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Arquivo virtual de História, Memória e Patrimônio de Indaiatuba (SP) e região.*

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quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Papa Francisco Pop e o patrimônio histórico, artístico e cultural

Li há pouco tempo um  "meme"  denominado " O Papa é Pop" comentando o quanto o Papa é revolucionário, ao tratar de assuntos como pobreza e simplicidade, exaltando São Francisco de Assis e de forma mais ampla, o cristianismo primitivo. Mas não é só por isso que ele é Pop! Vejamos.

Chama o capitalismo de "ditadura sutil" e no Brasil, deu um recado aos jovens: sejam revolucionários!

Já pediu várias vezes para que rezem por ele. _ Eu também tenho pecados, diz!

Já pediu perdão várias vezes. Quer manifestação maior de sabedoria, humildade e generosidade, que pedir perdão? 

Ao se reunir com um pastor evangélico, pediu perdão publicamente pelas perseguições cometidas pelos católicos aos pentecostais. Pediu perdão às vítimas de padres pedófilos, o que pressupõe a difícil tarefa de pré-reconhecer a existência dos mesmos. Pediu perdão - com pesar - a todos os povos latino-americanos, os indígenas nativos,  pelas atrocidades que foram cometidas em nome da Igreja na época do período da colonização. Pediu perdão em nome da Igreja Católica aos cristãos valdenses, confissão protestante perseguida por séculos desde a Idade Média.

_ Deus sempre perdoa, ele diz. Impossível não se emocionar. E impossível não se indignar enquanto muitos têm prazer de dissipar o ódio. Mas não é sobre esse sentimento que nada constrói que quero falar em um blog sobre História, Patrimônio e Memória de Indaiatuba; quero abordar o que é grandioso.


Quero falar sobre a surpreendente capacidade de inovar, surpreender e liderar do Papa Pop, desta vez sobre o cuidado com "nossa casa comum" -  através do que escreveu na Carta Encíclica Laudato Si abordando, com sensibilidade e conhecimento, a questão do patrimônio natural, artístico e histórico, ação que poucos líderes de Estado possuem a capacidade de fazê-lo, tão pouco entendê-lo, principalmente quando, corajosamente, relaciona o consumismo com a degradação natural, cultural e histórica. 


Leia abaixo fragmento(s) da Encílica:

4. (...) A problemática ecológica (...) é uma crise que é «consequência dramática» da atividade descontrolada do ser humano: «Por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o ser humano] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação». [Há uma] possibilidade duma «catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial», sublinhando a «necessidade urgente duma mudança radical no comportamento da humanidade», porque «os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem».

93. Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos.




Ecologia cultural

143. A par do patrimônio natural, encontra-se igualmente ameaçado o patrimônio histórico, artístico e cultural. 
Faz parte da identidade comum de um lugar, servindo de base para construir uma cidade habitável. Não se trata de destruir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitetura dum lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. 
Mais diretamente, pede que se preste atenção às culturas locais, quando se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente.

144. A visão consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a homogenizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade. 
Por isso, pretender resolver todas as dificuldades através de normativas uniformes ou por intervenções técnicas, leva a negligenciar a complexidade das problemáticas locais, que requerem a participação ativa dos habitantes. 
Os novos processos em gestação nem sempre se podem integrar dentro de modelos estabelecidos do exterior, mas hão-de ser provenientes da própria cultura local. Assim como a vida e o mundo são dinâmicos, assim também o cuidado do mundo deve ser flexível e dinâmico. 
As soluções meramente técnicas correm o risco de tomar em consideração sintomas que não correspondem às problemáticas mais profundas. É preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social supõe um processo histórico no âmbito dum contexto cultural e requer constantemente o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura. 
Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano.

145. Muitas formas de intensa exploração e degradação do meio ambiente podem esgotar não só os meios locais de subsistência, mas também os recursos sociais que consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade cultural e um sentido da existência e da convivência social. O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie animal ou vegetal.
A imposição dum estilo hegemônico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas.

3. Ecologia da vida quotidiana

147. Para se poder falar de autêntico progresso, será preciso verificar que se produza uma melhoria global na qualidade de vida humana; isto implica analisar o espaço onde as pessoas transcorrem a sua existência. Os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir. Ao mesmo tempo, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso lugar de trabalho e no nosso bairro, usamos o ambiente para exprimir a nossa identidade. Esforçamo-nos por nos adaptar ao ambiente e, quando este aparece desordenado, caótico ou cheio de poluição visiva e acústica, o excesso de estímulos põe à prova as nossas tentativas de desenvolver uma identidade integrada e feliz.

149. Inversamente está provado que a penúria extrema vivida nalguns ambientes privados de harmonia, magnanimidade e possibilidade de integração, facilita o aparecimento de comportamentos desumanos e a manipulação das pessoas por organizações criminosas. Para os habitantes de bairros periféricos muito precários, a experiência diária de passar da superlotação ao anonimato social, que se vive nas grandes cidades, pode provocar uma sensação de desenraizamento que favorece comportamentos anti-sociais e violência. Todavia tenho a peito reiterar que o amor é mais forte. Muitas pessoas, nestas condições, são capazes de tecer laços de pertença e convivência que transformam a superlotação numa experiência comunitária, onde se derrubam os muros do eu e superam as barreiras do egoísmo. Esta experiência de salvação comunitária é o que muitas vezes suscita reações criativas para melhorar um edifício ou um bairro.

