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Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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terça-feira, 25 de abril de 2017

Manchete Histórica

Gosta de História do Tempo Presente?

Pois na noite de ontem, 24 de abril de 2017, na Câmara Municipal de Indaiatuba, tivemos uma votação histórica, altamente representativa e que pode sinalizar de forma bastante veemente os novos tempos da Histórica Política de nossa cidade.

A pedido do próprio prefeito municipal Nilson Gaspar feito através do Ofício APPL/GP5/2017, os vereadores votaram a retirada do Projeto de Lei no. 23, emitido pelo próprio Executivo, que solicitava dotações orçamentárias suplementares (em outras palavras - ADITIVO) no valor de R$ 2.400.000,00 (dois milhões e quatrocentos mil reais) para a obra da Rodoviária, que deveria estar pronta em 2016.

A retirada do projeto de pauta, que iria para a 2a. votação, aconteceu depois que os 3 (três) vereadores da Oposição solicitaram, através de Requerimento, informações sobre o valor aditivado. Vale registrar que os vereadores da situação, em primeira votação, foram unânimes em APROVAR o valor aditivado.

Qual é a sua análise?


"Projeto de Lei nº 023/2017 do Executivo Municipal – dispõe sobre alteração das 
leis municipais nº 6218 de 14 de novembro de 2013, que dispõe sobre o Plano Plurianual 
de investimento, Lei nº 6.580 de 21 de junho de 2016, que dispõe sobre as diretrizes para 
a elaboração da Lei Orçamentária de 2017 e Lei nº 6650 d e07 de dezembro de 2016, 
que Aprova o Orçamento do Município para o exercício de 2017, e dá outras providências. 
2ª VOTAÇÃO   (OFICIO APPL/GP 5/2017 – EM solicitando a RETIRADA)".

Fonte: ROTEIRO PARA A 10ª SESSÃO ORDINÁRIA – 24/04/2017, emitido pela Câmara Municipal de Indaiatuba.





quarta-feira, 19 de abril de 2017

Todo dia era dia de índio

 Texto de Maria Luisa da Costa Villanova
Historiadora pós-graduada em arqueologia


Conhecida música da Baby do Brasil é sempre lembrada em 19 de abril ou Dia do Índio.

O dia 19 de abril é Dia do Índio, não só no Brasil, mas em todo continente americano. É que nesta data em 1940, foi realizado no México, o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, onde foram convidados governantes dos países participantes e também vários líderes indígenas, estes, depois de muito hesitarem, resolveram comparecer entendendo a importância do acontecimento. No Brasil a data comemorativa foi criada por Getúlio Vargas em 1943, através do decreto lei 5.540.

Ainda hoje importante, pelo menos neste dia, vários eventos ocorrem, o que ajuda na reflexão sobre a preservação e manutenção das terras e cultura desses povos que são realmente os donos dessa terra.

Nossa cidade, Indaiatuba, é uma junção de dois termos da língua tupi-guarani: "Indaiá" que designa um tipo de palmeira, e "tuba", que equivale a grande quantidade. Portanto,  "Indaiatuba" significa " muitos Indaiás".

Assim como nossos indaiás, nossos índios também não são mais encontrados por aqui.

A região do estado de São Paulo, era habitada por tribos indígenas que falavam línguas pertencentes ao tronco linguístico macro-jê, (grupos indígenas viviam nas proximidades das nascentes de córregos e rios, viviam basicamente da coleta de frutos e raízes e da caça), desde aproximadamente 12000 a.C., até aproximadamente o ano 1000 quando então tribos falantes do tronco linguístico tupi, vindos do sul do Amazonas, começaram a ocupar o litoral brasileiro, foram estes os primeiros a ter contato com os portugueses, quando estes chegaram.

Mas voltando a falar sobre nossa cidade, Indaiatuba acredita-se tenha sido ocupada por grupos tupi-guarani, e a maior comprovação vem principalmente das descobertas feitas  em Monte-Mor.

Na Rua Siqueira Campos 169, jardim São Jorge ,em Monte Mor, temos o Museu Elizabeth Aytai, que foi fundado em novembro de 1988 pelo antropólogo húngaro que aqui vivia, Dr. Desidério Aytai, que foi procurado por um fazendeiro da região dizendo ter encontrado em suas terras objetos que deveriam ser de índios, foi então encontrada a primeira urna funerária tupi, com cerca de 800 a 1000 anos de idade, assim como muitos objetos, muitos ainda no referido museu.

Aqui em Indaiatuba, existe uma tradição oral de que onde hoje é a Praça Prudente de Moraes, havia um cemitério indígena e que ainda hoje os prédios do Correio e vizinhos acontecem alguns barulhos estranhos, já pesquisei bastante sobre o isso e não consegui nenhuma comprovação, mas.....

Nessa época de informática, se quiser saber mais sobre nossos índios e até participar de jogos, entre no: https://mirim.org/.





terça-feira, 18 de abril de 2017

Registros da Convenção Republicana de Itu de 1873

  Registros da Convenção de 1873 existentes no Arquivo do  Museu Republicano

Dra. Anicleide Zequini – ani.zequini@usp.br

 Artigo publicado em: ZEQUINI, Anicleide. Registros da Convenção de 1873 e o Museu Republicano de Itu. Revista da ACADIL:Academia Ituana de Letras. vol. XVII, ano XVII, 2015

1- A ferrovia e o Clube Republicano.
A cidade de Itu, em 17 de abril de 1873, um dia antes da reunião dos núcleos ou Clubes Republicanos paulistas e que ficou conhecida como “Convenção de Itu”, a cidade encontrava-se em festa, em meio às comemorações em torno da inauguração da estrada de ferro Ituana.



