quinta-feira, 23 de maio de 2019

Incêndio no Bozelli


Incêndio no Bozelli 

(Transcrição do capítulo 14 do livro "História de Indaiatuba na perspectiva biográfica de Antônio Reginaldo Geiss.)                                                                                 


O que é fogo?
São muitos os conceitos e definições. Para esse capítulo pode ser aplicável saber que “fogo” é:
toda combustão acompanhada de desenvolvimento de luz, calor e, geralmente, de chamas;
labareda;
residência de uma família;
ardor, energia, vivacidade;
agitação, desassossego;
sentimento veemente; excitação. 
Atiçar fogo: fomentar discórdia. 
Brincar com fogo: tratar descuidadosamente de coisas perigosas. 
Comer fogo: a) enfrentar dificuldades; b) estar furioso. 
Cortar o fogo: evitar que um incêndio se propague. 
Pegar fogo: inflamar-se, incendiar-se. 
Pôr as mãos no fogo por alguém: responsabilizar-se por essa pessoa. 
Incêndio.


É difícil construir memórias da infância bem elaboradas, de forma completa e cronológica. Dessa época, memorizamos poucos fatos com muita clareza, condição classificada como amnésia infantil. Há teorias que justificam essa ausência considerando que a criança ainda não tem a linguagem totalmente elaborada a ponto de armazenar memórias concretas, muito embora os fatos passados tenham impacto na formação da personalidade e, portanto, na vida presente. Partindo dessa premissa, há memórias infantis que são relembradas através de outros sentidos, como por exemplo o olfato, que acusa “um cheiro de comida de vó”. Nessa perspectiva, estão as memórias das sensações, incluindo traumas advindos de experiências desagradáveis.

Geiss lembra de dois incêndios que aconteceram na sua infância: o incêndio do Bozelli e o incêndio do Mazzoni. Depois de dedicar a vida adulta para memorização de fatos ocorridos em Indaiatuba, é difícil separar suas lembranças pessoais daquelas adquiridas através de fatos que ouviu e estudou, através de contatos com outras memórias. O fato é que esses incêndios trazem uma mistura de sensações, uma nostalgia triste.

O incêndio ocorrido no armazém de Francisco Bozelli, na década de 1930, é narrado por ele com esse viés de pesar. O local era denominado “Casa Paulista – Ao Mercado Grande” e ao relembrar o fato, a agitação e desassossego chega a dar compaixão daquele menino Toninho que Geiss foi um dia.

Coitado de Toninho, que susto levou!

Uma grande labareda se formou rapidamente, o fogaréu descontrolado propagou-se e tomou a dimensão do prédio todo. Além do calor, da iluminação e da fumaça, o incêndio era agravado por sucessivas explosões. Isso assustou a todos, que com veemente sentimento de excitação, foram atraídos para o local do sinistro. A combustão não era como as pequenas fogueiras que Toninho conhecia, “que deixa a gente inebriado, numa sensação de torpor ao acompanhar a dança das chamas.”

Não, não foi assim.

Os sucessivos estampidos provocados por tambores de querosene e formicida assustaram profundamente a todos da pequena cidadezinha, que por muito e muito tempo comentou o assunto nos botecos, nas soleiras de portas e janelas e nas rodas em volta dos fogões à lenha, no odor de querosene.

A família Bozelli tinha uma hospedaria no Largo da Matriz chamada Hotel Bozelli, negócio respeitado e conhecido na região. Em frente ao hotel, bem na esquina da frente, a família montou também um armazém, inaugurado com propaganda e certa pompa e circunstância diferenciada para a época. O armazém de esquina tinha cerca de 15 metros de fachada na Rua Augusto de Oliveira Camargo e cerca de 11 metros com a frente voltada para a Rua 15 de Novembro.

 Por toda a madrugada a labareda com explosões foram testemunhadas pela população curiosa. Os que, por algum motivo, não escutaram os estouros, foram despertados naquele domingo de Páscoa - 29 de março, por volta das duas horas da manhã, com o sino da matriz, que não parava de bater, avisando a todos do perigoso evento.

