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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Exposição sobre Grêmios Estudantis no Casarão é visitada por Dirigente e Supervisoras de Capivari

Ontem, dia 25 p.p. foi aberta a nova mostra do Casarão Pau Preto “Grêmio Estudantil: Linhas, Cores, Formas, Bordados e Ideias”, organizada pela Diretoria de Ensino da Região de Capivari, a qual as escolas estaduais de Indaiatuba fazem parte.

A mostra foi lançada na manhã de segunda-feira, dia 22 de agosto no Indaiatuba Clube, em evento direcionado para jovens e especialmente alunos gremistas, no qual a  palestra “Mediação e Resolução de Conflitos” foi ministrada pelo secretário de Educação de São Paulo, José Renato Nalini, promovido pela ONG Um Milhão de Amigos com o apoio da Diretoria de Ensino da Região de Capivari.

Todas as 38 escolas circunscritas na DER de Capivari têm grêmio estudandil”, informou a supervisora de ensino Profa. Ivanete Menegon Waldmann, que esteve durante o dia orientando a equipe técnica do Casarão da montagem da mostra.



A Profa. Ivanete trabalha com os grêmios desde 2012 e parte do seu trabalho consiste em acompanhar a produção e, quando necessário, oferecer e prover suporte. “ Os grêmios possuem estatuto, são formados após eleições anuais. “Há escolas onde os grêmios são bastante atuantes, outras escolas isso não é tão perceptível, mas essa diferença faz parte de um processo de crescimento, de amadurecimento dos jovens, das escolas e dos próprios grêmios, pontuou Profa. Ivanete. Ela esclareceu ainda que há uma Comissão de Acompanhamento do Grêmio Estudantil e entre outras funções, esse grupo elabora Orientações Técnicas junto aos representantes dos grêmios.

No ano passado, estudantes da escola pública estadual ficaram semanas nas mídias, em uma atitude que surpreendeu muita gente, inclusive educadores. Reagiram com veemência após o anuncio, por parte do Governo do Estado, que algumas escolas sofreriam modificações a ponto de transferir salas de aula para outras unidades. Um sentimento de pertencimento tomou muitos alunos, que se organizaram e tomaram as escolas, sendo essa ação uma das que fizeram o Governo do Estado recuar e repensar as mudanças até então propostas. Em 2014, o Movimento “Vem para a Rua” foi, em grande parte tomado por jovens que tomaram as ruas de várias cidades, em protesto inicialmente provocado pelo aumento da tarifa de ônibus, reivindicando, entre outros itens, o Passe Livre para estudantes. Ambos os movimentos, de 2014 e 2015 demonstram, na prática, que os estudantes estão, cada vez mais, tomando para si seu papel de sujeitos da história.

A dirigente da DER de Capivari, Profa. Deise Regina de Godoy Bresciani, esteve presente no Casarão, onde informou que nossa DER “já tem compromisso em fortalecer o protagonismo juvenil através do estímulo à agremiação já há algum tempo e essa mostra é uma oportunidade de dar visibilidade a esse importante instrumento de protagonismo juvenil”.

“Mostrar o que os grêmios estão produzindo e pensando é uma forma de fortalecer a democracia, dando voz aos jovens”, completou a Profa. Deise.



O presidente do Conselho Consultivo, Prof. Gentil Gonçales Filho recebeu a dirigente da
 Diretoria de Ensino de Capivari, Profa. Deise Regina de Godoy Bresciani, na imagem junto com a supervisora, Profa. Profa. Ivanete Menegon Waldmann.



O Casarão Pau Preto fica na Rua Pedro Gonçalves, 477 – Jardim Pau Preto – Indaiatuba/SP e a entrada para a mostra é gratuita.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Dr. Carlos Engler do Bairro do Buru - nosso mais antigo doutô


Karl von Engler nasceu na Áustria em 1800 e no século XIX veio para a região de Itu, na década de 1820, onde foi reconhecido com um dos maiores intelectuais da sua época. Oficialmente, sua vida para o Brasil teria ocorrido em atendimento à um convite da Princesa Leopoldina, para trabalhar como engenheiro na Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, confirmação que carece de mais pesquisas. Certo é que em 1825 morava em um sitio de sua propriedade, no Bairro do Buru (que era, na época, pertencente à Itu).

O Buru, onde o médico tinha essa propriedade, foi um dos quatro bairros que, juntos, formariam Indaiatuba. Naquela época, bairro era um local rural, conjunto de vários “fogos” (casas) localizadas às margens de um rio ou um de seus afluentes, córregos ou ribeirões.

No caso do Doutô Carlos Engler, como ficou conhecido na região, sua propriedade ficava às margens do Ribeirão do Buru, que deságua no Rio Tietê. Como certo, tem-se a informação que em 1825 ele já morava nesse local, também grafado das seguintes formas: Boiry, Boiris, Boiri, Boyry e Emburu. Ali, no próprio sítio que adquiriu de José Joaquim Leme em 1847 atendia pacientes; mas não só ali: tinha pacientes também em seu “consultório” em Itu, onde foi reconhecido médico, naturalista e botânico, tendo também um “laboratório”.

