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quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 3 - A Indaiatuba de 1907

Capítulo III – A Indaiatuba de 1907

No ano em que acontece o crime, a configuração geográfica de Indaiatuba era muito próxima da atual, por sua vez praticamente a mesma desde quando se tornou freguesia, em 09 de dezembro de 1830: uma região situada entre as bacias hidrográficas dos rios Capivari - Mirim, Jundiaí, Piraí e ribeirões Santa Rita e Buru.

O presidente do Brasil republicano era o mineiro Affonso Penna, o governador do Estado de São Paulo era Jorge Tibiriçá Piratininga, o prefeito (na época, chamado de agente executivo) de Indaiatuba era Alfredo de Camargo Fonseca – o Major Alfredo (1), o delegado era João Fermiano de Souza, o Juiz de Paz era José Tancler, que também era “camarista” (vereador) junto com mais seis pessoas: Antônio Estanislau do Amaral Campos, Antônio Ambiel, Francisco Celestino Guimarães, Benjamin Constant de Almeida Coelho, Luiz Gonzaga Bicudo e Alfredo de Camargo Fonseca (ele mesmo, que também era prefeito). O procurador (funcionário público que era responsável pela arrecadação de impostos) era Jordão Teixeira de Camargo e o fabriqueiro (2) era Luiz Teixeira de Camargo, que também era escrivão do cartório e escrivão da polícia.


Major Alfredo de Camargo Fonseca
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba


Com a análise dos dados citados por Nilson Cardoso de Carvalho (2004, p.51 e 80) pode-se presumir que pouco mais de 1.200 pessoas moravam na pacata área urbana do município na data do crime, a grande maioria em casas de barrote de pequena altura. Em 1854 a população total da então freguesia de Indaiatuba era de 3.024 habitantes que tiravam seu sustento principalmente da produção de açúcar e café. Em 1872 era 3.749, sendo que 1.689 eram escravos. Em 1900 era de 7.137 e em 1920 havia 9.944. Por volta de 1911 supõe-se que tivessem 1.486 pessoas morando na área urbana e 7.044 pessoas morando nos sítios e fazendas.

A cidadezinha teve início em torno de uma capela que passou a ser capela curada em 1813. A capela curada(3), inicialmente denominada Nossa Senhora da Conceição foi reformada, cresceu e hoje é a matriz Nossa Senhora da Candelária. No entorno da matriz foram sendo construídos alguns casarões, que serviam de residência urbana para os donos das fazendas dos arredores. Na época do crime, nos casarões do largo da Matriz (4) “residiam os principais do lugar: oficiais da Guarda Nacional, fazendeiros senhores de engenho fazendeiros cafelistas, comerciantes principais e autoridades locais (5)”.





Casarões da época – Largo da Matriz, esquina com Rua 15 de Novembro
Foto original da  Fundação Pró-Memória de Indaiatuba

Já a maior parte da população da zona urbana, ou seja, os pequenos comerciantes, artesãos e trabalhadores livres moravam em casas simples, de barrote de pequena altura. Essas casas geralmente possuíam pequenos jardins ou terreiros com pequenas hortas, árvores frutíferas e galinheiros, ou ainda, como escreveu o notável indaiatubano Nabor Pires Camargo, não só galinheiros, mas pequenos zoológicos, com “frangos, cabritos, leitões, perus, carneiros, e algumas vezes até caças de pelo, como capivaras e pacas (6)”. Eram delimitadas, quando muito, por cercas de arame ou taquara.




Casinhas do antigo centro urbano – Esquina da Pedro de Toledo com a Siqueira Campos
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba


O largo da matriz não era somente o centro geográfico, pois tudo girava praticamente em torno da igreja, inclusive as eleições. Ali as crianças brincavam descalças, testemunhadas por viajantes que desembarcavam de trem na estação, que ficava nas proximidades, vindos para negociar os cereais produzidos nas fazendas da redondeza. Os casamentos e batizados, juntamente com outras festas de cunho religioso, principalmente as festas em louvor a padroeira Nossa Senhora da Candelária que eram realizadas desde a criação da freguesia, eram praticamente os únicos eventos do local, onde a vida transcorria bucolicamente. Nessas ocasiões os moradores vestiam suas melhores roupas, geralmente costuradas com tecidos simples, vendidos nas poucas lojas de armarinhos ou por mascates que ocasionalmente batiam de porta em porta para negociar, quebrando o silêncio das ruazinhas de chão batido onde era “proibido correr de cavalo a galope, salvo urgentíssima necessidade sob pena de multa (7).”