Inauguração da Estrada de Ferro Ytuana em 1873. Litografia de Jules Martin. Acervo: Museu Republicano

Companhia Ituana de Estrada de Ferro foi organizada em 1870, a partir da venda de Ações e teve como uma de seus idealizadores e primeiro presidente José Elias Pacheco Jordão, um dos principais lideres do Partido Conservador da Província de São Paulo.  José Elias foi também agricultor em Rio Claro onde possuía fazendas de Café e um dos pioneiros nas experiências com o trabalho livre em regime de parceria (Costa Nogueira, 1954, p.216). 
Esta ferrovia, considerada na época, “uma utopia um sonho” conforme opinião publicada na Imprensa Ytuana em 26 de agosto de 1888 após o falecimento de José Elias Pacheco Jordão era também em outros comentários considerada um símbolo da modernidade e do progresso econômico local. Idealizada e custeada pelos fazendeiros da região com vistas a intensificar a comercialização de produtos agrícolas como o café, o algodão e a cana de açúcar, integrando-se com a cidade de Jundiaí, entroncamento da linha ferroviária da São Paulo Railway, com a cidade de São Paulo e com o Porto de Santos [1].
Há pelo menos dois documentos no acervo do Museu Republicano referentes  da inauguração da ferrovia ituana. Um deles é o texto intitulado Recordações Históricas – 1873, escrito por Cesário Motta Junior em 1890. Cesário foi uma testemunha ocular dos fatos, pois acompanhou seu pai a Convenção de Itu. 
O texto de Cesário Motta descreve as festividades e o espírito da cidade nos idos de abril de 1873, como toda enfeitada com “ala de bambus e palmeiras”, e arco “encimado por um anjo, com o dístico “Ao Progresso Ituano”. Este documento foi amplamente utilizado para reconstituir aquela inauguração que é considerada por muitos autores como decisiva para a escolha do dia e da localidade para a realização da Convenção de Itu. Mas, segundo Ana Luiza Martins a ferrovia trouxe também “para uma festa da Monarquia, 133 representantes dos clubes republicanos de 17 municípios paulistas”. (Martins, 1989, p.46).
Outro documento relacionado à ferrovia é uma litografia de autoria de Jules Martin[2] que, certamente esteve presente na inauguração, pois o seu desenho corresponde às descrições publicadas pela imprensa local. Cerca de seis mil pessoas presenciaram a inauguração da estrada e da estação da Ytuana, um número muito expressivo, pois a população total de Itu, em 1873, era estimada em 10.821 habitantes destes 4.245 eram escravos (Martins, 1989, p. 47).
Vieram visitantes de toda a região para a festa, sendo que o largo da Estação Ferroviária transformou-se em um amplo estacionamento para as carruagens e troles. Além disso, observou-se a presença, conforme o anúncio publicado no jornal O Ytuano de 25 de março de 1873, de uma grande fileira de dois andares de palanques com camarotes, especialmente construídos para o evento e alugados por José Januário  e Irmão.
Esta litografia foi reproduzida em um dos painéis de azulejos existentes no saguão de entrada do Museu Republicano, intitulado Inauguração Solene da Estação de Itu – 18 de abril de 1873[3].  Para Affonso Taunay, esta imagem talvez seja o mais antigo documento impresso da iconografia ituana, o qual representa “a estação recém-inaugurada de Itu e sua vizinhança no momento da chegada do trem inaugural que trazia o presidente da Província de São Paulo Dr. João Teodoro Xavier”(Taunay, 1946, p. 44).