150. Dada a relação entre os espaços urbanizados e o comportamento humano, aqueles que projectam edifícios, bairros, espaços públicos e cidades precisam da contribuição dos vários saberes que permitem compreender os processos, o simbolismo e os comportamentos das pessoas. Não é suficiente a busca da beleza no projecto, porque tem ainda mais valor servir outro tipo de beleza: a qualidade de vida das pessoas, a sua harmonia com o ambiente, o encontro e ajuda mútua. Por isso também, é tão importante que o ponto de vista dos habitantes do lugar contribua sempre para a análise da planificação urbanista.

151. É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertencimento, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de «estar em casa» dentro da cidade que nos envolve e une. É importante que as diferentes partes duma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma visão de conjunto em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros. Toda a intervenção na paisagem urbana ou rural deveria considerar que os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como um contexto coerente com a sua riqueza de significados. Assim, os outros deixam de ser estranhos e podemos senti-los como parte de um «nós» que construímos juntos. Pela mesma razão, tanto no meio urbano como no rural, convém preservar alguns espaços onde se evitem intervenções humanas que os alterem constantemente.



Não é mesmo um Papa Pop? É, inclusive, o único Papa Jesuíta que tivemos até hoje. 

Papa Francisco Pop Jesuíta (!) que no capítulo V do documento, propõe "algumas linhas de orientação e ação": repudia gestores públicos que  focalizam resultados imediatos, apoiados por populações consumistas, o que torna necessário produzir crescimento a curto prazo.  Entre outras soluções (depois de falar da Educação, que é a óbvia) propõe a descentralização dos poderes em todas instâncias, instigando o diálogo e a transparência nos processos decisórios. Resta saber quem é que quer (ou quantos querem - efetivamente) dividir o poder ou reconhecer méritos alheios.

"Pop" é o coletivo de todos os elogios que neste momento eu poderia escrever.

Que o texto, que já nasce histórico, que acaricia o coração e ínsita a mente, fortaleça e ilumine quem luta pela preservação do patrimônio histórico, cultural e natural e inspire os demais, principalmente os que estão ocupados demais com o ódio... ops... falei nisso de novo?"

Viva o Papa Pop.





A Carta Encíclica Laudato Si (você pode ler na íntegra aqui)




Não importa quais sejam os direitos de propriedade, 
a destruição de um prédio histórico e monumental não deve ser permitida a esses ignóbeis especuladores, cujo interesse os cega para a honra. 
Há duas coisas num edifício: seu uso e sua beleza. 
Seu uso pertence ao proprietário, 
sua beleza a todo o mundo;
destruí-lo é, portanto,
extrapolar o que é direito.

Victor Hugo

domingo, 26 de julho de 2015

B. Bastos - O poeta indaiatubano de 1873 (2)


AOS POETAS DA CARANGUEJOLA

Indaiatuba, 25 de novembro de 1873 *
(mantida a grafia original)

Para que as quatro patas
Rimaes versos de caranguejola? ...
É que isso é grande feito
Que tendes na caxolla.

Fazer versos para tropeiros
Cantar ao som da viola
É só próprio desses pedantes
Que trazem ferrugem na bola.

E como andam a quatro
É que a quatro caminham
E bem ferrados de tropel
Como o porco no chão focinham.

Focinha, e assim gronhando
Não falão com muito abobora
Que tem nutrido no pandulho
Por causa da caranguejola.

Que  caranguejola é essa?
É synonimo de caranguejo? ...
É bicho de mar e terra
É amphibio ou percevejo?

Ou melhor de cetacio
Os bigodes semi-frisados
A negligé compostos
E como a capricho penteados?

Ou bastãosinho de myrtacio
São assim p´ra uma viola
Proprios a uma que cantam
Arreiando os Sax da bitola.

E servem para bandolins
Para gaitas e rebecas
Para instrumentos próprios
A festejar do convenio as camoccas

As camoccas da Ituana
São antigas pr´a viola
Destacando-se de duas em duas
Não fazem effeito sem caranguejola

Esses versos de gaiola
Que puzeram a mil trotes
Do autor o engenho da bola
Que toma agora os seus botes

D´um Bastos de Indaituba
Que ahi vem de galopim
Carantonhas e urubus
E com seus teclado de marfim.

Não é marfim isso é osso
Já podre e corrompido
De tanto taramelar a esmo
Com pretenções a ouvido.

E o Bastos de Indaiatuba
Quer vá comer capim
E não se metta a bigodear
Com essas asneiras sem fim.

Para elle uma camisola
Já que tanta se importa
Com machinas e machinistas
Pode bater a outra porta.

Os seus versos não tem entrada
Vem de cabeça occa
Sem sabor e desmiolada
E tudo isso é patacoada.