A igreja Nossa Senhora da Candelária era o único templo religioso da cidade (8) construído em taipa de pilão, belo exemplo da arquitetura religiosa colonial paulista. Em seu largo, atual Praça Leonor de Barros Camargo, existia um caminho rodeado de palmeiras imperiais. A fachada da frente da igreja era lisa, e agora onde tem as torres, havia apenas quatro efeitos de cimento em forma de pião.




Igreja Nossa Senhora da Candelária – 1910
Do lado esquerdo é Sylvio Ferreira do Amaral, indaiatubano nascido em 23/08/1898
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba



Na medida em que se afastava da igreja, as habitações ficavam escassas rapidamente, dando lugar a pequenas chácaras, terrenos desabitados e aos campos de vegetação nativa, onde se via araçás, guarirobas, araticuns, cajuzinhos do campo, guapevas, pitangas e as palmeiras de indaiá, cujo fruto, o coquinho de indaiá, era muito apreciado pelos moradores, principalmente as crianças.

O crime provocou muito alvoroço na pacata cidadezinha, “na qual a crônica policial de então se entretinha em significantes querelas (9)”. Não tinha jornal, nem cinema, nem teatro e a distração mais comum era visitar os compadres e comadres para conversar e tomar um cafezinho perto do fogão de lenha, após caminhar nas ruas de chão batido. Aliás, teatro já havia existido ali. Na antiga rua do Comércio (atual 15 de Novembro) existira um teatro, todo construído de madeira. Era usado como um centro de, digamos, eventos: festas, bailes e outras reuniões e comemorações importantes, “como o término da Guerra do Paraguai (10)”, eram feitos ali. Mas como fora demolido após o fim do regime monárquico, a população ficou sem essa preciosidade.

Havia alguns saraus nas residências dos poucos “mais abastados” da cidade e fora as festas do calendário religioso, a população participava periodicamente das corridas de cavalos. Tal modalidade de diversão movimentava a população alguns dias antes. Barracas cobertas e emparedadas com folhas de indaiá (11)   eram erguidas para serem pontos de venda de doces caseiros e bebidas. Violeiros tocavam suas modinhas em volta de fogueiras nos dias que antecediam a grande competição. Entre as provas, havia uma muito peculiar,


“...nenhum concorrente montava no seu próprio animal...o burro que chegasse em último lugar seria o vencedor, de maneira que cada jóquei fazia sua montaria correr ao máximo, a fim de que o animal de sua propriedade...chegasse em último lugar e vencesse a corrida (12)”.


Jogos, principalmente de cartas, também era um lazer comum, principalmente para os que freqüentavam vendas e botecos (13). Mas as poucas atividades de lazer, religiosas ou não, públicas ou privadas, eram mesmo raras, o que mantinha a população aderida ao trabalho cotidiano.




Festa em Indaiatuba no Largo da Matriz em 11/10/1908
Embaixo da segunda janela (direita para esquerda), está Francisco J. de Araújo, o Chico de Itaici
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba



Nesse ano de 1907 (em que foi inaugurado, no Rio de Janeiro, o serviço de fornecimento de energia elétrica que só existia, até então, em alguns locais da cidade de São Paulo) e até 1913 as ruazinhas de Indaiatuba - como em quase todo o Brasil - eram iluminadas por lampiões a querosene, em um sistema inaugurado em 25 de novembro de 1887. Afora isso, só a lua e as estrelas. Na parte central da cidade, os postes guardavam entre si uma distância de 100 metros, localizados na maioria das vezes nas esquinas, eram de madeira e com uma altura de aproximadamente 2,5 metros.


