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quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Papa Francisco Pop e o patrimônio histórico, artístico e cultural

Li há pouco tempo um  "meme"  denominado " O Papa é Pop" comentando o quanto o Papa é revolucionário, ao tratar de assuntos como pobreza e simplicidade, exaltando São Francisco de Assis e de forma mais ampla, o cristianismo primitivo. Mas não é só por isso que ele é Pop! Vejamos.

Chama o capitalismo de "ditadura sutil" e no Brasil, deu um recado aos jovens: sejam revolucionários!

Já pediu várias vezes para que rezem por ele. _ Eu também tenho pecados, diz!

Já pediu perdão várias vezes. Quer manifestação maior de sabedoria, humildade e generosidade, que pedir perdão? 

Ao se reunir com um pastor evangélico, pediu perdão publicamente pelas perseguições cometidas pelos católicos aos pentecostais. Pediu perdão às vítimas de padres pedófilos, o que pressupõe a difícil tarefa de pré-reconhecer a existência dos mesmos. Pediu perdão - com pesar - a todos os povos latino-americanos, os indígenas nativos,  pelas atrocidades que foram cometidas em nome da Igreja na época do período da colonização. Pediu perdão em nome da Igreja Católica aos cristãos valdenses, confissão protestante perseguida por séculos desde a Idade Média.

_ Deus sempre perdoa, ele diz. Impossível não se emocionar. E impossível não se indignar enquanto muitos têm prazer de dissipar o ódio. Mas não é sobre esse sentimento que nada constrói que quero falar em um blog sobre História, Patrimônio e Memória de Indaiatuba; quero abordar o que é grandioso.


Quero falar sobre a surpreendente capacidade de inovar, surpreender e liderar do Papa Pop, desta vez sobre o cuidado com "nossa casa comum" -  através do que escreveu na Carta Encíclica Laudato Si abordando, com sensibilidade e conhecimento, a questão do patrimônio natural, artístico e histórico, ação que poucos líderes de Estado possuem a capacidade de fazê-lo, tão pouco entendê-lo, principalmente quando, corajosamente, relaciona o consumismo com a degradação natural, cultural e histórica. 


Leia abaixo fragmento(s) da Encílica:

4. (...) A problemática ecológica (...) é uma crise que é «consequência dramática» da atividade descontrolada do ser humano: «Por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o ser humano] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação». [Há uma] possibilidade duma «catástrofe ecológica sob o efeito da explosão da civilização industrial», sublinhando a «necessidade urgente duma mudança radical no comportamento da humanidade», porque «os progressos científicos mais extraordinários, as invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econômico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem».

93. Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos.




Ecologia cultural

143. A par do patrimônio natural, encontra-se igualmente ameaçado o patrimônio histórico, artístico e cultural. 
Faz parte da identidade comum de um lugar, servindo de base para construir uma cidade habitável. Não se trata de destruir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecológicas, onde nem sempre resulta desejável viver. É preciso integrar a história, a cultura e a arquitetura dum lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve também o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. 
Mais diretamente, pede que se preste atenção às culturas locais, quando se analisam questões relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem técnico-científica com a linguagem popular. É a cultura – entendida não só como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, dinâmico e participativo – que não se pode excluir na hora de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente.

144. A visão consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a homogenizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade. 
Por isso, pretender resolver todas as dificuldades através de normativas uniformes ou por intervenções técnicas, leva a negligenciar a complexidade das problemáticas locais, que requerem a participação ativa dos habitantes. 
Os novos processos em gestação nem sempre se podem integrar dentro de modelos estabelecidos do exterior, mas hão-de ser provenientes da própria cultura local. Assim como a vida e o mundo são dinâmicos, assim também o cuidado do mundo deve ser flexível e dinâmico. 
As soluções meramente técnicas correm o risco de tomar em consideração sintomas que não correspondem às problemáticas mais profundas. É preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social supõe um processo histórico no âmbito dum contexto cultural e requer constantemente o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura. 
Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano.

145. Muitas formas de intensa exploração e degradação do meio ambiente podem esgotar não só os meios locais de subsistência, mas também os recursos sociais que consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade cultural e um sentido da existência e da convivência social. O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie animal ou vegetal.
A imposição dum estilo hegemônico de vida ligado a um modo de produção pode ser tão nocivo como a alteração dos ecossistemas.