* Publicado no Jornal CORREIO PAULISTANO


terça-feira, 21 de julho de 2015

Crônicas de ANTON AMBIEL 1a. parte: Emigração dos suíços de Obwalden ao Brasil em 1881 até a fundação da Colônia Helvetia em 1888

ANTON ("Antonio") AMBIEL

Crédito da imagem: Centro de Memória da Helvetia (ao utilizar a imagem para sua pesquisa, cite a fonte)

Na  primavera de 1881, a viúva Ana Maria von Zuben Amstalden viajou do Brasil para a Suíça e se encontra com Samen. Como já passara 27 anos no Brasil, sabia contar muito sobre as plantações de café e sobre este distante país do Nono Mundo, de modo que muitas famílias necessitadas, de diversas comunidades, decidiram emigrar para esse promissor e belo país. E, já em maio de 1881, a viúva von Zuben voltava ao Brasil, acompanhada de seus irmãos, o capelão Nicolau Amstalden e Benedito Amstalden, bem como de 11 famílias, abaixo relacionadas e alguns agregados, ao todo 72 pessoas: Fam: Remigius Amstalden, Luis Müller, Luian Imfeld, Franz Herlig, Johann Britsachgi, Joseph von Ah, Joseph Hofstätter, Alois Hug, Peter Fanger, viúva Amstalden e Joseph Ambiel.

Em outubro do mesmo ano, a Fam. Franz Bannwart, de Giswil, tomou o mesmo rumo e, depois de 22 dias de viagem marítima, esse grupo, estando na sua maioria com saúde e noa disposição, chegou ao seu destino: o Sítio Grande, Estação Itupeva, Estado de São Paulo. Depois que todos foram apresentados, um após o outro, ao senhor de escravos Francisco de Queiroz Telles e, sendo finalmente aprovados e aceitos, foram contratados para o trabalho nos cafezais.

No Sítio Grande já se encontravam alguns conterrâneos, que haviam emigrado em 1854 e ainda trabalhavam como colonos, entre eles: Anton von Zuben e família, seu irmão Nicolau von Zuben e família, ambos filhos da já mencionada viúva von Zuben; Peter Wolf, Johann Fanger, Alois Sigrist, Franz Jacober, Peter Ignaz Burch, Joseph Amstalden e outros mais. Conforme relatos desses colonos, depois de amargas experiências e perda de muitos membros das famílias, tanto durante a viagem que, naquele tempo durava 72 dias em um navio a vela, como por doenças provocadas por muitas privações, muitos conseguiram progredir pelo trabalho e tenacidade e constituíam um bom exemplo para os recém-chegados. Para estes, a vida era também de muito trabalho, economia e renúncia, e só com muitas dificuldades lhe foi possível acostumar-se às novas condições de clima e alimentação. Não poucas vezes aconteceram que até homens ainda jovens, se viram obrigados a ficar acamados durante meses, vítimas de disenterias e febres. Mas, principalmente as pessoas mais idosas e as crianças sucumbiam à falta de alimentação costumeira, como leite, pão e batatas, não aceitando a alimentação à base de feijão, batata-doce e mandioca. Além disso, as casas muito simples, de chão batido, com quadro paredes laterais e um telhado, eram insalubres.

Esse primeiro ano se caracterizou pelas fortes e constantes chuvas, fato que não se repetiu no futuro. Choveu quase ininterruptamente durante quase dois meses, o que provocou a paralisação de todo transporte por estrada de ferro e causou grandes prejuízos. (chuva de 1854)

Contudo, ao trabalho, todos já tinham sido acostumados na Suíça. Agora era preciso acostumar-se também às outras circunstâncias.
O Revmo. Capelão Amstalden morava numa simples casa da fazenda, onde foi instalada a capela. Ele atuava como esforçado pastor das almas entre seus amigos, parentes e demais colonos. Ele incentivava os colonos para a paciência e a constância. A muitos pais de família ele soube dar seu apoio, ajudando-os com conselhos e ações em suas necessidades. Muitas vezes também ele intervinha como juiz de paz nas desavenças dos colonos. Além de suas funções sacerdotais e visita a doentes, ele trabalhava ativamente na roça. Plantava batatas, milho, feijão e outras coisas mais. Mais tarde, ele criou gado e porcos para, dessa maneira, não depender financeiramente do fazendeiro e dos colonos.

O primeiro ano passou, pois, no meio de grandes dificuldades e, entre os colonos havia alguns que desejavam voltar para a Suíça. No segundo ano a situação melhorou um pouco, principalmente a questão da saúde. Já havia colheitas e o leite necessário, pela aquisição de cabras e vacas. Também pelo trabalho e constância, os colonos conseguiram crédito e assim, aos poucos, tudo melhorava. O trabalho compensava, embora enormes economias nas pequenas famílias fosses reduzidas. Trabalhava-se com vontade e satisfação durante toda a semana e, aos domingos e dias santificados, participava-se com alegria dos atos religiosos. Às vezes eram programadas pequenas festas familiares, como por exemplo, nos dias de São João, São Pedro, no carnaval e outros mais, quando a comunidade se reunia em ambiente de paz, harmonia, alegria e amor. Não faltava música, pois sempre havia alguns que a apreciavam, destacando-se os irmãos Bannwart, que ficaram famosos como músicos.

As despesas das festas familiares raramente ultrapassaram a importância de 10$000 (dez mim réis) e eram divididas por todos os colonos participantes. Pouco oportuna e, portanto, devia ser evitada, era a presença de jovens brasileiros que vinham cobiçosos à procura de namoradas.

O jogo de bolão (boliche) foi o primeiro a ser introduzido e a ele eram dedicadas as tardes de domingo.