“Todos os dias após o meio-dia o responsável (que em 1911 era o Sr. Nenê Pedroso) ia de poste em poste a fim de efetuar a limpeza dos vidros e colocar querosene nos lampiões. Ao cair da noite refazia o trajeto, parte por parte, para acender a modesta luz (14) ”.

Mesmo com esse sistema, a luz era mortiça e piorava em noites com neblinas. Os vereadores da Câmara de Indaiatuba tentaram coibir os atos de alguns vândalos que depredavam os postinhos do já frágil sistema. Existia uma lei criada desde 1888 que “impunha multa às pessoas que fizesses qualquer dano aos lampiões, bem como obrigava a pôr os mesmos no estado em que estavam antes (15).”

Havia duas “Escolas Isoladas” até o fim do ano de 1907: uma na zona urbana, e outra no bairro de Itaici. Não havia um “Grupo Escolar”, muito embora em 1895, por iniciativa de políticos locais, as crianças de Indaiatuba tivessem sido unidas em um prédio que denominaram “Grupo Escolar Alfredo Fonseca”, que foi dissolvido após breve funcionamento (2 anos). O motivo mais provável foi o desagrado provocado na oposição política do patrono do estabelecimento, que não gostou do nome escolhido. Esse grupo contava com 122 alunos matriculados em 4 classes. Apenas 4 anos após o crime (1911) é que foi instalado o Grupo Escolar , desta feita com estrutura oficial da província.

Conta Henrique Ifanger, ao escrever suas memórias no livro “Fragmentos de Memórias” que, antes de Nabor Pires de Camargo ir embora de Indaiatuba para estudar música em São Paulo, os dois sentavam ali, naquela escola, juntos, na mesma carteira escolar.

No que se refere à educação pública, no ano do crime (1907), em toda a província de São Paulo, 59.751 alunos estiveram matriculados numa rede composta de 80 Grupos Escolares, 1122 Escolas Isoladas e 12 Escolas Reunidas (16).



Grupo Escolar que funcionou depois de 1911 no Largo da Matriz - atual Escola Candelária
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba


Não havia água encanada. Na ocasião do crime, as pessoas da zona urbana utilizavam água retirada de poços dos fundos dos quintais ou ia buscá-la na bica do Córrego Belchior, localizado no “Buraco da Estação” na frente da Estação Sorocabana, entre esta e o então pasto do Pinheiro (onde mais tarde seria construído o Hospital Augusto de Oliveira Camargo). Era ali também que as mulheres lavavam suas roupas: baldeavam-nas em tinas e bacias e usavam como varal os arames farpados das cercas próximas; para depois de secas serem passadas com pesados ferros aquecidos com brasa.

Só após 8 anos do crime (1915) é que foram instaladas 08 torneiras públicas por onde vertia água filtrada (com cascalho, areia e carvão) retirada do mesmo local, só que advinda de uma caixa d água construída na esquina das ruas 15 de Novembro e Cerqueira César (17). Crianças que iam e vinham das fontes e torneiras públicas, baldeando o precioso líquido em latas de querosene nos pequenos carrinhos de mão, quebravam o silêncio do sossegado povoado (18).



Torneira pública situada na esquina da Pedro de Toledo com Siqueira Campos
Populares – principalmente crianças – iam buscar água com carrinho de mão e latas.
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba


Na época do crime, havia uma estrada que ia desde o largo da Cadeia (atual Praça Prudente de Moraes), em linha reta até Itaici, muito transitada por esses meios de transportes. Essa estrada passava por outro largo, o das Caneleiras (atual Praça Rui Barbosa). Esse largo abria-se defronte a uma pequena capelinha de nome Santa Cruz, atual Igreja de São Benedito. Alguns moradores freqüentavam ocasionalmente a capelinha, que ficava distante do centro, no meio de um capão de mato, rodeado pela vegetação silvestre... “sozinha naquele arrabalde, [mas] sempre lembrada pela voz de seu sino... (19). Mas outros motivos levavam os moradores para lá, primeiro, para raspar os troncos de três árvores de canela ali plantadas, (daí o nome “Largo das Caneleiras”) com o intuito de utilizar suas propriedades terapêuticas e culinárias. Mas também para jogar futebol; ali jogavam o Belo Horizonte Futebol Clube   (o time mais antigo) contra o Primavera Futebol Clube (20) (o segundo mais antigo, que surgiu um ano antes do crime, em 1906).

