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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

ESTUDOS SOBRE A HISTÓRIA DA ARQUITETURA EM INDAIATUBA - Parte 3: ECLETISMO parte I

texto de Charles Fernandes.

AS REFERÊNCIAS ECLÉTICAS NO BRASIL E EUROPA

Como já exposto no texto "Estudos sobre a História da Arquitetura em Indaiatuba - Parte 1: Barroco (que está aqui), a construção de nossa igreja da Candelária pode ser considerada como uma obra de Barroco Tardio. A arquitetura do Brasil, já naquela época, era influenciada pelas novas ideias de vanguarda que percorriam o mundo e que influenciavam ou até determinavam as artes em geral, e entre elas, a arquitetura.

Havia chegado em 1816 no Rio de Janeiro, precedendo em 23 anos a construção da Candelária, um grupo de artistas trazidos por D. João VI que ficou conhecido como Missão Francesa, que teve como destaques a presença do pintor Jean Baltiste Debret e do arquiteto Grandjean de Montigny,  que trariam uma nova linguagem, chamada NEOCLÁSSICO.  

Projeto de Casa com Jardim – Grandjean de Montigny – início do Séc. XIX

Esta linguagem artística buscava retomar o uso dos elementos de arquitetura clássica, e seu léxico* construtivo, retomando as relações geométricas da composição das construções utilizadas na Grécia e Roma antigas. Essa influência também é encontrada de forma semelhante no Renascimento, ocorrido no século XV, sobretudo nos tratados clássicos preservados por monges copistas e miniaturistas, como por exemplo nos livros de Vitrúvio do Século I a.C. O Neoclássico tem como característica a busca racional, de forma científica, das regras e proporções das construções da antiguidade grega e romana,  através de estudos arqueológicos.

O templo Grego

RAÍZES HISTÓRICAS DO ECLETISMO

Com a presença da Família Real no Brasil, e a abertura dos portos às nações amigas (entenda-se Inglaterra, as demais estavam tomadas pelo inimigo Napoleão), cresce a influência comercial inglesa que exporta seus produtos industrializados para cá e que passa, também a partir de 1835, a influenciar a instalação das ferrovias, estações e paradas de trem, implementadas no então Ciclo do Café, para escoar a produção dos grãos para os portos. 

Ampliar mercados consumidores como o Brasil e outras nações do continente americano, bem como partilhar parte da Ásia e África em neo-colônias consumidoras dos produtos da Revolução Industrial que começou na Inglaterra e se espalhou rapidamente pela Europa, era uma estratégia que consolidou o capitalismo industrial. Esse neo-colonialismo foi justificado, de certa forma,  por ideologias como o Darwinismo Social e o Positivismo, que defendiam respectivamente a superioridade da ciência e da tecnologia e, portanto, a superioridade de nações científicas e industrializadas sobre sociedades míticas e religiosas. Urgia ampliar os mercados de consumo a qualquer custo.

A busca pelo conhecimento científico e tecnológico criou novas ciências como a Antropologia e a Arqueologia. É a era da indústria, da máquina e da ciência, mas também de novos conceitos artísticos advindos de tudo isso, como por exemplo, o conceito de MODA, que irá substituir os movimentos artísticos autênticos por ESTILOS que se sucedem uma após outro, de maneira rápida, até os dias de hoje.

MODA é um novo atributo concedido a produtos industrializados, que tem como objetivo, fazer um objeto perder importância, antes de ser gasto ou perder a função pelo uso, para que seja DESCARTADO de maneira precoce, dando lugar ao CONSUMO DE NOVOS PRODUTOS. A cada novo ciclo produtivo, um estilo diferente é eleito e usado para caracterizar o que é novo, o que é MODERNO. Moda vem justamente dessa palavra: moderno. Para viabilizar a sustentabilidade da economia capitalista pautada no lucro crescente, e a indústria passa a ditar "estilos" que no futuro serão chamados de "tendências".

A MODA FOI, assim, CONCEBIDA PARA AUMENTAR O CONSUMO, relacionando a posse de produtos modernos com status, impondo assim o comportamento classificado como CONSUMISMO.
Os estilos foram inicialmente determinados por RELEITURAS; das antigas obras clássicas, novos tratados foram elaborados para se determinar as REGRAS para execução de maneira sistemática e científica da produção artística. E em pouco tempo a sucessão de vários estilos acaba por criar todo um novo movimento artístico, baseado na utilização de elementos formais detalhados por tratados e estudos arqueológicos. Esse movimento é chamado de ECLETISMO.