Em 1885 celebrou-se pela primeira vez a festa de tiro ao alvo e, como não havia armas nem munição, airava-se com arco e flecha. As prendas obtidas valiam 35$000 e 32 homens participavam da competição. Arnold Bannwart conseguiu o 1o. prêmio, no valor de 3$000. Neste ano foi fundada a Sociedade de Tiro Helvetia que, nestes últimos 13 anos, esteve sempre sob orientação dos irmãos Ambiel, Bannwart e Amstalden.

Em 1886 foi utilizada pela primeira vez a espingarda de caça com balas, numa distância de 100 m. Um cortejo festivo de atiradores caminhou durante uma hora da Colônia São Francisco até a capela da casa de Sítio Grande, onde foi celebrada uma cerimônia religiosa festiva, em homenagem a São Sebastião.

Aproximadamente 100 pessoas participaram desta festa e o total das despesas foi de 63$900, havendo ainda contribuições no valor de 65$000. Em 1887 foram construídos dois stands que foram utilizados durante 4 anos. Na mesma ocasião José Amstalden trouxe a primeira bandeira da Suíça para a Sociedade de Tiro e também os primeiros instrumentos musicais.

E1885 chegaram à Côlonia Johann e Benedikt Zumstein.

E1887, Joseph Amstalden, tendo ficado viúvo, recebeu do ser Queiroz Telles a incumbência de recrutar novas famílias na Suíça. Assim, em julho desse ano, ele trouxe para o Brasil 8 famílias de Giswil: Fam. Joseph Amgarten, Anton Ming, Johann Halter, Joahh Degelo, Alois Degelo, Alois von Ah, Anton Enz e a viúva Amgarten e mais alguns solteiros, como os irmãos Piuz e Ignaz Amstalden, ao todo 68 pessoas. Todos esses imigrantes foram muito bem aceitos pelo dono das terras e tiveram dificuldades menores que os seus antecessores, os quais lhes transmitiram experiência e orientação.

Nesta época a comunidade suíça, constituída de 25 famílias de Obwalden, que eram motivo de orgulho e fama do patrão e de inveja de muitos outros fazendeiros, atingiu seu apogeu.

Este foi o bom tempo em que a comunidade viveu sem grandes preocupações, estando todos satisfeitos com o seu patrão e, muito mais, este com seus colonos; e não se podia imaginar que, já no ano seguinte, a colônia suíça seria dissolvida, assunto ao qual voltarei mais tarde.

E1881, 1885 e 1887 muitas famílias de Obwalden seguiram para Casa Branca e Jaú, mas a maioria delas voltou anos depois para ficar em Helvetia e suas proximidades.

Como também é dever do cristão lembrar-se dos seus mortos, pedimos que Deus dê o descanso eterno a todos que morreram desde o início até 1889 e que conosco participaram das alegrias e lutas. Em 1883 morreu a sra. Amstalden Rotamkãnã e Joseph von Ah, de Sachseln, aos 63 anos; em 1887, o jovem Joseph Amstalden Remigis, aos 18 anos; em 1887 Anton Enz, de Giswil, aos 62 anos; em 1889, Remigius Amstalden, aos 65 anos, que havia regressado à Suíça e faleceram também algumas crianças inocentes.

Como alguns assuntos como: valor do dinheiro, salários, etc., possam talvez ser de interesse dos descendentes futuramente, relacionamos alguns dados: de 1881 até 1890 o valor do franco suíço se manteve de 380 a 480 réis. 1$000 (um mil réis) valia 2,50 francos.

1 saco de farinha de 45 kg........................................................................8$500
1 saco de arroz de 45 kg........................................................................ 10$500
1 saco de açúcar mascavo de 60 kg .......................................................10-12$000
1 caixa de petróleo (querosene) 36 litros ................................................... 10$000
1 arroba (15 quilos) carne bovina...............................................................5$000
Porco gordo (capado) por arroba........................................................  4,5 - 5$000
1 dúzia de ovos ............................................................................280/380 réis
1 alqueire de batatas........................................................................ 1-2,5$000
1 alqueire de feijão.........................................................................1,5 - 4$000
1 alqueire de milho .................................................................. 800 réis - 2$000
1 lata de mel de abelha (18 litros) ............................................................ 4$000
1 quilo de cera ........................................................................800 réis - 1$000
1 bom cavalo de montaria ...............................................................100-120$000
1 vaca leiteira................................................................................ 60-80$000
1 dia de salário ..................................................................................800 réis
1 salário mensal............................................................................. 8 - 10$000
Tecidos e artigos de ferro eram muito baratos

Durante 5 anos ganhava-se 640 réis por aquele alqueire de café colhido mas nada se ganhava para carpir café. Em 1887 eram pagos 600 réis e a partir dessa data, às vezes eram pagos 10$000 para carpir uma vez um cafezal de 1000 pés a 300 réis pela colheita de 50 litros.

Na prestação de contas, em fevereiro de 1888, novamente o Sr. Chico Telles queria pagar somente 600 réis, declarando que, se não tivesse acordo, ele demitiria todos os colonos suíços, substituindo-os por imigrantes italianos, aos quais fora aberta a imigração para o Brasil e que se contentavam com salários mais baixos e eram menos exigentes que os suíços.