Foi também nesse largo que, naquela ocasião, o empreendedor de nome Francisco José de Araújo, também conhecido como Chico de Itaici ou Chico Bulão, construiu várias casas de tijolos geminadas (21), próximas a três árvores de canela. Segundo o cronista Rubens de Campos Penteado, que muito já se dedicou para registrar “nossa terra e nossa gente”, ele era uma espécie de “chefe político (22)” na região de Itaici, onde montou um botequim e mais tarde, um restaurante para almoço dos viajantes em trânsito (23),  .





Casas geminadas construídas por Chico de Itaici no Largo das Caneleiras
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba

Os largos da época, longe das características das atuais praças, nada mais eram do que um descampado de chão batido, com poucas árvores. Eram pontos de encontro entre os poucos transeuntes e também o local onde as crianças brincavam, no chão duro, de jogos de bolinha de vidro ou pião. Além da diversão nos largos, as crianças gostavam de armar arapucas para caçar passarinhos nos campos dos arredores, onde aproveitavam para beber os coquinhos das touceiras de indaiás.

O largo das Caneleiras foi também um ponto de passagem e parada para tropeiros, que por ali passavam, vindo ou indo de Campinas (antiga São Carlos), Itu ou mesmo Jundiaí. Não existia o Hospital Augusto de Oliveira Camargo e no local onde ele está construído, havia o pasto do Pinheiro, bem próximo às nascentes abundantes do Córrego Belchior, onde os animais bebiam água. Além das ferrovias e dos trens, os animais eram utilizados como meios de transportes para montaria ou tração. Muares, cavalos e até bois eram utilizados para transportar cargas. Na zona urbana de Indaiatuba via-se vários cavaleiros, carroças, carros de boi e troles, principalmente trazendo produtos das roças vizinhas para serem vendidos na cidade.Os fazendeiros ricos da região possuíam suas próprias tropas de muares, mas os pequenos e médios contratavam o serviço dos tropeiros, que levavam o café e outros produtos para os centros consumidores e portos, de onde traziam, na volta, alguns produtos importados como tecidos, ferramentas e sal. Esse transporte de produtos em lombos de burro foi diminuindo, na proporção do aumento das linhas de trem.



Transportes: boi e carroça que vendia milho.
À esquerda prédio do grupo Escolar e à direita lateral da igreja matriz Nossa Senhora Candelária
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba


Na época em que aconteceu o crime, brincava no largo da cadeia o nobre indaiatubano: Nabor Pires Camargo, o maestro Nabor. O então menino de apenas 5 anos, morava próximo ao largo, na esquina das atuais ruas 15 de Novembro e Bernardino de Campos (em frente onde foi a Casa Nicolau), onde residiu até completar 17 anos. Ali

“... fazia seus ensaios musicais em cima de uma mangueira que havia no fundo do quintal... [de onde, provavelmente]... avistou o cometa Halley, em 1910... que vinha dos lados de Itu, em direção a Monte Mor, uma das mais gratas recordações de sua infância, um espetáculo maravilhoso, mas que causava medo, desespero e até suicídios (23).”





Rua 15 de novembro (com a Rua 7 de Setembro) - início do século XX
Do lado esquerdo, na primeira casa (perto do lampião) funcionou a casa de comércio
Sempre Avanti Savoya! da família Tancler
Foto original da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba



No largo da Cadeia havia o prédio da câmara municipal, que também funcionava como cadeia pública. A entrada principal era a da cadeia onde havia o gabinete do delegado, o alojamento dos praças e as celas com grades de ferro. Nela eram encarcerados os “bêbados, alcoólatras violentos ou dementes”, conforme narra D. Sylvia Teixeira de Camargo Sannazzaro (1997, p.93). Como havia uma janela na sala dos encarcerados que dava para o largo, comumente, segundo a autora, “presenciava-se um espetáculo desagradável, deprimente mesmo. Os detidos externavam seus desabafos por ela, com gritos de revolta e rosários de palavrões.”

