Eliana Belo Silva
Hoje, sábado, dia 29 de março de 2025, o Esporte Clube Primavera conquistou uma posição histórica; pela primeira vez chegou na elite do futebol paulista após uma campanha notável na Série A2 do Campeonato Paulista de 2025, o que o levará para disputas junto ao seleto grupo de clubes paulistas no ano que vem. Para homenagear o nosso querido "Primavera", hoje o blog conta um pouco da história dele, com base em informações do livro "História de Indaiatuba na perspectiva biográfica de Antônio Reginaldo Geiss", de minha autoria.
No domingo, 8 de novembro de 1914,286 o ‘Sport Athletico Club Primavera’ jogou, no “Pátio das Caneleiras”, um match com um team vindo de Salto. (1)
Ou ainda:
No próximo domingo o Club de Foot-Ball de Capivary, para disputar um match no mesmo campo com o nosso ‘Primavera F.B. Club’. (2)
Houve uma tentativa de regulamentação desse time em 1909, mas não houve êxito. Vale registrar que nessa época, o chefe do poder executivo local era o Major Alfredo Camargo Fonseca, que tinha um grupo político rival comandado pelo comerciante Francisco Xavier da Costa, o Chico Boticário, dono na única farmácia que Indaiatuba teve por anos: a Farmácia Candelária. A rivalidade desses dois grupos foi tanta que, durante a primeira metade do século passado, a cidade se dividia em "grupo do Major" e o grupo do Boticário", sendo que cada grupo tinha lugares específicos para frequentar e com o futebol, não foi diferente. É relevante citar isso, pois esse primeiro Primavera foi formado pelo grupo do Major e, portanto, era boicotado pelo grupo do Boticário, que tentou, inclusive, formar outro time , mas o Major negou todos os pedidos formais, tendo essa negativa até sido motivo de informação em jornal da capital:
“Indaiatuba tinha que ter um time só... para que desunir se um time só podia unir? (3)
Indaiatuba não tinha imprensa escrita e quando o time entrou em crise e se extinguiu, nossa cidade vivenciava o período subsequente ao episódio do ápice do conflito entre o Major Alfredo Camargo da Fonseca e o pároco local, o vigário Miguel Guilherme (episódio do Bispo D. Nery). Então, além do conflito político contra o grupo do Boticário, houve também esse confronto intenso que acabou gerando uma crise no futebol, colaborando para a extinção do time.
O primeiro Primavera foi extinto mas, no mesmo ano - 1916 - o Indaiatubano Futebol Clube, apelidado de Bitola Larga, e dois anos mais tarde, em 1918, surgiria o Corinthians Futebol Clube, oriundo de uma dissidência do Indaiatubano.
Inicialmente, esses dois times jogavam – não entre si, em terrenos abertos, ou “largos”. Usavam principalmente o Largo das Caneleiras e o terreno onde mais tarde seria construído o Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes.
O Indaiatubano foi formado pela turma do Chiquinho Boticário, da Farmácia Candelária, formada pioneiramente pelos Lisoni, os Minioli, Nunes Beccari, Milani, Zoppi; tinha uma quadra gramada, cercada por pinhão paraguaio na antiga Rua da Palha (atual Pedro Gonçalves) na quadra entre ruas 11 de Junho, Candelária e 24 de Maio, propriedade que mais tarde foi do Vicentão Bernardinetti.
O Corinthians, do grupo do Major, originalmente, surgiu mais elitizado, cujo primeiro presidente foi Sebastião Teixeira de Camargo (Teté) formou-se com os Steffen, Skupien, Albrecht, Lyra, Araújo Campos, Nicolau, Guimarães, Pioli, sendo que um grupo dessa primeira formação ganhou da Prefeitura um terreno (que foi apelidado de terrenão ou areião) para fazer uso como um campo para o time, justamente onde mais tarde seria o primeiro campo do Primavera: a quadra entre as ruas 11 de junho e 24 de maio, entre as ruas 15 de Novembro e Pedro de Toledo, na frente da praça do Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes. Araticuns e indaiás foram retirados para fazer o descampadão.
