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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A surpreendente história de São Roque regresso

texto de Eliana Belo Silva

com memórias das irmãs Maria de Lourdes, Maria Apparecida, Cecília, Ruth,  e Bernadete Ambiel.


Podemos dizer que a história de São Roque regresso começou em 1881. Foi nesse ano que o casal José Leôncio Gut e Josefa Von Flüe, pais de Maria Gut, e José Ambiel e Ana Maria Shäli, pais de Inácio Ambiel, chegaram no Brasil, vindos da Suíça, de onde saíram com coragem impulsionada pela fé, na esperança de encontrar em terras brasileiras a prosperidade que a terra-mãe já não proporcionava.

Tanto como outras famílias suíças que imigraram na segunda metade do século XIX, foram trabalhar no regime de colonato na fazenda do cafeicultor escravocrata Francisco Queiroz Telles, em um imenso latifúndio onde os pés de café iam até onde os olhos alcançavam na linha do horizonte, onde hoje estão os municípios de Itupeva e Jundiaí. Ali executaram as diversas tarefas do processo de produção de sacas e mais sacas de café - lado-a-lado com os trabalhadores negros escravizados - que escoavam para o porto de Santos e dali para o mundo: limpeza de novos áreas, seleção e plantio das sementes, irrigação, retirada contínua de ervas daninhas, colheita a dedo, transporte, secagem, processamento, embalagem, tudo da forma tipicamente ‘caipira’ da época. Ali, em Sítio Grande, formaram uma pequena comunidade religiosa e faziam festas de tiro-ao-alvo, evento típico do esporte suíço, sempre economizando tudo o que era possível, vivendo em casinhas de chão batido para alcançar o sonho de comprar a própria propriedade rural. Assim foi até 1888 quando o Coronel Chico Telles resolveu pagar 600 réis por alqueire de café colhido em vez dos 640 pagos nos anos anteriores. 

Quatro famílias demitiram-se (Ambiel, Amstalden, Bannwart e Wolf) e a comunidade suíça em regime de colonato até então submetida a um patrão latifundiário, dissolveu-se e começou a dar origem a Colônia Helvetia, um agrupamento de sítios, fazendas e latifúndios pertencentes aos próprios suíços, cujo início deu-se às margens do Rio Capivari-Mirim em Indaiatuba.

Maria Gut casou-se com Inácio Ambiel e um dos filhos, nascido nessa nova realidade - a Colônia Helvetia -  foi batizado como Eduardo Ambiel. Quando o regime de colonato suíço do Sitio Grande dissolveu-se por completo, alguns suíços foram para outros lugares, entre eles a família de Josepha von Zuben, que se mudou para o Distrito de Paz da Rocinha (atual Vinhedo). Mas o destino uniu Eduardo Ambiel e Josepha Von Zuben, que se casaram em 20 de outubro de 1924 na catedral do município de Campinas e foram morar em Helvetia.

Em 1927 o casal mudou-se para um sítio em Indaiatuba comprado pela família de Maria Gut - que ficou viúva com 11 filhos - o sítio chamado São Miguel, uma extensão de terra que somava quase 100 alqueires, que ia do cemitério da Candelária ao Jardim Morumbi (sentido sul/norte), pegando toda a extensão de onde hoje é a Vila Suíça, incluindo a Mata do Parque Ecológico; a porteira ficava onde hoje é a rotatória do Pastel da Feira. Embora a escritura inicial pertencesse a Izacco Forti que situava a fazenda - na época em que ele escriturou - no Bairro Bentoca de Indaiatuba, Comarca de Itu e freguesia de Nossa Senhora da Candelária - a propriedade pertencia, de fato, a família de João Ifanger Júnior.

Foi ali que Eduardo Ambiel e Josepha Von Zubem, que já tinham o filho José Ignácio, nascido em Helvetia, tiveram outros rebentos: primeiro, Terezinha. O sítio tinha dezoito mil pés de café, duas casas de moradia e duas para colonos, ranchos, tulha. Nasceu depois Flávio, Lino Atanázio, Eduardo Júnior, Simão Luiz, Waldemar, Maria de Lourdes, Maria Apparecida, Cecília, Ruth, João Tadeu e Bernadete. Eram 13 filhos para criar. O sítio tinha, ainda, paiol, tulha, bois, porcos, galinhas, cavalo, e quando foi comprado, tinha uma carritela arreiada e um trole arreiado, que foram usados por muito tempo tanto no lavor que gerava produtos para comércio como para os de subsistência da numerosa família.

A rotina do trabalho era dura: a tecnologia no trato com a terra pouco evoluiu no período entre o tempo em que os pais do Sr. Eduardo chegaram da Suíça e o nascimento do seu último filho: o uso de adubos químicos comprados era raro – usava-se estrume, não existia a maquinação na lavoura – o instrumental continuava sendo a enxada, foice e cavadeira, e quando a terra ficava improdutiva, o único método de recuperação era o rodízio.

A fé sempre foi referenciada em todas as histórias contadas pelos suíços: crônicas, livros, relatos de memória oral, todos fazem referência à importância da religião católica para a consolidação da Colônia Helvetia e para a união dos helvetianos em uma comunidade essencialmente pacífica, tanto que a construção e manutenção da igreja foi uma das principais preocupações dos fundadores. E essa fé, que aparece impulsionando os primeiros imigrantes, direcionou um grave problema que colocou em risco a sustentabilidade dos negócios do Sr. Eduardo Ambiel na década de 1930.