Hércules Florence, desenhista da famosa Expedição Langsdorff, conheceu Carlos Engler em 1826, classificando-o como homem voltado para a ciência, dono de uma biblioteca alemã, laboratório de física, química e astronomia. Hércules também afirma que foi o Doutô Engler quem apresentou ao alemão Georg Heinrich von Langsdorff, também médico, a “cainca” e suas virtudes medicinais. Arbusto de um a dois metros de altura (Chiococca brachiata), conhecida também como caninana, raiz preta, cipó-cruz, cruzeirinha, fedorenta, raiz de frade – tem raiz tida como purgativa, diurética, vomitiva e antirreumática. Langsdorff não se fez de rogado e, ignorando o modesto colega de Itu, alardeou na Europa seu pretenso descobrimento da “cainca” brasileira.
Doutô Carlos Engler faleceu em 18 de setembro de 1855, mas seu filho Dr. Carlos Filadelfo Engler, nascido em Itu em 1833 mudou-se para Campinas onde continuou a profissão do pai. Em 1833 ele publicou anúncios nos periódicos locais informando que “médico formado em Bruxelas” passaria a atender na região, na Rua Constituição. Em 1876 o nome dele consta na lista de eleitores de Campinas, sinalizando que ele passou, em certo momento de sua carreira a atender na Rua Regente Feijó como “especialista em morphea, sífilis escrófulas, reumatismo, ataques de gotta e astham, a não ser aquelas provocadas por lesão orgânica”, informação confirmada no Manual da Província de São Paulo para o ano de 1883, e no Manual Campinense de 1880. Em Campinas, ele atendia de graça os mais necessitados na botica do Sr. Pedro Kiehl, onde disponibilizava-se também a atender “pobres fora da cidade”. Carl Filho era pesquisador, conhecedor da flora paulista e herdou do pai a composição do “Sal Engler”, segundo tradição familiar eficiente medicamento no tratamento de feridas produzidas pela hanseníase e outras doenças de pele, e as observações botânicas que lhe eram muito valiosas.

Em 1882, foi solicitado ao governo da Província de São Paulo, por um político de Campinas, apoiado por um documento da Câmara Municipal daquela cidade, que fosse cedido 7:000$ para o Dr. Carlos Engler, especialista em morphea (hanseníase ou lepra), uma vez que ele já havia, comprovadamente, curado vários doentes “desse mal”. A verba não era para que o médico voltasse para a Europa estudar mais sobre a doença, mas sim para que ele pudesse “sujeitar aos mestres da ciência o fruto acurado de seus estudos e observações."

Consta que a verba foi concedida.



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LEIA MAIS SOBRE CARLOS ENGLER

Texto de Jonas Soares de Souza
Revista Campo E Cidade
Edição 74 originalmente disponível aqui.

