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terça-feira, 31 de maio de 2011

A Estrada Imperial São Paulo - Itu, 1998

Nilson Cardoso de Carvalho
Fotos de Antonio da Cunha Penna


Sumário

Procurando vestígios da antiga estrada que ligava Itu a São Paulo, pela margem esquerda do rio Tietê, os autores não só encontraram mas ficaram surpresos ao constatar que o aspecto e as condições atuais são praticamente os mesmos existentes há pelo menos um século atrás.


Histórico

Conhecida dos habitantes de São Paulo desde o século 16, a trilha indígena que demandava o oeste, seguindo direção paralela ao rio Anhembí, era chamada de "caminho geral do sertão" e no início do século 18 esse caminho já tinha um traçado definido, sendo utilizado nas expedições ao porto de embarque de Araritaguaba para Cuiabá.

Mais tarde, no final do século, serviu para o escoamento da  produção açucareira da região. No século 19, o "caminho geral" era conhecido como "estrada imperial" e em meados do século constituía a rota preferida pelos tropeiros que transportavam o café, produzido na região de Campinas, para Santos; apesar da existência de outra estrada que ligava Campinas a Santos, através de Jundiaí e cidade de São Paulo.


(clique para ampliar)




A excursão

A excursão exploratória foi feita em duas etapas: a primeira em 4 de agosto de 1998; e a segunda em 18 de agosto do mesmo ano.

Primeira etapa: saímos de carro de Indaiatuba cerca de oito horas da manhã e ao chegarmos a Itu atravessamos a cidade, pela antiga rua da Palma, em direção à saída para Sorocaba até o ponto em que provavelmente havia uma bifurcação na atual rua João Ramalho; seguimos então à esquerda pela rua Bartira, que vai dar na avenida Francisco Ernesto Fávero, a qual descemos até se bifurcar; seguimos à direita numadescida íngreme: é a rua vereador Isaias Prieto, de onde já se avista o rio Pirapitinguí. Atravessando a ponte e seguindo reto já estavamos na Estrada Imperial, que consta no mapa de Itu como Itu-030, estrada da Fazenda Pau d’ Alho.

Logo no início do percurso Celso, que é engenheiro agrônomo e um especialista em botânica, já avistou uma região de cerrado; e cerca de um quilômetro e meio pra frente, paramos para que ele identificasse e fotografasse várias plantas típicas de cerrado; e, com o livro "Viagem à província de São Paulo" de Auguste de Saint-Hilaire na mão, constatava que lá estavam todas as espécies anotadas pelo famoso botânico, naquele mesmo lugar em 1819, quando por ai passou dirigindo-se à vila de Itu.



Clitória, planta de cerrado.


Continuando a excursão, enquanto eu dirigia, Celso ia anotando a quilometragem, os nomes das placas que
identificavam os sítios e fazendas, assim como as espécies vegetais e outras informações de interesse para um possível futuro trabalho de divulgação. Passamos pelas fazendas Nossa Senhora das Graças, São José, Tambatajá e sítios Fortaleza, Colina, Santa Rita, Primavera, Picão, fazendas Dois Córregos, Cangiquinha e Paulista, sítio Santa Fé, bifurcação para a Fazenda Barreiro, sítio Acatuaba, Fazenda. Cuiabá e, a 18,8km, ou 2,85 léguas do ponto inicial zero - a matriz de Itu -paramos em frente à famosa sede da fazenda Pau d’ Alho, mencionada por Saint-Hilaire como tendo "um engenho de açúcar de razoáveis proporções localizado a cerca de uma légua de Potribu."



Sede da fazenda Pau d’ Alho


A sede da Pau d’ Alho está localizada numa elevação a meia encosta com a frente voltada para o Tietê, que nesse local descreve uma bela curva semi-encachoeirada, emoldurada ao fundo por uma floresta nativa, junto ao pé da serra de Guaxatuba. A casa, restaurada por Luiz Saia, é um exemplar típico da arquitetura de tradição bandeirista, e tem sido estudada pelo meu companheiro de excursão Celso Lago Paiva, que se dedica profissionalmente à restauração de edificações de interesse histórico-cultural.

