dos cinco candidatos à prefeito que estão competindo nessa eleição municipal de 2016, a saber (por ordem alfabética): Bruno Ganem (43), Emanuel Messias (33), Gervásio Silva (14), Nilson Gaspar (15) e Rinaldo Wolf (13).


BRUNO GANEM (43)

O programa de governo do candidato Bruno Ganem é o único que possui um capítulo específico para a Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, que começa relacionando às ações propostas com a Agenda 2030 da ONU*, citanto o  item 11.4  desse tratado internacional:


Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo.

Em seguida apresenta as seguintes ações:
  • Consolidar a mudança estrutural dos arquivos: permanentes, intermediário e biblioteca para a “Casa da Memória” (futura sede da FPMI). 
  • Com essa ampliação, adequar os recursos humanos, revisando e criando cargos técnicos.
  • Manter a sistemática de inclusão e/ou incluir todas as Secretarias, Departamentos, Autarquias municipais que ainda não estejam integradas no Sistema de Arquivo Público do Arquivo Intermediário da FPMI.
  • Facilitar e incentivar a integração e recepção de demais organizações públicas ou privadas no que tange à transferência e doação de fragmentos de história e memória para a FPMI.
  • Prover ações aplicáveis aos patrimônios históricos já tombados e em fase de indicação para tombamento; entre outras ações: 
  • (1) rever a Lei sobre Tombamento;
  • (2) fazer reserva no Fundo da FPMI para fazer manutenções nos bens tombados e;
  • (3) equipar o Conselho de Preservação com profissionais técnicos.

EMANUEL MESSIAS (33)

Nada consta.



GERVÁSIO SILVA (14)

Nada consta.



NILSON GASPAR (15)

  • Dar continuidade e intensificar os projetos de educação ambiental e cultural no Museu da Água.

RINALDO WOLF (13)

O programa de governo do candidato Rinaldo cita a Fundação Pró-Memória de Indaiatuba no capítulo "Cultura, Pró-Memória e Preservação Histórica" e apresenta as seguintes ações:

  • Utilizar o Museu da cidade, abrigando exposições e outros eventos, incentivando a valorização da memória da cidade;
  • Preservar e Restaurar os Prédios Históricos e Tombados pelo Patrimônio Público;
  • Preservar e reconstruir a Tulha do Casarão Pau Preto, integrando seus espaços;
  • Preservar o Museu Ferroviário de Indaiatuba.

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Nota 1: A Agenda 2030 da ONU é um dos tratados das Nações Unidas da qual o Brasil é signatário. Trata-se de um plano de ação com 17 itens subdivididos em várias metas que devem ser implementadas não só pelos países, mas pelas partes interessadas de maneira colaborativa.
Conheça mais sobre a  Agenda 2030 da ONU aqui. 

Nota 2: Para escolher seu candidato, leia os programas de governo de cada um e considere quem é de "coligação" ficha limpa e quem é de "coligação" ficha suja.


OFICINA GRATUITA NO CASARÃO: Introdução à Arte Sacra: do Concílio de Trento ao Vaticano II

A oficina pretende apresentar elementos introdutórios capazes de elucidar as principais modificações ocorridas no seio da Igreja Católica Romana entre o Concílio Ecumênico de Trento (1545-1563) e o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), no que se refere à produção artística sacra e à arquitetura e ambientação dos espaços celebrativos, tanto no mundo europeu quanto brasileiro. Serão abordados fundamentos de cunho histórico, litúrgico, artístico e iconográfico que levem os participantes a uma melhor compreensão do tema, em suas múltiplas abordagens.
Data: 08 de outubro de 2016
Horário: 9h às 12h - 14h às 17h
Local: Rua Pedro Gonçalves, 477 – Jardim Pau Preto – Indaiatuba/SP (Casarão Pau Preto).

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

‘Indaiatuba Matsuri’ traz cultura e gastronomia nipo-brasileiras em grande festival nos dias 7, 8 e 9 de outubro

Realizado pela ACENBI, evento unifica e repagina duas outras grandes festas da entidade e será realizado no Salão da Viber


Tornar-se referência em termos de festa cultural e gastronômica da comunidade nipo-brasileira na região de Indaiatuba e Campinas. É essa uma das propostas do “Indaiatuba Matsuri”, evento que a ACENBI (Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Indaiatuba) promove nos próximos dias 7, 8 e 9 de outubro.

A entidade realizou coletiva de imprensa nessa quarta-feira (28 de setembro), em sua sede social, para divulgar o festival. Durante o encontro, a comissão organizadora apresentou a programação do evento. “Gostaria de fazer um convite à população para apreciar um grande festival da cultura japonesa”, destacou o presidente da ACENBI, João Yamate.

De acordo com Yamate, além de divulgar a cultura japonesa, o “Indaiatuba Matsuri” tem a finalidade de arrecadar verba para a manutenção da Escola de Língua Japonesa da ACENBI e para administração da entidade.

Unificação de duas festas
O “Indaiatuba Matsuri” passa a unificar, a partir desse ano, a “Festa do Sushi” e a “Festa do Chopp Bon Odori”, que aconteciam anualmente no segundo semestre. O evento tem um formato ampliado em relação às festas que a ACENBI vem realizando há mais de duas décadas. 

Durante três dias, o “Indaiatuba Matsuri” vai oferecer uma vasta variedade de atrações artísticas, culturais e gastronômicas. A programação foi elaborada para pessoas de todas as idades. 
O festival conta com apoio da prefeitura de Indaiatuba e com parceria e patrocínio de empresas locais e de outras regiões.

Atrações
As atrações incluem shows musicais, apresentações de taiko e danças folclóricas e cosplay, além de oficinas de mangá e de origami, exposições de cerâmica, de bonsai e de fotos.

Entre as principais novidades está a realização de etapa regional do Miss Nikkey Indaiatuba, organizado pelo ator, cantor e humorista Kendi Yamai, que será também o apresentador oficial do “Indaiatuba Matsuri”. Os aficionados por mangá terão a oportunidade de participar da oficina ministrada pelo “mangaká” (autor de mangá) Fábio Shin.


O apresentador oficial do “Indaiatuba Matsuri” e organizador do concurso Miss Nikkey, Kendi Yamai, 
com as vencedoras da edição 2016 do certame: novidade.
Crédito: Divulgação


Já os apreciadores de música japonesas poderão assistir a shows de cantores indaiatubanos e da região. Além disso, estão confirmadas apresentações da cantora Karen Ito, de Edgar Ishida, do grupo En e do Duo Sciotti (os irmãos Derico e Sergio).