O médico austríaco Karl von Engler talvez tenha sido o primeiro médico a clinicar regularmente em Itu/SP. Formado na Áustria, emigrou para o Brasil e foi morar na então vila de Itu em 1821, dedicando-se ao tratamento dos hansenianos com medicamentos derivados de ervas da flora paulista. Em pouco tempo Carlos Engler, como ficou conhecido, tornou-se um dos mais brilhantes intelectuais da região.
Seu tataraneto, o odontologista Roberto Engler Rizzi, que reside em Itu, conta que ouvia da avó uma versão dos motivos que levaram Carlos a vir ao Brasil. De acordo com essa versão, na tradição da família Engler os homens estudavam Direito, mas Carlos secretamente estudou Medicina. Na festa de sua formatura um parente cumprimentou o novo médico diante de sua mãe, que acreditava que o filho tinha dado sequência à linhagem de advogados. Quando ela ouviu que ele se formara médico tiveram uma briga sem precedentes e Carlos resolveu deixar a Áustria.
Outra tradição familiar diz que Carlos veio trabalhar no Brasil como engenheiro na Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema (hoje Iperó/SP), a convite da Princesa Leopoldina. No entanto, ele é geralmente citado como naturalista, botânico e médico, e não como engenheiro. O certo é que na década de 1820 ele estava em plena atividade em Itu. Hercules Florence, desenhista da famosa Expedição Langsdorff, conheceu Carlos Engler em 1826. Homem todo voltado para a ciência, dizia Florence, tem uma biblioteca qualificada e assinaladamente alemã, equipada de laboratório de Física e instrumentos de Química e Astronomia.
Segundo ele, foi Engler quem apresentou ao alemão Georg Heinrich von Langsdorff, também médico, a “cainca” e suas virtudes medicinais. Arbusto de um a dois metros de altura (Chiococca brachiata) tem designação variada conforme a região – caninana, raiz preta, cipó-cruz, cruzeirinha, fedorenta, raiz de frade – e sua raiz, de cor negra, é tida como purgativa, diurética, vomitiva e antirreumática. Langsdorff não se fez de rogado e, ignorando o modesto colega de Itu, alardeou na Europa seu pretenso descobrimento da “cainca” brasileira.
Reputação
O botânico francês Auguste de Saint-Hilaire conheceu o interior paulista na segunda década do século 19 e descreveu minuciosamente os lugares por onde passou. Chamou sua atenção a existência do hospital dos leprosos, o cotidiano da população e o traçado urbano de Itu. Descreveu a vila como estreita e muito alongada, compondo-se de ruas paralelas de pouca largura, bem alinhadas, que cortavam outras ruas estreitas e marginadas por muros de jardins. Nas ruas principais, as casas de taipa pintadas de branco tinham suas frentes calçadas com pedras largas e lisas (varvito) e um grande número delas pertencia a senhores de engenhos de açúcar, que só vinham à vila aos domingos, a fim de ouvir missa, diz Saint-Hilaire, “não se podendo mesmo, em rigor, computá-los como elementos constituintes da população”. Ele calculou a população permanente, composta na maioria por comerciantes e artífices, em “1.000 ou 1.200 almas” ao fim do ano de 1819.
Em uma daquelas ruas, segundo tradição a Rua das Palmas (atual Rua dos Andradas), foi morar Carlos Engler numa casa cujo quintal se abria em imensa chácara. Nesse ambiente pacato, era de se esperar que Engler gozasse de reputação e honrarias. Mas, não foi o que notou Hercules Florence. Ele ficou impressionado com o fato de que todo aquele aparelhamento só rendia ao médico a estima de minguado número de pessoas.
Quanto à maioria da população, prevalecia a indiferença e, não raro, a censura. Engler prosseguia com as pesquisas no laboratório do sítio Emburu e os atendimentos na casa da vila. Florence concluiu: “Dotado, como é, de tato fora do comum, dispõe do que a Medicina lhe proporciona, e isto o torna independente. Dir-se-ia que cultiva as ciências para seu próprio prazer e não para ostentar erudição”.
Langsdorff
Os conhecimentos de Carlos Engler induziram o barão de Langsdorff a alterar a rota de sua planejada expedição a Cuiabá. A expedição era parte do esforço do governo do Czar Alexandre I para reavivar as relações comerciais entre Brasil e Rússia, prejudicadas por embargo imposto pelo rei D. João VI. Com apoio do jovem Imperador D. Pedro I e de José Bonifácio foram concedidos créditos vultosos e vantagens alfandegárias para a expedição que pretendia “descobertas científicas, investigações geográficas, estatísticas e o estudo de produtos desconhecidos no comércio”.
Organizada e chefiada pelo barão Georg Heinrich von Langsdorff, médico alemão naturalizado russo, a expedição tinha inicialmente prevista uma rota terrestre. Engler, segundo o próprio Langsdorff, aconselhou-o a dar preferência à rota fluvial, a começar pelo rio Tietê, porque a rota terrestre já tinha sido trilhada por naturalistas como Martius e Spix, Burschell, Natterer e outros. Convencida da vantagem da rota fluvial a Expedição Langsdorff partiu a 22 de junho de 1826 de Porto Feliz/SP em direção a Cuiabá e depois para o Norte, tendo como meta atingir o rio Amazonas. Até 1829 percorreu mais de 16 mil quilômetros pelo interior do Brasil, fazendo registros dos aspectos mais variados de sua natureza e sociedade, constituindo o mais completo inventário do Brasil no século 19.
Sobre Carlos Engler, Langsdorff escreveu em seu diário: “ele mora em Itu há cinco anos e trabalha na área de pesquisa científica; como médico, se dedica principalmente aos estudos da Química; está sempre em contato com a Alemanha, França e Inglaterra e divulga suas descobertas por meio de sua correspondência com cientistas; envia para fora minerais e raízes desta terra, pesquisa e investiga; um dia, provavelmente, terá que prestar contas do seu trabalho; a prática da Medicina lhe garante uma boa receita.
Médico e botânico poliglota
Doze anos depois da visita do barão Langsdorff e do desenhista Hercules Florence o médico luterano Carlos Engler hospedou em sua casa o pastor metodista norte-americano Daniel Parish Kidder e sua esposa Cynthia H. Russel. O casal estava no Brasil em missão da American Bible Society, para distribuir bíblias “a todas as pessoas que as quisessem aceitar”. O pastor Kidder falou extensamente dessa missão no livro que escreveu sobre suas viagens e descreveu sua passagem por Itu.
Em 1838, quando chegou à vila, já existiam dois médicos e o Hospital de Lázaros, sob o patrocínio do Senhor Bom Jesus do Horto, “que abriga 10 ou 12 inválidos e recebe os infelizes atacados de elefantíase e moléstias semelhantes”. Um dos médicos era Engler. Ao chegar a sua casa o pastor Kidder a encontrou “literalmente cercada de doentes e de emissários de clientes, a espera de receitas”. Além de médico insigne, afirma Kidder, era também botânico, filólogo notável e poliglota. Falava com facilidade, além de sua língua materna (alemão), o inglês, o francês e o português, entendendo ainda o espanhol, o italiano e o russo.
Kidder impressionou-se também com o laboratório de Química e a biblioteca, “a maior e a mais valiosa de quantas vimos no Brasil”. Sua fama de médico, continua Kidder, projetava-se por grande parte do país e era imenso o seu tirocínio. De grandes distâncias e de todas as direções afluíam clientes ao seu consultório.
Karl von Scherzer, que liderou a parte científica da expedição de pesquisadores austríacos que, à bordo da fragata Novara, empreenderam uma circunavegação ao redor da Terra entre 1857 e 1859, conta que ao passar pelo Rio de Janeiro procurou informações sobre o destino dos trabalhos dos naturalistas alemães no Brasil, dentre eles Carlos Engler: “Recebemos porém de todos a resposta pouco confortante que, com exceção da herança científica do Dr. Engler, em Itu, na Província de São Paulo, somente pouco foi conservado. As coleções pereceram por falta de cuidado e os manuscritos foram espalhados ou destruídos, muitas vezes por ignorância”.
Sal Engler
Nascido em Viena (Áustria) no ano de 1800, Carlos Engler declarou no seu testamento, lavrado a 16 de abril de 1853, ser “da Nação Alemão” (sic), tendo como pais Carlos Christovão Engler e Dorothea Elisabeth Engler. Casou-se em Itu em primeira núpcia com Carolina Angélica do Amaral. No testamento e inventário a segunda esposa é citada como Gertrudes Antonio de Barros (Engler) e Gertrudes Teixeira da Fonseca Engler.
Seu filho, e de sua primeira esposa Carolina, Carlos Filadelfo Engler, nascido em Itu em 1833, estudou Medicina na Université Libre de Bruxelles (Université d’Europe) e acompanhou o pai no tratamento de hansenianos em Itu. Depois foi clinicar em Campinas, especializando-se na moléstia e alcançando resultados surpreendentes de cura, fatos atestados por seus colegas. Sabe-se que era pesquisador, conhecedor da flora paulista e que herdara do pai a composição do Sal Engler, segundo tradição familiar eficiente medicamento no tratamento de feridas produzidas pela hanseníase e outras doenças de pele, e as observações botânicas que lhe eram muito valiosas.
Herança científica e cultural
Hermano Engler, filho de Carlos e Gertrudes, sua segunda esposa, também se interessou pela herança científica do pai, tornou-se pesquisador, botânico e conhecedor profundo da flora paulista. Casou-se com Augusta de Souza Barros, irmã do convencional republicano Antônio Basílio de Souza Barros Paiaguá, e montou farmácia de manipulação na antiga Rua do Comércio, próximo à esquina com a Rua Sete de Setembro (onde atualmente se localiza a Droga Raia, no nº 923 da atual Rua Floriano Peixoto), que em mãos dos descendentes existiu até a década de 1940.
Depois da morte de Hermano, o ervanário foi tocado por seu filho Jayme de Souza Engler, casado com Ângela Parra Leon. Jayme era autodidata e também conhecedor da herança científica de Carlos Engler.
Poliglota como o avô, dominava italiano, francês, inglês e espanhol, língua que aprendeu com a esposa oriunda da Espanha. Só evitou aprender o alemão, conta sua neta Dircéia Engler. Por outro lado, falava e escrevia japonês e ajudou muitos imigrantes a aprender português e a conhecer o poder medicinal da flora da região, conhecimento providencial para enfrentar eventuais e desconhecidas enfermidades no novo lar.
Seu neto Roberto Engler conta que o avô foi homenageado com uma carta do imperador do Japão, onde o mesmo o agradecia pelo tão estimado empenho na ajuda aos japoneses que emigravam para o Brasil. Dircéia lembra-se de que ouvia da avó Ângela relatos sobre a fama do ervanário criado pelo bisavô Hermano. Era grande o número de portadores de hanseníase e doenças da pele atraídos pela possibilidade de cura do Sal Engler e dos medicamentos ali manipulados.
Em épocas de epidemias as instalações se apequenavam para dar conta de tantos pacientes. Este relato traz à tona a descrição da fama do Engler pioneiro feita pelo reverendo Kidder em 1838 – de grandes distâncias e de todas as direções afluíam clientes ao seu consultório.
Carlos Engler, o médico e botânico pioneiro, faleceu em Itu a 18 de setembro de 1855, deixando grande descendência e respeitável herança científica. Seus testamento e inventário estão guardados no acervo do Centro de Estudos do Museu Republicano – USP.
Álvares Machado
O outro médico encontrado em Itu em 1838 pelo pastor Kidder certamente era o cirurgião Francisco Álvares Machado e Vasconcelos. Oftalmologista e pesquisador, interlocutor de Carlos Engler, foi um dos primeiros no Brasil a tratar de catarata, valendo-se de instrumentos de sua própria fabricação. Entre seus clientes é citado o maior orador sacro de sua época e um dos mais importantes da língua, frei Monte Alverne (Francisco José de Carvalho, 1784 – 1858).
Nascido em São Paulo a 21 de dezembro de 1791, Álvares Machado era filho do cirurgião-mor Joaquim Teobaldo Machado e Vasconcelos, e com o pai fez os primeiros estudos. Desde cedo revelou aptidão para a Medicina, mas não havia Escola de Medicina no Brasil. O caminho foi ingressar no Corpo de Voluntários Reais da Província para ter aulas com Mariano José do Amaral, físico-mor das tropas de São Paulo.
Álvares Machado tinha 17 anos de idade quando passou a trabalhar como auxiliar de farmácia e ajudante de cirurgia da enfermaria do Hospital Militar paulista. Em 1814, D. João (na época príncipe regente, depois rei D. João VI) o nomeou cirurgião-mor do 1º Regimento de São Paulo e ele começou a clinicar em Porto Feliz, atuando depois em Itu, Campinas e Rio de Janeiro.


