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sábado, 4 de fevereiro de 2017

50 anos de Lui Cinematográfica

texto de Marcos Kimura
originalmente publicado aqui.

Hoje (22 de novembro de 2013) acontece o jantar de comemoração dos 50 anos da Lui Cinematográfica, empresa que administra os Multiplex Topazio de Indaiatuba. Além da amizade e parceria que me liga pessoalmente à família Lui por duas décadas, devo ao velho Cine Alvorada, onde a história da empresa começou, muito da minha cultura cinematográfica.


Como quase todo mundo da minha geração, estudei no Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes, que ficava na Praça D. Pedro II, em frente ao Alvorada. Antes ou depois das aulas, costumávamos ir até a porta do cinema – que fica onde é hoje o Magazine Luiza – e olhar pelo vidro quais seriam as próximas atrações. A nós praticamente só restavam as matinês de sábado e domingo, porque a censura etária na época era bem mais rigorosa que hoje. Era o início da Era de Ouro dos Trapalhões no cinema, que começou com “Robin Hood, O Trapalhão da Floresta”, de 1974. A partir daí, até 1991 com “Os Trapalhões e árvore da Juventude”, Renato Aragão estrelaria pelo menos um filme por ano, sempre liderando as bilheterias.

Na época, durante a semana, aconteciam sessões patrocinadas, em geral com produções voltadas às donas de casa, como “Dio como ti amo” e às quartas havia a sessão dupla dedicada à colônia japonesa (em geral, um longa lacrimogêneo e um de yakuzá). Na Semana Santa era quase obrigatória a exibição de “Paixão de Cristo”, uma versão antiga da vida de Jesus em que seu rosto nunca aparecia, e “Os 10 Mandamentos”, o clássico de Cecil B. De Mille com Charlton Heston. Por outro lado, foi no Alvorada que vi meu primeiro filme proibido, uma pornochanchada italiana estrelada por Edwige Fenech, starlet francesa especializada em exbir seu belo corpo em produções B. Não vi na época, mas lembro da fila de dar volta no quarteirão para ver a sex symbol tupiniquim da época, Sonia Braga, em "Dona Flor e seus Dois Maridos", maior público oficial do cinema nacional até "Tropa de Elite 2".

O problema da distribuição na época é que os grande lançamentos demoravam horrores para chegar até as salas do interior. “Tubarão” (1975), por exemlo, levou mais de um ano para ser exibido em Indaiatuba (quando chegou, tenho quase certeza que faltavam alguns dentes na cópia). Quanta diferença com os lançamentos mundiais simultâneos de hoje em dia. Em compensação, em tempos pré-home vídeo, as cópias circulavam por anos, principalmente as que estavam fora do controle das multinacionais, o que permitiu a sobrevivência dos cineclubes.

Por esse motivo, quando fui fazer o colégio em Campinas, um novo mundo se abriu para mim. Filmes como “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, visto no Teatro Castro Mendes; e “Manhattan”, de Woody Allen, assistido no Cine Regente, me levaram a descobrir o chamado Cinema de Arte.
Mas mesmo quando me tornei adulto, o Alvorada ainda me proporcionou grandes momentos, como “Apocalipse Now” em sua versão com a destruição do templo  nos letreiros finais, que nunca mais seria vista nas versões posteriores; “Perdidos na Noite”, relançado nos anos 80, creio que por causa da censura da Ditadura Militar; entre outros.

A velha e enorme (mais de mil lugares!) sala da Praça D. Pedro II fechou suas portas em 1989, com “Uma Cilada para Roger Rabitt”, e até a inauguração do Cine Topázio no então Shopping Center Indaiatuba, em 1993, a cidade ficaria sem um cinema. Muita gente cresceu tendo que ir até Campinas ou recorrendo ao VHS para ver filmes.