As crianças terão um espaço especial para brincadeiras e diversão. No local haverá ainda exposições e estandes comerciais.

Culinária típica
A gastronomia está entre os principais atrativos do “Indaiatuba Matsuri”. O público poderá apreciar os mais variados pratos da culinária japonesa. Entre os pratos típicos mais conhecidos estão o yakissoba, harumaki, sushi, sashimi, tempurá e udon. 
Além dos restaurantes tradicionais, o evento oferecerá também opções de comida japonesa de food trucks. 

Indaiatuba Matsuri
Data: 7, 8 e 9 de outubro de 2016
Local: Pavilhão da Víber – Rua Alm. Tamandaré, 675 – Cidade Nova, Indaiatuba (SP)
Horários:
Dia 7 (sexta-feira) das 18h00 às 23h00 
Dia 8 (sábado) das 12h00 às 23h00
Dia 9 (domingo) das 12h00 às 21h00 
Entrada: R$ 6,00 e R$ 3,00 (meia)
Estacionamento: R$ 15,00

Programação das atrações artísticas

Sexta-feira – Dia 7
19:30 – Cerimônia de abertura
20:00 – Show musical: Edgar Ishida
21:00 – Show de taiko: Ryu Kyu Koku Matsuri Daiko
21:30 – Bon Odori 

Sábado – Dia 8
14:30 – Grupo de Dança Folclórica – ANIBRAS
14:45 – Show musical – ACENBI
15:00 – Sohran: alunos do Nitigo Gakkou
15:15 – Show de taiko: Ryuu Taiko
15:45 – Grupo de Dança Folclórica – ANIBRAS
16:00 – Show musical – ICNBC
16:30 – Bon Odori 
18:30 – Show musical – ACENBI
19:00 – Show de taiko: Houkou Daiko
19:30 – Miss Nikkey Indaiatuba
21:00 – Espetáculo “EN” (Laços do Destino)
21:30 – Miss Nikkey – Resultado
22:15 – Show musical: Duo Sciotti (Derico e Sergio)

Domingo – Dia 9
14:30 – Grupo de Dança Folclórica – ANIBRAS
14:45 – Show musical – ACENBI
15:15 – Grupo de Dança Folclórica – ANIBRAS
15:30 – Show de taiko: Ryuu Taiko
16:00 – Desfile de cosplay
16:30 – Show musical – ACENBI
17:00 – Bon Odori
18:30 – Show musical: Karen Ito com participação de Ryu Kyu Koku Matsuri Daiko
19:30 – Grupo de Dança Folclórica – ACENBI
20:00 – Show de taiko: Ryu Kyu Koku Matsuri Daiko

Observação: Programação sujeita a alteração

Apresentador: Kendi Yamai

Sobre a ACENBI
Sediada em Indaiatuba (região metropolitana de Campinas, SP), a ACENBI é uma associação sem fins lucrativos fundada por imigrantes japoneses em 1947. Sua principal finalidade é a preservação e a divulgação da cultura nipo-brasileira. A preservação da cultura de respeito aos idosos é outra tônica da entidade, que é mantenedora da escola Nitigo Gakko e abriga a escola de educação infantil Miyoji Takahara, em parceria com a prefeitura de Indaiatuba.

Em sua sede de campo, na rua Chile, a ACENBI conta com campos de beisebol e softbol (versão mais leve do beisebol), quadras de gueitebol (jogo semelhante ao críquete e apropriado para a terceira idade) e quadras de tênis de campo, além de piscina e área de lazer. Na sede social, na rua Humaitá, a entidade mantém auditório, salas de reunião, salas de ensaio e salas de aula para cursos diversos.
As atividades da ACENBI são abertas a todos os interessados. Veja mais informações no website da entidade: www.acenbi.org.br

Veja também fotos e outras informações na página da ACENBI no Facebook: 
https://www.facebook.com/acenbi.indaiatuba


Os diretores da ACENBI Roberto Ioneda, João Yamate, Sérgio Saito e Akifiko Morita 
durante a coletiva do dia 28: festa cultural e gastronômica
Crédito: ACENBI/Tao Conteúdo



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ESTUDOS SOBRE A HISTÓRIA DA ARQUITETURA EM INDAIATUBA - Parte 2: DO BARROCO PARA O ECLETISMO

texto de Charles Fernandes

A TRANSIÇÃO DO BARROCO PARA O ECLETISMO EM INDAIATUBA

Indaiatuba nasce em torno da Igreja da Candelária e tem neste prédio seu maior expoente arquitetônico. As residências e comércios que a ladeiam nesta fase inicial possuem arquitetura de “chão” despojadas de adornos ou linguagem.

As construções vernaculares* de Indaiatuba na primeira metade do século XX, atendem apenas às necessidades básicas de obras urbanas, feitas em barro, de pau a pique ou taipa de pilão, com telhados em duas águas, jogando a chuva  para a rua e para um quintal comum que integrava os interiores das quadras. 

É válido registrar, para ilustrar, que o material para executar calhas, somente viria com a ferrovia, e rincões de telhados eram impraticáveis, impossibilitando às residências de ter grandes apêndices. A busca por ventilação para  os cômodos derivava as janelas e portas para a rua, sem recuo algum, e para um quintal, proporcionando uma ocupação longitudinal a via, de obras que evitavam criar oitões aparentes. Desta forma, a cidade adquire um visual formado por sucessivas e ritmadas portas e janelas, dispostas como notas em uma partitura musical. A austeridade de recursos é refletida na quase ausência de adornos e detalhes arquitetônicos requintados, a cidade possui as características do material com o qual suas edificações são executadas e também da função para a qual estas obras atendem. Estas qualidades precedem movimentos de arquitetura contemporâneos em quase 100 anos, não por opção, mas por necessidade.