Hercules Florence, que se casou com a filha de Álvares Machado, conta que ele era procurado por pessoas que vinham de longe em busca de operações de catarata e tratamento de outras enfermidades relacionadas com os olhos. Florence, que se revela ardoroso admirador do sogro, reconhece em Álvares Machado um político de visão tão ousada quanto o era nas práticas médicas. Sua reputação e popularidade, diz o genro desenhista, tomaram grandes proporções e pressagiavam a brilhante trajetória que percorreria como médico, mas principalmente como político liberal no Brasil recém-independente. Morreu em Niterói a 4 de julho de 1846 e seu nome denomina uma rua no centro de Campinas e o município no Sudoeste do Estado, Álvares Machado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O MUSEU DA CIDADE DE SALTO SEDIARÁ TRÊS OFICINAS A PARTIR DO PRÓXIMO SÁBADO.


A partir desse sábado, dia 27 de agosto, o Museu da Cidade de Salto sediará três oficinas de capacitação em conservação de acervos oferecidas pelo Espaço Cultural Barros Jr., iniciativa que faz parte do projeto premiado pelo PROAC 19/2015 de Preservação de Acervos Museológicos, e que previa a reestruturação da Reserva Técnica e implantação do Centro de Conservação do Museu da Cidade de Salto.

As oficinas serão as seguintes:

Dias 27 e 28 de agosto: “Os álbuns de família e as narrativas da memória / Suporte e acondicionamento de fotografias” - Oficina que trará ao público técnicas para suporte e acondicionamento correto de fotografias pessoais, com o intuito de garantir a longevidade dos acervos familiares.

