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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Fazenda Paraizo - ITU





A antiga Casa Sede da Fazenda Paraizo - (o Sobradão) é um casarão semelhante ao que, hoje, abriga o Museu Paulista/Republicano “Convenção de Itu”, porém modificado, arquitetonicamente, após 1910.
O mais antigo dono de que se tem registro foi o Padre João Leite Ferraz, o edificador da Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária, Itu/SP.
Pertenceu, depois, ao Barão de Itu: o registro histórico mostra o nome da Baronesa de Itu (viúva) D.ª Leonarda de Aguiar Paes de Barros. O nome do sítio era Tietê.
Em 1868, o Capitão Bento Dias de Almeida Prado e a mulher passam a ser proprietários desse sobrado. O Capitão Bento recebe o título de Barão de Itaim em 1885. O sítio, após 1868, passa a ser denominado Paraizo.
Por volta de 1870, o Sr. Antonio Franklin de Toledo, casado com uma prima do Capitão Bento, supervisor do plantio de cana-de-açúcar do sítio Paraizo, montou a primeira moenda do engenho e se tornou o principal auxiliar e gerente dessa propriedade.
Entre 1878 e 1889, Bento dias se tornou o maior produtor de açúcar de Itu.
Em 1890, o Barão de Itaim vendeu a Paraizo para um primo. Já produzia café e, dez meses depois, o comprador a revendeu.

No ano de 1910, a Fazenda Paraizo pertencia ao Coronel Carlos Augusto de Vasconcelos Tavares, que a vendeu ao Sr. Joaquim da Fonseca Bicudo. Desde então, pertence à família Bicudo, mediante sucessão, e o atual proprietário da sede é um neto do Sr.Joaquim da Fonseca Bicudo, Joaquim Emídio Nogueira Bicudo.
Dos 300 alqueires que chegou a ser o seu tamanho, após sucessivas vendas, por meio de glebas destacadas junto ao Registro de Imóveis, restam ao atual proprietário, 9 alqueires, nos quais se incluem o Sobradão - antiga Casa Sede da Fazenda Paraizo – e outros marcos dessa Fazenda histórica .
Joaquim Emídio tem interesse em arrendar a antiga Casa Sede – o Sobradão – e, eventualmente, a casa de beneficiamento de café, em troca da restauração e conservação dos referidos imóveis.

Casarão - Sede da Fazenda
O antigo Sobradão-Sede da Fazenda foi construído em fins do século passado [XIX] e a seu lado existiram antigas senzalas que abrigavam os escravos.  
O “quadrado”, delimitado parcialmente por moradias dos empregados, tem, nos fundos, a “taipa” da época como parede.



Vista aérea de fazenda em 1982

A data exata da fundação da Fazenda Paraizo, situada no [antigo] Bairro do Pedregulho, no município de Itu/SP, não consta da documentação histórica, pois se perde nos primórdios do Brasil-Colonia e deve ter tido origem, como todas as grandes propriedades agrícolas da região, na divisão das sesmarias doadas pelos donatários das Capitanias Hereditárias no período da povoação.
Os registros sobre a mesma começam a aparecer a partir do século XIX, quando foi adquirida, em 1868, mediante permuta com a Fazenda Floresta, pelo Capitão Bento de Almeida Prado (o Barão de Itaim), notabilizando-se como pioneira na produção de açúcar da região (por um período de mais de dez anos), sendo de se notar que, por um século, no período de 1750 a 1850, o plantio da cana se constituiu na principal atividade agrícola de Itu. Consta que, em tempos remotos, a Fazenda pertenceu ao Padre João Leite Ferraz, que construiu a Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária de Itu.

Do período em que predominou a produção de açúcar, restou a construção que abrigou o Engenho (moenda) e o restante das instalações industriais rudimentares (cochos de fermentação da garapa, fornos de preparo do melaço e outros). O mesmo prédio foi utilizado durante o período da lavoura do algodão, depois adaptado para o beneficiamento do café, que foi a última atividade principal da Fazenda, com extensas plantações do produto.

A instalação destinada ao benefício do café foi  a mais moderna para a época, sendo acionada por roda d’água importada da Inglaterra e que ainda permanece no seu primitivo abrigo, embora prejudicada pelo tempo, mas com sua estrutura em bom estado, dada a excelente qualidade do material empregado. 

Cocho de mais de 100 anos, petrificado.


Da senzala, restaram duas grades.


Sino da antiga casa do Administrador.



Tulha (vista) – restaurada em 2005 – Fazenda Paraizo, Itu/SP – a ponte branca, “Ponte Nova”, que foi construída por volta de 1940/1941, atualmente, dá acesso à Estrada Parque, Fazenda do Chocolate [Fazenda da Serra], a  Cabreúva,  a Pirapora do Bom Jesus e outras cidades até São Paulo/SP.

Muro antigo, que foi preservado.


Antigas casas dos colonos,  restauradas, transformadas em escritório de Joaquim Emídio, depósito, lavanderia.  Uma das casas está completa: sala, cozinha, banheiro... Ao fundo: antiga casa do administrador e o Sobradão.


Interior da Tulha da Fazenda Paraizo (1).


Interior da Tulha da Fazenda Paraizo (2).



Aqueduto preservado.