Casinhas do antigo centro urbano – Esquina da Pedro de Toledo com a Siqueira Campos
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba

Perspectiva de um dia festivo em 1908,
dos casarões do Largo da Matriz, esses mais "elaborados" dos que os demais, pois eram as casas da cidade dos fazendeiros de Indaiatuba. Sentado, entre a primeira e segunda portas à direita, está o Barão de Itaici (Chico Bulão).
(Imagem original do Acervo do Arquivo Público Municipal “Nilson Cardoso de Carvalho” da FPMI)

Com a chegada da ferrovia e com novos recursos econômicos da cafeicultura para a cidade, outro movimento artístico vai suceder o Barroco, que aqui foi apenas insinuado, pela planta e de poucos detalhes no interior da Igreja Matriz. É o Ecletismo, que propõe oposição ao Barroco e substitui esse movimento com ações antagônicas, entre as quais: pressupõe a substituição da produção individual pela produção em série e produtos industrializados e troca a composição livre e imaginativa, pela proporção geométrica e regrada. 

       É a oposição de um movimento emocional e subjetivo, por um movimento racional e científico, baseado em novas ciências como a Arqueologia, e ideologias, entre as quais se destaca o Positivismo. É a arte se adequando à era da produção industrial.

       Na Igreja da Candelária, para se encaixar às novas linguagens, trazidas pela ferrovia e pelos imigrantes europeus, os campanários foram aumentados e receberam uma cobertura que lembra obras vitorianas.

       O retábulo-mor da Candelária não é original, é uma obra eclética que substituiu o original em data a ser confirmada, com elementos neoclássicos e vitorianos, sobre um raciocínio compositivo que vem de perspectiva barroca, o que seria uma incoerência para o raciocínio compositivo eclético, e que poderia pronunciar um possível formato original, muito semelhante à igreja Candelária de Itu, e que teria sido base para a substituição que implantou os foles do órgão.  

       Os parapeitos das tribunas laterais ao altar mor, são os elementos remanescentes que mais se assemelhariam a linguagem do retábulo original.
Retábulo do Altar Mor da Igreja da Candelária de Indaiatuba (Foto de Mônica Carolina).
Na imagem abaixo, procura-se ilustrar a evolução da linguagem dos retábulos das igrejas de nossa região, e a inserção da Matriz de Indaiatuba nesse contexto. A composição do retábulo de Indaiatuba é claramente semelhante aos modelos barrocos do Carmo e da Candelária de Itu; o retábulo da Igreja de Helvetia (fim do séc XIX) ilustra as tendências Neoclássicas que migram com os europeus e que vem substituir o Barroco por uma nova arte, mais regrada e geométrica, apoiada em novas normas compositivas.



A Igreja da Candelária de Indaiatuba foi o primeiro edifício de grande porte da cidade, e retrata a vontade de trazer para a cidade um pouco da importância da populosa Itu, onde as referências dos prédios desta cidade são muito presentes na composição. Os poucos elementos e sua singela fachada refletem a austeridade de nossas condições econômicas;  mas o porte grandioso, apesar dos poucos recursos da época, retrata a fibra que possuíam os primeiros indaiatubanos. O compasso com as construções das cidades importantes da região ilustram a importância gradativa que a cidade vai ganhando no contexto regional.   

Campanários e frontão da Igreja da Candelária de Indaiatuba (foto de Mônica Carolina)

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ESTUDOS SOBRE A HISTÓRIA DA ARQUITETURA EM INDAIATUBA - Parte 3: ECLETISMO parte I

texto de Charles Fernandes.

AS REFERÊNCIAS ECLÉTICAS NO BRASIL E EUROPA

Como já exposto no texto "Estudos sobre a História da Arquitetura em Indaiatuba - Parte 1: Barroco (que está aqui), a construção de nossa igreja da Candelária pode ser considerada como uma obra de Barroco Tardio. A arquitetura do Brasil, já naquela época, era influenciada pelas novas ideias de vanguarda que percorriam o mundo e que influenciavam ou até determinavam as artes em geral, e entre elas, a arquitetura.

Havia chegado em 1816 no Rio de Janeiro, precedendo em 23 anos a construção da Candelária, um grupo de artistas trazidos por D. João VI que ficou conhecido como Missão Francesa, que teve como destaques a presença do pintor Jean Baltiste Debret e do arquiteto Grandjean de Montigny,  que trariam uma nova linguagem, chamada NEOCLÁSSICO.  

Projeto de Casa com Jardim – Grandjean de Montigny – início do Séc. XIX

Esta linguagem artística buscava retomar o uso dos elementos de arquitetura clássica, e seu léxico* construtivo, retomando as relações geométricas da composição das construções utilizadas na Grécia e Roma antigas. Essa influência também é encontrada de forma semelhante no Renascimento, ocorrido no século XV, sobretudo nos tratados clássicos preservados por monges copistas e miniaturistas, como por exemplo nos livros de Vitrúvio do Século I a.C. O Neoclássico tem como característica a busca racional, de forma científica, das regras e proporções das construções da antiguidade grega e romana,  através de estudos arqueológicos.

O templo Grego

RAÍZES HISTÓRICAS DO ECLETISMO

Com a presença da Família Real no Brasil, e a abertura dos portos às nações amigas (entenda-se Inglaterra, as demais estavam tomadas pelo inimigo Napoleão), cresce a influência comercial inglesa que exporta seus produtos industrializados para cá e que passa, também a partir de 1835, a influenciar a instalação das ferrovias, estações e paradas de trem, implementadas no então Ciclo do Café, para escoar a produção dos grãos para os portos. 

Ampliar mercados consumidores como o Brasil e outras nações do continente americano, bem como partilhar parte da Ásia e África em neo-colônias consumidoras dos produtos da Revolução Industrial que começou na Inglaterra e se espalhou rapidamente pela Europa, era uma estratégia que consolidou o capitalismo industrial. Esse neo-colonialismo foi justificado, de certa forma,  por ideologias como o Darwinismo Social e o Positivismo, que defendiam respectivamente a superioridade da ciência e da tecnologia e, portanto, a superioridade de nações científicas e industrializadas sobre sociedades míticas e religiosas. Urgia ampliar os mercados de consumo a qualquer custo.

A busca pelo conhecimento científico e tecnológico criou novas ciências como a Antropologia e a Arqueologia. É a era da indústria, da máquina e da ciência, mas também de novos conceitos artísticos advindos de tudo isso, como por exemplo, o conceito de MODA, que irá substituir os movimentos artísticos autênticos por ESTILOS que se sucedem uma após outro, de maneira rápida, até os dias de hoje.