Dias 29 e 30 de agosto: “Conservação e tratamento de papéis/ O documento e a investigação historiográfica” - Oficina voltada para profissionais de Museus e interessados na temática, que tem como objetivo mostrar mecanismos de conservação, tratamento e intervenções para salvaguarda de acervo em papel.

Dias 30 de agosto e 01 de setembro: "Conservação e tratamento de fotografias/A fotografia como documento histórico.” - Oficina voltada para profissionais de Museus e interessados na temática. Essa oficina tem como objetivo apresentar aos participantes uma introdução às técnicas de conservação preventiva e recuperação de fotografias.

Todas as oficinas são gratuitas e as inscrições poderão ser feitas pelo link: https://goo.gl/forms/XIlrHr4sPM9uQ82v1


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Oficina da Escola do Patrimônio "Práticas de Arqueologia: Escavação e Prospecção em Sítio Histórico"

Nos dias 13 e 20 de agosto p.p. foi executada a oficina "Práticas de Arqueologia: escavação e Prospecção em Sítio Histórico, ministrada pelo Prof. Dr. Marcos Tognon (UNICAMP) no quintal do Casarão Pau Preto.

Além dos fundamentos de prospecções arqueológicas os participantes puderam aprender sobre técnicas de leitura de sítios e áreas de interesse, práticas de escavação e protocolos de registro e documentação.

Abaixo, as imagens das atividades práticas, onde os participantes puderam executar  procedimentos básicos de escavação de sítio arqueológico histórico.











  

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O PADRE SUSTENTÁVEL NA TERRA DO IMPERADOR MENINO

texto de Charles Fernandes*

Chegava em uma canoa pelo y[1] dos jundiás[2], uma pessoa muito importante, que desembarcou no povoado[3] da ycy[4] de ita[5]. Dali tinha, ainda, que continuar viagem para o outro povoado que tinha tuba inda que a gente a casca. 

Para!  Esquecemos de ligar nosso tradutor da língua tupi-guarani! Teremos que começar novamente, pois não sabemos falar a língua desses índios, ainda porque eles parecem norte-americanos, que colocam o adjetivo na frente do substantivo. Que difícil!

Vamos lá, para a segunda tentativa.

Chegava em uma canoa pelo rio dos bagres[6], uma pessoa muito importante, que desembarcou no povoado da nascente da pedra[7], pois tinha, ainda, que continuar viagem para outro povoado que tinha bastante fruta de rachar a casca.

Para de novo! Como é que saberemos onde é que ficam esses lugares se ficarmos traduzindo tudo?  

Bom, teremos que tentar mais uma vez, mas acho que agora, conseguiremos:

Chegava em uma canoa pelo Jundiaí, uma pessoa muito importante, que desembarcou no povoado de Itaici[8], pois tinha, ainda, que continuar viagem para o outro povoado chamado de Indaiatuba[9]. Ufa!

Mas porque essa importante pessoa veio de canoa por Itaici? Que lugar era esse, no qual um dia havia se falado a língua usada pelos Tupis e pelos Guaranis?

Muito antes de nosso personagem chegar, tanto Indaiatuba como Itaici[10], eram bairros de Itu. Só que Indaiatuba, em lugar mais alto e plano, acabou recebendo mais gente. De uma pequena pousada de tropeiros, foi crescendo, até que ficou maior, e de tão grande, o imperador finalmente concedeu a esta comunidade a categoria de Freguesia[11], quando fazia apenas oito anos que ele governava[12].

Este foi o primeiro Imperador do Brasil, por isso foi chamado de Pedro Primeiro. E Indaiatuba virou uma das freguesias de uma das Vilas mais importantes do interior de São Paulo, freguesia da grande e populosa Itu.  Nessa época, a cidade de São Paulo era muito distante de tudo e São Carlos, que depois foi chamada de Campinas, mais ainda. Quem ficava no caminho era Itu, mas nosso personagem vai explicar isso melhor.

Em 1831, um ano após Indaiatuba ter recebido o título de Freguesia, esse imperador voltou para o país onde nasceu, mas deixou seu filho em seu lugar. Um menino de cinco anos de idade, não era o mais velho, era o sétimo filho e terceiro varão, mas tinha perdido seus dois irmãos mais velhos. Veja como era dura a vida desta época, até filho de rei morria de qualquer coisa.  Esse foi o Imperador Menino, o segundo do Brasil, e chamaram ele de Pedro Segundo.  Pouco criativo, né!

Quando esse imperador completou 15 anos, foi coroado, pois acharam que o menino já podia governar... O imperador já era quase um moço, mas vou continuar a chamar este país de Terra do Imperador Menino, porque ao que sabemos, esse tal Pedro filho de Pedro, apesar de muito estudioso e sabido das máquinas e da modernidade, sempre teve uma queda para criancices. Um ano depois, quando ele tinha 16 anos, mais precisamente em 1841, nossa história começa...

Nosso personagem principal chega na terra da fruta de partir, que vinha da palmeira Indaiá, que ali abundava. Ele era um padre, e veio substituir outro Pedro, o Padre Pedro[13] que tinha terminado a igreja da vila, que era dedicada a Nossa Senhora da Candelária. Essa igreja[14] tinha uma das maiores naves das cercanias, cerca de 10 passos de largura, por 23 passos de comprimento.

A igreja da terra das palmeiras de indaiá tinha uma característica curiosa: a antiga capelinha que existia no lugar fora demolida ou reformada, e passou a ter o que chamamos de nave, a parte central da igreja, onde se sentam os fiéis; porque a igreja é o barco do apóstolo Pedro, que vai pescando almas para o Senhor. Nessa época, em Portugal, de onde quase tudo vinha, as naves das igrejas eram construídas pelos mesmos carpinteiros que faziam as naus, ou naves, de se navegar os mares. O teto das igrejas eram barcos de ponta cabeça. E curiosamente, em Indaiatuba, o barco de Pedro, feito em nome da Senhora da Candelária, foi terminado por um Pedro, o Padre Pedro, que estava deixando sua paróquia para nosso personagem, o novo padre da terra dos Indaiás.

