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quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Crime do Poço - Capítulo 6 - Armadilha e Crime

No dia 04 de dezembro, quarta-feira (1), Domenico dirigiu-se outra vez para o Hotel Belo Vista em Piracicaba, onde encontrou, aguardando sua chegada, um bilhete que dizia:


Amigo Domenico
Venha até Indaiatuba
Tenho milho e feijão para vender,
Adão R.


No dia seguinte, 05 de dezembro de 1907, quinta-feira, logo cedo, Domenico avisou a dona do hotel que deveria viajar até Indaiatuba e que talvez conseguisse voltar no mesmo dia. Pegou o trem junto com Antônio Lelário, com quem conversou despreocupadamente até Rio das Pedras (2) , onde o acompanhante de sua última viagem desceu, deixando-o só, provavelmente pensando nos negócios que faria para se mostrar digno da confiança do pai.

Chegando a Indaiatuba no trem do meio-dia, encontrou Adão R. esperando-o na estação e juntos dirigiram-se a casa dele. No caminho ao destino combinado, bem próximo da igreja matriz, situava-se a pensão da viúva Bertolotti, onde Domenico resolveu parar.

Entrou e aproveitou para reservar um quarto, acomodando suas coisas. Aproveitou também para se trocar e pedir para a senhora Meritá Bertolotti, 30 anos de idade, viúva com 5 filhos e também natural da Itália, comadre de Antônio N., que preparasse um bom jantar.

Não quis perder tempo. Saiu logo em seguida para visitar a pacata cidadezinha. A senhora Meritá acompanhou os passos do rapaz, que fora até a venda de Adão R., bem próxima de sua pensão. Esse curto caminho foi registrado nos autos do processo como sendo a última vez que o menino foi visto por alguém conhecido, exceto seus algozes.

Conversou novamente com Adão, mas não entraram em acordo sobre o preço. Combinaram retomar a negociação mais tarde, quando também poderiam, quem sabe... jogar um pouco de baralho.

Passou pela casa de Antônio N. para perguntar se já tinha despachado os quinze sacos de milho comprados e, tendo recebido resposta afirmativa, seguiu satisfeito para andar na pequena cidade, talvez em busca de outros pontos de venda.

Foi nessa altura dos acontecimentos que Antônio foi até a venda de Adão perguntar sobre o que tinha ele negociado com Domenico.

Foi acompanhado de Eugênio C.(3) , 48 anos, italiano natural de Carrara, casado, sapateiro, filho de Pedro C., que morava na rua Direita, atual Rua Augusto de Oliveira Camargo. Com este, Antonio N. já havia falado sobre a quantia de dinheiro que o moço portava e que não fazia questão de esconder.

Adão contou que fora até o sítio do preto Adolpho Galvão e lá comprara dez sacos de feijão. Também comprara vinte e cinco sacos de milho do preto Júlio, mas os dois estavam vendo como seria feito o transporte, então não tinha a mercadoria para mostrar. Contou que pedira o dinheiro referente a essa mercadoria de forma antecipada, mas Domenico achara o valor alto e dissera que gostaria de ver os gêneros antes de pagar. Ele insistiu e o moço, educado que era, disse que voltaria mais tarde, para reiniciar a negociação.

Mas naquela altura, pouco importava os negócios para eles. Outro assunto os ocupava: a sinistra oportunidade com a qual estavam deparados. Retomaram então, naquele momento, a macabra conversa, norteada pela ambição: haveriam de arranjar algum meio de tomar o dinheiro de Domenico, que não era pouco.

Excitados e nervosos, tinham um objetivo, mas não sabiam por onde começar...

Sabiam que não tardaria para Domenico retornar na venda, então decidiram atrair o moço para o fundo da casa e, uma vez ali, arrancar-lhe-iam o dinheiro custasse o que custasse.

Até então, os amigos que tinham em comum a paixão pelo jogo e as dificuldades financeiras, haviam anunciado a terrível intenção apenas em vagas alusões, em sugestões não muito claras e até medrosas. Mas ali a intenção virou plano; “... rompera nesse instante a barreira moral vacilante e tênue, transformando-se na proposta crua e decidida da perpetração do crime (4)”.

