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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 12

Capítulo XII – Premonição e Busca


Foi assim que, na manhã do dia seguinte (1) , quinta-feira, 12 de dezembro, acompanhado pelo amigo Leonardo Simione e pelo sobrinho Antônio Lelário, tomou o trem da estação de Piracicaba e veio para Indaiatuba.

Comumente, muitas pessoas do lugarejo deslocavam-se para a estação a cada trem que chegava. Poucos para esperar intencionalmente alguém, a maioria só para ver o movimento. Mas aquele trem, particularmente, teve um fator de atração maior ainda: o delegado de Piracicaba avisou o delegado de Indaiatuba, o Sr. João Fermiano de Souza sobre a chegada do pai de Domenico no trem das 11:45h, que viria de Piracicaba. Imagine o leitor o que aconteceu quando a população “ouviu falar” que o delegado João Fermiano, o prefeito Major Alfredo e o escrivão Luiz Teixeira de Camargo estavam indo para a Estação!

Após a recepção que poderia ser definida até como “calorosa” se não fosse a triste situação, juntos chegaram até a pensão da viúva Bertolotti onde Modesto ficou, enquanto as autoridades saíram com a promessa de procurar notícias.

A viúva, comovida pelo desespero do homem, pôs-se a chorar e contou a Modesto que tinha perdido o marido e que tinha ficado com cinco filhos pequenos. Disse, depois, que no dia cinco, Domenico tinha alugado um quarto e que tinha saído antes da refeição, não voltando mais.

Teve uma perturbação imprevista quando ouviu aquela senhora dizer “cinco filhos pequenos”. Até àquela impactante frase, não estava pondo atenção ao que ela dizia, introspectivo que estava, em sua angústia. Mantinha uma postura educada, praticamente fingindo-lhe atenção. Mas ali teve um sobressalto, suas palavras que até então eram sussurros ininteligíveis, ecoaram eu sua mente, repletas de significado e suas mãos se molharam de frio suor. Olhou-a então com mais atenção, sentiu a garganta engasgada na dor que a surpresa intensificava mais ainda, e disse:

“-Sim, eu reconheço a senhora! A senhora estava no sonho, com seus cinco filhos. Sei também como é a casa onde está meu filho morto; é aquela!”

E assim dizendo indicou uma casinha que se divisava a pouca distância pela janela.

A mulher, então, respondeu:

“-Mas aquela é a casa do Adão R.!”




O Armazém de Adão R está à direita nesta foto, com "letreiros" de identificação em cima.
Ao fundo, à direita, é possível ver as torres da Matriz Nossa Senhora da Candelária.
É muito provável, pela qualidade da imagem (e outros motivos), que essa foto tenha sido feita no dia da autópsia do corpo de Domênico, uma vez que há uma foto muito parecida (em qualidade de imagem) do corpo sendo autopsiado.


Sem poder compreender aquilo tudo de forma concreta, Modesto sentia apenas sua tristeza aumentar. Não compreendia que o sonho havia cumprido um papel de mensageiro entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. E embora acreditasse cada vez mais nessa informação, não lhe dava crédito o suficiente para utilizá-la como combustível para seu corpo e mente, cansados e confusos. Afinal, sonho era sonho, não havia provas e a realidade é coisa bem diversa. Renunciar à razão e entregar-se ao sonho significava enfrentar a dor do luto. Talvez por isso, a clara mensagem sobrenatural não se sobrepunha à razão: urgia continuar procurando o filho.

Neste meio tempo a notícia da chegada de Modesto à procura do filho tinha corrido a cidade e todo mundo comentava o fato. Alguém lembrou que naquele dia 5 de dezembro tinha visto Domenico ser convidado pelo Adão a entrar em sua casa para ver alguma mercadoria. Também correu a voz pequena que, justamente naqueles dias, ninguém lembrava ao certo, tinham aterrado o poço no quintal da casa do Adão.

O prefeito Major Alfredo foi até o largo da Cadeia, mas precisamente na esquina das atuais ruas Cerqueira César com 15 de Novembro (onde está o Banco do Brasil) (2) , na casa do amigo Cesare Lisone 45 anos (3), casado, italiano, negociante, e contou que o pai de Domenico De Luca, cujo desaparecimento estava impressionando a cidade toda, achava-se no hotel da Dona Meritá Bortolotti. Cesare foi até o hotel, provavelmente a pedido do próprio prefeito, para oferecer os préstimos que as autoridades não poderiam no momento, uma vez que estavam empenhados na procura do moço.




Armazém de Cesare Lisone, onde atualmente é o Banco do Brasil
Esquina da Rua Cerqueira César com Rua XV de Novembro
(sem data)


O capitão Benedicto de Salles Passos, 32 anos, casado, funcionário público que trabalhava na Câmara e natural de Itatiba, que já estava lá, informado que havia sido pelo escrivão Luiz Teixeira de Camargo, apresentou-o à Modesto De Luca. Terminadas as formalidades das apresentações, Modesto perguntou se Cesare sabia de seu filho ou das pessoas com quem tinha negociado. Cesare disse que, infelizmente, só poderia responder à segunda pergunta, pois era de seu conhecimento que Antônio N. havia vendido uma partilha de cereais para Domenico De Luca.