MODA é um novo atributo concedido a produtos industrializados, que tem como objetivo, fazer um objeto perder importância, antes de ser gasto ou perder a função pelo uso, para que seja DESCARTADO de maneira precoce, dando lugar ao CONSUMO DE NOVOS PRODUTOS. A cada novo ciclo produtivo, um estilo diferente é eleito e usado para caracterizar o que é novo, o que é MODERNO. Moda vem justamente dessa palavra: moderno. Para viabilizar a sustentabilidade da economia capitalista pautada no lucro crescente, e a indústria passa a ditar "estilos" que no futuro serão chamados de "tendências".

A MODA FOI, assim, CONCEBIDA PARA AUMENTAR O CONSUMO, relacionando a posse de produtos modernos com status, impondo assim o comportamento classificado como CONSUMISMO.
Os estilos foram inicialmente determinados por RELEITURAS; das antigas obras clássicas, novos tratados foram elaborados para se determinar as REGRAS para execução de maneira sistemática e científica da produção artística. E em pouco tempo a sucessão de vários estilos acaba por criar todo um novo movimento artístico, baseado na utilização de elementos formais detalhados por tratados e estudos arqueológicos. Esse movimento é chamado de ECLETISMO.

Palácio da Concórdia – Petrópolis -  1862 – ESTILO Neoclássico 

O prefixo NEO, é utilizado para determinar RELEITURAS, e cada novo estilo, recebe um “rótulo”. Rotular é importante para determinar um conjunto “estético” a ser superado pela próxima onda de produtos. Tivemos no Brasil o Neoclássico, o Neocolonial que poderia ser chamado de Neobarroco, o Neogótico também chamado de Vitoriano, o Neoveneziano, o Mediterrâneo, Art Déco, Art Nouveau, e assim sucessivamente.
Elisabeth Tower – Londres - 1859 – ESTILO Vitoriano, ou Neogótico, lar do famoso sino Big Ben.

Alguns destes ESTILOS tiveram caráter Nacionalista, exaltando as qualidades de uma nação através da reprodução de sua história em novas construções, com intenções ideológicas e de propaganda, um exemplo é o ESTILO Vitoriano, também conhecido como NEOGÓTICO, que reproduzia elementos presentes na arquitetura tradicional inglesa de seus castelos medievais. Este ESTILO é muito presente nas construções ferroviárias brasileiras, fruto da propaganda de universalização da Cultura Inglesa.

Torre do Relógio de Paranapiacaba - Município de Santo André (SP)
Um exemplo brasileiro de ESTILO NACIONALISTA, foi o Neocolonial, que buscou exacerbar as qualidades da arte BARROCA brasileira, fazendo releituras deste movimento. Em Indaiatuba, temos dois ótimos exemplos de neocolonial, o Hospital Augusto de Oliveira Camargo, e a Vila Kostka.

Também em nossa cidade, testemunhamos que nossa igreja da Candelária, recebeu reforma para que seus campanários assumissem linguagem de ESTILO vitoriano, supostamente mais MODERNO que o antigo BARROCO, assumindo uma linguagem mais EUROPEIA, mais INGLESA. Este é um exemplo de como as novas linguagens tendem a substituir ou modificar uma arquitetura autêntica com critérios duvidosos; buscar a vanguarda é sempre necessário, mas nunca esquecendo nossa história, nossa originalidade.

Em algumas situações a soma das referências não determina uma releitura coesa, nem o uso rigoroso de um tratado clássico,  e o conjunto pode ser chamado de ECLÉTICO. O ecletismo é um movimento artístico compositivo, que se utiliza de elementos formais apropriados de releituras de obras de várias épocas históricas.

Teatro Municipal de São Paulo –  ESTILO Eclético -  1911
Obra do arquiteto Ramos de Azevedo, mesmo arquiteto do HAOC
As referências não são somente do léxico* Clássico e seus elementos formais como pilastras, arcos, entablamentos e frontões. Muitas vezes todo o formato de um edifício é usado como base para uma nova obra. Alguns modelos de PLANTAS são adotados como referência, devido a uma função semelhante, como por exemplo, os grupos escolares construídos no Brasil após a Proclamação da República: alguns tinham que ter duas alas, para meninos e meninas, sendo releituras da implantação de Versailles, ou dos hospitais, que por necessitarem de janelas externas e corredor de serviços, são releituras também de mosteiros do Brasil Colonial.

Por outro lado, a busca pelo conhecimento científico, a quantificação e a métrica baseado no uso de novos materiais, como o aço e o concreto armado, vão exaltar uma nova função: a do ENGENHEIRO, que projeta máquinas e estruturas que se tornam as novas obras de arte. A proximidade com a tecnologia passa a produzir construções baseadas nas necessidades, que chamamos de Funcionalismo; e nos materiais com eram construídos que chamamos de Racionalismo, estas serão a base de um novo movimento artístico que surgirá somente no século XX e substituirá o Ecletismo.

Edifício Banespa – São Paulo – Art Déco (tardio) - 1947

No final do século XIX e início do XX, a tecnologia e os novos materiais de construção passam a ter necessidades que NUNCA ocorreram na história, derivadas da intenção de se RACIONALIZAR o uso dos materiais de construção. O aço não comporta imitar uma coluna grega, e precisa de uma nova estética. Os últimos ESTILOS da vanguarda eclética, não possuem mais a história como referência: O ART DÉCO, busca nos elementos geométricos as soluções para suas necessidades, e o ART NOVEAU, busca elementos vindos da  natureza para determinar suas formas.

Metrô de Paris – Art Noveau - 1901
Quando o pintor deixa de RETRATAR a paisagem, e UTILIZA ABSTRAÇÃO para pintar a luz que incide sobre o amarelo de um campo; quando um pilar deixa de imitar uma coluna grega, e RACIONALIZA seu desenho para otimizar o aço com o qual é feito, e  as referências passam a ser as formas da natureza, tiradas do caule de uma flor, estão aí traçadas algumas das ideias de um novo movimento artístico, que surgirá no início do século XX e será chamado de Modernismo.

A ALVENARIA INDUSTRIAL INGLESA NA ESTAÇÃO PIMENTA E TULHA DO CASARÃO PAU PRETO.