Na porta da cadeia ficava um sino, que funcionava como... digamos, um relógio de controle social. Todos os dias às 9 horas da noite, nas “noites curtas” ou 8 horas da noite, nas “noites longas”, o carcereiro tocava o sino. O som das batidas – as “recolhidas” – indicava que era o momento de fechar o comércio e foi ouvido desde 1882, quando o sino foi adquirido pela câmara municipal, até aproximadamente 1930. Mas não era só a finalização das atividades comerciais que as badaladas controlavam, as famílias também se acostumaram a se recolher com o sinal, e as ruas iam ficando desertas após o ecoar das badaladas. Terminadas as “recolhidas”, a patrulha era feita por um dos soldados da cadeia, “...pondo em polvorosa os noctívagos e eventuais malfeitores que estivessem na cidade ...(25)

Na lateral, ficava outra porta: a da Câmara. Após a entrada, havia um salão para os funcionários e o gabinete do prefeito. Segundo Antônio Zoppi (1998, p.64), que deixou suas preciosas memórias no livro “Reminiscências de Indaiatuba” onde registrou os primeiros anos do século passado, a "...câmara só abria sua porta no mês para pagar [receber] o imposto predial. A chave andava no bolso do fiscal, que resolvia tudo sozinho, pois o prefeito morava numa fazenda e só aos domingos vinha para a cidade.”

Onde ficava o prédio da cadeia e câmara atualmente há uma fonte luminosa e é o marco zero de Indaiatuba. As coordenadas geográficas do município foram traçadas exatamente da porta do prédio, conforme mostra a figura seguinte, cópia do croqui feito em 1947  (26).


Ainda segundo o mesmo autor, o centro comercial da época girava em pequeno entorno da esquina da rua do Comércio (atual rua 7 de Setembro) com a rua 15 de Novembro. Existiam poucos armazéns de secos & molhados e algumas parcas lojas de armarinhos. Um único açougue funcionava na época, em um prédio na esquina das ruas Siqueira Campos e Pedro de Toledo. O dono do açougue matava um boi a cada sábado, quantidade suficiente para abastecer os cidadãos no período. O matadouro onde planavam os urubus, ficava no final da rua 15 de Novembro e após o abate, a prefeitura era a responsável por transportar o boi esquartejado em uma carroça de lixo, não sem antes o cadáver ser lavado no tanque do Barroso, atual fazenda Bela Vista (27).


Vinte e um anos antes (em 1886) a vida bucólica da cidadezinha só fora agitada pela passagem do Imperador D. Pedro II por Indaiatuba (28), a caminho de Piracicaba. O alvoroço provocado pela passagem, seguida e repetidamente narrada de pai para filho, demonstra a escassez de novidades na época, explicando assim (também) a forte repercussão do bárbaro crime. O povo, juntamente com o vigário da paróquia na data, Padre Luiz Del Giudice, que também era italiano, foi cumprimentar a comitiva real, saudosamente festejada com queima de fogos subvencionada pela Câmara (que na época era a denominação de “prefeitura”) e pela banda local, regida pelo maestro José Mico, que contava com 16 instrumentos de propriedade da igreja (29). Em uma época em que raras informações chegavam ao lugarejo, provavelmente só se comentou esse assunto durante muito tempo.