Após a Pau d’ Alho, continuando, passamos pelo sítio São José, pela Faz. Anhembí e, num local ao lado de um braço do rio Tietê, Celso colheu sementes de um pé de Canafístula, para presentear um colega. Passamos pela Faz. Anhembí e neste ponto, ao invés de seguir paralela ao rio Tietê, como está no mapa, a estrada deflete à direita. É que, conforme ficamos sabendo em seguida, caiu uma ponte sobre um ribeirão
(Apotribu?), cortando a passagem, em virtude do que a estrada até Parnaíba se encontra desativada. Celso anotou quilômetros ou 4,24 léguas quando chegamos ao Apotribu, bairro muito antigo que significa, segundo Theodoro Sampaio, "a fonte das flores".





Morro do Guaxatuba

Dai pra frente procuramos caminhos que nos levaram à rodovia Castelo Branco, à margem da qual almoçamos, num antigo rancho de pouso de tropeiros e em seguida rumamos para São Roque, pois nosso objetivo era visitar o sítio e capela de Santo Antonio, localizados naquele município. Atravessamos a cidade de São Roque e seguimos morro acima na direção da "Mata da Câmara", por uma estrada de terra, que nos conduziu ao sítio de Santo Antonio.

O sítio está ligado à figura de Mário de Andrade, que, entusiasmado com essa relíquia, comprou-o e doou-o ao IPHAN que, proprietário zeloso, cuida bem da capela - atualmente em restauro, do casarão - recuperado por Luiz Saia, e do entorno; um extenso gramado limitado por pequena represa, junto à uma mata nativa. A profusão de verde destaca as edificações brancas, compondo uma harmoniosa e repousante paisagem.



Capela de Santo Antonio, construída em 1681


Em "A casa Bandeirista", Luiz Saia informa que a capela primitiva estava inserida no corpo da residência e o forro em gamela ainda foi encontrado em ruína. A capela atual, com pilares e torre de pedra, as paredes de taipa e de pau-a- pique, foi construída em 1681.



Capela de Santo Antonio - detalhe da pintura no teto da sacristia



Depois de examinar o interior dela, o retábulo dourado, os painéis de madeira entalhada com figuras típicas da arte guarani, os desenhos barrocos do teto da sacristia e enfim, todo o conjunto que exprime graça e simplicidade, ficamos nos perguntando quem teria escolhido este lugar e edificado a moradia e a capela ?

A resposta não foi difícil, pois pela copiosa documentação existente ficamos sabendo que o proprietário foi Fernão Paes de Barros, filho do capitão-mor governador da capitania de São Vicente, Pedro Vaz de Barros e de sua mulher Luzia Leme. Nascido em São Paulo em 1623, Fernão Paes de Barros foi intrépido sertanista e potentado administrador de índios, conhecido na época, por sua grande fortuna e pelos auxílios pecuniários que prestava à coroa portuguesa, a pedido do rei, concorrendo com bens de sua fazenda para a fundação da Colônia do Sacramento em 1679 e para a expedição de D. Rodrigo de Castel Blanco em busca de Sabarabaçú, em 1680, entre outros empreendimentos, nisto

se empregava Fernão Paes de Barros, em cuja casa e fazenda do sitio de Araçariguama fundou a capela de Santo Antonio, ornando o altar da capela-mor da igreja de excelente talha, toda dourada, cuja administração e padroado se conserva ainda hoje [1762] na família de João Martins Claro, que foi seu genro.

Sua mulher legítima foi Maria de Mendonça com quem não teve filhos, porém em solteiro teve com uma mulata de Pernambuco, a filha Inácia Paes, sua herdeira única, que foi casada primeiro com o primo Braz Leme de Barros, herdeiro também da grande fortuna do pai, Pedro Vaz de Barros, e em segundas núpcias com o português João Martins Claro.