Ficou claro, com base em anotações e cálculos que famílias fortes como a dos Ambiel e Bannwart não ganhavam durante  uma ano mais do que 60$000 a 70$000, na manutenção de 10 a 12000 pés de café. manteve-se, portanto, a exigência de melhores preços. O patrão erra irredutível em sua arbitrariedade e não reconhecia os  direitos dos colonos e, assim, depois de amadurecida reflexão e alguma especulação, 5 famílias se demitiram e, desse modo, se deu início a dissolução da comunidade.

Durante o período em referência, de 1881 a 1888, a escravidão ainda florescia no Brasil e, não raras vezes acontecia que os suíços eram testemunhas do tratamento desumano que se dava aos pobres negros. Só depois de conhecer o costume dos brasileiros foi possível interceder junto ao senhor de escravos e conseguir o perdão dos castigos. A muitos escravos foi possível ajudar, também dando-lhes alimentos.

Em 1883 foi assassinado Nicolau Burch, feitor do  Sr. Queiroz Telles, com duas facadas, por um negro. O assassino em fuga, foi morto a tiros.






FIM DA PRIMEIRA PARTE
                                                        (esta crônica de Anton Ambiel, continua na PARTE 2 ).


Fonte: Memórias - 150 anos de Anton Ambiel, livro cedido generosamente pela descendente Cléci Ildith Ambiel Noemberg.

O livro citado foi elaborado pela seguinte equipe de trabalho:
Antonio César Ferreira de Camargo Ambiel
Benta Célia Teixeira de Camargo
Cássia Veniti Ratti Zumstein
Célia Regina Wolf Antonioli
Clemes M.J. Ambiel Baptista Alves
Lisiane Maria Bannwart Ambiel
Luiz Antonio Ambiel
Luiz Tarcízio Zumstein
Maria de Lourdes Baraldi
Rubens Galdino Ferreira de Carvalho Filho

Com a colaboração de:
Arnold Albert Heuberger
Gabriel Ambiel Faccioli
Henrique Steve
Maria Alvina Krähenbühl
Sandra Zumstein.

Anton Ambiel nasceu em 1862 e faleceu m 1928. Consultando jornais da época em que viveu, achei referências à ele como sendo o "diretor e gerente" da colônia Helvetia, referindo-se ao importante papel que ele exerceu como líder político e comunitário. As crônicas que ele deixou (entre elas a que está acima) é de valor imensurável enquanto documento primário do período histórico da imigração ocorrida para o Brasil na segunda metade do século 19, representando também valioso testemunho do regime de colonato, sem contar a emoção contida no sensível trato aos antepassados.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Pró-Memória recebe exposição temporária do Museu Republicano Convenção de Itu

A Fundação Pró-Memória de Indaiatuba traz para o Museu Municipal Casarão Pau Preto a exposição temporária do Museu Republicano “Convenção de Itu”, extensão do Museu Paulista da USP, "Espaços Escolares: reformas do ensino público na Primeira República” contendo imagens sobre os grupos escolares do Estado de São Paulo.
O Museu Republicano “Convenção de Itu” é uma instituição cientifica, cultural e educacional, especializada no campo da História e da Cultura Material da sociedade brasileira, com ênfase no período entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX, tendo como núcleo central de estudos o período de configuração do regime republicano no Brasil. Encontra-se instalado em sobrado histórico em Itu, erguido nas décadas iniciais do século XIX, e que se tornou residência da família Almeida Prado. Foi nesse local que se realizou, em 18 de abril de 1873, uma reunião de políticos e proprietários de fazendas de café para discutir as circunstâncias do país e que, posteriormente, se transformou na famosa Convenção Republicana de Itu, marco originário da campanha republicana e da fundação do Partido Republicano Paulista.
A exposição foi concebida pela equipe do Museu Republicano, a partir do acervo de fotografias pertencente à coleção Washington Luis, guardada no Museu Republicano “Convenção de Itu” da USP. Parte do rico material a ser exposto é composto por reproduções de fotografias de escolas públicas em várias localidades paulistas entre 1889 e 1930.

Juntamente com esta exposição temporária do Museu Republicano, a Fundação Pró-Memória de Indaiatuba preparou a exposição “Retratos escolares – Um breve histórico da Educação em Indaiatuba”, que apresenta a trajetória e a formação do ensino público escolar na cidade de Indaiatuba. As informações foram retiradas do acervo do Arquivo Público Municipal “Nilson Cardoso de Carvalho” e passa por diferentes momentos da história do ensino público entre as décadas 1850 e 1950.
Ambas exposições serão lançadas dia 22 de julho de 2015, no Casarão Pau Preto, juntamente com o Projeto Memórias de Indaiatuba, que visa relatar a história de Indaiatuba pelo viés da oralidade, resgatando e compartilhando com a comunidade histórias sob diferentes pontos de vista. 
O primeiro bate papo terá como tema “A história da Educação em Indaiatuba” e contará com as participações da Secretária de Educação, Rita de Cassia Trasferetti e da Professora Deize Clotildes Barnabé de Morais, funcionária da Secretaria de Educação e integrante do Conselho Administrativo da Fundação Pró-Memória.
A exposição estará aberta ao público gratuitamente no Museu Casarão Pau Preto e o bate papo e discussão ocorrerá às 19h30 no auditória da Tulha do Casarão.
Serviços:
Projeto Memórias de Indaiatuba e Exposições “Espaços Escolares: reformas do ensino público na Primeira República”, do Museu Republicano “Convenção de Itu” (USP) e “Retratos escolares – Um breve histórico da educação em Indaiatuba”.
Data de abertura: 22 de Julho de 2015
Horário: 19h30
Museu Municipal Casarão Pau Preto
Rua Pedro Gonçalves, 477 – Jardim Pau Preto
Indaiatuba – São Paulo
Telefone: (19) 3875-8383

....ooooOoooo....

