sexta-feira, 27 de julho de 2012

Obra de José Paulo Ifanger vai parar no lixão

 Prefeitura diz que consultou Pró-Memória mas presidente diz que não sabia


                                                                                                                                       Marcos Kimura

Restos do monumento jogados no lixão
O obelisco da rotatória da Avenida Conceição, em frente ao Instituto de Reabilitação e Prevenção em Saúde Indaiá (IRPSI), o popular Telhadão, desapareceu de um dia para o outro. 

Obra do artista plástico José Paulo Ifanger, falecido no final de 2011,  foi inaugurada nos anos 80 para marcar a inauguração da Avenida Conceição. “Para o Zé Paulo, ela representava o progresso que a cidade vivia então, que era representada pela abertura daquela avenida perimetral, quase um mini-rodoanel da cidade”, explica o ex-prefeito José Carlos Tonin, que encomendou o obelisco. 


“Quando minha mulher contou que iam por a obra abaixo, achei que era brincadeira. E agora, esta semana, derrubaram mesmo”, conta.

A arquiteta Ana Paula Ifanger Sinisgalli, filha de José Paulo, diz que ganhou um triste presente de aniversário, que foi na última terça-feira. Em sua página na rede social Facebook, ela manifestou sua indignação com a “falta de respeito à arte e à cultura da nossa cidade”, recebendo a solidariedade de diversos amigos. Ela disse à Tribuna que a família está desolada com o descaso. “Imagine se meu pai estivesse vivo. Quando pintaram o obelisco de uma cor feia ele foi lá, levou uma foto pra usarem um cor melhor. Agora botaram tudo abaixo!”, diz.

Em nota oficial, o secretário de Obras, José Carlos Selone, “informou que a retirada do monumento foi necessária para a implantação do projeto de trânsito na confluência das avenidas Conceição e Bernardino Bonavita. Ele ressalta que a obra tem como objetivo melhorar a fluidez do trânsito no local e, consequentemente, tornar o trecho mais seguro para condutores de veículos e pedestres, considerando que  acidentes graves já foram registrados naquele ponto da cidade.”

A reportagem perguntou, por meio da Assessoria de Comunicação da Prefeitura, se não foi levada em consideração que se tratava de uma obra de arte ou se cogitou sua transferência para outro local. A resposta foi que A Prefeitura solicitou uma avaliação por parte da Fundação Pró-Memória, que concluiu que a remoção e transporte do monumento da rotatória da Av. Conceição para outro local na cidade despenderia de alto custo, por isso não foi feito. Procurado pela Tribuna, o presidente da Fundação Pró-Memória, Antonio Reginaldo Geiss, disse que não sabia da remoção do obelisco nem que ele era de autoria de José Paulo Ifanger.

A Tribuna perguntou ainda à Prefeitura se uma outra obra de José Paulo Ifanger, que fica na rotatória das Avenidas Conceição, Presidente Kennedy e Engenheiro Fábio Barnabé, também poderia desaparecer com a reforma que será feita lá, e a resposta foi que o projeto ainda não está pronto e, segundo o secretário de Obras, o objetivo inicial é não mexer nos monumentos, mas, em alguns casos, a mudança se faz necessária para melhorar a segurança no trânsito.


Inconformado


O conselheiro e fundador da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, Antonio da Cunha Penna, diz que não se conforma com a falta de respeito da Prefeitura em relação à entidade, que só é reconhecida em relação à guarda de fotografias velhas e do Arquivo Público. Mas nas demais atribuições relativas à Memória, não somos consultados para nada. “Por exemplo, a fachada do centenário Cemitério Velho foi mudado sem nenhuma consulta”, lembra.