Mas na ocasião do crime, nesse cenário iluminado por lampiões a querosene e formado por casas de barrote em volta da matriz, poucos casarões ali vizinhos, largos e pequenas vendas, o único assunto que dividiu mesmo a atenção dos moradores com o crime foi a eleição, que ocorreu no mesmo mês e ano: dezembro de 1907. Dos sete vereadores já citados, quatro elegeram-se novamente: o Major Alfredo, Benjamin Constant de Almeida Coelho, Antonio Ambiel e Antonio Estanislau do Amaral e três novos nomes assumiram a função de camarista (vereador): Cesare Lisone, José Balduino de Campos e Reynaldo Steffen (30). Essa eleição, entre outras ocorridas na província de São Paulo, transcorreu calmamente, segundo registrou o Presidente do Estado de São Paulo, Dr. M. J. Albuquerque Lins:

“Realizaram-se em dezembro do ano findo as eleições gerais para vereadores, prefeitos e juízes de paz. Extraordinariamente concorrido e disputado, ocorreu o pleito na mais perfeita calma, o que bem demonstra, a par do espírito eminente e ordeiro do povo paulista, o grande interesse que nele desperta sua representação municipal ... [e por essa ordem e calma foram] ...sentindo-se garantidas todas as facções e frações partidárias, devido, em grande parte, à imparcialidade com que, compreendendo seus deveres, se manteve a polícia (31).

De modo geral, as condições de higiene e saúde da época eram precárias. Não havia exigências sanitárias para os armazéns, que vendiam de tudo: azeite, querosene, vinagre de vinho, pinga, toucinhos, lingüiças e pernis (estes últimos sempre dependurados em varões suspensos, próximos ao teto “sempre recobertos de teias de aranha para dar sorte”) (32) e até remédios caseiros. Até o prédio da Cadeia, erguido pelo construtor Constantino Cassabuona especialmente contratado para isso, não possuía banheiros: “as funções fisiológicas dos detentos eram recolhidas em latas de querosene, que um pracinha responsável despejava no mato , isso quando os próprios prisioneiros não jogavam os excrementos pela janela, emporcalhando o largo (33). O banheiro de muitas casas da cidadezinha ficava do lado de fora da casa, os excrementos ficavam em fossas que, periodicamente eram esvaziadas. A sujeira toda ia para uma espécie de barril que, transportado por uma carroça, higienizava a zona urbana.

Os boticários das duas farmácias existentes no início do século passado faziam visitas aos doentes, davam o diagnóstico e eles próprios manipulavam e vendiam as porções. Cuidavam de picadas de inseto e cobras e faziam curativos. Tinha também “Nhá” Joaquina Roque, “indaiatubana muito antiga, que conhecia todos os remédios de nosso campo  (34).” Hospital não havia, mas o Internato São Luiz em Itaici (atual Mosteiro de Itaici), além de funcionar desde 1860 como local de retiro para jovens seminaristas, também funcionava como sanatório para alguns doentes.

Oficialmente, o ano da morte de Domenico De Luca entrou para a História como o ano em que a febre amarela foi erradicada do Rio de Janeiro. Essa doença havia provocado um surto significativo em Indaiatuba em 1899. Em três meses (maio até julho) morreram 64 pessoas, na sua maioria de 30 anos para cima (35) . “Uma comissão de médicos notáveis tais como Emílio Ribas, Paulo Bourroul, Evaristo Bacelar, Luiz de França e Vital Brasil foi enviada pelo Governo Estadual para debelar a epidemia, não enviando, contudo, medicamentos (36)" [SIC!]. Quem trabalhou mesmo socorrendo a população pestilenta foi o farmacêutico Francisco Xavier da Costa, o Chico Boticário que “com coragem e estoicismo enfrentou praticamente sozinho aquele verdadeiro cataclismo”, elaborando mais de mil receitas no período e que “em nenhum minuto sequer abandonou as trincheiras do seu laboratório(37)”, situado na rua Siqueira Campos esquina com a rua Pedro de Toledo. Para não padecer pela febre, muitas pessoas fugiram do município.

Havia uma fábrica em Indaiatuba na época do crime, e que por sinal existia desde 1895: uma cervejaria, inicialmente de propriedade de Carlos Montebello e a partir de 1907 de Luiz Petri. “400 réis a garrafa.” Eram garrafas fechadas (como quase todas da época) com rolhas amarradas com barbantes (38), que estouravam quando abriam, daí o apelido “cerveja marca barbante ”. “Esta cervejaria teve outros donos e feitos: Alfredo de Camargo Fonseca batizou a cerveja com o nome de “Condor”; Alfieri Martini transformou-a em “fábrica de bebidas” diversificando a produção e Alexandre Prandini criou dois sabores, que ficaram famosos: Natural e Abacaxi (39).”