E esse novo padre, que era o Padre Toninho[15], foi logo atrás de um lugar pra morar, que fosse perto da igreja, que tivesse uma linda vista para a fonte de água da cidade, lá embaixo, no córrego junto da mata, atrás da igreja.

O Padre Pedro tinha deixado um barraco para ele, atrás da igreja, pequeno do tamanho de um quarto, aliás era só um quarto, quadradinho feito de barro socado, que chamavam de taipa, a mesma taipa de pilão que fora usada na igreja que ele ajudou a construir.  Apesar de muito pequena, a vista da casinha era ótima, na pontinha da planície, onde a cidade se instalava, debruçada para um vale com vista para um belo campo com árvores esparsas que se estendia até chegar na mata do córrego[16].

O lugar era perfeito. De madrugada dava para ouvir os jacus acordando lá na mata, barulhentos na primavera, mas bem preguiçosos no inverno:

_ Cacaamm uuuó, cacaamm uuuó!  

Era um despertador natural, uma vez que relógio mesmo, não havia por lá!

Nessa época, Indaiatuba tinha oito quarteirões todos juntinhos da igreja. Até o cemitério ficava por ali, os mortos eram sepultados ali mesmo, na frente da igreja, que naquela época não era praça, era só um largo, um lugar sem casas, de chão batido, próprio para todas as pessoas se reunirem sem nada para atrapalhar.  E tudo era feito de carroça, porque os carros só apareceriam mais de 100 anos depois por essas terras, e não havia máquina alguma que não pudesse ser carregada por uma mula, desde o porto de Santos, até Itu, que era a porta do sertão e caminho para Indaiatuba.

Aliás a história desse padre, o padre Toninho, não é de modernidade ou de máquinas, é de como ele usou a natureza para se virar, e construir uma casa sustentável. E veja bem... 200 anos antes dessa palavra virar moda, o nosso personagem já praticava ecologia. Que cara visionário!

E Padre Toninho, analisou seu barraco, de taipa de pilão, onde quase não cabia sua cama, de paredes que tinham mais de um braço de largura. E percebeu que a noite, todas as paredes ficavam quentes, porque eram grossas demais e tinham a capacidade de acumular o calor do sol, e ir esfriando aos poucos, durante a noite. Era quente mesmo, no verão até era chato, mas era uma delícia no inverno.  

Bom mesmo seria achar um meio termo, e o padre já foi pensando em reformar o pequeno cômodo, mesmo porque a cidade crescia com a lavoura de “assucar” e com a venda de rapadura para Itu. Os fiéis aumentavam e precisavam de um lugar para organizar as atividades da igreja. Curiosamente, ainda hoje, há mais de 200 anos depois, o que muito se tem na lavoura de Indaiatuba ainda é cana.

E o pároco decidiu aumentar essa casinha quente.

O Padre Toninho colocou-se a observar o nascer e o por do sol todos os dias do ano, sempre olhando para um mesmo local, para o córrego lá embaixo, que ficava a norte de sua casinha quente. Chegou a pensar até que um dia esse córrego poderia ser um belo parque.  

Percebeu que o sol se inclinava diferente a cada estação do ano, no inverno, nascia mais para nordeste, bem para o lado da fonte de água da cidade, a biquinha. E no verão, nascia em direção das ruas da cidade, mais para trás, para sudeste. Mas ao meio dia, o sol sempre se inclinava para o córrego, e sempre a parede que era voltada para este lado, pegava sol durante todo o dia, e era essa a parede que esquentava sua casa. As outras eram bem agradáveis.

E o padre então criou para sua casa, uma proteção para essa parede, que era quente porque recebia esse sol durante todo o dia - um equipamento de tecnologia avançada para a época- chamado varanda. Foi simples, o padre aumentou o telhado e criou um espaço sem paredes que protegia sua casa do sol durante o horário mais quente, no meio dia.

_ E sabe que ficou ótimo?[17]

 Agora as outras paredes mantinham o calor do dia sem exageros, e sua casa ficou a casa mais confortável da cidade.  Naquela época, muitas casas eram altas por dentro, e as janelas eram muito grandes também, porque quando era necessário, deveriam ventilar todo o ambiente. A varanda do padre, e as janelas altas da casa, eram uma ótima solução para essa terra quente. E posso dizer que os ventiladores domésticos não haviam sido inventados, e mesmo que existissem, a energia elétrica só chegou mais de 70 anos depois na Vila do padre.

Essa varanda quebrava um galhão, porque nesse tempo, tudo era feito de barro ou de madeira, então, ou a água levava embora, ou podia pegar fogo; e a varanda, que não tinha paredes, podia receber algumas atividades que não combinavam com a casa de barro, por exemplo - cozinhar ou lavar coisas.

E sabem onde ficava o banheiro do padre Toninho?

Não ficava, pois não tinha água encanada.

Ela só chegaria nas casas de Indaiatuba 95 anos depois dessa época, em 1936, e tudo que o padre tinha era seu pinico, que ele guardava embaixo da cama, pra limpar de manhã, lá no mato. Também não havia canos, que na época eram chamados de manilhas, também feitos de barro, porque não se podia transportar na Genoveva, que era a mula que o padre comprou.

Curioso, não é? Indaiatuba recebeu energia elétrica antes da água encanada!