A alvenaria industrial inglesa, que pode ser considerada uma das primeiras versões históricas de industrialização e produção em série em arquitetura, é uma inteligente solução para executar projetos concebidos pela Inglaterra para receber seus equipamentos e máquinas vendidos para qualquer lugar do mudo. Este estilo é determinado por uma técnica construtiva, baseado em matérias que existem em praticamente qualquer local onde uma ferrovia possa chegar. Os engenheiros ingleses desenvolvem soluções para serem implantadas apenas com tijolos de barro, pinho de riga das caixas de peças e estruturas que utilizam o aço dos trilhos e poucas peças pré-moldadas importadas. A linguagem dos prédios é fornecida pela textura capaz de ser obtida através do assentamento dos tijolos aparentes.


 Estação Pimenta primeira construída em Indaiatuba (e que, por algum tempo foi chamada de Estação de Indaiatuba)  para receber a estrada de ferro Ituana em 1873. 
Todos os elementos históricos que dão certa linguagem ao prédio, na verdade possuem função estrutural, são vergas retas de portas ou arcos de tijolos, pilastras e oitões de empenas laterais que sustentam estruturas muitas vezes feitas de trilhos de trem e tirantes metálicos ou madeira da região.

Os prédios das estações e galpões utilizados pelas ferrovias possuíam projetos TIPO, utilizados em vários diferentes locais, sempre atendendo as mesmas necessidades e otimizando os materiais empregados. A Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, possui acervo de projetos TIPO de estações, pontilhões e galpões de trem, utilizados para construção de várias estações da região.


Estação da estrada de ferro Sorocabana em OITI, tipologia muito semelhante a Estação de Pimenta.

O prédio da Tulha do Casarão Pau Preto foi construído para receber maquinário adquirido para beneficiamento de café, e desenvolvido com os mesmos recursos e tecnologia, das estações ferroviárias, lembrando que estas pesadas e volumosas máquinas, apenas conseguem chegar por nossas terras com o advento da chegada da os trens. A alvenaria Inglesa é uma ferramenta de capacitação de mercados de consumo para receber com velocidade os equipamentos adquiridos. Na região, temos uma tulha semelhante, na Fazenda Mato Dentro, sede do Parque Ecológico de Campinas.

Tulha do Casarão Pau Preto, construída no século XIX em foto tirada na década de 1980.
Em detalhe as pilastras e entablamentos feitos e relevo no assentamento de tijolos aparentes.
Casarão e Tulha em foto atual (crédito na imagem)

O NEOCLÁSSICO DA CASA DE CÂMARA E CADEIA

Alguns ESTILOS ecléticos foram adotados como referência para identificar edifícios que atendem características semelhantes. O NEOCLÁSSICO foi adotado como estilo de alguns prédios públicos, sobretudo os administrativos. A Casa de Câmara e Cadeia de Indaiatuba foi o MAIS INTERESSANTE EXEMPLAR da arquitetura Eclética que tivemos na cidade, com utilização rica de elementos derivados da arquitetura clássica, cuja proporção geométrica  de sua forma se apresenta sob as regras da proporção ÁUREA.


Casa de Câmara e Cadeia – 1889 - Neoclássico - Estudos do autor sobre proporcionalidade do projeto


A Casa de Câmara e Cadeira, possui uma linguagem ECLÉTICA com base no Neoclássico, pois alguns elementos, como o adorno que marca a porta principal, em arco pleno,  acima do ático, são fruto de licença compositiva Eclética.

Ilustração feita por computação gráfica pelo autor, indicando alguns elementos formais clássicos da composição da Casa de Câmara e Cadeia

Após os surtos de doenças infecciosas como febre amarela e tuberculose, a legislação sanitária do fim do século XIX criou algumas exigências, que marcaram as edificações desta época. O novo Código Sanitário  exigia que as construções se elevassem do solo, para evitar contato com umidade,  criando caixões perdidos ventilados, por alçapões visíveis nas fachadas. Elementos formais clássicos atenderam a esta necessidade e as colunas passaram a apresentar  pedestais, que separavam  o nível térreo da rua.  As obras deste período possuíam porões ventilados voltados para a fachada.

Quando os pilares se apresentam em alto relevo na fachada, são chamadas de Pilastras, que são o caso da Casa de Câmara e Cadeia. Cada necessidade de altura em relação ao diâmetro e vão da obra, vai indicar uma ordem clássica a ser usada, e sua norma compositiva, indicada através de módulos, da mais simples, Toscana, para a Dórica, Jônica, Coríntia e a mais ornamentada Compósita. 

 

Abaixo, animação de computação gráfica feita pelo autor indica o formato do prédio da Casa de Câmara e Cadeia, demolido para a construção da Fonte Luminosa da Praça Prudente de Morais:


Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=NUgAI-yzLFE

(continua: Ecletismo parte II)

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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ESTUDOS SOBRE A HISTÓRIA DA ARQUITETURA EM INDAIATUBA - Parte 1: BARROCO

A Igreja da Candelária e nossas referências Barrocas

texto de Charles Fernandes

O Brasil foi descoberto, e na Europa, o Renascimento já estava passando progressivamente para o Maneirismo e logo se transformaria em Barroco.
A transgressão aos tratados clássicos de arquitetura, utilizados na renascença, marca o início do Maneirismo, e foi adotado como arquitetura da Contra-Reforma da Igreja Católica, e em seguida, trazida para o Brasil pelos Jesuítas
As plantas das igrejas Maneiristas e Barrocas abandonaram os transeptos (1) que criavam naves laterais, adotando como modelo ideal uma única nave que recebeu a adição de capelas laterais, que além de exercer função estrutural, suportando as altas paredes centrais, permitiam a inserção de altares de várias ordens religiosas em um mesmo local.
Essas modificações arquitetônicas, somada a inserção da língua local em vez do Latim, foram feitas  com o objetivo de elevar a atenção do fiel para com a missa, fazendo com que ninguém mais assistisse aos rituais  posicionados de lado para o sacerdote. Essa estratégia foi valorizada também na medida em que a disposição do altar mor, presbitério (2) e nave, passou a projetar a voz para uma mesma direção, melhorando a acústica destas igrejas, em comparação com as anteriores. 
Esse conjunto de diretrizes de construção, proposta no Concílio de Trento a partir de 1545,  foi amplamente usada no Brasil, inclusive em nossa Matriz da Candelária em Indaiatuba.

Convento do Carmo em Itu, construído no início do século XVIII, fachada tipicamente barroca, destacando os arcos abatidos das aberturas, e o formato movimentado do frontão (3) A posição das aberturas em relação a porta também é típico destas igrejas. Este convento situa-se no ponto mais elevado do local onde se instala a antiga Ytú e é uma das mais antigas edificações da cidade, podendo ser considerada, junto com a Igreja da Candelária de Itu, como as edificações mais importantes de sua época.

