A vida de um dos grandes artistas de nossa cidade foi repleta de muitas criações interessantes, inovadoras e diferentes. Entre seu enorme legado, deixou quatro obras ainda remanescentes, numa cidade que dilacera impiedosamente sua história a troco de espaço: um grande instrumento musical - o maior por aqui, uma crucificação, uma ressurreição e um pastor. Mas o que realmente conta, e vou descrever a seguir, é a poesia que une cada uma destas obras.
A atividade deste imigrante artesão se inicia em Indaiatuba na primeira metade do século XX onde o principal caminho da cidade, que ligava o Leste ao Oeste, era a Rua Padre Bento Pacheco. Essa via era o que os atuais urbanistas chamam de diametral, ou na linguagem coloquial, a que corta a cidade ao meio.
Esse artista construiu, em uma das extremidades desta rua, no ponto mais a leste da cidade, uma fábrica de órgãos de tubo, que passou a ser uma das mais importantes fábricas daqui. Neste local, marcando a entrada de suas terras, no ponto da cidade mais voltado ao nascer do sol, esculpiu a crucificação de Cristo, com o apóstolo João à sua esquerda, Maria à sua direita e Madalena aos seus pés junto à cruz. Pelo traçado da cidade, nesta época, pode-se dizer que este foi, por muitos anos, o marco de início da cidade, na nascente.
Descendo pela Rua Padre Bento Pacheco, do outro lado da Indaiatuba antiga, chegava-se aos barrancos do Córrego Barnabé, que limitavam a cidade à Oeste. Somente Ruy Ohtake, outro artista, vai romper estas divisas no final do século XX. Ali, na altura das ruas onde já não alcançavam os brejos do Barnabé mas que eram, praticamente, o limite da zona urbanizada na época, edificou ele outra obra, no antigo velório do Cemitério da Candelária, desta vez um alto relevo, da ressureição de Cristo.
É poético e forte afirmar que essas duas primeiras obras citadas, na época em que foram feitas, marcaram o amanhecer e o crepúsculo na cidade; e que na mente criativa deste homem de fé, o dia na Indaiatuba antiga era uma representação de parte da paixão de Cristo; o sol cruzando o céu, desde o Cruzeiro da Vila Furlan até a Ressurreição da Candelária, como se Jesus Cristo recolhesse os pecados do mundo, dia após dia, a cada movimento de rotação da Terra.
O artista a quem me refiro é Henrique Lins, que cravou essas duas escuturas na nascente e no poente do até então pequeno conglomerado urbano da cidade e que também deixou outras duas para formar o quarteto do seu legado: o órgão de tubos da Igreja Candelária - que durante muitos anos, anunciava o fim do dia, nas missas, adornando o tempo com música, para enfatizar os pecados que se foram, perdoados, invizibilizados a cada avanço da luz entre o início e o fim do dia.
A quarta e última obra, a derradeira, foi feita para todos imaginarem como seria o mundo sem o mal, somente Cristo, representado pelo bom pastor e suas ovelhas. Esta última obra, marca também o fim da carreira do Sr. Lins, no local que também indica o poente de uma vida em Indaiatuba, produzida por ele para seu próprio túmulo, no Cemitério de Pedras da Rua Candelária.
NOTAS COMPLEMENTARES
NOTA 1- O órgão de tubos de Indaiatuba foi produzido em 1941 - tendo sido o primeiro feito por Henrique Lins, para a cidade de Altinopolis, posteriormente adquirido em 1951 pela familia Bicudo e doado para a Igreja da Candelária de Indaiatuba. O ano de 1941 marca o inicio da produção de órgãos, exatamente na época em que se urbaniza o acesso da cidade pela Caixa D´Água da avenida Presidente Vargas, sendo a fábrica de órgãos, a precursora da ocupação da atual Vila Furlan. A fábrica produziu pelo menos trinta órgãos de tubos, espalhados por diversas localidades brasileiras, muitos deles em atividade até os dias atuais. O órgão de Indaiatuba está atualmente desativado, carecendo de manutenção e/ou restauro.
NOTA 3 - O Cruzeiro da Vila Furlan é a obra externa mais conhecida de Henrique Lins. Consta que Henrique Lins construiu esse cruzeiro em gratidão a uma graça alcançada. Ele sofreu um acidente grave, caiu do mezanino da fábrica de orgãos e por não ter ficado com imobilidade física, construiu essa obra. Os mais atentos notarão que originalmente não possuía a Madalena aos pés de Cristo crucificado, ela foi adicionada posteriormente. Contam os memorialistas que a cruz teve problemas estruturais, tendo apresentado fissuras, e a solução de Lins, para um reforço estrutural foi uma base em concreto, que acabou tornando-se a Madalena. As imagens de Nossa Senhora e João que ladeiam o cruzeiro são estáticas, solenes, austeras... enquanto Madalena é expressiva, dinâmica e assimétrica, proporcionando movimento adicional à composição, demonstrando dois momentos diferentes da produção de uma mesma obra.
NOTA 4 - A obra do Bom Pastor e suas ovelhas que sobre o túmulo de Henrique Lins no Cemitério da Candelária foi feita com inspiração na passagem bíblica do evangelho de João. O apóstolo João também foi utilizado por Lins em outra de suas obras, está ao lado de Cristo, no Cruzeiro da Vila Furlan. A produção de Henrique, feita para seu próprio túmulo, apresenta sutilmente alegorias muito utilizadas em cemitérios. Na Arte Tumular, chamamos de alegorias as representações de pensamentos ou ideias através de figuras ou símbolos. As ovelhas, são comumente usadas para expressar a pureza, inocência, bondade e humildade, sendo por isso muito utilizadas em túmulos de crianças; mas também representam o sacrifício de Cristo.
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