Terminada a visita ao Sítio Santo Antonio percorremos algumas ruas da cidade de São Roque e regressamos pela Castelo Branco, passando por Itu.


Segunda etapa

A excursão exploratória de 18 de agosto contou com mais um integrante: o fotógrafo Antonio da Cunha Penna, pessoa ligada às atividades culturais em Indaiatuba.

Fizemos o mesmo percurso até sairmos na rodovia Castelo Branco, parando para fotografias e coletas de espécimes, feitas pelo Celso. Na Castelo seguimos a indicação que nos conduziu à Araçariguama, localizada à esquerda de quem vai para São Paulo. É um pequeno povoado com poucos vestígios de sua antiga origem. Fotografei a igreja matriz.


Igreja matriz de Araçariguama



Vejo nos livros de etimologia tupi-guarani que araçariguama significa "o comedouro dos tucanos", de: açari = tucano + guama = comedouro .

Azevedo Marques informa que em 1874 a então freguesia foi  elevada a vila e em 1876 tinha 1624 almas, e, pelo que pudemos observar, esse número de habitantes não deve ser muito diferente dos existentes hoje. Segundo o mesmo autor,

deve sua origem à influência dos notáveis paulistas capitão-mor Guilherme Pompeu de Almeida,
seu filho o Padre Dr. Guilherme Pompeu de Almeida e Francisco Rodrigues Penteado,
que ai edificaram a capela depois matriz da paróquia desanexada de
Parnaíba com a invocação de Senhora da Penha.

O Pe. Dr. Guilherme Pompeu de Almeida, filho de pai homônimo, foi sacerdote, Dr. em teologia, com o título de bispo missionário pela Santa Sé.

Foi homem de muita liberalidade e grandes cabedais, que recebeu por herança paterna e soube aumentar por atividade própria nas minas de ouro, em que teve sempre grande número de escravos e administradores interessados. Fundou a capela de Nossa Senhora da Conceição de Araçariguama, e a ela fez grandes doações por escritura de 18 de maio de 1677, confirmadas e aumentadas em seu testamento a 30 de janeiro de 1710, testamento este em que constituiu administrador dos bens da capela, o colégio da Companhia de Jesus de São Paulo.



Morro de Vuturuna


Deixamos Araçariguama por uma estrada de terra onde a paisagem é dominada pelo morro de Vuturuna, célebre pela  descoberta de ouro em suas cercanias, no início do século 17. A estrada, num ponto de seu trecho inicial, oferece uma visão panorâmica, que não deixamos de fotografar, e depois de uma descida íngreme e de atravessar um ribeirão ao pé do Vuturuna, começamos a subida deste, contornando-o até Pirapora do Bom Jesus. Celso nos informa que já passou uma semana no interior da mata adjacente a esse morro, executando um projeto de levantamento das espécies de aves remanescentes.

Deixamos Pirapora à direita e, por uma estrada asfaltada chegamos à Santana do Parnaíba. Parnaíba significa, segundo Silveira Bueno, paraná = grande rio + aiba = ruim, ou seja rio imprestável à navegação . De fato, perto mesmo da matriz de Santana, em local que deu origem ao povoado passa o Tietê, que nesse local era tão encachoeirado que se construiu, no início do século atual uma usina hidrelétrica, cuja represa tinha um desnível de 25 m de altura.

Santana do Parnaíba foi elevada à Vila em 1625


O centro antigo de Santana está situado à meia encosta de  um morro, e para quem estando olhando para a fachada da matriz, terá à sua esquerda o rio Tietê, que se alcança pelas três ruas antigas, paralelas. O traçado e a situação em que está implantado este centro lembra os de povoados portugueses. O casario remanescente conta com inúmeros exemplares interessantes, causando entretanto certa pena não terem sido restaurados e sim, a maioria, reformados sem orientação. Ao lado da matriz junto a alguns casarões está a casa do Anhanguera que abriga um museu.