Na nossa região, cuja maior cidade era Itu, as primeiras Casas Bandeiristas, são conhecidas como Arquitetura de “chão”, desprovidas de grandes adornos ou linguagem rebuscada, pois o barro não colabora com a execução de minúcias, o que reflete a austeridade a qual a população era sujeita. Comparar estas casas com a produção do Litoral do Brasil, na mesma época, pode dar interessante panorama dos recursos que nossa região possuía. Enquanto no Litoral, muitos edifícios eram construídos com pedra de cantaria, muitas vezes finamente esculpida e adornada, unidas por cal de ostraria, no Interior de São Paulo, o que se tinha era o barro, de taipa de pilão, ou pau a pique. Essa austeridade ou até simplicidade vale ser citada, mesmo sendo Itu a porta do sertão, e por isso, a mais importante cidade da Província. (Para entender mais, leia O padre Sustentável na Terra do Imperador Menino).

Casa Bandeirista - Sítio do Mandú, século XVII, Cotia.

No Centro do Brasil, um dos maiores artistas do Barroco brasileiro foi Aleijadinho, e a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto é um dos exemplares mais interessantes.

Igreja de São Francisco de Assis, de Aleijadinho, em Ouro Preto. Século XVIII (foto do autor)

O Barroco possui uma estética própria, os ângulos retos e proporcionais da arquitetura clássica são substituídos pelas curvas e pela distorção da perspectiva, que é facilmente observado quando Aleijadinho explode o frontão da Igreja São Francisco de Assis de Ouro Preto, perspectivando-o, causando a impressão de que a igreja se abre para o adro(4) e abraça o observador. Nas imagens da Via Crucis de Aleijadinho, em Congonhas do Campo, podemos notar que as estátuas são quase caricatas, pois o escultor busca a EXPRESSÃO, busca enfatizar algum atributo através do exagero. A Arte Barroca não procura estabelecer regras, ou determinar proporções, ela busca emocionar.  Segundo Giulio Carlo Argan, o Barroco é ..."uma arte que tinha sua sede na imaginação e aspirava despertá-la nos outros. Como a técnica estava a serviço da imaginação e a imaginação era ilusão, a técnica era virtuosismo e até trucagem.”

O conceito absoluto de BELEZA não se aplica em arte, MAS A ESTÉTICA varia conforme movimento artístico, e a estética barroca, tem que ser  observada segundo a  ótica da época.  Cada período artístico possui o que podemos chamar de zeitgest, ou espírito de uma época. Traduzido ao pé da letra em alemão, é o conjunto de situações intelectuais e culturais que se apresenta em diferentes ocasiões  e que move a arte. Isso posto, entenda-se que cada época cria sua estética própria.

Na arquitetura, assim como em todas as artes, a BELEZA é um atributo subjetivo, cabe ao observador determinar, variando assim, conforme cada pessoa. Em arte, raramente você irá ouvir alguém falar em absolutamente belo, pois o que emociona você, pode não emocionar o outro.


Passos da Paixão de Cristo - de Aleijadinho, Congonhas do Campo (foto do Autor).

Grande parte das Igrejas Barrocas, possuem plantas Maneiristas de ângulos retos, mas existem no Brasil igrejas com planta puramente barroca, cujas curvas criam movimento, que faz parecer que o prédio todo chacoalha enquanto o observador o percorre, e a cada canto uma nova perspectiva cria um visual totalmente novo, proporcionando experiências visuais que extrapolam a racionalidade. Essa característica, classificada de diferentes maneiras a partir do que consideramos como "beleza" e "estética" na arquitetura,  é o ápice do Barroco no Brasil.


Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Ouro Preto,  Século XVIII (foto do Autor)

Em nossa região, na Matriz da Candelária de Itu, existe um incrível retábulo(5) Barroco no altar mor(6) todo com colunas torças, ou salomônicas, semelhantes às usadas por Borromini no baldaquino(7) de São Pedro* em Roma, e que se dizia serem iguais às usadas no templo de Salomão, muito utilizadas em interiores naquela época.  Nessa igreja do Século XVIII, o altar principal, chamado de altar mor, é sucedido de altares laterais e da nave principal onde existem capelas laterais; estas capelas também resolvem a necessidade de se transferir as cargas das altas paredes da nave, fazendo as vezes dos famosos arcobotantes(8) e são dedicadas à Santos das ordens religiosas presentes na cidade na época da construção.


 Retábulo Mor da Igreja de Nossa Senhora da Candelária de Itu, do seculo XVIII, há pouco tempo restaurado.

 É comum que o altar mor seja o mais antigo, ou o mais trabalhado, e que as capelas laterais sejam mais simples. Em Itu, o altar mor é de um barroco muito sofisticado, com elementos Rococó,  que marcam a última fase do Barroco. O Rococó, que vem do francês rocaille, se caracteriza por adornos não simétricos, semelhantes a conchas, que induzem ao movimento.

Retábulo Mor da Igreja de Nossa Senhora da Candelária de Itú. Sec. XVIII

Altar mor e interior barroco da Igreja de Nossa Senhora da Candelária de Itu, vista do altar lateral.

A primeira igreja construída no sítio da atual Indaiatuba*, a então Capela da Candelária, não podia ter composição diferente. Apesar de TARDIA, a edificação original em taipa, possui  as características de uma igreja Barroca (embora com poucos adornos, conforme já justificado) e teve sua primeira configuração finalizada em 1839.  É composta por altar mor, seguido dos cadeiris do presbitério e nave única com duas capelas laterais que sustentam as tribunas.

 Planta e corte transversal, feitos em 1838, por João Tibiriça Piratininga retratando a Capela de Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba.


Após modificações, essa capela original se aproxima de outras igrejas que podemos tomar como referência se levarmos em conta o formato dos frontispícios barrocos. Veja a "evolução" e  "adaptação" da linguagem desses frontispícios (fachadas):

Igreja do Carmo – Itu – Início do Sec. XVIII

Igreja de São Francisco de Assis – Ouro Preto – Fim do século XVIII

Projeto do Jazigo do Carmo – Itu - 1837

Igreja da Candelária - Indaiatuba – 1839 


As tribunas da nossa igreja, em pavimento superior às capelas laterais, teriam como função histórica possibilitar local privilegiado para pessoas importantes da cidade. Vale acrescentar que estes elementos e as grandes e altas paredes da nave, sob aspectos construtivos e ambientais, necessitam de estruturação, pois são feitas de barro, e devem ter contidas as forças resultantes perpendiculares à estas paredes. Mas além destas preocupações estruturais, os motivos ambientais são até mais interessantes.