A PESTE E A FÉ.

Foi exatamente em 1934. Uma peste começou silenciosamente ceifando a vida de alguns suínos. Logo começou a se espalhar. Como avaliar e tratar corretamente uma peste naquela época, sem acesso à veterinários, exames e remédios corretos?  Sr. Eduardo não teve dúvida: foi consultar o vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Candelária, o padre Luiz Soriano. Católico fervoroso, precisava de uma diretriz para salvar a criação de suínos, elemento fundamental no sustento de seus filhos, de sua família, de sua propriedade.  Em 1932 o padre Soriano havia dado início em um processo de reforma na Matriz: removeu o assoalho velho de madeira e substituiu-os por mosaicos de cimento, colocou lustres que pendiam do alto da nave, instalou iluminação no altar-mor e aumentou a iluminação dos altares da Imaculada e de São José. Dos lados, haviam os nichos, sendo que do lado direito já tinha um santo.

- Ore muito, peça para São Roque, protetor dos bichos contra doenças contagiosas.
 Ele vai te abençoar.

A crença na sua fé era tamanha, a certeza que sua prece seria atendida era tal, que o Sr. Eduardo já perguntou para o padre qual seria o tamanho da imagem de seu ‘salvador’ que ele teria que doar para preencher o nicho. Os dois mediram a imagem de Santa Bárbara com um barbante – que estava do lado direito - ela tinha cerca de 80 cm. Foi, então, Sr. Eduardo para Campinas de ônibus, na casa de Dom Neri com o pedaço de barbante, solicitando indicação para a confecção da imagem de São Roque que, encomendada, viria do Rio de Janeiro.

A imagem foi doada para a Igreja Nossa Senhora da Candelária, onde ficou no nicho até o final da década de 1960, quando o então pároco da matriz, o padre Hermínio Bernasconi, engajado na então chamada linha progressista da igreja católica após o Concílio Vaticano II, fez mudanças radicais na Matriz, uma delas a retirada de todas as imagens de todos os altares e nichos, em atendimento ao “Cristocentrismo”. Todas as imagens foram colocadas para fora da igreja, literalmente “jogadas fora”, menos a de Cristo e da padroeira. A família Ambiel achava que a história de São Roque havia terminado aí.

DEPOIS DE MUITOS ANOS...

Em uma conversa corriqueira, uma das filhas de Eduardo Ambiel, a Maria Apparecida, contou essa história para sua empregada doméstica Benedita Sampaio. Ela juntou a história da patroa com outra história que sua mãe – Benedita - contava, que havia pego uma imagem na porta da igreja, como tantas outras pessoas fizeram, e levara para casa. Era São Roque, que após um tombo, estava aos cacos, debaixo de um abacateiro. Sua mãe não havia tido coragem de jogar os cacos fora.

Maria Apparecida e a irmã Terezinha foram até a casa dela. D. Benedita já havia falecido, mas os cacos de São Roque, estes estavam lá, sob sol e chuva, nas intempéries de nossa Indaiatuba. As irmãs pegaram os caquinhos e entregaram para o restaurador João Colalillo, que com técnica e capricho, refez a imagem.

_ Restaurei muitas imagens entre elas a Nossa Senhora da capela da Aparecidinha outra para a Igreja Santa Maria Gorete, mas lembro-me muito bem do São Roque, que chegou literalmente em cacos, trazidas pelas irmãs Ambiel, indicadas pela D. Sylvia Sannazzaro. Juntando tudo, ele não tinha perna e parte do cão. Fui refazendo, enquanto orava para ele, para que me provesse de inspiração digna da importância do trabalho. Surpreendi-me com o resultado final. Tenho trabalhos de restauração expostos em São José dos Campos, Santo André e até Londres, mas o São Roque, dado ao estado que chegou e como ficou, foi muito especial.

Ela foi dada de presente para o Sr. Eduardo quando ele fez 80 anos em 27 de setembro de 1981! As irmãs lembram muito bem a expressão emocionada do pai, que faleceu em 7 de maio de 1988.

_  Será que é o Roque?

_ O meu São Roque?

E até hoje, a filha mais nova, Bernadete Ambiel, guardam sua casa, com devoção, a imagem de São Roque regresso, que testemunhou não só a fé do seu pai, mas a história de luta e perseverança de muitas gerações da família.
Esta foi a história de São Roque, que regressou para o seu lar
Os suínos? 
Sim. Nenhum mais morreu após a oração de fé de Eduardo Ambiel.


Brasão da família Ambiel
Fonte: http://www.helvetia.org.br


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A Fundação Pró-Memória de Indaiatuba está procurando informações sobre as demais imagens para relatarmos em textos como este a "tragetória" de cada uma. Memórias orais dizem que certa Dona Benedita que trabalhava na igreja ficou com uma delas; a sra. Antonieta Boscatti provavelmente tenha ficado com a de São Judas Tadeu; Santo Antonio ficou com a sra. Terezinha Frizarin.

Você sabe se essas informações procedem?

Você sabe o que aconteceu com as demais imagens? 

Entre em contato conosco para que possamos registrar sua história também: elianabelo@terra.com.br ou diretamente na Fundação Pró-Memória através do site ou do facebook.

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Nota: parte deste texto foi originalmente publicado no Jornal Exemplo, no suplemento em alusão ao 186o. Aniversário de Indaiatuba neste link












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