Corinthians e Indaiatubano eram mais do que rivais de campo, chegavam a ser arqui-inimigos. Consta que jogaram apenas duas vezes um contra o outro, mas era tanta rivalidade que os “jogos não terminaram” (4). Contra os outros times de Salto, Itu, Capivari, Porto Feliz, Piracicaba, houve várias partidas, para onde os times iam de trem, em uma empreitada parecida com uma excursão: iam no sábado, voltavam na segunda-feira. As famílias acompanhavam os jogadores, era um evento chique, o futebol tinha aquele glamour de ascendência inglesa.
Há indícios que time, torcedores e simpatizantes de um time só frequentavam o Cine Internacional (na esquina da rua Pedro de Toledo com a rua Cerqueira César, onde mais tarde seria o Villanova) e o outro time com seus torcedores e simpatizantes só frequentavam o Cine Recreio (Praça Prudente de Morais) de Miguel João.
Era um ódio figadal.
E nasce o o Primavera
Com uma Indaiatuba do tamanho de um ovo, os dois times ficaram fracos, perdendo partidas e sem atrair torcida. O Major chamou os envolvidos e propôs uma união, para fortalecer o futebol de Indaiatuba, e os que não estavam desanimados, os que não haviam debandado, aceitaram a fusão. Em nome do esporte, hoje apontado como relevante estratégia de inclusão social, relevaram a rivalidade política e por um tempo prevaleceu a união.
Assim, quando estes dois times se tornaram um só, em ata lavrada no dia 27 de janeiro de 1927, a denominação escolhida foi em homenagem àquele pioneiro Sport Club Primavera do início do século. Essa ata foi feita em livro outrora pertencente ao Corinthians e como prova da união dos dois times, todas as taças, medalhas e prêmios até então conquistados pelos dois foram unidos em uma sede só, a do “novo” Esporte Clube Primavera no “Campo da Rua 15” (na quadra onde hoje é o Magazine Luiza).
Ata de Fundação de 27 de janeiro de 1927.
Sócios-fundadores que eram do Corinthians: Alberto Magnusson, Alfredo Delboni, Antônio de Oliveira Bueno, Antônio Magnusson, Antônio Nicolau, Benjamin Lyra, Berger Guimarães, Bruno Skupien, Cristhiano Steffen, Eduardo Stahl, Eduardo Steffen, Evaristo Delboni, Francisco Lanzi Tanclér, Gabriel Nicolau, Guilherme Magnusson, Hermenegildo Pinto, Humberto Lyra, Humberto Prandini, João Albrecht, João de Campos, João Gomes, João Vitorio Escodro, Jorge Nicolau, José Bannwart, José Gomes, José Pires Camargo, Júlio Luiz Escodro, Júlio Nicolau, Juvenal Fonseca, Luiz Delboni, Miguel João, Nabor Pires Camargo, Odilon Ferreira do Amaral, Otavio Pires de Camargo, Paulo Von Ah, Primo Groff, Ranulfo Fonseca, Ricieri Delboni e Sebastião Nicolau.
Sócios-fundadores que eram do Indaiatubano: Adamo Estrada, Afonso Bonito, Alberto Ferrarezzi, Ângelo Bruni, Antônio Balduíno de Campos, Antônio Sarain, Arnaldo Estevam de Araújo, Benedito Estevam de Araújo, Celso Arthur Martini, Ciamo Minioli, Constantino Civolani, Eduardo Leite, Eduardo Miguel Ferreira, Efídio Mosca, Elpídio Gazzignatto, Eutemiro José Lisoni, Felício Gadia, Gentil Lopes, Guerino Lui, Henrique Dércoli, Hercules Tomazi , Humberto Milani, Ildo Martini, Ítalo Pínfari, João Batista Nunes Beccari, João Ferrari, João Sarain, João Tomazi , José Minioli, José Munhoz Filho, José Quinteiro, Luiz Gonzaga Lopes, Manoel Quinteiro, Odilon de Oliveira Cordeiro, Rêmulo Zoppi Vitorio Zoppi.
O Major Alfredo Camargo Fonseca, que também assinou a ata, diferente dos demais, não se identificou como sendo anteriormente do Corinthians ou do Indaiatubano; mas ele era do Indaiatubano.
