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terça-feira, 14 de julho de 2015

CENTRO de Indaiatuba - De cidade dormitório à polo comercial

Texto originalmente publicado na REVISTA EXEMPLO IMÓVEIS - 5a. edição
Agradecimentos: Sr. Aluísio Williampresidente do Grupo AWR

Débora Andradesjornalista.


Por mais de cem anos, o Centro foi sinônimo de "cidade" em Indaiatuba. 

Durante esse tempo, as construções residenciais se misturam aos prédios comerciais e esse foi um dos motivos pelo qual até 1970 a cidade não tinha um centro comercial definido. A outra razão, segundo o memorialista Antônio Reginaldo Geiss, explica-se no fato de que parte das áreas centrais pertenciam aos grandes proprietários que ao invés de investir, mantinham seus terrenos intactos.

Foi nas proximidades da Igreja Matriz, nas ruas Candelária, XV de Novembro e adjacentes, que surgiram os primeiros armazéns e onde, mais tarde, se definiu o primeiro centro comercial do município. 

Na época, os comerciantes eram locais e com sua economia dividida entre a cultura de café e batata e algumas pequenas fábricas, a cidade cresceu pouco na primeira metade do século XX. Em 1950, havia 11.253 habitantes no município. Quase quinze anos mais tarde, eram 22.928 (lembre-se: falar da cidade nesta época é o mesmo que falar sobre o Centro de hoje). 

Em 1970, baseado principalmente na expansão da indústria e de serviços, o crescimento acelerou. Na década seguinte, a cidade recebeu um grande número de migrantes e viveu o que o memorialista chama de 'boom de crescimento'.

A partir daí, definiram-se três grandes e distintos centros comerciais. “A rua Candelária e a XV de Novembro compreendem o mais antigo deles. A rua 24 de Maio, que na década de 50, tinha apenas três residências e poucos comércios, formou o segundo. O terceiro centro está localizado no Jardim Morada do Sol, bairro que começou a ser povoado na década de 1980”, explica Geiss.

Embora o Plano Diretor da cidade não faça restrições quanto ao tipo de construções que devam habitar o bairro, hoje as ruas mais antigas da cidade estão tomadas quase completamente por prédios comerciais, algumas residências foram adaptadas à nova função, outras foram demolidas para ceder espaço aos novos projetos. “Na rua Bernardino de Campos, que era uma rua de residências, restam apenas três ou quatro casas, recorda o antigo morador. A tendência começou em 1942, com a instalação do primeiro banco no município, o Banco Mercantil de São Paulo. “Foi um processo natural. As casas foram vendidas para os comércios, mas nada foi premeditado, não houve zoneamento”, conclui Geiss,  presidente da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba.

As ruas

Embora em 1830 apenas quatro ruas e quatro travessas compusessem o povoado de Cocais, se algum viajante procurasse pelo nome XV de Novembro, certamente se daria por perdido, uma vez que a via foi chamada originalmente de rua das Palmas. 

À esquerda da via ficava a capela do povoado, hoje a Igreja Matriz de Indaiatuba. Paralelamente a essa rua, e limitando o lado oposto da praça da igreja, surgiu uma outra rua, a qual recebeu um nome bastante previsível: Nossa Senhora da Candelária. Mais tarde, o nome da passagem foi mudado para rua da Constituição e anos depois, por um motivo desconhecido, voltou às origens com o nome de rua Candelária, simplesmente. 

Além delas, existiam também a rua da Palha, a rua das Flores, a rua São José, a rua Direita, a rua do Comércio e a rua Alegre, nomes bastante informais, mas totalmente compreensíveis em uma vila do começo do século XIX usada basicamente como dormitório. 

Em 1913, Indaiatuba era ainda composta por poucas ruas, mas a rua das Palmas já havia recebido o nome que mantém até hoje, XV de Novembro. A parte central da cidadezinha encontrava-se no cruzamento desta com a rua do Comércio, apontada com divergência nos registros que mostram sua correspondente atual ora 7 de Setembro, ora Siqueira Campos. O mais provável, no entanto, é que corresponda à segunda, já que em 1920 outra rua na cidade recebia o nome comemorativo à Independência do Brasil.

Na década de vinte, ainda era possível contar nas dezenas as vias da cidade, que dentre as aproximadamente duas mil ruas que compõem o município hoje, fazem parte do Centro atual. Elas eram 14: São José, Direita, 7 de Setembro, do Comércio,  Bernardino de Campos, Cerqueira César e Padre Bento Dias Pacheco, cortadas pela rua da Palha, Candelária, XV de Novembro, 13 de Maio, Alegre, das Tropas e Araújo, uma rua curta que ia do largo das Caneleiras até a linha da Estrada de Ferro.