Sugestão de Leitura:

Consultar: Faculdade de Educação - FE da UNICAMP

Título: A instrução publica em Indaiatuba : 1854-1930 : contribuição para a historia da educação brasileira
Título [Outro Idioma]: The public instruction in Indaiatuba: 1854-1930: contribution for the educational brazilian history
Autor(es): Silvane Rodrigues Leite Alves
Área de concentração: História, Filosofia e Educação
Titulação: Mestre em Educação
Resumo:
Resumo: Esta pesquisa investiga através de diversas fontes ?primárias e secundárias - o processo de estruturação da instrução pública na cidade de Indaiatuba/SP. A cronologia histórica estabelecida inicia-se com o primeiro registro de existência de um professor de primeiras letras na então Vila de Indaiatuba, no ano de 1854 e prolonga-se até o fim da República Velha, em 1930. No período abordado, observou-se que a educação, cumprindo sua missão na ideologia liberal, permeou o discurso dos políticos republicanos locais, sendo registrados nos anais das sessões da Câmara Municipal, embora na prática, os avanços não tenham sido tão significativos, atravancados que eram pelas questões políticas e econômicas, que interferiram e influenciaram o projeto republicano de expansão da escola pública. A absorção do ideário republicano pelas elites detentoras do poder local, pôde ser observada no empenho pela implantação de um Grupo Escolar na cidade, em 1895, Grupo esse dissolvido dois anos depois, em conseqüência das disputas pelo poder local. Através do estudo da estruturação da educação pública em Indaiatuba (SP), principalmente com a utilização das fontes documentais primárias, esta pesquisa pretende contribuir para a escrita de uma História da Educação Brasileira 

terça-feira, 14 de julho de 2015

CENTRO de Indaiatuba - De cidade dormitório à polo comercial

Texto originalmente publicado na REVISTA EXEMPLO IMÓVEIS - 5a. edição
Agradecimentos: Sr. Aluísio Williampresidente do Grupo AWR

Débora Andradesjornalista.


Por mais de cem anos, o Centro foi sinônimo de "cidade" em Indaiatuba. 

Durante esse tempo, as construções residenciais se misturam aos prédios comerciais e esse foi um dos motivos pelo qual até 1970 a cidade não tinha um centro comercial definido. A outra razão, segundo o memorialista Antônio Reginaldo Geiss, explica-se no fato de que parte das áreas centrais pertenciam aos grandes proprietários que ao invés de investir, mantinham seus terrenos intactos.

Foi nas proximidades da Igreja Matriz, nas ruas Candelária, XV de Novembro e adjacentes, que surgiram os primeiros armazéns e onde, mais tarde, se definiu o primeiro centro comercial do município. 

Na época, os comerciantes eram locais e com sua economia dividida entre a cultura de café e batata e algumas pequenas fábricas, a cidade cresceu pouco na primeira metade do século XX. Em 1950, havia 11.253 habitantes no município. Quase quinze anos mais tarde, eram 22.928 (lembre-se: falar da cidade nesta época é o mesmo que falar sobre o Centro de hoje). 

Em 1970, baseado principalmente na expansão da indústria e de serviços, o crescimento acelerou. Na década seguinte, a cidade recebeu um grande número de migrantes e viveu o que o memorialista chama de 'boom de crescimento'.

A partir daí, definiram-se três grandes e distintos centros comerciais. “A rua Candelária e a XV de Novembro compreendem o mais antigo deles. A rua 24 de Maio, que na década de 50, tinha apenas três residências e poucos comércios, formou o segundo. O terceiro centro está localizado no Jardim Morada do Sol, bairro que começou a ser povoado na década de 1980”, explica Geiss.

Embora o Plano Diretor da cidade não faça restrições quanto ao tipo de construções que devam habitar o bairro, hoje as ruas mais antigas da cidade estão tomadas quase completamente por prédios comerciais, algumas residências foram adaptadas à nova função, outras foram demolidas para ceder espaço aos novos projetos. “Na rua Bernardino de Campos, que era uma rua de residências, restam apenas três ou quatro casas, recorda o antigo morador. A tendência começou em 1942, com a instalação do primeiro banco no município, o Banco Mercantil de São Paulo. “Foi um processo natural. As casas foram vendidas para os comércios, mas nada foi premeditado, não houve zoneamento”, conclui Geiss,  presidente da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba.

As ruas

Embora em 1830 apenas quatro ruas e quatro travessas compusessem o povoado de Cocais, se algum viajante procurasse pelo nome XV de Novembro, certamente se daria por perdido, uma vez que a via foi chamada originalmente de rua das Palmas. 

À esquerda da via ficava a capela do povoado, hoje a Igreja Matriz de Indaiatuba. Paralelamente a essa rua, e limitando o lado oposto da praça da igreja, surgiu uma outra rua, a qual recebeu um nome bastante previsível: Nossa Senhora da Candelária. Mais tarde, o nome da passagem foi mudado para rua da Constituição e anos depois, por um motivo desconhecido, voltou às origens com o nome de rua Candelária, simplesmente. 