Em 1870, ano em que se organizou a sociedade para a construção da estrada de ferro ituana, integrantes do partido liberal radical do Rio de Janeiro, publicaram no jornal A República, veículo de propaganda do Partido Republicano do Rio de Janeiro, um documento com o titulo de Manifesto de 1870, documento, considerado como o “registro de nascimento” do Partido Republicano no Brasil.
Em Itu, o movimento republicano se institucionaliza e dá os primeiros passos para a organização do Partido Republicano local, em 1871, com a formação do “Club Republicano” de Itu. Neste ano, a cidade que foi considerada umas das mais importantes da Província de São Paulo, especialmente pela produção do açúcar,  chá e do algodão, tinha em funcionamento a fábrica de fiação e tecelagem São Luiz, a primeira fábrica de tecidos a vapor da Província de São Paulo [4].
Em 15 de setembro deste mesmo ano, um daqueles simpatizantes da republica, e que se autodenominou “um observador”, ao traçar elogios à formação do Clube ituano, por meio do jornal Correio Paulistano, afirmou que naquela localidade o grupo republicano não fora formado apenas por liberais radicais, mas também, por conservadores. Afirmou ainda que, esta particularidade estava relacionada ao fato de que: “envergonhemos-nos do papel ridículo que temos feito e não sejamos mais o mero instrumento de especulações políticas”.
Segundo a primeira Ata deste Clube, documento do acervo do Museu Republicano e datado de 31 de dezembro de 1871, a diretoria foi formada por João Tibiriçá Piratininga, presidente; Antonio Francisco de Paula Souza, secretário; Ignácio Xavier de Campos Mesquita, 2º. Secretário; João Tobias de Aguiar e Castro e Francisco Emigdio da Fonseca. Todos participariam da Convenção de Itu em abril de 1873.
Uma de suas deliberações foi o encaminhamento ao Clube Republicano do Rio de Janeiro, autores do Manifesto de 1870, da adesão dos ituanos ao movimento. Este documento, contou com 140 assinaturas de membros que se declararam lavradores, capitalistas, negociantes, dentistas, farmacêuticos, advogados e artistas. Observa-se que muitos deles eram formados pela Faculdade de Direito de São Paulo, embora não se declarassem bacharéis, mas que passaram a exercer outras atividades após a formação como de fazendeiros, funcionários públicos, delegados, juízes de paz, entre outros. Vale salientar que muitos daqueles formaram importantes lideranças políticas no período imperial brasileiro [5].
Assim, ficaram registradas na primeira Ata do Club de Itu de 1871 as motivações que levaram a  adesão ao Club Republicano do Rio de Janeiro:
“Cincoenta anos de triste experiência monárquica convencerão aos abaixos assinados, lavradores, capitalistas, comerciantes, que só o governo do povo e para o povo é que podem vir a felicidade, progresso e engrandecimento de uma pátria. Em conseqüência protestam eles contra a atual anarquia monárquica e seus corrompidos e desmoralizadores desmandos e regozijam-se em poder participar do Club Republicano do Rio de Janeiro, que envidarão todos os seus esforços para que a “Republica Federativa” seja em breve uma realidade entre nós”.
          Entre as determinações, observa-se que o Club Republicano ituano tendo como presidente João Tibiriçá Piratininga, o mesmo que iria presidir os trabalhos da Convenção de Itu, passou a funcionar como “núcleo e centro” político do ainda não oficializado Partido Republicano Paulista, o que viria a se concretizar apenas com a Convenção de Itu, em 18 de abril de 1873.
            Outra abordagem foi o da criação de uma escola noturna, que seria mantida por meio de contribuições mensais dos republicanos da localidade, para a alfabetização e, também, da fundação de um jornal “propagandista das idéias” do Clube Republicano. Um dos defensores da escola foi José Vasconcellos de Almeida Prado, também convencional de 1873.
Essa escola, cujos documentos também fazem parte do acervo do Museu, teve continuidade e, em 31 de dezembro de 1871, encontrava-se com 25 alunos matriculados, tendo como professor Braz Carneiro Leão, republicano convencional e proprietário do Hotel do Brás, um dos redutos das reuniões políticas locais e, como assistente de professor, o também republicano convencional João Xavier da Costa Aguiar.
            Para verificar a viabilidade da fundação de um jornal republicano na cidade, foi nomeada uma comissão formada por João Tobias de Aguiar e Castro e Antonio Francisco de Paula Souza, convencionais de 1873[6].  Um ano após a fundação do Clube, nota-se que o professor da escola era José Ignácio do Amaral Campos e que a proposta da fundação de um jornal local foi adiada. A justificativa para tal decisão estava nos altos custos para a compra do maquinário e a dificuldade em encontrar funcionários habilitados.
A questão referente a fundação de um jornal local voltado para a propaganda republicana, voltou a ser discutida na Convenção de Itu em 1873, mesmo tendo em circulação na cidade desde janeiro daquele ano o jornal O Ytuano, tendo como proprietários o Dr. Antonio Augusto Bittencourt, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. Esta folha, segundo a Gazeta de Campinas, de 12 de janeiro de 1873, não tinha “Caráter político” e pretendia atender e “ser útil ao comércio, lavoura, artes, sciencias e literatura”, sendo assim não atendia as necessidades de um partido recém fundado.
A fundação do jornal se colocava como uma necessidade estratégica da propaganda republicana. Conforme a Ata  da Convenção, o assunto foi debatido por Ubaldino do Amaral, Barata, Jorge de Miranda, Manoel de Moraes Barros, Antonio Augusto da Fonseca, Antonio Cintra, Joaquim de Paula Souza, Américo de Campos e Joaquim Roberto de Azevedo Marques. 
Mas, registrando na Ata daquela Convenção, o presidente da sessão, João Tibiriçá Piratininga alegou que naquele momento, “o assunto não era dos que deviam ser votados, por não fazerem parte das bases da organização”, referindo ao Partido Republicano, mas que não deveriam “esquecer-se que é de suma importância e grande alcance não se descuidarem os republicanos da imprensa, elemento essencial de propaganda das idéias e princípios, que são professados pelos cidadãos presentes”.
Mas se ainda não havia sido fundado um jornal em Itu declaradamente republicano, a idéia permanecia viva. Registros das atividades do Clube Republicano de Itu indicam que este contribuiu para a manutenção do jornal A República do Rio de Janeiro e da fundação do jornal A Província de S. Paulo (atual O Estado de S. Paulo), organizado em fins de 1874.  Desde último, foram fundadores os republicanos e convencionais de 1873: João Tobias de Aguiar e Castro, João Tibiriçá Piratininga Américo Brasiliense de Almeida Melo, Américo de Campos, Francisco Glicério, José Vasconcellos de Almeida Prado e Manuel Elpidio Pereira de Queiroz, todos convencionais.
Contudo, a flexibilidade política do jornal A Província de S. Paulo e da adesão  de membros do Partido Liberal motivaram críticas, especialmente por parte de alguns republicanos de Itu. Entre eles, Francisco Emigdio da Fonseca Pacheco, o “Totô Fonseca”, convencional e um dos mais atuantes lideranças políticas locais. Em correspondência enviada a Américo Brasiliense, em 17 de outubro de 1874, foi enfático em sua decisão em não colaborar com a fundação daquele jornal, escreveu:
“a folha que queremos crear não pode contar com assinantes d’aqueles partidos, e será sustentado somente pelos republicanos; ora sendo assim porque não será ele órgão do partido republicano, e não advogará exclusivamente seus interesses? Atravessamos uma época da balbúrdia política, e nestas circunstancias mão me animo a concorrer para a criação da – Província – que não tem cor política”.     (Aranha, 1936, p. 49-50).