Palácio da Concórdia – Petrópolis -  1862 – ESTILO Neoclássico 

O prefixo NEO, é utilizado para determinar RELEITURAS, e cada novo estilo, recebe um “rótulo”. Rotular é importante para determinar um conjunto “estético” a ser superado pela próxima onda de produtos. Tivemos no Brasil o Neoclássico, o Neocolonial que poderia ser chamado de Neobarroco, o Neogótico também chamado de Vitoriano, o Neoveneziano, o Mediterrâneo, Art Déco, Art Nouveau, e assim sucessivamente.
Elisabeth Tower – Londres - 1859 – ESTILO Vitoriano, ou Neogótico, lar do famoso sino Big Ben.

Alguns destes ESTILOS tiveram caráter Nacionalista, exaltando as qualidades de uma nação através da reprodução de sua história em novas construções, com intenções ideológicas e de propaganda, um exemplo é o ESTILO Vitoriano, também conhecido como NEOGÓTICO, que reproduzia elementos presentes na arquitetura tradicional inglesa de seus castelos medievais. Este ESTILO é muito presente nas construções ferroviárias brasileiras, fruto da propaganda de universalização da Cultura Inglesa.

Torre do Relógio de Paranapiacaba - Município de Santo André (SP)
Um exemplo brasileiro de ESTILO NACIONALISTA, foi o Neocolonial, que buscou exacerbar as qualidades da arte BARROCA brasileira, fazendo releituras deste movimento. Em Indaiatuba, temos dois ótimos exemplos de neocolonial, o Hospital Augusto de Oliveira Camargo, e a Vila Kostka.

Também em nossa cidade, testemunhamos que nossa igreja da Candelária, recebeu reforma para que seus campanários assumissem linguagem de ESTILO vitoriano, supostamente mais MODERNO que o antigo BARROCO, assumindo uma linguagem mais EUROPEIA, mais INGLESA. Este é um exemplo de como as novas linguagens tendem a substituir ou modificar uma arquitetura autêntica com critérios duvidosos; buscar a vanguarda é sempre necessário, mas nunca esquecendo nossa história, nossa originalidade.

Em algumas situações a soma das referências não determina uma releitura coesa, nem o uso rigoroso de um tratado clássico,  e o conjunto pode ser chamado de ECLÉTICO. O ecletismo é um movimento artístico compositivo, que se utiliza de elementos formais apropriados de releituras de obras de várias épocas históricas.

Teatro Municipal de São Paulo –  ESTILO Eclético -  1911
Obra do arquiteto Ramos de Azevedo, mesmo arquiteto do HAOC
As referências não são somente do léxico* Clássico e seus elementos formais como pilastras, arcos, entablamentos e frontões. Muitas vezes todo o formato de um edifício é usado como base para uma nova obra. Alguns modelos de PLANTAS são adotados como referência, devido a uma função semelhante, como por exemplo, os grupos escolares construídos no Brasil após a Proclamação da República: alguns tinham que ter duas alas, para meninos e meninas, sendo releituras da implantação de Versailles, ou dos hospitais, que por necessitarem de janelas externas e corredor de serviços, são releituras também de mosteiros do Brasil Colonial.

Por outro lado, a busca pelo conhecimento científico, a quantificação e a métrica baseado no uso de novos materiais, como o aço e o concreto armado, vão exaltar uma nova função: a do ENGENHEIRO, que projeta máquinas e estruturas que se tornam as novas obras de arte. A proximidade com a tecnologia passa a produzir construções baseadas nas necessidades, que chamamos de Funcionalismo; e nos materiais com eram construídos que chamamos de Racionalismo, estas serão a base de um novo movimento artístico que surgirá somente no século XX e substituirá o Ecletismo.

Edifício Banespa – São Paulo – Art Déco (tardio) - 1947

No final do século XIX e início do XX, a tecnologia e os novos materiais de construção passam a ter necessidades que NUNCA ocorreram na história, derivadas da intenção de se RACIONALIZAR o uso dos materiais de construção. O aço não comporta imitar uma coluna grega, e precisa de uma nova estética. Os últimos ESTILOS da vanguarda eclética, não possuem mais a história como referência: O ART DÉCO, busca nos elementos geométricos as soluções para suas necessidades, e o ART NOVEAU, busca elementos vindos da  natureza para determinar suas formas.

Metrô de Paris – Art Noveau - 1901
Quando o pintor deixa de RETRATAR a paisagem, e UTILIZA ABSTRAÇÃO para pintar a luz que incide sobre o amarelo de um campo; quando um pilar deixa de imitar uma coluna grega, e RACIONALIZA seu desenho para otimizar o aço com o qual é feito, e  as referências passam a ser as formas da natureza, tiradas do caule de uma flor, estão aí traçadas algumas das ideias de um novo movimento artístico, que surgirá no início do século XX e será chamado de Modernismo.

A ALVENARIA INDUSTRIAL INGLESA NA ESTAÇÃO PIMENTA E TULHA DO CASARÃO PAU PRETO.