A família Lui reunida na inauguração do Topázio do Polo Shopping
Nesse período começa minha relação com a família Lui. Em 1992, trabalhando no Votura, fui encarregado de fazer uma matéria sobre o shopping que estava sendo construído no local do antigo Cotonifício. Meu entrevistado era José Roberto Machado, que respondia pelo marketing do empreendimento. Ele me mostrou a planta, apresentou as bandeiras que ancorariam o mall (entre as quais Planet Music, Pakalolo, Sé Supermercados, Casa do Pão de Queijo, Drogasil, únicas sobreviventes de então) e eu falei, tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas cadê o cinema? Pigarro. “Nós fizemos uma pesquisa que mostrou que não havia a necessidade de um cinema no shopping”, disse. Do alto de meus anos como programador do Cineclube Oscarito, de uma passagem pela Sala da Cinemateca Brasileira, do meu trabalho como técnico de cinema na oficina Cultural Oswald de Andrade e órfão do Cine Alvorada eu disse: “Como assim? Indaiatuba não tem cinema desde 1989 e vocês acham que seu primeiro shopping não precisa de um?”

Indignado, fui fazer outra matéria, dessa vez com Paulo Antônio Lui, que herdara o Cine Alvorada do pai Guerino, que por sua vez tinha sido sócio do ainda mais antigo Cine Rex, que como o Cine Paradiso do filme havia virado estacionamento. Ele me explicou que até tentou viabilizar uma sala no shopping, mas o preço que eles pediam era muito alto. Escrevi um texto revoltado com a oportunidade que a cidade estava perdendo de voltar a ter uma cinema, quando aconteceu uma reviravolta nos acontecimentos. O banco que iria abrir uma agência no shopping desistiu, deixando um espaço bem na entrada da Rua Humaitá. O “buraco” foi oferecido á família Lui, que topou retomar o negócio do cinema. O projeto foi feito por um amigo do cineclubismo, Luiz Bacelar, do Cineclube Barão, de Campinas, e surgiu o Topázio. O primeiro filme foi “O Último Grande Herói”, com Arnold Schwarzenegger. Na pequena sala, Indaiatuba assistiu grandes blockbusters como “O Rei Leão” e “Titanic”, participou de eventos mundiais como o pré-lançamento de Star Wars – Episódio 1”, numa sessão à 00h01 e criou uma geração de cinéfilos. E o que se viu em relação ao shopping, que ganhou o nome Jaraguá ao ser adquirido pelo ex-governador Orestes Quércia? O Topázio é que virou a grande âncora do mall, tanto é que o grupo Sol Panambi resolveu investir num mezzanino para abrigar o multiplex e quatro salas. Quando o Polo Shopping veio, a Lui Cinematográfica era a escolha natural para gerenciar as novas cinco salas. Hoje, Indaiatuba tem o mesmo número de salas que tinha Campinas nos meus tempos de colégio.

Desde 2005, o Topázio abriga o Cineclube Indaiatuba, iniciativa minha e do Antônio da Cunha Penna, que vinha peregrinando por diversos espaços da cidade – sede da Sociedade Cantátimo, Colégio Monteiro Lobato, Livraria Vila das Palmeiras – em mídia VHS e depois DVD. Ao invés de clássicos da Sétima Arte, passamos a exibir lançamentos do segmento Arte, que de outro modo jamais seriam exibidos aqui em tela grande. O bate-papo pós projeção são um plus, mas o mais importante, para mim, é aos poucos criar um público mais exigente que permita, no futuro, inserir filmes de qualidade na programação normal.

Em 50 anos, a Lui Cinematográfica viveu a passagem das lâmpadas de carvão para as de xênon; do sistema de dois projetores para o rolo único na horizontal e, finalmente, a projeção digital, talvez a maior revolução na exibição cinematográfica desde os irmãos Lumière. O que se manteve nesses meio século da Lui Cinematográfica é a conexão com seu público, o cuidado com suas salas e com a qualidade da exibição. Parabéns a Paulo Antonio Lui e sua família por manterem vivo o cinema em Indaiatuba.


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