2- A Convenção e a escolha por Itu
Uma reunião em 1872, nas dependências da casa de Américo Brasiliense de Almeida Mello em São Paulo, deu início a articulações políticas de republicanos representantes da capital e do interior, entre eles, estava o ituano e convencional José de Vasconcellos Almeida Prado. Naquela reunião deliberaram acertar uma data e também a cidade que deveria sediar o então “Congresso Republicano”, tendo como objetivo organizar o Partido Republicano Paulista na Província de São Paulo. Entre as deliberações estabelecia-se que:
“fosse, como de fato foi, nomeada uma comissão dentre os cidadãos presentes para que se dirigisse aos amigos e núcleos republicanos da província, convidando-os a que organizassem o partido, afim de que se ache pronto, sendo necessário, a entrar na luta; e mais que promovesse por todos os meios ao seu alcance larga e eficaz proteção a empresa republicana, principalmente aos jornais que sustentam aquela idea na corte e nesta província” ( Aranha, 1936, 62).
Diante disso, foram colocados em votação e consultados todos os Clubes Republicanos já organizados do interior da Província. Eram duas as cidades mais indicadas para sediar o Congresso Republicano: Campinas e Itu.  A cidade de Campinas, onde o movimento contava com a presença de importantes lideranças como Américo Brasiliense, Jorge Miranda, Francisco Quirino dos Santos, Campos Salles e Elias do Amaral Souza, e também de Francisco Glicério, se manifestam publicamente através do  jornal Gazeta de Campinas, em 7 de novembro de 1872, que “ o lugar mais conveniente para a reunião desse Congresso não é esta cidade e sim a de Itu”.
Desta forma, em dezembro de 1872, Itu já havia sido escolhida para sediar o encontro dos Republicanos, como também, o dia em que seria realizada a  Convenção estipulada em 18 de abril de 1873, um dia após a inauguração da estrada de ferro. Mas, provavelmente a ferrovia não tenha sido o único motivo para que todos os núcleos republicanos existentes na Província de São Paulo tenham escolhido a cidade de Itu para a realização daquela reunião. Certamente, a escolha vai além dos posicionamentos político-econômicos dos fazendeiros, pois muitos deles eram descendentes de famílias ituanas, e que haviam se enriquecido pelo café do “Oeste Paulista”. Assim, a coesão dos ideais republicanos passava também pelas ligações familiares entre irmãos, sobrinhos, pais e filhos, como os irmãos Lobo, os Almeida Prado, os Campos: Bernardino e Américo, entre outros. A vinda para Itu, terra natal de seus familiares, também fortaleceram os laços de amizade, política e interesses econômicos: “estavam realmente em casa” (Martins, 1999, p. 46).
Segundo descrições do jornal Correio Paulistano de 24 de abril de 1873, no dia da inauguração da ferrovia, os camarotes construídos para a chegada do trem encontravam-se “adornados com a maior elegância e esmero, nos quais avultavam cerca de mil senhoras, oferecendo vistoso e atrativo espetáculo” Arcos, bandeiras, flâmulas, ramos e flores, compunham a festa.  A chegada do trem inaugural do Presidente da Província Dr. João Theodoro Xavier e sua comitiva ocorreram ao som das musicas e foguetes e a multidão saudando a chegada do trem, segundo palavras do próprio jornal, “o monstro mecânico que naquele momento simbolizava as patrióticas aspirações do município ituano”. 
Entre os discursos proferidos naquele dia 17 de abril estava o do Dr. Cândido Barata, republicano e como representante do Clube republicano da Capital de São Paulo que no dia seguinte, em 18 de abril, estaria presente na Convenção de Itu,. Barata, em seu discurso, além das saudações ao presidente da companhia e a ferrovia, o iniciou com forte posicionamento político, utilizando-se da frase:  “Um dia o povo é rei”, demonstrando que naquela solenidade a verdadeira realeza era a do povo”  (Taunay, 1946, p. 70).  A festa era também da República! Assim descreveu o mesmo jornal Correio Paulistano em  de 24 de abril de 1873, as festividades da inauguração.
“a mesa em forma de X, com 250 talheres, ostentava as mais delicadas iguarias, frutas, doces e bebidas”. Completava esta, “no centro, figurava, como um primor de confeitaria, uma locomotiva feita de coco, coberta de flores de coco, com um vagão semelhante cheio de frutas especiais de Itu: abacaxi, cajus, maças, etc, trabalho primoroso feito em Itu”. Ainda descrevendo a festa, continua: “as ruas da cidade estavam ordenadas de palmeiras, flâmulas, festões e bandeiras e as casas igualmente adornadas”.
            Enquanto se realizavam as festividades em torno da ferrovia, na casa de João Tobias de Aguiar e Castro, conforme memórias intitulada A “Convenção” e publicada em 21 de abril de 1895 no Jornal A Cidade de Itu, reuniram-se os republicano para tratarem da eleição do Diretório do Partido Republicano de Itu que se formava.
No dia 18, data da Convenção de Itu, o Jornal Correio Paulistano daquele mesmo dia 21 de abril, ainda descrevendo as festividades em torno da ferrovia, indicou que ao meio dia na igreja Matriz, houve um Te Deum com a apresentação de uma “musica especialmente escrita para aquele ensejo pelo distinto e inspirado ituano o Maestro Elias Álvares Lobo”, e que à tardinha marcou sua presença na Convenção de Itu, onde estivem presentes mais de 200 pessoas.
Da família Lobo se destacou no movimento republicano ituano, o irmão do Maestro, José Álvares da Conceição Lobo que, em fins de 1889, após a proclamação da República, ainda se mostrava ativo em suas atividades políticas locais. Evidência disso é a correspondência que recebeu, em 19 de novembro de 1889 logo após a Proclamação da Republica, do Engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, importante projetista e construtor das ferrovias paulistas entre elas a ituana. A carta tendo a indicação de “Urgente e Reservada”, sublinhava a necessidade da adesão e apoio dos ituanos ao recém-nomeado Governo Provisório do Estado de São Paulo, formado pelo ituano Prudente de Moraes, Rangel Pestana e Joaquim de Sousa Mursa[7].