Além delas, existiam também a rua da Palha, a rua das Flores, a rua São José, a rua Direita, a rua do Comércio e a rua Alegre, nomes bastante informais, mas totalmente compreensíveis em uma vila do começo do século XIX usada basicamente como dormitório. 

Em 1913, Indaiatuba era ainda composta por poucas ruas, mas a rua das Palmas já havia recebido o nome que mantém até hoje, XV de Novembro. A parte central da cidadezinha encontrava-se no cruzamento desta com a rua do Comércio, apontada com divergência nos registros que mostram sua correspondente atual ora 7 de Setembro, ora Siqueira Campos. O mais provável, no entanto, é que corresponda à segunda, já que em 1920 outra rua na cidade recebia o nome comemorativo à Independência do Brasil.

Na década de vinte, ainda era possível contar nas dezenas as vias da cidade, que dentre as aproximadamente duas mil ruas que compõem o município hoje, fazem parte do Centro atual. Elas eram 14: São José, Direita, 7 de Setembro, do Comércio,  Bernardino de Campos, Cerqueira César e Padre Bento Dias Pacheco, cortadas pela rua da Palha, Candelária, XV de Novembro, 13 de Maio, Alegre, das Tropas e Araújo, uma rua curta que ia do largo das Caneleiras até a linha da Estrada de Ferro.

Grande parte desses nomes foram substituídos ao longo do tempo, em uma época em que tudo era feito por meio de decreto do Executivo, razão pela qual nem a Câmara nem a Fundação Pró-Memória possuem registros sobre as datas e justificativas das mudanças. A rua São José, primeira desde a fundação do povoado, é hoje a Dom José. A rua curta que ia desde a praça Rio Branco até a estação da Sorocabana chamada de rua Direita, é a atual Augusto de Oliveira Camargo. A Rua da Palha, virou Pedro Gonçalves. A Rua das Flores, Pedro de Toledo, e a Rua Alegre, 9 de julho. “Os novos nomes se referem a datas históricas ou personagens importantes. Acho ótimas as mudanças, já que existem nomes de ruas aqui que não tem sentido algum. Isso não deveria existir. Tem muita gente importante que ainda não tem nome nas ruas de Indaiatuba”, opina Geiss.  


Rua Augusto de Oliveira Camargo
Crédito Silva & Penna

Com o intuito de preservar a história da cidade, a Fundação começa a estudar um projeto para colocar, junto os nomes antigos junto aos nas placas indicativas. “O ser humano é um ser histórico e preservar detalhes como os antigos nomes das ruas da cidade é importante para não se perder as referências”, explica Marcelo Cerdan.

Com o passar dos anos, não apenas os nomes sofreram alterações, mas também  a paisagem - inúmeras vezes mais que os nomes, à proposito. Os homens do ofício, conhecidos como Chico Sapateiro, Joãozinho Relojoeiro, Luiz Caixeiro e Zé Mascate, deram lugar ao anonimato das lojas franquiadas. 

No século XIX o primeiro prédio da Prefeitura, que também foi Câmara Municipal e Cadeia Pública estava localizado no centro da praça Prudente de Moraes, onde hoje está a fonte de água luminosa. Mais tarde na década de 60 foi construído um novo prédio somente para a Prefeitura e Câmara com uma arquitetura majestosa e clássica, que depois se transformou em uma construção repleta de vidros e sapatos à mostra: eis agora a mais nova loja da Sapataria São Vicente. 

Na rua Siqueira Campos esquina com Candelária, o armazém do Mário Magnusson trata de moda desde a instalação da Multi Ponto. O armazém de ArthurTomazi é agora Foto Nipon, o dos Irmãos Zerbini, Despachante Mário e Sílvio Candello. A loja José Tancler é agora Foto Hugo. 


Farmácia - Década de 1930
Silva e Penna

Incansavelmente a paisagem se modifica, mas em uma cidade que valoriza a preservação das raízes, ainda é possível se deparar com lugares que cultivam a origem: como se tivessem voltado no tempo eles mantém com orgulho o mesmo prédio, o mesmo nome e a mesma disposição dos produtos que há meio século.  

Casa Feres, o comércio mais antigo da cidade

O comércio mais antigo de Indaiatuba ainda em funcionamento é a Casa Feres. Com 98 anos de existência a loja passou entre as gerações da família Aun e até hoje mantém uma clientela indaiatubana muito fiel.

O atual administrador da loja, José Celeste Aun casado com Joziani Polezel Aun, conta como essa tradição passou de pai para filho. “Tudo começou quando um tio do meu avô saiu do Líbano e veio para o Brasil em 1908 e acabou se estabelecendo em Campinas. Ele começou a mandar cartas para os irmãos e uma dessas caiu na mão do meu avô, Feres Pedro Aun. Ele pegou dinheiro emprestado e veio para o Brasil no ano seguinte para tentar a vida quando tinha apenas 18 anos, trabalhou um ano em Campinas até aprender a língua”, conta o neto Aun.

Segundo Aun, a ideia principal era juntar dinheiro e voltar para o Líbano ou trazer a família toda para o Brasil pois as coisas não estavam bem por lá, mas na prática os planos não saíram como foram planejados. “Na Primeira Guerra Mundial a família do meu avô faleceu no Líbano, morreram todos de fome, o pai a mãe e os irmãos. Ele recebeu essa notícia através da vinda do primo Elias José Aun, que avisou que não adiantava ele voltar porque não sobrou ninguém da família”, relata.