Mascote - "o fantasma da ituana"
Foi Francisco Tanclér, quem criou o apelido “Fantasma da Ituana”. Conta-se que o nome adveio do “pavor” que o time impunha, assustando os adversários. A mascote, um jogador com máscara e capa preta, era também vestido com o uniforme criado – por sugestão de Berger Guimarães - das cores dos times anteriores ao Esporte Clube Primavera: o Indaiatubano usava branco e preto e o Corinthians, vermelho. Com a fusão, o uniforme do Primavera passou a ter esse tricolor. O primeiro esboço do temível fantasma da ituana também foi desenhado por Chico Tanclér. O memorialista Antonio Reginaldo Geiss conta que
"...também foi ele quem criou o logotipo ou distintivo, que muitos dizem que o Primavera copiou do São Paulo Futebol Clube. Bobagem. O Primavera é mais antigo que o São Paulo, que foi fundado em 1930, três anos depois que o Primavera, e a inspiração adveio de um logotipo da APEA, e o próprio Francisco Tanclér confidenciou isso para Hélio Milani. Isso virou piada e não são poucos os indaiatubanos que, até hoje, dizem que o São Paulo copiou o símbolo do Primavera."
Logo após a fundação, jogos animados foram noticiados pela imprensa, entre eles, as partidas contra o Americano de Itu, em junho de 1929; contra o C. A. Ipiranga de Campinas logo em seguida, em agosto, no qual ganhou de cinco a zero e um especialmente infeliz, em 4 de setembro do mesmo ano, contra o Rocinhense. O time visitante estava ganhando de 2 a 1 quando os jogadores começaram a brigar, a ponto de se machucarem. Certo torcedor do time da Rocinha estava no meio da torcida do Primavera, que a certa altura, resolveu invadir o descampado para agredir o juiz. O solitário partiu para defesa do árbitro, apanhando até com pedaços de pau...
(...) ficando bastante ferido. A partida foi suspensa e, o que é de notar, nenhuma autoridade compareceu em campo, para remediar o ocorrido. (5)
Na década de 1930 o Primavera se inscreveu na APEA – Associação Paulista de Esportes Atléticos (originalmente Associação Paulista de Sports Athleticos), entidade de futebol de São Paulo.
Em setembro de 1940 o Primavera solicitou filiação na Liga de Futebol do Estado de São Paulo e nessa década, a paixão já existente dos indaiatubanos pelo time explodiu, quando então conquistou vários jogos, entre eles em duas campanhas memoráveis para a época: Campeão Amador do Interior da 15a Região em 1944 e campeão da série “Carlos Rolim”, sagrando- se também campeão da 4a Região em 1949. Geiss conta que...
Na década de1940, início da 50, no domingo em que o Primavera jogava era um dia de festa. A gente ia ao campo de futebol, a banda ia junto, o campo ficava lotado, muita gente. A arquibancada não era muito grande, mas lotava. Ainda o campo era de terra, a grama só foi cuidada no meio da década de 1940 e isso era uma vantagem para nós. Os times que vinham aqui eram acostumados na grama e ao chegarem aqui naquele terrão, apanhavam mesmo. O Primavera jogava com paixão. Era um futebol puramente amador, jogado praticamente com jogadores locais, e ninguém ganhava nada. Os jogadores trabalhavam durante o dia, iam treinar depois das cinco da tarde. Terminada a jornada de cada um, corriam para o campo com suas bicicletas e suas chuteiras adquiridas com o próprio labor. O Bar Central do Olívio foi a sede do clube durante um tempo e ali, ganhavam uma barra de chocolate quando obtinham uma vitória e – olhe lá – às vezes, depois do treino.
Em 1949, um dos mais famosos capítulos do Esporte Clube Primavera até então, aconteceu. O jogo da final foi marcado para uma quarta-feira, 05 de outubro às 3 horas da tarde em Capivari, no campo do Capivariano. Caminhões e vagões lotados foram para o local, também incentivados pelo ponto facultativo declarado pelo prefeito Lita – Luís Teixeira de Camargo Júnior.