            Nesta correspondência, Paula Souza, solicita a presença em São Paulo, especialmente dos empregados da Companhia Ituana de estradas de ferro, pois “ que sempre foram na sua maioria senão na sua totalidade Republicanos”, afirmativa esta que demonstra que, além de alguns republicanos que participaram como acionistas daquela ferrovia, se concentravam uma grande porcentagem de imigrantes que lá trabalhavam como empregados e que também se declararam como republicanos. O mais interessante é que também solicita a presença da banda de música: a Banda dos Artistas, formada, segundo Paula Souza, por “empregados da Cia”.Além dos empregados e da Banda dos Artistas, solicitou também que levassem uma bandeira “azul e branca”, feita pelo próprio Paula Souza, ainda quando morador em Itu, que se encontrava guardada no Hotel do Braz, cujo proprietário era o republicano e convencional, Braz Carneiro Leão.
A Convenção de Itu não passou despercebida, pois notícias de seu acontecimento se propagaram em jornais como Correio Paulistano e Gazeta de Campinas, entre outros. O Ytuano, jornal local, deu grande ênfase à inauguração da ferrovia, mas também, reservou um espaço para a divulgação da Reunião Republicana.
Além de destacar as mais de 200 pessoas ali presentes, também evidenciou a força política de Américo Brasiliense que havia sido escolhido como presidente da Convenção, mas que foi presidido pelo presidente do Clube Republicano de Itu, João Tibiriçá Piratininga. Segundo este noticiário, em decorrência de “ter declinado da presidência o Dr. Américo Brasiliense, que havia sido aclamado, por entender que o Sr. Tibiriçá competia a ele, como representante da diretoria do Clube Republicano desta cidade”.[8] O Dr. Américo Brasiliense de Almeida Mello foi nomeado o secretário da Convenção de Itu.
 Da Convenção de Itu, apenas se tem relatos através das notícias publicadas na imprensa, das memórias escritas por Cesário Mota, de1890 e das de José Vasconcellos de Almeida Prado, quando entrevistado por Affonso de E. Taunay em 1923.
Para ele, a residência de seu irmão Carlos Vasconcellos de Almeida Prado, foi naturalmente indicada para aquela reunião, dada ao seu tamanho e, também, por serem eles republicanos (Taunay, 1923, p. 11). Contudo, nota-se que na cidade havia outros edifícios de igual ou mesmo maiores para sediar a Convenção, como a residência de João Tibiriçá Piratininga, o presidente da Convenção. De qualquer forma estavam em família, pois Tibiriçá Piratininga eratio de Carlos e José Vasconcellos de Almeida Prado. Nota-se, que até o ano de 1888, Carlos ainda era o proprietário da Casa da Convenção, como também o local ainda servia para reuniões republicanas.
Assim, José Vasconcellos descreveu em suas memórias do dia 18 de abril de 1873;
“ Desde muito antes da abertura da sessão, o sobrado estava completamente cheio de republicanos e de curiosos. Tivemos receio que o soalho afundasse. Não se podia entrar nem subir, tal era a aglomeração de gente. Em cima, á porta que dava ingresso a sala de reunião, o livro de presença para os que fossem republicanos ou quisessem batizar-se como tais, naquela data. Foi uma bela festa cívica”.
Segundo o jornal República, do Rio de Janeiro, em matéria publicada em 28 de abril de 1873, a Convenção de Itu poderia ter sido ainda maior, pois não haviam estado ali presentes núcleos republicanos importantes do interior como Itapetininga, Rio Claro e Pirassununga. Assim, em 18 de abril de 1873, às cinco horas da tarde e finalizando a meia da noite, iniciou-se a reunião política no sobrado de Carlos Vasconcellos de Almeida Prado.
O único documento da Convenção, o livro de Ata, doado ao Museu Republicano por Carlos Reis em 1923, ficarão registradas as deliberações para a formação e organização do então Partido Republicano Paulista, bem como os nomes e número de cada um dos 133 representantes dos Clubes Republicanos da Província de São Paulo. Nota-se, entretanto que no livro de Atas constam o registro de 129 pessoas, sendo de Itu  (32) , Jundiaí (9), Campinas (14), São Paulo (09), Amparo (04), Bragança (04), Mogi-Mirim (02), Constituição - atual Piracicaba (05), Botucatu (04), Tietê (01), Porto Feliz (14), Capivari, (14), Sorocaba  (05), Indaiatuba (09), Bethem de Jundiai - atual Itatiba (01)  , Vila de Monte Mor (01), Jau 01) e Rio de Janeiro (02).
Mas, em outro  livro, o  de registro de assinaturas, destinado àqueles que “fossem republicanos ou quisessem batizar-se como tais, naquela data”, doado por Jorge Tibiriçá Piratininga, filho de João Tibiriçá Piratininga ao Museu Republicano , em 1923 é que se observa as 133 assinaturas, número constantemente citado quando se lê trabalhos sobre a Convenção de Itu.
            Das deliberações registradas na Ata da Convenção constam:
“ 1ª Será constituída na Capital da Província uma Assembléia de representantes de todos os municípios.
2ª Funcionará, a primeira vez, em dia marcado pelos presentes cidadãos, e posteriormente como e quando for determinado pelos meios adotados em sua Constituição.
3ª Cada município elegerá um representante.
4ª O sistema eleitoral será o do sufrágio universal, e a idade de 21 anos completos e a não condenação criminal darão o direito de voto a todo cidadão
5ª A Assembléia de representantes no fim de cada Sessão nomeará uma Comissão para no intervalo das reuniões dirigir os negócios do Partido, entender-se com os Clubs municipais, e tomar as providencias exigidas pelas circunstancias, que se derem, ficando porem seus atos sujeitos á aprovação da Assembléia”.
Estas bases (orientações) do Partido foram distribuídas para todos os núcleos republicanos da Província de São Paulo e publicadas em jornais de grande circulação, como o Correio Paulistano. Este jornal, em 22 de maio de 1873, traz em sua coluna intitulada “Crônica Política”, uma Circular aos Republicanos, afirmando que como “foi convencionado na reunião em Itu”, convidava os municípios da Província a “fazerem-se representar”  na Assembléia marcada para o dia 1º. de julho  daquele mesmo ano na cidade de São Paulo. Coube a organização dessa reunião em São Paulo aos republicanos ituanos João Tibiriçá Piratininga e João Tobias de Aguiar Castro.
Nota-se também que as festividades da inauguração da ferrovia e, também da fundação do Partido, se estenderam até o dia 20 de abril, quando foi oferecido um “Jantar Republicano”  na residência do  irmão de Carlos, o Capitão Bento Dias de Almeida Prado, posteriormente, o Barão de Itaim, para os membros do Partido que ainda haviam permanecido na cidade.

