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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Votura

texto de Nilson Cardoso de Carvalho (in memorian)

Tal como muita gente em Indaiatuba, também estive durante muito tempo intrigado com a origem da palavra “Votura”, que seria — segundo conta a tradição — o nome do lugar onde teve origem Indaiatuba. Esse primeiro núcleo de povoadores, situado perto da desembocadura do córrego Barnabé no rio Jundiaí, era um pequeno aglomerado de moradores, que foi posteriormente transferido para as imediações do local onde hoje está situada a Igreja Matriz.

Pensando sobre o assunto, comecei pela dedução mais simples, ou seja, a de que a palavra “Votura” seria a designação de algum acidente geográfico, como são a maioria dos topônimos indígenas. Esta conclusão tornou-se mais consistente, quando conheci uma gravura de Debret, retratando a queda d’água chamada “Votorantim”, nos arredores de Sorocaba e, desde então, por analogia, liguei a imagem de queda d’água à palavra “Votura”.

Em 1987 fiz um vídeo sobre Indaiatuba e, para descrever a hidrografia do município, fui ao local onde o córrego Barnabé, deságua no rio Jundiaí. Ao filmar a cena do córrego, descendo levemente encachoeirado por uma pequena encosta sobre o rio Jundiaí, nas imediações onde teria existido o antigo povoado, lembrei-me  imediatamente da palavra “Votura", fortalecendo ainda mais a minha hipótese.

Estava com esta idéia já assentada quando li, no Jornal Votura de 06-07-1990, um artigo em que o articulista dizia que “Votura” significava “terra da luz”, adiantando até que “Podemos portanto, compreender que a benéfica incidência dos raios solares em Indaiatuba, já era notada até pelos índios que aqui viviam e que esse nosso ‘sol com calor de amizade’ tem sua razão de ser já há algumas centenas de anos”. Não concordei com esta conclusão, a qual lisonjeava sobremaneira nossos tupis, atribuindo-lhes atributos tão transcendentais como este de perceber que “nosso sol tem calor da mizade”.

Encomendei então um “Vocabulário Tupi-Guarani - Português” do professor Silveira Bueno, 5.a edição, e lá encontrei:


Página 603: Votura = colina, página 75: Bytury: água
da montanha, o rio da serra, página 524: Butury - De
ybytir-r: água do monte, o rio do monte (Teodoro
Sampaio); página 141: I = s. Água (aparece sob a
grafia de Y). Com o aportuguesamento da palavra
Bytury o B se transforma em V = Vytury. O Y tem
som entre i e u, logo Bytury pode ser lido “Vutura” ou “Votura”.


Reforçando ainda mais minha hipótese encontrei um artigo do Dr. Walter Gossner, sobre o bairro Jundiaiense de Ivoturucaia, in Museu de Jundiaí - Efemérides, vol. II, 1974, página 68, onde ele define o significado desta palavra:


“O tupi era ainda a lingua geral da região. A parte
de Jundiaí, entre os rios Jundiaí-Guaçu, Jundiaí-
Mirim, o Rio Atibaia, e o Morro do Jaraguá era
chamado Ibiturucaia, Buturucaia, Voturucaia,
Hoviturucaia, Bitarucaia e Ivoturucaia, mudando
pronúncia e grafia conforme os entendimentos dos
primeiros povoadores brancos. Pela análise das
sílabas o nome parece indicar “rios que descem dos
morros queimados”.


Conversando com o Geiss (Antonio Reginaldo Geiss), que é também um dos intrigados com o nome Votura, contei lhe do meu  achado. Geiss então passou às minhas mãos um bilhete do Padre  Armando Levy Cardoso, que é um renomado pesquisador da língua Tupi-Guarani, dirigido ao Padre Chico (Pe. Francisco de Vasconcellos) que reproduzo abaixo:

Caro Pe. Chico

Voltamos à questão de Votura. Também li o
que o jornal dava como nome antigo de Indaiatuba:
Ibitury, que pode ser lido Ybytyri e significa “monte
pequeno”.
Sem o diminutivo i e sem o Y inicial que pode sair
teriamos bytyra ou butura que os colonos podiam pronunciar Votura = “monte”.
Também podia ser Ybotyra = “pé de flor” que
vem de Potyra = “flor” pronunciada igualmente
Votura = “flor”.
Outra composição seria Ybi + tura = Yby =
terra, tura = “vinda” ou “vinda da terra”.
É o que me parece mais razoável, mas é difícil
saber o certo. Fique por isso mesmo.

Todo seu em J.C. Pe. A. Cardoso


O meu amigo Geiss, entusiasta das coisas de Indaiatuba e, como eu disse, intrigado com a palavra Votura, passou minhas informações à Professora Sônia Benedetti Magnusson, proprietária, juntamente com seu marido Evandro, do Diário Votura. A Professora Sônia por sua vez passou-as ao Padre Armando, colunista de seu jornal, que logo em seguida publicou um artigo com o título “Ibituri”, finalizando-o com o trecho reproduzido a seguir:



“Procurando um bom dicionário de tupi antigo,
encontramos Ybytyra que significa Monte: Y quer
dizer Água ou Rio. Ajuntando os dois vocábulos
resulta Ybytyrý: água ou Rio do Monte, significando
a água dos córregos, nascidos no monte, que é hoje
Indaiatuba, e afluentes do Jundiaí. Quem do fundo do
vale olha para cima tem a impressão de que a cidade
está num monte.
O local do Ibituri ainda mais tarde continuou a ser a aguada dos tropeiros.
Depois de aí descansarem não deixariam de visitar Nossa Senhora da Candelária, devoção Cristã quase universal então, para proteção de suas longas viagens pelo interior paulista e pelo Brasil afora.”



Eis como nossos pensamentos, resultado de nossas dúvidas, hipóteses, investigações e conclusões, voam e transmigram para outras paragens, e no caso relatado, caem no domínio público, mesmo à nossa revelia. Felizmente - para meu contentamento - o resultado de minhas investigações sobre a palavra Votura foi confirmado por um renomado especialista no assunto, que é o Pe. Armando Levy Cardoso (1), ficando esclarecido e assentado que o nome do antigo povoado que deu origem à cidade de Indaiatuba, “Votura” é corruptela da palavra IBITURI que significa “água ou rio do monte”

.....oooooOooooo.....

(1) Autor, entre outras publicações, dos livros “Toponímia Brasileira” e “Amerigenismos”, ambos publicados no Rio de Janeiro em 1961 e citados por Silveira Bueno na bibliografia de seu Vocabulário Tupi-Guarani-Português.

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