Somente em 1952 o Primavera competiu profissionalmente pela Federação Paulista de Futebol, quando disputou a 2a Divisão de Profissionais. Até aí, fora uma somente imensa paixão amadora. Logo em seguida, voltou à 3a Divisão quando a Federação Paulista de Futebol passou a exigir o mínimo de 50 mil habitantes para sede de clube daquela categoria. Disputou nessa categoria em 1954 e 1958 e só voltou a competir profissionalmente em 1976, novamente no Campeonato Paulista da 2a. Divisão, provavelmente ganhando um fôlego pelo ufanismo dado ao futebol no Regime Militar, que tomou os jogadores e o próprio esporte para fazer (de novo) propaganda “positiva” do seu execrável governo onde, à cada grito de gol, uma assinatura censurando, alguém torturando ou uma pessoa sumindo, era fato corriqueiro.
Em 1977, conseguiu o acesso à 1a Divisão (atual série A3) após sagrar- se campeão da 2a Divisão do Estado de São Paulo. Os anos se passaram e, com as mudanças no regulamento da competição, a equipe voltou à 2a Divisão, entre 1982 e 1986, disputando, em 1987, a Divisão Especial.
Laércio Milani - o goleiro primaverino que conquistou duas Libertadores
Até o início da década de 2010, o Primavera já havia conquistado mais de 190 troféus e competiu com grandes times como a Portuguesa de Desportos, Portuguesa Santista, C. A. Ipiranga, Guarani F. C., Ponte Preta e Olaria, todos que já pertenceram à divisão principal e contribuiu para capacitar craques reconhecidos como o goleiro Laércio José Milani, que atuou por vários clubes do Estado de São Paulo, mas se destacou no Santos Futebol Clube, no qual conquistou seus principais títulos: duas Libertadores (1962 e 1963), dois Torneios Roberto Gomes Pedrosa (1961 e 1964) e seis Campeonatos Paulistas (1958, 1960, 1961, 1962, 1964 e 1969). Laércio jogou com Pelé e faleceu com 54 anos em 29 de agosto de 1985.
Adeus, quadra. E nasce o Gigante da Vila
Em 29 de junho de 1961, o Primavera saiu do "Campo da Rua 15" (por conta de uma história que contarei à parte, com capítulos surpreendentes) e inaugurou o seu estádio Ítalo Limongi, onde, a partir do ano que vem, receberá times de primeira grandeza do Futebol Paulista.
O sonho de ir para a primeira divisão pareceu ficar mais próximo em 2007, quando o nosso Primavera fechou parceria com o time espanhol Real Racing Santander e passou a ser um clube empresa, com o nome de Real Racing Primavera. O então prefeito José Onério da Silva, em uma cerimônia que contou com a presença do presidente do Racing, Francisco Pernia, o presidente de futebol do Primavera, Marcos Rodrigues, o Magu, o presidente do Social do time, Tadeu Leite, e representantes do esporte da cidade, prometeu ceder um terreno de 34 mil m2 para as futuras instalações do novo projeto.
O contrato foi elaborado por cinco anos, no qual o clube espanhol prometeu investir dois milhões de euros. Os executivos do Racing Santander escolheram Indaiatuba após “visitar várias cidades” e segundo Pernia, a intenção seria levar, finalmente, o querido Primavera à elite do futebol.
Essa parceria, fechada após o término da série A3, foi um desastre. A identidade do Esporte Clube Primavera foi maculada, até parte do Gigante foi pintada de verde. O time sofreu derrotas com goleadas humilhantes e o brasão foi modificado: o escudo foi envolvido com um fundo verde, da cor do Real Racing e não foi daquela vez que conseguiu a tão esperada vitória que conseguiu hoje, dia 27 de março de 2025. Em 2010, após fim da desastrosa parceria, o Primavera passou a caminhar com suas próprias pernas, fazendo uma excelente campanha na Segunda Divisão quase rendeu o acesso de volta para a Série A3.
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(1) Jornal Correio Paulistano de 9 de novembro de 1914 – Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
(2) Jornal Correio Paulistano de 26 de novembro de 1914 – Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
(3) Jornal Correio Paulistano de 9 de abril de 1909 – Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
(4) MILANI. Hélio. Hélio Milani (depoimento 1996, 2001, 2005), Indaiatuba. Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 1996.
(5) Jornal Diário Nacional 04 de setembro – Hemeroteca da Biblioteca Nacional
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