3- O Museu Republicano “Convenção de Itu”

Em 1923, cinqüenta anos depois da Convenção de Itu teve inicio os trabalhos da instalação, na mesma residência que sediou a Convenção de Itu em 1873, da criação de um memorial da historia republicana paulista. Idéia que já estava sendo cogitada desde os anos de 1917-1918 e inserida nas comemorações do Centenário da Independência do Brasil, iniciadas no ano anterior a 1922, que proporcionaram a capitalização de recursos, em especial, acumulados pela cultura cafeeira para a construção de parques, construçõespúblicas e monumentos  (Antunes, 2003, p. 216), e tambémem meio aos “primeiros sinais de desgaste” do Partido Republicano Paulista (Brefe, 2005, p. 167).
Dentro dessas Comemorações, se insere a remodelação do Museu Paulista, conhecido como Museu do Ipiranga e a presença de Affonso de Taunay e a remodelação institucional como um Museu Histórico e a criação da Seção de História Nacional, com destaque para História de São Paulo, à qual ficou subordinado o Museu Republicano. Affonso de  Taunay desempenhou o cargo de Diretor do Museu Paulista e do ituano entre os anos de 1923-1946.
Na cidade o interesse na instalação do Museu, segundo Affonso de Taunay,  partiu de Graciano Geribello, então prefeito, que tentara sensibilizar o Governo do Estado de São Paulo, na época presidida por Altino Arantes, na comprar da “Casa da Convenção”, o que se efetivou apenas na gestão Washington Luís, que “sempre interessado e estudioso da Historia paulista, viabilizou o projeto” (Antunes, 2003, p. 230).
            Washington Luis conhecia muito bem a cidade, afinal era casado com Sofia Paes de Barros neta do ituano e convencional Rafael Tobias de Aguiar Pais de Barros, o segundo Barão de Piracicaba. Entre inúmeras passagens por Itu, foram registradas as de 1908, quando exercia o cargo de Secretário da Justiça e da Segurança Pública do governo de Jorge Tibiriçá Piratininga, quando visitou as plantações de arroz existentes na fazenda Pirapetingui, pertencente a Campos Netto.  Voltaria a Itu, pelos menos nos anos de 1909-10, 1922, 1923 (duas vezes) e 1926 como candidato a presidente da República. Em 1926, participou de um almoço comemorativo à inauguração do novo edifício do Asilo Nossa Senhora da Candelária, juntamente com Carlos de Campos, então presidente do Estado de São Paulo. E, em 1953, quando recebeu o título de cidadão ituano.
O Museu Republicano foi aberto ao público em 18 de abril de 1923. Contava com vários objetos, móveis e documentos, muito deles, doados pelos membros do Partido Republicano Paulista, bem como, pelos familiares dos convencionais. Destacam-se destes primeiros acervos do Museu, inúmeras telas e retratos, entre elas o quadro A “Convenção de Itu – 1873”, encomendada por Taunay ao artista ituano Jonas de Barros e pintada em 1921.