Somente pela manhã o fogo terminou, parte por que já havia consumido quase tudo, parte pela ajuda dos habitantes desesperados, que com medo que o fogo se alastrasse nos vizinhos, corriam em debandada – muitos de pijama ou saiotes - para lá e para cá, com baldes e bacias de água retirada de poços, bicas e de poucas torneiras públicas; e parte porque o corpo de Bombeiros de Campinas auxiliou, mesmo que bem no finalzinho.

Hoje em dia quem trabalha com substâncias potencialmente perigosas deve seguir regras rígidas de segurança, são fiscalizados e passíveis de autuações e multas, mas naquela época não era assim. Como já foi dito, os armazéns de secos & molhados tinham um estoque variado, misturava-se vários tipos de alimentos com produtos potencialmente explosivos, como querosene e formicida, como no caso do armazém dos Bozelli.

- O estoque, as instalações, tudo... tudo ficou destruído lembra-se Geiss. Só ficou aquele esqueleto em pé, dando uma sensação de tristeza e ao mesmo tempo de impotência aos que por ali passavam. Eu fiquei horas parado, como que hipnotizado olhando para aquilo tudo. Vi que duas famílias vizinhas ao prédio, de dona Mariquinha Bicudo e de Pedro Sargentelli, retiraram todos os móveis que puderam de suas residências e os acomodaram na rua, onde julgavam que estivessem longe da ameaça.

No dia seguinte, segunda feira bem cedinho, enquanto Toninho ficou em casa, com crises de taquicardia e com a boca seca - com a autorização da mãe para dormir, o delegado de Indaiatuba na época, Dr. Sylvio Corrêa, determinou a abertura de inquérito para investigação da causa do incêndio.

Chamou a Polícia Técnica por telefone para fazer a vistoria no prédio e determinou que fossem tomadas declarações dos proprietários e funcionários[1]. Neste mesmo dia o primeiro a ser chamado foi o ‘Seo’ Francisco.

Em sua declaração, tomada na mesma segunda-feira, Sr. Francisco, filho de Paulo Bozelli e Maria Araldi, disse que estava em casa dormindo quando foi acordado por volta das três e meia da manhã por Waldemar Filetti, que desesperado e assustado, informava ofegante que seu armazém estava em chamas. Declarou ainda que, ao ir correndo para o local, praticamente do lado da sua casa, notou que uma das portas do armazém estava arrombada, com sinais de violência nas trancas e soleiras. Contou que dois de seus filhos, os que trabalhavam com ele, Orlando e Roberto Bozelli, estavam viajando e o outro funcionário além deles, era João Zapelfino.  Contou que o frágil e velho prédio do armazém, o estoque e mais duas casinhas do lado dele foram adquiridas cerca de 20 anos antes do sinistro. Terminou informando que tinha um contrato de seguro com a Companhia de Seguros Sul América, no valor de 84:000$00 (oitenta e quatro contos de réis).

Perguntado sobre se suspeitava de alguém, disse que não, que achava que um ladrão provavelmente entrou para roubar alguma coisa do estoque (declarado no valor de 40:000$00) e provocou o incêndio.

O delegado então chamou outras testemunhas, indicadas por ele mesmo, que estavam no local, para que fossem prestar declarações e, se possível, esclarecer as causas do evento.

Iracema Filetti de Moraes, 29 anos, filha do casal Antônio de Moraes e Ivania Filetti, foi a primeira testemunha. Declarou que estava dormindo quando ouviu um barulho estranho. Abriu a janela para o Largo da Matriz e viu o prédio do armazém pegando fogo. Afobada, chamou o irmão Waldemar Filetti, que por sua vez foi chamar o proprietário, aos berros.