Cortes da igreja, indicando a Candelária de Indaiatuba como construção com tribuna.

A igreja de Indaiatuba NÃO é uma basílica, pois não possui as paredes e janelas da nave diretamente para o exterior; essa disposição indicaria vitrais iluminados para o interior, proporcionando elementos de luz, mas que ao mesmo tempo, aumentaria a insolação da nave, e por consequência o calor de seu interior. 
Ao contrário disso, as janelas são voltadas para um ambiente onde se instalam as tribunas, que funcionam como sacadas abertas, espaço este semelhante a uma varanda, com janelas para o exterior e aberturas para o interior da nave e presbitério, permitindo assim, que janelas façam a ventilação cruzada, sem insolar o interior diretamente, proporcionando luz indireta.
A ventilação cruzada da nossa igreja está relacionada com a diferença de pressão do ar, insuflando ar mais frio e mais denso pelas portas, e retirando o ar mais quente e menos denso, que sobe e é sugado pelas aberturas das tribunas, mais altas, e depois pelas janelas para o exterior. 
Possuir tribunas em ambos os lados, proporciona outro fenômeno físico, onde a incidência de ventilação urbana em lados diferentes, faz a força do vento em uma face da igreja empurrar o ar para a outra face, criando um fluxo laminar, contínuo, entre as janelas de lados diferentes. O ar mais denso, frio e inerte, junto ao piso, vai em direção ao ar menos denso, em movimento contínuo, criando mais tendência a sair pelas tribunas e depois pelas janelas, assim como uma porta de ônibus lotado, quando se abre para um exterior menos denso, com menos pressão.
Ambientalmente a Igreja da Candelária é uma construção que, originalmente, apresenta enorme preocupação com conforto térmico.

No início do século XIX a Candelária de Indaiatuba possuía beirais, e sua imponência hierarquizava todo o entorno. Na fachada, a base do frontão está pronunciado em leve relevo, que determina um entablamento, composto de três partes: friso, arquitrave e cornija; enquanto a base das janelas das tribunas não possui todos estes elementos, e as pilastras são muito simples, toscanas,  exatamente como no Convento do Carmo em Itu.


Igreja Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba e seus beirais

A fachada original da Candelária, possui adornos que tem similaridade com construções da rica e grande Itu, a observar o frontão pouco comum, semelhante a Capela do Jazigo, adjacente ao  Convento do Carmo. As pilastras(9) na fachada, com entablamento(10) levemente pronunciados em relevo, indicando o nível do piso das tribunas laterais e marcando seu frontão recortado, também apresentam semelhança com a Igreja do Carmo. Na Candelária de Indaiatuba, o óculo(11) é substituído por um nicho(12) com sino. 

Conjunto arquitetônico do Convento do Carmo com a Capela do Jazigo à direita

A Capela do Jazigo é construída no mesmo ano que a fachada da igreja da Candelária em Indaiatuba, na década de 1830, e compartilham a mesma linguagem no frontão.
Além de relacionar as influências maneiristas e barrocas na construção da Igreja Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba, pudemos comprovar que a obra está em compasso com as técnicas construtivas disponíveis e se utiliza dos mais habilitados artesãos da região, indicando a inserção da cidade dentro do cenário econômico e político regional da época.

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GLOSSÁRIO

(1) Transepto -  é a parte de um edifício de uma ou mais naves que atravessa perpendicularmente o seu corpo principal dá ao edifício a sua planta em cruz.


Fonte: arteehistoriaepci.blogspot.com.br

(2)Presbitério – espaço que precede o altar mor, reservado aos presbíteros (sacerdotes).



(3) Frontão - elemento formal de arquitetura clássica de forma triangular que decora e encima a fachada principal de um edifício e é constituído de três partes essenciais: a cimalha (base) e as duas empenas (dois lados que fecham o triângulo).



(4) Adro –  Pátio externo descoberto fronteiriço às igrejas.
(5) Retábulo - estrutura ornamental em pedra ou talha de madeira que se eleva na parte posterior de um altar.
(6) Altar Mor – Altar principal da igreja.
(7) Baldaquino - cobertura apoiada de 04 colunas que protege ou indica, um trono, altar ou escultura. 


Interior da Basílica de São Pedro em Roma, projetada por Bramante, 
e seu o baldaquino projetado por Borronini.


(8)Arcobotante é um elemento estrutural em forma de meio arco, erguida na parte exterior dos edifícios na arquitetura gótica para apoiar as paredes e repartir o peso das paredes e colunas.



(9) Pilastras – são pilares embutidos em uma parede que se apresentam em relevo, Os pilares possuem secção quadrada e as colunas, secção circular.




(10) Entablamento -  Elemento formal de arquitetura clássica, a parte superior de uma construção, acima das colunas, composta de arquitrave, friso e cornija.

(11) Óculo - elemento arquitetônico, sendo uma abertura na fachada ou no interior que pode ser redonda ou de outras formas, localizada geralmente acima de uma abertura principal ou inclusa em frontões.



(12) Nicho - reentrância ou vão em parede ou muro onde se colocam estátuas, imagens.


CONCEITOS E DEFINIÇÕES

Este texto é voltado para o maior e mais novo grupo de estudiosos de arte e arquitetura da cidade de Indaiatuba, e que tem se destacado pela avidez por informações de sua história e cultura: os jovens alunos das escolas de nosso município. E para direcionar as informações de forma a facilitar a sua compreensão, é necessário introduzir alguns conceitos prévios sobre Arquitetura.

Vanguarda: Em Arte e Arquitetura, os estudos são feitos sobre o que é novo, sobre o que mudou, sobre o que foi criado ou introduzido em determinada época. Reproduzir o antigo não vai lhe render o título de vanguardista. Os maiores artistas de todos os tempos são lembrados por trazerem algo inovador na maneira de se pensar arte, na técnica ou maneira de se fazer arte. Quando alguma obra de arte, de certa importância é lembrada, mas que não é vanguardista, costumamos dizer que é “tardia” ou “anacrônica”, ou seja, está fora de compasso com a vanguarda.