Referencias

Antunes, Sergio Pereira. A administração de Washington Luís um resgate. São Paulo, 2004. 335 f. (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

Aranha, José Mariano de Camargo. A Fundação da Província de São Paulo. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Departamento de Cultura, v. XXXI, p. 42-43, 1936.

BREFE, Ana Cláudia. O Museu Paulista Affonso de Taunay e a memória nacional, 1917-1945. São Paulo: Editora UNESP/ Museu Paulista, 2005.

Campos, Cristina de. Ferrovias e Saneamento em São Paulo: o engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza e a construção da rede de infra-estrutura territorial e urbana paulista, 1870-1893. 2007. 411 f.  (Doutorado em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo.

COSTA NOGUEIRA, Emília. O movimento republicano em Itú. Os fazendeiros do Oeste paulista e os pródromos do movimento republicano (Notas prévias). Revista de História. São Paulo: FFLCH; USP, v.9, n. 20, p.379-405, 1954.

Martins, Maria Luiza. Republica um outro Olhar . São Paulo: Editora Contexto, 1996.

Martins, Ana Luiza ET alli. Arcadas história da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. São Paulo Alternativa Serviços Programados Melhoramentos, 1999.

Motta Junior, Cesário. Recordações Históricas – 1873, manuscrito, 1890.

SILVEIRA, Alarico (Org.). Solennisação do Concoentenario da Convenção de Itu realisada a 18 de abril de 1873 com a installação do Museu Republicano Convenção de Itu pelo Governo do Estado de São Paulo a 18 de abril de 1923. São Paulo: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1923.

TAUNAY, Affonso de Escragnole. Guia do Museu Republicano “Convenção de Itu”. São Paulo: Indústria Gráfica Siqueira. 1946.


Notas


[1]A Estada de Ferro ligando as cidades de Santos a Jundiaí,  a São Paulo RailwayCompany Ltd. conhecida como inglesa, foi  inaugurada em 1867.
[2]  Jules Martin, francês que viveu em Sorocaba entre os anos de 1868 a 1870 e, em São Paulo, onde foi proprietário da “Imperial Lithografhia. Sobre sua biografia ver: Falecimentos. Jules Martin. Jornal O Estado de São Paulo. 19 set. 1906 p. 3.
[3]O saguão do Museu Republicano é totalmente preenchido por um conjunto de painéis de azulejos idealizados por Affonso de Escragnolle Taunay e pintados pelo artista e ceramista paulista Antonio Luiz Gagni (1897 - ? ).
[4] Esta fábrica, formada por ações, iniciou seu funcionamento em 1869 e foi a primeira da província de São Paulo que adquiriu estabilidade. Tinha como seu idealizador e maior acionista, Luiz Antonio de Anhaia, um dos idealizadores da ferrovia ituana.
[5]Sobre a importância da Faculdade de Direito de São Paulo na formação da liderança política brasileira ver: Martins, Ana Luiza ET alli. Arcadas história da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. São Paulo Alternativa Serviços Programados Melhoramentos, 1999.    
[6]João Tobias de Aguiar e Castro era filho da Marquesa de Santos e do Brigadeiro Tobias de Aguiar, uma das lideranças do movimento liberal de 1842.
[7]Sobre Francisco de Paula Souza ver:  Campos, Cristina de. Ferrovias e Saneamento em São Paulo: o engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza e a construção da rede de infra-estrutura territorial e urbana paulista, 1870-1893. Doutorado, FAUSP, 2007.
[8]  Sobre a notícia integral sobre a Reunião Republiana ver o Jornal O Ytuano. 27 abril 1873 p. 01

terça-feira, 4 de abril de 2017

Mulheres de Indaiatuba: entre avanços e retrocessos, o ativismo é necessário!