A alvenaria industrial inglesa, que pode ser considerada uma das primeiras versões históricas de industrialização e produção em série em arquitetura, é uma inteligente solução para executar projetos concebidos pela Inglaterra para receber seus equipamentos e máquinas vendidos para qualquer lugar do mudo. Este estilo é determinado por uma técnica construtiva, baseado em matérias que existem em praticamente qualquer local onde uma ferrovia possa chegar. Os engenheiros ingleses desenvolvem soluções para serem implantadas apenas com tijolos de barro, pinho de riga das caixas de peças e estruturas que utilizam o aço dos trilhos e poucas peças pré-moldadas importadas. A linguagem dos prédios é fornecida pela textura capaz de ser obtida através do assentamento dos tijolos aparentes.


 Estação Pimenta primeira construída em Indaiatuba (e que, por algum tempo foi chamada de Estação de Indaiatuba)  para receber a estrada de ferro Ituana em 1873. 
Todos os elementos históricos que dão certa linguagem ao prédio, na verdade possuem função estrutural, são vergas retas de portas ou arcos de tijolos, pilastras e oitões de empenas laterais que sustentam estruturas muitas vezes feitas de trilhos de trem e tirantes metálicos ou madeira da região.

Os prédios das estações e galpões utilizados pelas ferrovias possuíam projetos TIPO, utilizados em vários diferentes locais, sempre atendendo as mesmas necessidades e otimizando os materiais empregados. A Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, possui acervo de projetos TIPO de estações, pontilhões e galpões de trem, utilizados para construção de várias estações da região.


Estação da estrada de ferro Sorocabana em OITI, tipologia muito semelhante a Estação de Pimenta.

O prédio da Tulha do Casarão Pau Preto foi construído para receber maquinário adquirido para beneficiamento de café, e desenvolvido com os mesmos recursos e tecnologia, das estações ferroviárias, lembrando que estas pesadas e volumosas máquinas, apenas conseguem chegar por nossas terras com o advento da chegada da os trens. A alvenaria Inglesa é uma ferramenta de capacitação de mercados de consumo para receber com velocidade os equipamentos adquiridos. Na região, temos uma tulha semelhante, na Fazenda Mato Dentro, sede do Parque Ecológico de Campinas.

Tulha do Casarão Pau Preto, construída no século XIX em foto tirada na década de 1980.
Em detalhe as pilastras e entablamentos feitos e relevo no assentamento de tijolos aparentes.
Casarão e Tulha em foto atual (crédito na imagem)

O NEOCLÁSSICO DA CASA DE CÂMARA E CADEIA

Alguns ESTILOS ecléticos foram adotados como referência para identificar edifícios que atendem características semelhantes. O NEOCLÁSSICO foi adotado como estilo de alguns prédios públicos, sobretudo os administrativos. A Casa de Câmara e Cadeia de Indaiatuba foi o MAIS INTERESSANTE EXEMPLAR da arquitetura Eclética que tivemos na cidade, com utilização rica de elementos derivados da arquitetura clássica, cuja proporção geométrica  de sua forma se apresenta sob as regras da proporção ÁUREA.


Casa de Câmara e Cadeia – 1889 - Neoclássico - Estudos do autor sobre proporcionalidade do projeto


A Casa de Câmara e Cadeira, possui uma linguagem ECLÉTICA com base no Neoclássico, pois alguns elementos, como o adorno que marca a porta principal, em arco pleno,  acima do ático, são fruto de licença compositiva Eclética.

Ilustração feita por computação gráfica pelo autor, indicando alguns elementos formais clássicos da composição da Casa de Câmara e Cadeia

Após os surtos de doenças infecciosas como febre amarela e tuberculose, a legislação sanitária do fim do século XIX criou algumas exigências, que marcaram as edificações desta época. O novo Código Sanitário  exigia que as construções se elevassem do solo, para evitar contato com umidade,  criando caixões perdidos ventilados, por alçapões visíveis nas fachadas. Elementos formais clássicos atenderam a esta necessidade e as colunas passaram a apresentar  pedestais, que separavam  o nível térreo da rua.  As obras deste período possuíam porões ventilados voltados para a fachada.

Quando os pilares se apresentam em alto relevo na fachada, são chamadas de Pilastras, que são o caso da Casa de Câmara e Cadeia. Cada necessidade de altura em relação ao diâmetro e vão da obra, vai indicar uma ordem clássica a ser usada, e sua norma compositiva, indicada através de módulos, da mais simples, Toscana, para a Dórica, Jônica, Coríntia e a mais ornamentada Compósita. 

 

Abaixo, animação de computação gráfica feita pelo autor indica o formato do prédio da Casa de Câmara e Cadeia, demolido para a construção da Fonte Luminosa da Praça Prudente de Morais:


Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=NUgAI-yzLFE

(continua: Ecletismo parte II)

Quer colaborar, criticar, acrescentar informações a este estudo? 
Escreva para elianabelo@terra.com.br ou charlesarquiteto@terra.com.br

https://www.facebook.com/CharlesFernandesArquitetura/

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