Antônio propôs “...embriagá-lo ou esbordoá-lo.”

Ao que Eugênio respondeu: “...que se Domenico de fato tinha dinheiro, o melhor seria matá-lo de uma vez, cortando-lhe o pescoço...”. Disse ainda que deis de tomarem o dinheiro dele, “...atirariam o corpo em qualquer lugar. (5)
“Selara-se ali um compromisso medonho, o concerto do plano homicida com intuito de roubo (6).”


 A combinação criminosa, movida pela ambição, tivera seu desfecho iniciado: Antônio e Eugênio foram se esconder no quarto dos fundos da uma casa desabitada, vizinha de Adão, na Rua Candelária número 21, com acesso pelo mesmo quintal, e esse último ficou espreitando a rua para ver quando o moço chegaria.

Por volta das duas horas da tarde, não controlando a ansiedade da espera, Adão foi até a casa do vizinho Hugo Rezzaghi, 56 anos, casado e vizinho próximo, do número 29. Perguntou-lhe se não havia visto o jovem Domenico De Luca. Justificou que estava aguardando-o, junto com Antônio N., para uma partida de bocha. Hugo estranhou a pergunta (7) uma vez que pela manhã, o próprio Adão trouxera uma carta de Domenico para que ele lesse. Era um texto de conteúdo comercial, a confirmação da vinda de Domenico para fechar o negócio do milho ofertado.

Adão voltou para a venda e continuou esperando, dando prosseguimento à cilada.

De fato, não tardou muito a aparecer Domenico que, inconsciente do mal que o esperava, descia a Rua Candelária em direção ao hotel para descansar e mais tarde jantar. Chegando próximo a casa fatídica, encontrou-se com Adão que, fazendo de conta estar saindo na rua por acaso, o convidou a entrar para tomar alguma coisa e examinar em seguida a mercadoria. O sino da matriz Nossa Senhora da Candelária marcava três horas da tarde.

O moço sem nada suspeitar, recusando inicialmente a bebida, aceitou o convite e entrou, ignorando por completo a armadilha. Por fim, vista a insistência do homem, concordou em tomar uma gasosa, que tinha sido misturada com fernet. Adão aproveitou o momento para ir fechar a porta da rua, alegando que, como o milho se encontrava nos fundos, queria evitar a entrada de algum estranho.

Antônio e Eugênio encontravam-se escondidos, tensos, mas com a certeza de que o dinheiro era bastante e que, fosse como fosse, passaria para os bolsos deles.

Ouviram então vozes provenientes do quintal vizinho: era Domenico e Adão que estavam se aproximando, com conversas triviais. Antonio armou-se com um pau de fumo que estava encostado em uma parede.

Adão empunhava um pouco de milho retirado da venda, e disse mentirosamente que, daquela amostra, possuía grande quantidade na casa vizinha, a da Rua Candelária número 21.

Saíram para o quintal, que era comum à casa vizinha, por onde entraram pela porta dos fundos, que se achava aberta. Caminharam por um corredor que ia até a sala da frente, que abria para a rua. Vendo a casa desabitada, o moço perguntava:

“- Cadê o milho e o feijão?”

Foi então que Domenico abriu a porta desta sala e, como última coisa da sua curta vida, ouviu apenas parcialmente uma voz que dizia:

“-Aqui está o milho.”

Era Antônio que cinicamente respondia, enquanto no mesmo instante, desferia uma violentíssima paulada na cabeça do jovem. O pobre Domenico caiu no chão banhado no seu próprio sangue, prostrado pesadamente, sem um grito, sem uma palavra, sem um gemido sequer. Antônio vibrou-lhe outra paulada e em seguida Adão atirou com força uma pedra em seu peito. Eugênio, talvez excitado pelo ocorrido, talvez de medo que o rapaz pudesse ainda clamar por socorro, puxou a sua faca, prendeu o corpo com o seu pé sobre o peito da vítima e, esticando seu pescoço empurrando o queixo, desferiu-lhe duas facadas na garganta.


[...]

E agora?


Os três criminosos, afobados, procuraram ansiosos o fruto do assassínio. Mas foi Eugênio C. quem definitivamente saqueou o cadáver, achando no bolso do seu paletó 6:400$000 que imediatamente repartiram, não se sabe por que, não em partes iguais: Adão ficou com 1:600$000, Antônio com 1:800$000 e os restantes 3:000$000 com Eugênio.