No dia 06 de abril (quinta-feira p.f.) às 8h, na base da Guarda Civil Municipal de Indaiatuba da Secretaria de Segurança Pública, pela primeira vez uma mulher receberá, após 28 anos de serviço prestado, o cargo de Diretora da Guarda. Marilsa Aparecida de Souza é Pedagoga e já fez duas pós-graduações: uma em Gestão Pública e outra e, Segurança Pública e Comando. A até então Inspetora também é gestora master dos cursos EAD do Ministério da Justiça e Segurança, através do telecentro instalado na própria base da Guarda e atende mais de 50 cidades do estado de São Paulo.

A notícia de passagem de comando está recebendo destaque nas mídias e de todos os motivos para isso, sem dúvida nenhuma o fato de ser uma mulher destaca, e muito, a notoriedade da solenidade. 

Ao consideramos a História de Indaiatuba já pesquisada e divulgada (que insisto sempre, é ainda um volume muito pequeno), as mulheres possuem pouco destaque, sobretudo numericamente. 

Na Guerra do Paraguai tivemos uma indaiatubana que participou de uma batalha e ganhou destaque nas parcas páginas dos parcos jornais da então Província de São Paulo. Por ter ganho essa notoriedade, deve ter realmente feito algo de significância. Persigo essa informação já há muito tempo e não consigo entrelaçar alguns poucos dados sobre o assunto nem para montar um artigo de poucas linhas. Uma provável heroína anônima, em uma época em que a mulher era vista como ser inferior, inclusive pela ciência. Sobre ela, ficarei devendo, ainda.

Na política, por exemplo, tivemos apenas uma prefeita interina: Helena Tomasi, que na época seria o que hoje é o Secretário da Fazenda, cuidava das entradas e saídas dos recursos da Prefeitura. Na prática, Helena "cuidava" da Prefeitura todas as vezes que os vários prefeitos com que ela trabalhou se afastavam da Prefeitura. Mas oficialmente, isso foi registrado apenas uma vez.  Já como vereadoras, contanto com a atual vereadora Silene Silvana Carvalini, tivemos apenas mais cinco: a pioneira Hélen Béssie de Moraes Castilho (1982), Rita Francisca GonçalvesRosana de Souza Magalhães (1996), Vera Curi Spadella (2001 e 2008) e Zilda de Andrade (2001). Seis vereadoras em uma Casa de Leis que funciona desde a época do Império, em 1836. É uma representatividade numericamente ínfima.

E é considerando esse cenário atual e passado, de pouca representatividade e sem muito conteúdo com acurácia - que quero manifestar-me sobre a Câmara Municipal, onde sou Chefe de Gabinete do vereador Alexandre Peres, um novo desafio que aceitei por vários motivos, entre eles, o aumento da representatividade da mulher nas ações políticas, mesmo em um cargo técnico.

Atualmente, temos no parlamento indaiatubano 34 funcionárias, um número que considero bem representativo. Na semana passada, o local foi chamado de "prostíbulo" por um cidadão chamado Charles Escodro, ao qual não conheço, mas cito com segurança pois tenho os prints de suas postagens em uma rede social. Para cravar seu conceito do local, ele ainda escreveu que quem trabalha aqui são "putas".

Considero a prostituição um ofício, inclusive contido na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho e do Emprego do Governo Federal, no código 5198-05. Respeito a liberdade de que todas nós, mulheres, possamos escolher o ofício que cada uma queira, ou ainda, lamento quando algumas, sem outras oportunidades, têm que escolher obrigatoriamente esse ofício como única opção para obter renda, advinda de sua condição histórica e/ou social.

Mas não é por isso que deixo de registrar, com destaque, que minha indignação e profundo desprezo  à essa tratativa, referem-se à forma agressiva com que a classificação foi utilizada com o objetivo de denegrir, diminuir, humilhar e subjugar.

A Câmara Municipal faz leis para nossa cidade há mais de 180 anos, em um trabalho relevante para o bem-estar da comunidade. Neste período, já avançamos e retrocedemos, já lutamos e nos rendemos, entre comunhão e conflito, entre oposição e situação. Neste cenário muitas vezes contraditório, temos hoje uma vereadora. Neste cenário onde a história é feita e refeita e onde se travam batalhas diárias, superando dificuldades e focando em produzir cada vez mais e melhor, testemunho minhas colegas trabalhando, recepcionando, atendendo, assessorando, encaminhando, resolvendo. Administram pessoas, documentos, serviços e produtos. Advogam, escrevem, convencem, limpam, organizam, fazem deliciosos cafés e chás.

Termino esse texto destacando a necessidade de atitude continuada do ativismo pela igualdade de gêneros. Somos iguais, mas entre avanços e retrocessos, muitas vezes, ontem e hoje, ficamos às margens. Margens onde a maioria é mulher, o que nos classifica como diferentes.

Ficamos às margens da consideração e do respeito quando somos tratadas com violência – que inclui violência verbal – realidade que precisa ser confrontada em várias esferas do ativismo ético, com o objetivo de confrontar um dramático atraso cultural de grande parte da sociedade.

Não podemos deixar passar. Não podemos fingir que não houve violência.

E contra ela, todas nós temos que lutar, sempre; por cada uma de nós.

Por mais 'Marilsas'; por menos 'Charles'.

Pelo processo civilizatório.

Pela Humanidade.








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