Como outras cidadezinhas do interior paulista cafeeiro, a Indaiatuba daquela época tinha, resumidamente, um perfil determinado pelo vínculo entre “estrada de ferro”, “café” e “imigração”; vínculo que descreve com muita propriedade a história do Brasil do fim do século XIX e início do século XX, mais ainda no estado de São Paulo onde, na ocasião do crime, exatamente em dezembro de 1907, havia “... 4082 quilômetros de trilhos... [por onde passavam] 489 locomotivas, 666 carros e 8.770 vagões (40) .” O Brasil tornou-se, em 1840, o maior produtor mundial de café e a partir daí a representação deste produto no percentual de exportação só subiu, de aproximadamente 50 % na década de 1870, chegando a 70% na década de 1920.

Esta expansão do café levou a ampliação das vias férreas, principal caminho para escoar a produção das fazendas do interior para o porto de Santos e atraiu a mão-de-obra de imigrantes europeus. Como exemplo da grandeza do período cafeeiro em Indaiatuba, Adriana Carvalho Koyama (41) destaca o inventário (1910) do dono da Fazenda Pimenta, Coronel Antonio de Almeida Sampaio, através de registros da Coleção Nilson Cardoso de Carvalho de História Regional: " as fazendas Pimenta, da Gama e Santa Rita possuíam, juntas, 645.000 pés de café, numa área de 900 alqueires, com 111 casas de colonos, grande contingente de imigrantes e sua própria estação de trem: a Estação Pimenta".
 
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(1) Alfredo de Camargo Fonseca foi prefeito de Indaiatuba de 07/01/1905 até 24/10/1930 ininterruptamente. Também foi prefeito nos seguintes períodos: (1) 26/10/1930 a 19/12/1930; (2) 5/5/1931 a 4/9/1934 e (3) 15/5/1938 a 12/7/1939. Também foi eleito vereador 10 (dez) vezes, sendo seu primeiro mandato a partir de 30/09/1892 e o último até 31/12/1931.

(2) Membro de uma paróquia, encarregado de recolher os rendimentos de uma igreja, administrar-lhe o patrimônio (que pode incluir o cemitério) e zelar pela conservação de alfaias e parâmetros.

(3) Segundo a definição de áreas do Instituto Geográfico e Cartográfico, capela é uma pequena igreja de um só altar, sem pastor próprio. Já capela curada é a designação dada a uma capela ministrada, em caráter permanente um pároco ou cura, são igualadas às paróquias. Indaiatuba, também chamada de Cocais nessa época, passou a ter sua “capela curada” quando recebeu imóveis doados por Pedro Gonçalves Meira (CARVALHO, 2004. páginas 34 até 38).

(4) Vale registrar que o casarão mais antigo é a antiga sede da Fazenda Engenho D’Água (Jardim Morada do Sol). A construção foi apontada por Celso Lago Paiva, do Grupo de Estudos de História da Técnica da UNICAMP como a mais antiga edificação remanescente de Indaiatuba, sendo sua construção datada de aproximadamente 1755, com características arquitetônicas de tradição bandeirista.

(5) CARVALHO, Nilson Cardoso de. Os Casarões Antigos do Largo da Matriz de Indaiatuba . Capturado em agosto de 2007 em: http://www.promemoria.indaiatuba.sp.gov.br/textos/casaraoantigo.pdf

(6) CAMARGO, Nabor Pires. Recordações de um Clarinetista. Indaiatuba (SP): Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 2000, (Crônicas Indaiatubanas - Volume 2)

(7) SAMPAIO, 1998, p 172.

(8) Somente em 20 de agosto de 1911 teria início as atividades dos presbiterianos em Indaiatuba, com um culto realizado na data, segundo Martha de Andrade Barboza Marinho in “Presbiterianos em Indaiatuba”, texto publicado no livro Um Olhar Sobre Indaiatuba. Indaiatuba: Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 2006, p. 211.