Grande parte desses nomes foram substituídos ao longo do tempo, em uma época em que tudo era feito por meio de decreto do Executivo, razão pela qual nem a Câmara nem a Fundação Pró-Memória possuem registros sobre as datas e justificativas das mudanças. A rua São José, primeira desde a fundação do povoado, é hoje a Dom José. A rua curta que ia desde a praça Rio Branco até a estação da Sorocabana chamada de rua Direita, é a atual Augusto de Oliveira Camargo. A Rua da Palha, virou Pedro Gonçalves. A Rua das Flores, Pedro de Toledo, e a Rua Alegre, 9 de julho. “Os novos nomes se referem a datas históricas ou personagens importantes. Acho ótimas as mudanças, já que existem nomes de ruas aqui que não tem sentido algum. Isso não deveria existir. Tem muita gente importante que ainda não tem nome nas ruas de Indaiatuba”, opina Geiss.  


Rua Augusto de Oliveira Camargo
Crédito Silva & Penna

Com o intuito de preservar a história da cidade, a Fundação começa a estudar um projeto para colocar, junto os nomes antigos junto aos nas placas indicativas. “O ser humano é um ser histórico e preservar detalhes como os antigos nomes das ruas da cidade é importante para não se perder as referências”, explica Marcelo Cerdan.

Com o passar dos anos, não apenas os nomes sofreram alterações, mas também  a paisagem - inúmeras vezes mais que os nomes, à proposito. Os homens do ofício, conhecidos como Chico Sapateiro, Joãozinho Relojoeiro, Luiz Caixeiro e Zé Mascate, deram lugar ao anonimato das lojas franquiadas. 

No século XIX o primeiro prédio da Prefeitura, que também foi Câmara Municipal e Cadeia Pública estava localizado no centro da praça Prudente de Moraes, onde hoje está a fonte de água luminosa. Mais tarde na década de 60 foi construído um novo prédio somente para a Prefeitura e Câmara com uma arquitetura majestosa e clássica, que depois se transformou em uma construção repleta de vidros e sapatos à mostra: eis agora a mais nova loja da Sapataria São Vicente. 

Na rua Siqueira Campos esquina com Candelária, o armazém do Mário Magnusson trata de moda desde a instalação da Multi Ponto. O armazém de ArthurTomazi é agora Foto Nipon, o dos Irmãos Zerbini, Despachante Mário e Sílvio Candello. A loja José Tancler é agora Foto Hugo. 


Farmácia - Década de 1930
Silva e Penna

Incansavelmente a paisagem se modifica, mas em uma cidade que valoriza a preservação das raízes, ainda é possível se deparar com lugares que cultivam a origem: como se tivessem voltado no tempo eles mantém com orgulho o mesmo prédio, o mesmo nome e a mesma disposição dos produtos que há meio século.  

Casa Feres, o comércio mais antigo da cidade

O comércio mais antigo de Indaiatuba ainda em funcionamento é a Casa Feres. Com 98 anos de existência a loja passou entre as gerações da família Aun e até hoje mantém uma clientela indaiatubana muito fiel.

O atual administrador da loja, José Celeste Aun casado com Joziani Polezel Aun, conta como essa tradição passou de pai para filho. “Tudo começou quando um tio do meu avô saiu do Líbano e veio para o Brasil em 1908 e acabou se estabelecendo em Campinas. Ele começou a mandar cartas para os irmãos e uma dessas caiu na mão do meu avô, Feres Pedro Aun. Ele pegou dinheiro emprestado e veio para o Brasil no ano seguinte para tentar a vida quando tinha apenas 18 anos, trabalhou um ano em Campinas até aprender a língua”, conta o neto Aun.

Segundo Aun, a ideia principal era juntar dinheiro e voltar para o Líbano ou trazer a família toda para o Brasil pois as coisas não estavam bem por lá, mas na prática os planos não saíram como foram planejados. “Na Primeira Guerra Mundial a família do meu avô faleceu no Líbano, morreram todos de fome, o pai a mãe e os irmãos. Ele recebeu essa notícia através da vinda do primo Elias José Aun, que avisou que não adiantava ele voltar porque não sobrou ninguém da família”, relata.

Feres Pedro Aun, começou a namorar Wadiah Cury que morava em Campinas e depois do casamento veio para Indaiatuba e montou a loja em 1911 que foi chamada de Casa do Feres que vendia tecidos. A primeira foi montada em um prédio alugado na esquina da Bernardino de Campos com a XV de Novembro, depois de algum tempo teve que se mudar do lugar, foi quando Aun comprou a esquina da XV de novembro com a Siqueira Campos onde era um armazém. “Em 1936 meu avô resolveu reformar todo o prédio e quem administrou a reforma para ele foi Antônio Zoppi, que era amigo dele”, conta.