O senhor Modesto e seus acompanhantes Antônio Lelário e Leonardo saíram então do hotel, com a intenção de ir até a casa de Antônio, conduzidos pelos solícitos Cesare e Benedicto. Subiram calados pela rua Candelária onde se ouvia apenas o surdo ruído dos passos da comitiva no chão de terra batida. Estranhamente e quebrando o silencio, sem nenhum motivo aparente a não ser sua própria intuição, Modesto observou novamente a casa de Adão. Perguntou por três vezes, naquele e em outros dois momentos, por que a casa estava trancada.

O que ou quem lhe falava ao coração?

De onde vinha aquele pressentimento?

Que motivos racionais explicariam aquela insistente e estranha percepção?

Cesare estranhou a insistência da pergunta, mas explicou que ali morava Adão R., que mantinha uma pequena venda no local, que seus pais eram colonos da Fazenda Bicudo e por esse motivo, era muito provável que ele estivesse, por razões que ignorava, visitando-os. Enquanto Cesare dava suas explicações, o capitão Benedicto se lembrou que a venda estava fechada há uns quatro ou cinco dias, fato que só lhe causou estranheza naquele momento. Pensou mas nada disse que aquilo era no mínimo curioso, uma vez que a venda estava sempre movimentada com desocupados jogando bocha ou baralho. Dias mais tarde, em seu depoimento, Cesare Lisone declarou que, só após saber que Adão estava envolvido no crime, é que obtivera uma explicação plausível, embora sobrenatural, da insistência do pai: a “telepatia” (4) .

Viram a esquina e entraram na rua do Comércio (atual rua Sete de Setembro); foram até a rua da Palha (atual Pedro Gonçalves) a qual subiram até a esquina da rua Boa Vista, onde ficava a barbearia de Antônio N. Ao saírem da Boa Vista e já há uns quinze ou vinte passos da barbearia, que também era um ponto de negócios, perceberam que ele, que estava na calçada, passou rapidamente para o lado de dentro assim que avistou o pequeno grupo. Não se retraiu apenas, mas também começou a mastigar o charuto que fumava, não disfarçando a ansiedade. Capitão Benedicto, que muito conhecia Antônio e percebeu também indisfarçável mudança em sua fisionomia, disse:

- “Seu Antônio, este é o pai do moço que consta ter desaparecido daqui no dia cinco. E ele soube que o moço esteve na sua casa a negócios com o senhor, então ele vem pedir-lhe informações sobre o paradeiro do mesmo.”

Estremecido e visivelmente pálido ele respondeu que


"... já sabia que o pai do mocinho [referindo-se a Domenico] o estava procurando, mas que ele não sabia onde estava... e que o mocinho havia estado ligeiramente [ali] no dia em que sumiu, não tendo entretanto feito nenhum negócio com ele... e que tinha prometido de voltar lá, mas não... [voltou].”


Respondera movimentando os lábios roxos, pálido, com as olheiras de costume... Sua feição se modificava a cada pausa e a voz tremia mais e mais... Tentou acender o charuto por três vezes durante a resposta, sem êxito, prolongando sua fala por um tempo longo e comprometedor. Dias depois, em seu depoimento , o capitão Benedicto (5) disse que sua voz ...”revelava sempre grande perturbação de espírito e desconfiança...com olhares muito desconfiados para com Modesto... [a ponto de ele achar que tivesse, para com ele]... qualquer causo ou agressão.”

Modesto agradeceu e estendeu-lhe a mão.

Antônio retribuiu, apertando sua mão com a mesma frieza e força com que havia dado a paulada em seu filho.

Virou as costas e não acompanhou os visitantes até a porta do negócio. A poucos passos dali, até os companheiros de Modesto, Lelário e Leonardo, que não o conheciam, comentaram a indisfarçável alteração.




Família de Domênico de Luca, em imagem doada po Márcia de Luca para o livro "O Crime do Poço"
Sr. Modesto está do lado do filho Domênico que o quinto menino, de gravatinha borboleta.

.....oooooOooooo.....

(1) Parte das informações deste capítulo são advindas da Tribuna de Indaiá de 1o de janeiro de 1961.

(2) PENTEADO, 1999. p.13


(3) O depoimento de Cesare Lisone tem início na p.153 do 1º.vol. dos autos do processo transcrito pela FPM.

(4) "Telepatia" foi a exata palavra usada por Cesare Lisone em 1907, expressão que o escrivão Luis Teixeira de Camargo fez questão  de destacar como sendo "palavra do depoente"

(5) O depoimento do Capitão Benedicto de Salles Passos tem início da página 157 do primeiro volume dos autos do processo.

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