O proprietário acredita que os 9 alqueires possuem grande potencial para que esse monumento histórico de Itu se torne autossustentável. Em setembro próximo ele vai inaugurar um restaurante no lugar onde era o antigo curral (prédio antigo do ano de 1.929).  "É um lugar com uma vista para a Rodovia Marechal Rondon e também com uma bela vista para rio Tietê (apesar da poluição) e para uma parte onde reflorestei com  mata atlântica. É uma paisagem muito bonita", afirma Joaquim, que acredita que parcerias futuras de caráter público ou privado podem fazer dela "um centro turístico, com restaurante, salão de eventos e uma escola de artesões para crianças carentes da região. P
Para isto está em busca de  empresa que queira restaurar a casa sede, utilizando seu nome, em troca da restauração e criação de um projeto social.

Atualmente, além do restaurante que será inaugurado, a atividade na Fazenda Paraizo se restringe, à criação de gado leiteiro e à lavoura de hortaliças, ambas terceirizadas.
A família Bicudo preserva o acervo de documentos, que incluem as fotos antigas, da Fazenda Paraizo – Itu/SP.


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Crédito do texto: Maria Lúcia Bernardini.
Crédito de imagens: Calendário 2010 – Fazenda Paraizo – 100 anos em Família e fotos do acervo de Joaquim Emídio Nogueira Bicudo.
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À sombra do casarão

(Por Wanda Bernardini Caricati – de 1999, Itu/SP)

A notícia atingiu-me como uma bomba: o casarão estava morrendo.

Dei-me conta, nesse momento, que há mais de quarenta anos deixara aquele recanto, onde vivera os primeiros vinte e cinco anos de minha vida.

Como fora possível afastar-me por tanto tempo, engolfar-me em uma nova vida, apagar da minha memória, arrancar do meu coração pedaços da minha existência que, agora, estavam ali, nítidos, perfeitos, como se tudo tivesse acontecido no dia anterior?

 Vivi, literalmente, à sombra do casarão.

 Nas minhas primeiras lembranças, vejo-me na casa onde morava, ao lado do casarão, contemplando toda aquela grandeza que me assombrava. Austero, magnífico, contemplava, desde o começo do século, um cenário maravilhoso.

 À pouca distância, no seu leito milenar, rolava o caudaloso Tietê, de águas límpidas, que, nesse trecho, avançava tranquilamente, mas cujas entranhas encerravam mistérios que me assustavam.

 o longe, os cafezais estendiam-se a perder de vista e, para o seu cultivo, a grande colônia que rodeava o casarão tinha, sempre, uma população renovada.

 Primeiro, vieram os escravos que habitaram as senzalas, cujas construções ainda ali estavam. No começo do século [XX], vieram as famílias italianas, depois as espanholas e, na década de trinta, os japoneses trouxeram a sua cultura e,  com seus hábitos, mudaram a paisagem ao redor.

Quanto movimento! Quanta alegria!

 Na época da colheita do café, nas frias madrugadas, o sino badalava, acordando os trabalhadores para a lida.

Quando o sol começava a iluminar as encostas dos morros, as famílias partiam para o trabalho, num alegre burburinho, colorindo os caminhos que levavam ao cafezal.

Toda essa movimentação acordava o casarão, cujas janelas começavam, vagarosamente, a abrir-se para usufruir daquela sinfonia maravilhosa de vida e de sons.
Logo, as grandes carroças chegavam carregadas  de sacas de café que, rapidamente, eram derramadas nos lavadores. Os terreiros enchiam-se do café lavado, posto a secar e sempre revirado pelos trabalhadores atentos.
O sol, batendo sobre o café molhado, enchia o ar de um cheiro acre e adocicado.
A roda d'água movimentava a grande máquina que beneficiava o café e, por muitos dias, esse trabalho que começava de madrugada ia até altas horas da noite.
No campo, o rebanho pastava tranquilamente.
Pelas grandes janelas, o sol enchia de luz e de vida o interior do casarão, que ostentava uma decoração sóbria e refinada, com seu soalho de tábuas largas e muito brancas. Uma escada sólida, revestida das mesmas tábuas, dava acesso ao primeiro andar.
Nesse interior harmonioso, a vida corria feliz e refletia-se no seu exterior, numa troca perfeita de energias que se derramavam ao redor, como a envolvê-la numa aura.
E o tempo passou... décadas e décadas se sucederam.
O interior do casarão foi se esvaziando, raramente as suas janelas eram abertas e a paisagem, antes contemplada, foi mudando gradativamente.
O velho Tietê já não era o mesmo. Suas águas escuras já não permitiam a vida em seu interior e ele fenecia.
Desapareceram os cafezais e a roda d'água silenciou, quedando-se imóvel, como uma carcaça inútil.
 A alegre e heterogênea população da colônia foi, aos poucos, desaparecendo, em busca de outros lugares para sobreviver.
O velho sino silenciou e do seu toque alegre, nas madrugadas frias, ficou apenas uma lembrança, uma saudade.
 E, agora, quando amanhece e o sol ilumina as grandes janelas, elas permanecem fechadas, insensíveis ao carinho do velho amigo que vem saudá-las. Como guardiãs do silêncio e da penumbra, elas não permitem que ele penetre no interior do casarão e vá perturbar a agonia daquele que está definhando de saudade.


Um comentário:

  1. Não conhecia este lugar e este belo casarão, mas ao ler este texto dei-me conta de sua existência e de tantos outros que tiveram a mesma história, mas com outros personagens. Muito lindo e vivo este artigo (Sônia M. Benedetti Bernardini)

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