Nesse momento, a casa do padre passou a ter um limitador de recursos para a reforma: ou cabia no jacá da Genoveva, ou não dava para usar.

As ampliações que pretendia fazer na casa teriam que ser feitas com os recursos que tinha, com ferramentas simples, porque serras e máquinas somente chegariam de trem, e o trem ainda demoraria 35 anos para passar ali. A Genoveva era o “caminhão” do padre.

Para continuar a ampliar sua casa, padre Toninho optou por uma nova maneira de se construir, que veio com artesãos que migraram das minas do centro do país, onde o ouro já não fluía, e estavam sem emprego por lá. Eles faziam um esqueleto de casa, com madeira, serrada e falquejada a mão, depois tampavam os vãos com uma tela de galhos queimados e aplicavam barro, dando sopapos uns nos outros, um de cada lado da parede. A técnica era conhecida como taipa de sopapo, mas o nome que pegou mesmo foi pau-a-pique. Difícil escolher qual nome é o mais engraçado!

E o padre fez mais um cômodo na casa, maior e mais amplo, e levou a varanda para toda a parede até a lateral da casa, que ficava voltada para a igreja, para receber as visitas dos fiéis. Este espaço lateral da casa era chamado de alpendre, que era uma varanda que servia para receber as pessoas: numa época onde  tudo  era  de terra, ninguém queria todos entrando em casa com o pé sujo. O alpendre e a varanda eram os ambientes onde se recebia as pessoas, fora de casa, até o oratório do padre ficava na varanda, do lado de fora, bem atrás do quarto dele.

Durante 40 anos esse foi o padre da terra dos Indaiás, o Padre Toninho, e tornou-se tão... mas tão querido da população que quando ele voltou para o lado do Senhor, sepultaram seu corpo, escondido, debaixo do altar da igreja. Acho que hoje o padre reza a missa lá, bem em cima.

Essa esplêndida casa sustentável foi vendida para uma fazenda, pois eles queriam uma nova sede perto da cidade, e a fazenda do Pau Preto agora tinha uma casa, que foi novamente ampliada e tornou-se um dos maiores casarões da cidade. O Casarão Pau Preto.

                E sempre que você visitar o Casarão, que ainda está lá, vai ver o quarto de barro, que o Padre Toninho recebeu do Padre Pedro, do lado da Tulha, o de parede mais grossa, que era quente, mas que depois ficou bem gostoso.



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[1] Y, yg ou ty significa água e/ou rio em tupi-guarani.
[2] Jundiá significa bagre em tupi-guarani.
[3] O povoado de Itaici foi um dos 4 bairros que, juntos, formaram Indaiatuba (Piraí, Buru, Mato Dentro e Jundiaí, que era o antigo nome de Itaici).
[4] Fila, fileira, conjunto ou sequencia em tupi-guarani
[5] Itá ou ita significa pedra em tupi-guarani.
[6] Atual Rio Jundiaí, onde parte dele pertencia à vila de Itu (desde a foz do córrego da fazenda Itatuba até início do antigo bairro Piraí (ao Sul da atual Fazenda Pimenta).
[7] As pedras das nascentes às margens do Rio Jundiaí foram, em considerável quantidade, utilizadas para aplicação na construção civil na região de Indaiatuba.
[8] A palavra itaici pode ser separada de duas formas: Itá-y-cy ou Itá-ycy. A primeira é composta por “mãe”, “nascente” ou “fonte” (cy) do rio (y) de pedra (ita ou itá). A segunda é composta por fila, fileira ou conjunto (ycy) de pedra (ita ou itá). Optei pela tradução “nascente das pedras” (nota do autor).
[9] A palavra indaiatuba pode ser separada de duas formas: Inda-yá-tuba ou Indaia-tuba. A primeira é composta por “fruta” (inda), “partir, dividir, quebrar” (yá) e “tuba” (muito, abundância de sítio/local ou pomar). A segunda é composta por “palmeira” (indaiá) e (tuba). Optei pela tradução “local de muitas frutas de rachar a casca”, frutas essas que seriam o indaiá, da palmeira de indaiá (nota do autor).
[10] Que se chamava Jundiaí e se limitava com o território da Vila de Jundiaí, ou mais precisamente, com o bairro de Itupeva, que em 1795 já existia com esse nome. A divisa, ao norte, era com terras da freguesia de Campinas (que se chamava São Carlos) e a oeste, com o bairro de Mato Dentro.
[11] Indaiatuba foi elevada à condição de Freguesia do Distrito da Vila Itu, em 9 de dezembro de 1830 e seu território for formado por áreas dos bairros Piraí, Mato Dentro, Buru, Jundiaí (na verdade, Itaici) e Indaiatuba. Outros bairros rurais de Itu eram Caiacatinga, Itahim. Itahim-Guaçu, Pirapitingui e Potribu.
[12] D Pedro I passou a ser o imperador do Brasil em 1822, na Proclamação da Independência, feita por ele mesmo.  Essa manobra política foi feita após o pai dele, D. João VI ter sido obrigado a voltar para Portugal para não perder seus domínios na Europa. A historiografia aponta que pai e filho estavam em comum acordo quando a independência foi proclamada, mas tinham como oponentes à essa atitude a mãe de D. Pedro – Carlota Joaquina - e seu irmão mais velho, Miguel. Durante março e maio de 1826, D. Pedro fica simultaneamente imperador do Brasil e de Portugal e opta por enviar sua filha mais velha que se tornará Maria II de Portugal, ficando ele no Brasil. Em 1831 ele abdica do trono a favor de seu filho para voltar para Portugal e lutar contra o seu irmão Miguel, que no seu entendimento, havia usurpado o trono de sua filha Maria II. É vitorioso em 1832 e morre de tuberculose em 1834.
[13] O primeiro pároco da freguesia de Indaiatuba foi o vigário encomendado Pedro Dias Paes Leme, que assumiu a função em 15 de agosto de 1832 até 14 de fevereiro de 1841. Segundo relatos a candelária já possuía suas paredes de Taipa em 1839 o que indicaria que esse primeiro padre foi o responsável pela finalização da primeira fase de construção da igreja “nesse local”. Mas o encamisamento de tijolos que criou a fachada atual é muito posterior, naquela época a igreja tinha linguagem muito mais simples e os beirais de telhas ainda eram aparentes.
[14] A planta original da igreja da Candelária é comum a quase todas as igrejas construídas no Brasil colônia, sua organização vem de uma Bula Papal, instituída na Contra-Reforma da igreja católica, no início do século XVI - que indica como as igrejas deveriam ser construídas para que melhorassem a percepção dos fiéis durante a missa. O altar, seguido de cadeiril e nave principal, criam uma espécie de CORNETA, que faz com que a voz do Padre, se projete para os fiéis. Esta disposição é na verdade, um projeto acústico.
[15] Padre Antônio Cassemiro da Costa Roris, que veio de Porto Feliz para Indaiatuba com apenas 24 anos de idade e que ficaria como pároco até quando faleceu, em 19 de outubro de 1884, quando foi substituído pelo Padre Bento Pacheco. O apelido de Padre Toninho é uma licença literária. Padre Roriz, ao falecer foi enterrado dentro da Igreja da Candelária, na frente do altar, mesmo depois desta prática ter sido proibida. Isso pode indicar o respeito da população com essa figura histórica da cidade.
[16] Ribeirão Votura ou Córrego Votura – atual Córrego Barnabé, do Parque Ecológico.
[17] Sobre essa ampliação da casinha inicial que mais tarde, após várias intervenções se formaria no atual Casarão Pau Preto, leia mais no Anexo 1.