Feres Pedro Aun, começou a namorar Wadiah Cury que morava em Campinas e depois do casamento veio para Indaiatuba e montou a loja em 1911 que foi chamada de Casa do Feres que vendia tecidos. A primeira foi montada em um prédio alugado na esquina da Bernardino de Campos com a XV de Novembro, depois de algum tempo teve que se mudar do lugar, foi quando Aun comprou a esquina da XV de novembro com a Siqueira Campos onde era um armazém. “Em 1936 meu avô resolveu reformar todo o prédio e quem administrou a reforma para ele foi Antônio Zoppi, que era amigo dele”, conta.

Na época de Getúlio Vargas nos anos de 1950 a 1952 os estrangeiros sofreram uma certa perseguição no País e a Casa do Feres ficou fechada neste período. “Nesse receio meu avô se afastou e fechou a loja por dois anos, mas manteve o contato com os clientes por dentro e nunca ficou sem as atividades comerciais”, diz.

Em 1968, com complicações de saúde o comerciante Feres Pedro faleceu. Sua esposa, Wadiah,  ficou em luto e manteve a loja e seus pertences exatamente como ele deixou durante um ano. “Isso faz parte da nossa cultura, depois da morte de meu avô a loja ficou em marcha lenta durante 14 anos, ela não se empenhou nos negócios, simples- mente manteve a loja aberta”, relata o comerciante. O filho do casal Salim Feres Aun, ajudou a mãe neste período.

O filho de Salim, que hoje é o atual proprietário, se formou em economia em 1980 e no ano seguinte o primo Mario Paulo convidou José Celeste para tocar o negócio da família. “Na época eu trabalhava em São paulo, era economista do Instituto de Pesquisa Tecnológica  (IPT) e num ato de loucura larguei o trabalho para pegar a loja”, lembra com sarcasmo e completa. “Ficamos sócios por nove anos e em 1991 meu primo comprou uma indústria e eu comprei a parte dele da sociedade e toquei sozinho. Em 1993 meu pai faleceu e minha mãe, Iracema Joaninha Cainelli Aun, veio me ajudar e estamos aqui até hoje”, diz Aun.

No ano de 1994 a avó de José Celeste faleceu, aos 93 anos, e segundo ele Wadiah era forte e ficou no balcão em atividade até os momentos finais. “Depois que ela faleceu reformamos a loja, esperamos um ano para fazer as mudanças, pois seguimos a nossa tradição cultural e mantemos tudo igual como ela deixou. Em 1995 reformei tudo pois a casa do seu Feres era acoplada com a loja e nunca sabíamos o que era casa e o que era loja”, fala Aun.

O proprietário ressalta que por muitas vezes apareceram antigos clientes contanto histórias do passado que envolveram a loja. “As vezes vem a neta com a avó aqui e contam histórias interessantes, outras vezes vem pessoas e comentam que a avó fugiu com o avô e passou na Casa do Feres para comprar o enxoval e outras histórias desse gênero”, descreve.

Hoje a Casa Feres conta com a colaboração de 18 funcionários. “É um negócio que ainda fica aos olhos do dono. Temos o atendimento corpo a corpo e não informatizamos nada porque esse ramo nos obriga a treinar um profissional para colocar no balcão e atender os clientes”, compartilha o proprietário.


Em 2008 a loja foi ampliada mais 500 m², a ampliação foi feita depois que o proprietário do comércio adquiriu o salão ao lado, no qual era uma loja de colchões. “Em 2007 consegui comprar o espaço ao lado e ampliamos em 2008. Hoje temos ao total 800 m² de loja, pois o nosso produto precisa de muito espaço para expor”, fala Aun.

José Celeste Aun afirma que no momento não tem nenhum filho se preparando para assumir o negócio, mas isso não o incomoda, pois a sua preocupação é a felicidade da família. “Antes dos negócios tem a vida de cada um. Tenho dois filhos, o Bruno José e o Ruy José. quero que eles se dêem bem, nunca forcei eles a ficarem na loja. Não tenho medo que a loja acabe um dia, pois ela não foi planejada para durar tanto tempo, essa tradição simplesmente aconteceu meu avó veio para o Brasil para ter uma vida melhor pois no Líbano estava insuportável, ele não pensou em transformar isso em tradição e eu também não quero impor isso”,  finaliza Aun.




Rua XV de Novembro esquina com Bernardino de Campos - ano de 1930 
(Acervo Silva e Penna)


Ao que tudo indica, Indaiatuba nasceu de uma necessidade dos viajantes, que no começo do século passado precisaram escolher um ponto entre as dez léguas que separavam a vila Campinas de Itu para descansar. 

Em 1830, ainda na humilde posição de Freguesia da Vila de Itu, nascia a terra dos Cocais, elevada à vila somente em 1859. Tudo começou onde hoje está localizada a rua XV de Novembro. O município ainda não passava de um povoado no meio da estrada, mas as raízes históricas já começavam a infiltrar o solo que logo passaria a ser chamado de vila e, mais tarde, cidade.  

Um começo reconhecido hoje dentre as ruas do bairro Centro...



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