Ao chegar no local, percebeu que todo o estoque estava pegando fogo ao mesmo tempo, não havia um foco específico: “tinha fogo no armazém, no depósito de louças e ferragens e nas sacarias”. Terminou declarando que “achava que o fogo foi ateado propositalmente. ”

Na terça-feira, Toninho também não queria ir na escola.

Planejou argumentos imbatíveis para convencer a mãe. Urgia acompanhar de perto os acontecimentos.

_ Nada disso! Já faz cinco dias que você não vai na Escola. 

Havia sido Semana Santa, feriado, e a mãe queria que tudo voltasse ao normal o mais rápido possível depois do grande abalo; “chega de traumas”, pensava Dona Gegê.

Osvaldo Rapozo, com 28 anos, filho de Mariana e Manoel Rapozo, disse que chegou após o incêndio, viu toda a destruição, nada sabendo sobre suas causas. Apenas declarou que “dias antes do incêndio, Bozelli pediu-lhe para que, com seu caminhão, removesse cerca de 40 sacos de feijão que se achava em depósito anexo ao armazém, onde iria construir um forno para padaria”[2].

Sylvio Tanclér, 25 anos, filho de Carlos Tanclér e Maria Lanzi Tanclér foi a terceira testemunha. Disse que acordou com batidas insistentes na porta da casa dele, também bem próxima do armazém, na Rua Augusto de Oliveira Camargo. Como outros populares, tentou desesperadamente conter e isolar o incêndio, para que não se alastrasse nas casas vizinhas. Sobre os motivos, causas ou outros assuntos relacionados ao incêndio, nada declarou.

 De Cyrillo Zapelfino foi o quarto depoimento registrado. Com 41 anos de idade, comerciante e também morador no mesmo quarteirão, disse que várias pessoas o chamaram para tentar combater as chamas. Saiu rapidamente de sua casa com um balde, assim como outros, mas chegando perto do local viu que de nada adiantaria o esforço, uma vez que as chamas vinham de todos os lados, com explosões.

Waldemar Filetti, também filho de Ivania Filetti e Pedro Sargentelli, conforme contou sua irmã, chamou o dono do armazém, em seguida correu para o Largo da Cadeia para chamar a polícia, e veio gritando pela Rua Candelária, batendo desesperadamente em tudo quanto era porta e janela enfileiradas, chamando demais moradores para ajudar a apagar o incêndio.

_Fogo, Fogo, Fogo!

 Mas ao chegar, também percebeu que o esforço das pessoas com os baldes seria inglório.

O professor público Eduardo Silva, então exercendo o cargo de Diretor de Escola no Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes, com 42 anos, filho de Antônio de Paula Silva e Anna de Paula Silva, nascido em Campinas e com residência também na Rua Augusto de Oliveira Camargo, perto do incêndio, declarou que acordou com os gritos de uma das filhas de Francisco Bozelli, de nome Ivaninha, pedindo socorro. Ao sair correndo para ver no que poderia ajudar, deparou-se com as labaredas vindas de todos os lados. Foi então até o posto telegráfico – onde trabalhava a mãe do menino Toninho, de onde viu que rapidamente chegaram os soldados do destacamento local (seguindo, na correria, Waldemar Filetti), tentando desesperadamente com outras pessoas combater, sem sucesso, o incêndio. Informou que quem extinguiu, finalmente, as insistentes chamas, foram os bombeiros que vieram de Campinas.

Amélio Mazzolla, filho de Humberto Mazzolla e Angelina Mazzolla, com 24 anos, natural de Salto, era chefe do Centro Telefônico, local onde morava nos fundos. Como os demais, acordou de madrugada com insistentes chamadas da campainha da mesa do centro telefônico. Atendendo ao chamado, nada pode ouvir claramente porque a pessoa falava, soluçava, tossia, espirrava e chorava ao mesmo tempo. Isso tudo junto com explosões, o badalar do sino da Matriz e o cheiro de fumaça.