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ANEXO 1

Estudos preliminares sobre o Casarão 
em texto e ilustrações


O Casarão Pau Preto possui muitos materiais e diferentes tecnologias construtivas e estas características podem indicar diferentes momentos de construção. Trechos de parede desse casarão do pau preto, de taipa de pilão, do primeiro cômodo ao lado da Tulha, são similares aos da Igreja da Candelária, e relatos dizem que esta moradia já era do Padre Pedro Dias Paes Leme durante seu tempo como pároco em Indaiatuba. O formato da construção, encaixes de estruturas de madeira e posicionamento do piso, indicariam que este cômodo seria o mais antigo do casarão.




Imagem feita com base nos estudos (em andamento) sobre o Casarão Pau Preto, indicando os diferentes materiais empregados, demonstrando-os em diferentes cores. 
Cada cor indica uma diferente época de construção, ou uma diferente atividade para cada cômodo. As paredes em cor de rosa, são originalmente feitas exclusivamente em Taipa de Pilão.

Estudos preliminares sobre a estrutura do casarão do pau preto indicariam que a varanda poderia ter sido feita em momento posterior a parede de taipa. Hoje a varanda é um escritório e também uma ala do museu do Casarão, foram fechados por paredes de tijolos muito posteriormente, este fechamento da varanda seria uma das mais tardias reformas do casarão, devido ao tipo dos tijolos utilizados. Neste escritório fechado, onde hoje trabalha o Superintendente do Pró-Memória, o Dr. Gustavo, também está o oratório citado no texto, feito em pedra, encravado na taipa.


Formato proposto para a primeira Casa do Padre Antonio Roriz.



 Estes pilares soltos da varanda, ainda existem e não foram utilizados na estrutura de outras reformas, e ajudam a entender um possível formato desta fase de construção do Casarão.


A ideia de construção sustentável é o tema principal do texto, e o casarão é ótimo exemplo, sua implantação indicando a utilizar a disposição do sol durante o dia para proporcionar conforto térmico, a grande altura e dimensões das janelas e portas, mostra a preocupação dos construtores com o clima da região e o uso de materiais sustentáveis de construção.






 Ilustrações artísticas, baseadas em possível formato da casa do Padre Antonio Roriz.

Muitas peças ainda faltam no quebra cabeça, como a estrutura de madeira do alpendre, ou o formato do piso desta área, mas pode nos instigar a propor formatos para o prédio original. 
Com o tempo, novos relatos, documentos e textos aparecem e dão mais robustez à essas possibilidades aqui demonstradas.
Por isso é muito importante doar documentos, fotos e textos referentes a história da cidade para a Fundação Pró-Memória cujos fundos públicos e privados são solicitados para pesquisadores de todo o país.


Latitude de Indaiatuba - o Sol apresenta diferentes trajetos durante as épocas do ano. Os pontos que podem ser trabalhados com esse texto em sala de aula, são:
    • solstício de verão, onde o Sol nasce mais para sudeste e ao meio dia, temos a menor sombra do ano.
    • solstício de inverno quando o Sol nasce mais a Nordeste. e ao meio dia, temos a maior sombra do ano.
    • Os 2 dias do ano quando o Sol nasce exatamente no Leste, são os equinócios de primavera e outono.

Estes fenômenos são causados pela inclinação da Terra durante o movimento de translação. 
A cada latitude, mais para norte ou sul, o sol vai dispor trajetos diferentes.
Abaixo a carta de insolação da região, usada para determinar a insolação das edificações, utilizada por arquitetos e engenheiros.



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* Crônica Histórica com estudos e ilustrações
 sobre o Casarão Pau Preto.
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