Depois de almoçarmos em um restaurante atrás do museu, regressamos, e passando por Pirapora e Cabreuva, chegamos à Indaiatuba ao anoitecer.

Termina aqui o relato das duas primeiras etapas das excursões exploratórias; não estando ainda determinadas as datas das etapas posteriores, que, com certeza, se realizarão.



Notas

(1) NEME, Mário. Dois antigos caminhos de sertanistas de São Paulo, in: Anais do Museu Paulista, tomo XXIII. - São Paulo: 1969, pág. 76 e 82

(2) O Capitão Francisco de Paula Almeida Prado, residente em Indaiatuba, inspetor da estrada de Itu a Campinas, enviou ao Dr. João Jacinto de Mendonça, presidente da Província de São Paulo ofício datado de 5-12-1861, em que diz:

Esta estrada oje he m.to importante, e daquella q. o Governo deve olhar com m.ta atenção p.r não só he a via de comunicação entre Sorocaba [e] as Provincias consumidoras de bestas, o q. ja lhe dá um grande trafego, como tão bem grande senão o maior parte do cafe de Campinas, e Limeira p.r ella passa, p.r q. os tropeiros de S. Roque, Cutia, e Arassariguama, e outros Municipios preferem passar ou transitar pella estrada de Itu a S. Paulo p.r ser m.to melhor do q. a de Campinas a mesma Cidade. Por todas estas razóins he oje esta estrada importantissima.

Ofícios Diversos de Indaiatuba, 1829-1891, caixa 254, ordem 1049, pasta 1; S. Manuscritos T.I.R; DAESP.

(3) SAIA, Luiz. A casa bandeirista ( uma interpretação). São Paulo, Comissão do IV centenário da Cidade de São Paulo, 1955, páginas 21 e 23.

(4) Seu irmão e vizinho Pedro Vaz de Barros, o Pero Guassú, foi o fundador da capela, hoje cidade de São Roque, senhor de mais de mil e duzentos índios e índias, cuja opulência é descrita por Pedro Taques nestes termos:

Foi sua fazenda uma povoação tal, que bem podia ser vila, e ainda hoje [1762] as casas, que foram da sua residencia, servem de padrão que lhe acusam a maior magnificiencia, como obra daquele tempo. Teve muito grande tratamento correspondente aos grossos cabedais que possuia, entre cujos moveis teve uma copa de prata de muitas arrobas. A sua casa era diariamente frequentada de grande concurso de hospedes, parentes, amigos e estranhos, que todos concorriam gostosos a fazer-lhe uma obsequiosa assistencia. Todos eram agazalhados com grandeza daquela mesa, na qual, com muita profusão, havia pão e vinho da propria lavoura, e as iguarias eram vitelas, carneiros e porcos, alem das caças terrestres e volateis, das quaes os seus caçadores atualmente conduziam com fartura, e por isso de tudo havia com abundancia, e com tanta prevenção que a qualquer hora da tarde que chegavam novos hospedes estava a mesa pronta, como se para este fora conservada.

LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. - Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980, tomo III, páginas 205, 206.

(5) SAMPAIO, Theodoro. O tupi na geografia nacional, 4. ed. - Câmara Municipal de Salvador, Salvador: 1955, pág. 173 e BUENO, Francisco da Silveira. Vocabulário tupi-guarani / português; 5 ed. - Brasilivros: São Paulo, 1987, pág. 517.

(6) MARQUES, Manoel Eufrásio de Azevedo, 1825-1878. Província de São Paulo,. - Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980, tomo I, páginas 87, 314, 315.

(7) NEME, Mário, op. cit. pág. 18

(8) BUENO, Francisco da Silveira, op. cit. pág. 578.



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