Não é difícil entender o desespero dos moradores da pacata Indaiatuba que, de ruídos sonoros cotidianos, praticamente só ouvia o apito do trem, o sino da igreja e o trotar de animais no chão batido. Foi nesse momento que Waldemar Filetti, batendo desesperadamente na sua janela, chamou sua atenção para o incêndio; pediu então socorro ao Corpo de Bombeiros de Campinas.

João Zapelfino, empregado do armazém, declarou que durante o tempo em que foi empregado de Bozelli, nada de anormal notou naquela rotina comercial, sendo o patrão rigoroso cumpridor de seus deveres. Confirmou o que Osvaldo Rapozo disse: que esvaziaram parte do estoque para construir uma padaria e provavelmente um bar, informando ainda, sobre essa possível retirada do estoque, que o patrão já havia falado que tinha entrada com os papéis na prefeitura, solicitando viabilidade para o projeto. Sobre o seguro do prédio, informou que sabia que foi feito no final do ano anterior, sem saber de valores.

O filho Orlando Bozelli, de 20 anos, disse que não estava em casa no dia do incêndio porque tinha ido, a mando do pai, para São Paulo vender o feijão que havia sido retirado do armazém. Foi lá que soube do ocorrido.

Pegou o primeiro trem noturno e voltou para Indaiatuba, quando então, após descer na estação e caminhar cerca de cem metros, já avistou o esqueleto chamuscado que havia sobrado do que fora o armazém do seu pai.



Crédito da imagem: Arquivo Público Municipal “Nilson Cardoso de Carvalho” da FPMI

O laudo do relatório da polícia técnica da Secretaria de Segurança Pública primeiramente excluiu as hipóteses de descarga atmosférica e combustão espontânea. Causas acidentais como palito de fósforo ou toco de cigarro foram citadas, mas descartadas, uma vez que se uma dessas fosse a causa, o incêndio não teria se espalhado tão rapidamente e ao mesmo tempo por todos os lugares.  Por fim, sinalizou para a possibilidade de ter havido um curto circuito ou ser considerada a hipótese de causa proposital. Ou seja: não foi conclusivo.

“Se bem que os peritos não tenham encontrado qualquer indicio material, ou arrumação suspeita que indicasse a intervenção humana com o objetivo de atear e propagar o fogo, e isto em virtude de ter sido, como já foi dito, total a destruição, a hipótese de propositalidade também não pôde deixar de ser considerada no caso presente, porque não seria difícil a alguém ter, furtivamente, penetrado no interior do estabelecimento e ali ateado o fogo (...). Isto posto (...) que cabe ao inquérito policial apurar convenientemente o ocorrido. ”

A notícia que havia se espalhado igual ao fogo, também foi cruel; e o seguro feito pelo senhor Francisco Bozelli, apontou-o como suspeito.

_Ele ficou muito abalado, lembra-se Geiss.

Tanto que, passado pouco tempo após o incêndio, após exatos dois dias, em 31 de março, o desespero dele, talvez superlativado com revolta e ou depressão, levou Bozelli a uma atitude desesperada: suicidou-se com um corte de navalha no pescoço.

Deixou bilhete escrito a próprio punho dizendo que assim o fazia, porque não “podia suportar ao desastre”.

Deixou filhos e a esposa Maria Rosa Frigieri, que na ocasião do acidente estava “paralítica e muda”.

Para os que ficaram, resta conceder o benefício da dúvida e a compaixão pela dor.

Tombado na desgraça daquele incêndio, Seo Francisco não pode se defender da suspeita de ter provocado o incêndio que destruiu sua propriedade[3]




[1] Informações do incêndio no armazém da família Bozelli foram também retiradas do Inquérito Policial aberto em 29 de março de 1937.
[2] Havia solicitação de aprovação desse projeto na Prefeitura de Indaiatuba na ocasião do incêndio.
[3] O inquérito termina com os autos sendo remetidos M.M. Dr. Juiz de Direito da Comarca, por intermédio da Delegacia de Itu.


Outras imagens (que não estão na fonte citada, retirada do processo:






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