3. Ecologia da vida quotidiana

147. Para se poder falar de autêntico progresso, será preciso verificar que se produza uma melhoria global na qualidade de vida humana; isto implica analisar o espaço onde as pessoas transcorrem a sua existência. Os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir. Ao mesmo tempo, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso lugar de trabalho e no nosso bairro, usamos o ambiente para exprimir a nossa identidade. Esforçamo-nos por nos adaptar ao ambiente e, quando este aparece desordenado, caótico ou cheio de poluição visiva e acústica, o excesso de estímulos põe à prova as nossas tentativas de desenvolver uma identidade integrada e feliz.

149. Inversamente está provado que a penúria extrema vivida nalguns ambientes privados de harmonia, magnanimidade e possibilidade de integração, facilita o aparecimento de comportamentos desumanos e a manipulação das pessoas por organizações criminosas. Para os habitantes de bairros periféricos muito precários, a experiência diária de passar da superlotação ao anonimato social, que se vive nas grandes cidades, pode provocar uma sensação de desenraizamento que favorece comportamentos anti-sociais e violência. Todavia tenho a peito reiterar que o amor é mais forte. Muitas pessoas, nestas condições, são capazes de tecer laços de pertença e convivência que transformam a superlotação numa experiência comunitária, onde se derrubam os muros do eu e superam as barreiras do egoísmo. Esta experiência de salvação comunitária é o que muitas vezes suscita reações criativas para melhorar um edifício ou um bairro.

150. Dada a relação entre os espaços urbanizados e o comportamento humano, aqueles que projectam edifícios, bairros, espaços públicos e cidades precisam da contribuição dos vários saberes que permitem compreender os processos, o simbolismo e os comportamentos das pessoas. Não é suficiente a busca da beleza no projecto, porque tem ainda mais valor servir outro tipo de beleza: a qualidade de vida das pessoas, a sua harmonia com o ambiente, o encontro e ajuda mútua. Por isso também, é tão importante que o ponto de vista dos habitantes do lugar contribua sempre para a análise da planificação urbanista.

151. É preciso cuidar dos espaços comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de pertencimento, a nossa sensação de enraizamento, o nosso sentimento de «estar em casa» dentro da cidade que nos envolve e une. É importante que as diferentes partes duma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma visão de conjunto em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espaço próprio partilhado com os outros. Toda a intervenção na paisagem urbana ou rural deveria considerar que os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como um contexto coerente com a sua riqueza de significados. Assim, os outros deixam de ser estranhos e podemos senti-los como parte de um «nós» que construímos juntos. Pela mesma razão, tanto no meio urbano como no rural, convém preservar alguns espaços onde se evitem intervenções humanas que os alterem constantemente.



Não é mesmo um Papa Pop? É, inclusive, o único Papa Jesuíta que tivemos até hoje. 

Papa Francisco Pop Jesuíta (!) que no capítulo V do documento, propõe "algumas linhas de orientação e ação": repudia gestores públicos que  focalizam resultados imediatos, apoiados por populações consumistas, o que torna necessário produzir crescimento a curto prazo.  Entre outras soluções (depois de falar da Educação, que é a óbvia) propõe a descentralização dos poderes em todas instâncias, instigando o diálogo e a transparência nos processos decisórios. Resta saber quem é que quer (ou quantos querem - efetivamente) dividir o poder ou reconhecer méritos alheios.

"Pop" é o coletivo de todos os elogios que neste momento eu poderia escrever.

Que o texto, que já nasce histórico, que acaricia o coração e ínsita a mente, fortaleça e ilumine quem luta pela preservação do patrimônio histórico, cultural e natural e inspire os demais, principalmente os que estão ocupados demais com o ódio... ops... falei nisso de novo?"

Viva o Papa Pop.





A Carta Encíclica Laudato Si (você pode ler na íntegra aqui)




Não importa quais sejam os direitos de propriedade, 
a destruição de um prédio histórico e monumental não deve ser permitida a esses ignóbeis especuladores, cujo interesse os cega para a honra. 
Há duas coisas num edifício: seu uso e sua beleza. 
Seu uso pertence ao proprietário, 
sua beleza a todo o mundo;
destruí-lo é, portanto,
extrapolar o que é direito.

Victor Hugo

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