Depois, desconfiados que Domenico tivesse algum outro dinheiro escondido, tiraram-lhe as botinas.

Colocaram o cadáver em dois sacos de juta que ali estavam cobrindo um caixão de cebolas: um pelos pés, outro pela cabeça.

Mas o que urgia agora era se desfazer do cadáver. Retiraram algumas tábuas que cobriam o poço abandonado, até obter um espaço suficiente por onde deixaram cair o cadáver. O barulho da queda foi bem pequeno, talvez pela grande profundidade do poço, que deveria ter setenta palmos, o equivalente a pouco mais de 15 metros.

Precisavam agora, desesperadamente, aterrar o poço para eliminar qualquer prova. E os três se puseram logo ao trabalho para acabar o mais depressa possível com o macabro serviço.

Com uma enxada desencabada e velha que estava jogada no quintal da casa número vinte e um, rasparam toda a terra ensangüentada, que era muita, pois o sangue também era muito. Jogaram a terra ensopada de sangue dentro do poço. Pegaram a enxada, as botinas e o chapéu de Domenico e colocaram num outro saco que também jogaram no poço. Atiraram para dentro do buraco o pau de fumo com o qual Antônio N. havia espancado Domenico, assim como tudo o mais que encontraram ao redor.

O sino da matriz Nossa Senhora da Candelária anunciava quatro horas da tarde quando o delito deu-se por encerrado. Pela cabeça de cada um, naquele momento, apenas havia a certeza de que tudo tinha ocorrido bem. Estavam aliviados. Afinal, estavam no fundo do quintal de uma casa abandonada, nenhum estranho havia aparecido e nenhum barulho suspeito tinha saído dali. Da parte deles, tinham executado as funestas ações sem ruídos dignos de nota, pelo contrário: num silêncio fúnebre e sem suspeitos.

Poderiam ficar sossegados, tudo tinha acabado bem...

Se alguém poderia ter emitido qualquer som, esse já estava mudo, apedrejado, decapitado e soterrado sem ter tido a mínima chance de - se quer - gemer por socorro.

Tinham certeza que ali terminaria tudo.

“Ao fundo do quintal deserto, o poço antigo e abandonado servirá de túmulo aos despojos, não haverá cruz nem flores sobre ele, apenas o silêncio a cobri-lo com seu manto de cumplicidade sinistra .”(8)

De acordo com o livro “Domenico De Luca Barbaramente Assassinado em Indaiatuba”, traduzido pelo Sr. Rafaello Fantelli e publicado na Tribuna de Indaiá do dia 11 de dezembro de 1960, “mal julgavam que a justiça divina, longe de ser falha como a humana, providenciaria em breve o merecido castigo”.

E passados cem anos no assassinato, pode-se acrescentar também que mal desconfiavam que naquele poço não ficaria jazido o menino.

Que seu corpo sairia da escuridão esquecida do poço para um túmulo sempre iluminado por velas...

Que não teria como última morada aquele local sombrio e frio, mas seria sepultado em um túmulo recoberto de flores oferecidas por almas generosas, que por muito e muito tempo se compadeceriam da tragédia.





Túmulo de Domenico De Luca visitado por populares no Dia de Finados
Foto cedida por Antonio da Cunha Penna – 02/11/2006




Foto de Anselmo Silva (1)



Foto de Anselmo Silva (2)
.....oooooOooooo.....

(1) As informações deste capítulo são advindas da Tribuna de Indaiá de 11 de dezembro de 1960 e dos autos do processo.
(2) O depoimento de Antônio Lelário tem início na p.16 do 1º.vol. dos autos do processo transcrito pela FPM.
(3) O depoimento de Eugênio C. tem início na p. 32 do 1o. volume dos Autos do Processo.
(4)  DOTTA. 1985. p.15
(5) Autos do processo transcrito pela FPM. p.58
(6) DOTTA. 1985. p.15
(7) O depoimento de Hugo Rezaghi tem início na p.99 do 1º. vol. dos autos do processo transcrito pela FPM.
(8) DOTTA, 1985, P.21.


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