(9) DOTTA. 1985. p.11

(10) SAMPAIO. 1998. p.130

(11) SAMPAIO. 1998. p.346


(12) CAMARGO. 2000. p.43

(13) A preocupação em conter os jogos de azar já se manifestara em Indaiatuba muito antes do “Crime do Poço.” A Câmara Municipal decretou em suas Posturas, no ano de 1863, que “ficam proibidos os jogos de azar com dados ou rodas da fortuna, ou outro qualquer jogo de parada pelo qual se obtenha fortuna alheia, quer se pratique em casas públicas, quer em particulares, sobe pena de multa.”

(14) ZOPPI, Antônio. Reminiscências de Indaiatuba. Indaiatuba (SP): Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 1998. (Crônicas Indaiatubanas) p.30

(15) SAMPAIO. 1998. p.130

(16) Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo pelo Presidente do Estado de São Paulo, Dr. M. J. Albuquerque Lins, em 14 de julho de 1908, p. 7. São Paulo. TYP do Diário Oficial, 1916 (reedição).
 
(17) SAAE (Indaiatuba – SP, Brasil). “História do SAAE”. Texto capturado em agosto de 2007: http://www.saae.sp.gov.br/saae_historia1.html

(19) SANNAZZARO, 1997. p.51.

(18) ZOPPI, 1998. p. 25

(20) ZOPPI, 1998. p. 22 (o autor refere-se a um time chamado Primavera, pois o clube de futebol de Indaiatuba, o Esporte Clube Primavera, só seria formado - como instituição - muitos anos depois, em 27 de janeiro de 1927).

(21) Entre as décadas de 30 e 40 essas casinhas funcionaram como local de temporada para doentes com tuberculose, que ali ficavam para aproveitar os benefícios do clima local. Informação de Antonio Reginaldo Geiss, dada em 2007 (informação verbal).

(22) PENTEADO, 1999. p.99

(23) SAMPAIO.1998. p.342

(24) Id. 1999. p.12

(25) PENTEADO, 1999, p. 184

(26) Gravura capturada em setembro de 2007 em http://www.igc.sp.gov.br/HistArqHist/croquis/croq_indaiatuba.htm


(27) ZOPPI, 1998, p.30

(28) Segundo Caio da Costa Sampaio, D. Pedro II passou por Indaiatuba três vezes: em 1864, 1846 e 1886.

(29) CARVALHO, Nilson Cardoso de. A Paróquia de Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba 1832-2000. Indaiatuba (SP): Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 2004, p.275

(30) SAMPAIO, 1998. p. 146

Mensagens apresentadas ao Congresso Legislativo de São Paulo pelos presidentes e vice-presidentes em exercício, deste a Proclamação da República até o ano de 1916. São Paulo. TYP. do Diário Oficial, 1916 (página 5 da mensagem do dia 14 de julho de 1908)

(31) Idem, p. 14

(32) ZOPPI. 1998, p.72

(33) SANNAZZARO, 1997, p.94

(34) ZOPPI, 1998, p. 44

(35) CARVALHO, 2004, p.72

(36) SAMPAIO, 1998, p.112

(37) Id., 1998, p. 112

(38) COUTINHO, Carlos A. Tavares. “Cerveja Marca Barbante ou a História da Cerveja no Brasil”. Capturado em agosto de 2007, da Geocities: http://br.geocities.com/cervisiafilia/cervbras2.htm

(39) LIZONI, Eutemiro José. Fatos e Coisas de Indaiatuba – Cópia Original datilografada, s.d. Acervo: Fundação Pró- Memória de Indaiatuba.

(40) Mensagens apresentadas ao Congresso Legislativo de São Paulo pelos presidentes e vice-presidentes em exercício, deste a Proclamação da República até o ano de 1916. São Paulo. TYP do Diário Oficial, 1916 (página 27 da mensagem do dia 14 de julho de 1908).

(41) KOYAMA, Adriana Carvalho et alii. Um Olhar Sobre Indaiatuba. Indaiatuba: Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 2006, p. 20, 21 e 22.


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