Na terça-feira, durante a reunião do Conselho Deliberativo, coincidentemente  manifestei meu descontentamento com essa falta de respeito e no dia seguinte tive essa confirmação, quando fiquei sabendo que o monumento, que é um bem público, obra de um artista indaiatubano importante, foi destruído. Outros monumentos do artista José Paulo Ifanger, bem como o nosso pontilhão Fepasa são bens públicos sujeitos a terem o mesmo destino. Como se não bastasse a falta de instrumentos legais para se preservar bens particulares, dos quais restam bem poucos, como a casa do Major Alfredo da Fonseca, que até recentemente estava preservada e foi descaracterizada por uma reforma." (Publicado em 3 de setembro de 2011)

A César o que é de César e ao povo o que é do povo

O obelisco original
Não pretendia retornar ao assunto, mas já que o prefeito Reinaldo Nogueira resolveu consertar o erro, retomamos o assunto. Para quem não sabe, em entrevista na quarta-feira à Rádio Jornal – em cujos estúdios ele se sente cada vez mais “em casa” – nosso alcaide reconheceu que houve um erro e que vai reconstruir o obelisco da rotatória do Telhadão em local próximo. A informação foi confirmada pela Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura. Lógico que ele não citou a Tribuna de Indaiá em sua fala, mas é inegável que o barulho provocado pelo jornal acendeu o debate que pegou fogo pela Internet, principalmente no Facebook, onde surgiu uma nova comunidade, Indaiatuba Ativa, criado na segunda-feira e que até quinta-feira já tinha 278 membros.

À exemplo do Doutor Hélio, quando quis desqualificar a votação do seu impeachemnt, o prefeito Reinaldo Nogueira disse que a movimentação em torno do assunto era “política”.

Ora, mas certamente que é. 

Tudo o que se refere à vida da cidade é política, ou “arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa). Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância.”

Então, quando cidadãos protestam e debates assuntos relativos é cidade é sempre política, independente de partidos. O fenômeno Internet permite que as mobilizações aconteçam em tempo muito curto e que os assuntos repercutam em tempo real. Mas ainda assim, um “empurrãozinho” das mídias tradicionais são necessárias, como se ve nesse caso e no impeachment do Doutor Hélio.

O prefeito de Campinas caiu nem tanto por conta da mobilização de seus opositores, mas pela indignação dos cidadãos diante da gravidade das denúncias do Ministério Público, suficientes para que a Justiça decretasse prisão temporária de vários denunciados, inclusive o vice-prefeito Demétrio Vilagra, atualmente (na época) no comando do Executivo. Tudo com uma cobertura histórica dos meios de comunicação, principalmente da EPTV, que mudou a habitual pauta “água com açúcar” de seu telejornal vespertino para bombardear o espectador diariamente com repercussão do caso ou com novas denúncias. Mesmo que nada ligasse diretamente o nome de Hélio de Oliveira Santos aos escândalo da Sanasa, o envolvimento de sua esposa, tida como chefe da quadrilha, provocou o seu impeachment. “Não basta à mulher de César ser honesta, ela tem que parecer honesta.”

Em Indaiatuba, a destruição do obelisco é um elemento a mais dentro diversos outros assuntos, como o muro milionário da Câmara erguido por empresas fantasmas e a desapropriação pelo Município de terreno do próprio prefeito – tudo denunciado e apurado pela imprensa – , e que vem causando uma crescente indignação pública manifestada na Internet. A reconstrução do monumento é, certamente, uma vitória da mobilização pública apartidária em conjunto com a mídia. Mas ela não deve ficar restrita a isso. A luta para construir a cidade que sonhamos, mais humana, mais segura, com maior transparência, passa pela informação, discussão e ação.

PS: fora o custo da reconstrução que vai recair sobre os impostos que todos pagamos, não vejo nada de errada na reconstrução, já que se trata de um projeto do artista José Paulo Ifanger e não uma escultura. Da mesma forma, a manutenção do muro de taipa do Pau Preto, que na verdade ruiu há muitos anos atrás, também é importante pela questão simbólica. No Japão, o Templo de Ise, erguido em madeira há 1500 anos e que é reconstruído a cada 20 anos seguindo o projeto e método originais. Então, a mais antiga estrutura civil da cidade merece ser também ser preservada pelo mesmo método, como testemunha de nossas origens.(Publicado em 17 de setembro de 2011)

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