Na época de Getúlio Vargas nos anos de 1950 a 1952 os estrangeiros sofreram uma certa perseguição no País e a Casa do Feres ficou fechada neste período. “Nesse receio meu avô se afastou e fechou a loja por dois anos, mas manteve o contato com os clientes por dentro e nunca ficou sem as atividades comerciais”, diz.

Em 1968, com complicações de saúde o comerciante Feres Pedro faleceu. Sua esposa, Wadiah,  ficou em luto e manteve a loja e seus pertences exatamente como ele deixou durante um ano. “Isso faz parte da nossa cultura, depois da morte de meu avô a loja ficou em marcha lenta durante 14 anos, ela não se empenhou nos negócios, simples- mente manteve a loja aberta”, relata o comerciante. O filho do casal Salim Feres Aun, ajudou a mãe neste período.

O filho de Salim, que hoje é o atual proprietário, se formou em economia em 1980 e no ano seguinte o primo Mario Paulo convidou José Celeste para tocar o negócio da família. “Na época eu trabalhava em São paulo, era economista do Instituto de Pesquisa Tecnológica  (IPT) e num ato de loucura larguei o trabalho para pegar a loja”, lembra com sarcasmo e completa. “Ficamos sócios por nove anos e em 1991 meu primo comprou uma indústria e eu comprei a parte dele da sociedade e toquei sozinho. Em 1993 meu pai faleceu e minha mãe, Iracema Joaninha Cainelli Aun, veio me ajudar e estamos aqui até hoje”, diz Aun.

No ano de 1994 a avó de José Celeste faleceu, aos 93 anos, e segundo ele Wadiah era forte e ficou no balcão em atividade até os momentos finais. “Depois que ela faleceu reformamos a loja, esperamos um ano para fazer as mudanças, pois seguimos a nossa tradição cultural e mantemos tudo igual como ela deixou. Em 1995 reformei tudo pois a casa do seu Feres era acoplada com a loja e nunca sabíamos o que era casa e o que era loja”, fala Aun.

O proprietário ressalta que por muitas vezes apareceram antigos clientes contanto histórias do passado que envolveram a loja. “As vezes vem a neta com a avó aqui e contam histórias interessantes, outras vezes vem pessoas e comentam que a avó fugiu com o avô e passou na Casa do Feres para comprar o enxoval e outras histórias desse gênero”, descreve.

Hoje a Casa Feres conta com a colaboração de 18 funcionários. “É um negócio que ainda fica aos olhos do dono. Temos o atendimento corpo a corpo e não informatizamos nada porque esse ramo nos obriga a treinar um profissional para colocar no balcão e atender os clientes”, compartilha o proprietário.


Em 2008 a loja foi ampliada mais 500 m², a ampliação foi feita depois que o proprietário do comércio adquiriu o salão ao lado, no qual era uma loja de colchões. “Em 2007 consegui comprar o espaço ao lado e ampliamos em 2008. Hoje temos ao total 800 m² de loja, pois o nosso produto precisa de muito espaço para expor”, fala Aun.

José Celeste Aun afirma que no momento não tem nenhum filho se preparando para assumir o negócio, mas isso não o incomoda, pois a sua preocupação é a felicidade da família. “Antes dos negócios tem a vida de cada um. Tenho dois filhos, o Bruno José e o Ruy José. quero que eles se dêem bem, nunca forcei eles a ficarem na loja. Não tenho medo que a loja acabe um dia, pois ela não foi planejada para durar tanto tempo, essa tradição simplesmente aconteceu meu avó veio para o Brasil para ter uma vida melhor pois no Líbano estava insuportável, ele não pensou em transformar isso em tradição e eu também não quero impor isso”,  finaliza Aun.




Rua XV de Novembro esquina com Bernardino de Campos - ano de 1930 
(Acervo Silva e Penna)


Ao que tudo indica, Indaiatuba nasceu de uma necessidade dos viajantes, que no começo do século passado precisaram escolher um ponto entre as dez léguas que separavam a vila Campinas de Itu para descansar. 

Em 1830, ainda na humilde posição de Freguesia da Vila de Itu, nascia a terra dos Cocais, elevada à vila somente em 1859. Tudo começou onde hoje está localizada a rua XV de Novembro. O município ainda não passava de um povoado no meio da estrada, mas as raízes históricas já começavam a infiltrar o solo que logo passaria a ser chamado de vila e, mais tarde, cidade.  

Um começo reconhecido hoje dentre as ruas do bairro Centro...



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