Arte e Tecnologia: Arquitetura é a fusão de duas palavras, “arte” e “técnica”,  portanto pode refletir tanto características culturais e sociais, revelando, por exemplo, costumes de uma época, quanto de economia e tecnologia reproduzindo na maneira como se construía, a riqueza ou escassez de recursos de uma região.

Visão Horizontal, o olhar para o lado, para o que acontece junto! Arquitetura é uma ótima maneira de se estudar conteúdos diferentes de maneira simultânea, e exercita no jovem a necessidade de se entender as coisas de maneira transversal, sobrepondo datas e fatos históricos, com conhecimentos de biologia, geografia, filosofia e tudo mais que se pode estudar sobre o homem e o meio onde habita.

Patrimônio Histórico e Arquitetônico: A arquitetura é fruto das necessidades do homem, feita para certos fins, em certa época, portanto é muito comum que alguns edifícios entrem em desuso ou recebam outras funções com o passar do tempo, alguns são revitalizados e recebem novas funções, outros são recuperados, restaurados e voltam a atender funções semelhantes. No entanto, sempre que um importante edifício é demolido ou totalmente descaracterizado, alguma coisa da história se perde, e também se vai um pouco da identidade e das lembranças de cada um dos habitantes. Uma cidade sem lembranças é uma cidade sem identidade.

Quanto a ventilação e conforto térmico de prédios históricos, abordado na Igreja da Candelária, podemos ter duas abordagens:
           Uma diretamente relacionada a Física e Biologia, de evaporação da transpiração do corpo humano e como ela interage com o ambiente arquitetônico. Quando o corpo humano atinge o que chamamos de “calor latente” onde não consegue, por meios passivos, controlar o excesso de energia, ele inicia um processo de doação desta energia ao ambiente, através da produção de suor, e da EVAPORAÇÃO, deste líquido junto ao corpo. Cada grama de água necessita de 1 caloria para mudar de estado físico, e as moléculas de água em estado líquido, literalmente, roubam energia e saltam do corpo mudando para vapor d’água. O ambiente entra neste processo proporcionando meio INSATURADO de vapor, seco, próprio para que novas moléculas mudem de estado físico. Ao ventilar um corpo humano, você retira de sua superfície a camada de ar saturada de vapor, úmida, e proporciona que mais suor se evapore criando a sensação de ESFRIAR.

Na verdade o frio em si, não existe, o que existe é energia, calor é a sensação proporcionada pelo excesso ou ganho de energia, e frio é sensação de falta ou perda de energia; ao retirar energia de um corpo, doando para a água passar de líquido para vapor, estamos “sentindo” esfriar, o que na verdade é a perda de energia. Um ótimo exemplo disso, é quando assopramos um prato de sopa, nosso sopro não possui capacidade térmica para trocar tanto calor com a sopa quente, a ponto de esfriá-lo rapidamente, mas na verdade, ele retira a fumacinha de vapor d´água de cima do prato, e possibilita que mais sopa evapore, e esfrie o prato. Outro exemplo é a velha TALHA de BARRO, que mantém sempre a água fresquinha, somente porque o barro não é impermeável, e quando a talha fica suada, por causa da água que consegue atravessar suas paredes, ela imita o corpo humano, evaporando e esfriando a talha; se  pintarmos a talha, impermeabilizando-a, ela não esfriará a água. Em arquitetura, proporcionar ventilação pode contribuir com a SENSAÇÃO de conforto através da troca de energia com o ambiente. 

Quando muita gente se aglomera em um ambiente, toda essa troca de calor pode esquentar sensivelmente o local, e para retirar este ar quente, trocando-o por outro mais ameno, entramos então com nossa segunda abordagem, Aerodinâmica Arquitetônica, ou estudo do movimento do ar em edifícios.
O raciocínio é bem simples, com poucos fenômenos:
Quando aperta de um lado, é melhor ir para onde não está apertado, portanto o ar com mais pressão, tende a se movimentar para onde o ar possui menos pressão.
O calor, faz com que as moléculas se movimentem mais, ocupando mais espaço que a mesma quantidade de moléculas mais frias, o ar mais quente é menos denso e mais leve, que o ar frio mais pesado. O ar quente tende a subir e o ar frio a descer.
Ao se movimentar o ar adquire menos pressão que o ar parado, e o ar parado com mais pressão, tende a ir para onde o ar se movimenta com menos pressão. Esse fenômeno entre outras coisas, é usado nas asas dos aviões e pás de helicópteros, onde a superfície de cima é convexa, abaulada, e a de baixo mais plana, o ar ao passar pela asas, percorre mais superfície na parte de cima que na parte de baixo, e adquire mais velocidade acima, e por consequência menos pressão, este diferencial de pressão entre a parte de cima e de baixo dá sustentação a um avião.

                Proporcionar Ventilação em arquitetura visa criar situações contínuas para a movimentação do ar dentro de um ambiente. Entendendo as características citadas, o arquiteto projeta caminhos onde separa o ar com mais pressão determinando saídas que somente são possíveis quando se proporciona entrada de ar com diferenciais de pressão e temperatura, chamamos isso de Ventilação Cruzada.
                Criar Ventilação Cruzada,  visa determinar aberturas geralmente em locais altos do prédio para retirar o ar quente, e insuflar ar frio geralmente por baixo em outras aberturas, criando movimentação no ar.
                Dotar o prédio com aberturas para lados diferentes, também cria diferentes pressões do ar nas faces, e faz com que haja movimento contínuo do lado de maior pressão para o lado de menor pressão, levando com este movimento, ar de outros ambientes que tendem a ir para onde o ar está se movimentando.
                Estas preocupações com conforto térmico e ventilação são constantes em prédios históricos, pois a falta de tecnologia exigia que os cuidados ambientais com o edifício fossem muito maiores que nos dias de hoje, na busca por construções mais sustentáveis devemos olhar com mais cuidado e carinho para nosso passado.
           
Para compreensão de outros fenômenos relacionados ao conceito de conforto térmico em edifícios históricos, leia O Padre Sustentável na Terra do Imperador Menino", onde achará conteúdos de insolação e inércia térmica.

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Quer colaborar, criticar, acrescentar informações a este estudo? 
Escreva para elianabelo@terra.com.br ou charlesarquiteto@terra.com.br

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