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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CONTO: Vida e Obra de José da Costa

conto* escrito por Douglas Valeriano Pompeu
para o prêmio literário "Acrísio de Camargo" de 2009



Ninguém o viu atravessar a noite anônima. Se ele vestia mesmo a velha batina ou se, ao apontar na margem, exibia ainda o rosto pálido e úmido que lhe ofereciam os delírios. Mas em poucos dias ninguém mais ignorava a incompreensível morte do homem devoto, descoberta em silêncio e por fim enterrada no braço mais longo do rio. O certo é que no dia seguinte à madrugada em que José da Costa sumiu de vez destas terras, algum tropeiro recém-chegado caminhou até o curso d’água mais próximo, ajoelhou-se no lodo para matar a sede ou lavar o rosto e encontrar o já esquecido terço que lhe pertencia. O que se passou adiante foi uma sucessão de fatos ainda incríveis que reforçaram o estatuto mítico deste episódio e que, portanto, até hoje o mantém relacionado com um dos princípios de fundação desta cidade.

Da vida de José da Costa cuidaram primeiro as mulheres dos tropeiros estabelecidos nos arredores de sua morte. O que narraram é que dias antes a capela esteve trancada e José da Costa desaparecido. Passada uma longa estiagem e a praga que lhe dizimara tenros novilhos, ele subitamente voltara. Nos seus últimos dias, indo e vindo sobre o descampado entre a capela e o seu rebanho, punha-se a falar sem interrupção e numa dicção contaminada, enquanto aos poucos ia se reconhecendo sua figura enfiada nos farrapos da batina. Daí dizerem que já não era mais o mesmo, pois vestia agora a batina todos os dias, não respeitando mais os limites éticos da enfermidade. Outros diziam ainda que ele começara a fazer contas, a contar repetidamente o número de novilhos de seu pastoreio, usando para isso uma caderneta que se não a estivesse empunhando, ocultava-se à altura da cintura numa costura secreta da batina. Neste ponto, a história se confunde ou se perde. O que nos chegou aos ouvidos deriva somente do cantar tropeiro e pastoril, responsável pela imagem de um cuidadoso pastor que não se via de Goiás ao Paraná, devoto de Nossa Senhora Candelária, a quem erigiu uma capela na foz do Votura, e que em seus últimos dias teve o juízo irremediavelmente perdido.

Segundo se sabe, essa primeira e mais reconhecida obra foi realizada após uma tempestade e foi fruto da evasão de um novilho e da insuspeitada aparição da Virgem. A batina viera algumas semanas depois de terminada a capela e de sua construção explica-se a deformidade que exibia nas mãos. Porém os maus-tratos do corpo e o delírio sacrílego parecem nunca ter maculado sua índole de bom pastor e sua sincera devoção. Até mesmo havia condescendência por parte dos que participavam no sacerdócio, que vez ou outra ele arremedava, ali mesmo, no abrigo da santa imagem que lhe indicara o novilho perdido. Aqueles que o seguiam nestes dias, o seguiam calados e obedientes, como se a mínima obstrução na fluidez de seu delírio, pudesse romper lhe por dentro aquilo que sempre, no dia seguinte, o devolvia calmo ao seu rebanho.

Já sua segunda e talvez última obra, subterrânea, heróica, porém fragmentada, atribuída e até agora ignorada, sendo de origem e natureza imprecisa, portanto, de pouco valor biográfico ou histórico, é notadamente o primeiro documento literário significativo destas terras. A julgar pelas notas que acompanham o manuscrito, trata-se de uma écloga ou um pequeno poema pastoral em decassílabos que explicaria o episódio da fuga do novilho e, finalmente, seu encontro pessoal com a santa. Dele nos sobraram apenas sete versos que figuram exemplarmente ao lado de grandes poemas árcades em língua portuguesa, levando a vantagem de estarem marcados por uma extração ainda mais oral do que os poemas de nossos ilustres neoclássicos.

Sua procedência é mais curiosa do que fictícia. Faz parte do espólio do célebre monsenhor José Camargo de Barros, mais precisamente, do que se encontrava com ele na tarde de seu trágico desaparecimento, a bordo do transatlântico Sírio, em 4 de agosto de 1906, em Bajo de Fueras, próximo ao Cabo de Palos, no litoral da Espanha. O manuscrito encontra-se em péssimo estado e só foi recuperado, pois, juntamente com dois outros documentos1 , estava entre as páginas de uma edição italiana de Virgílio que caindo nas mãos do marquês de Cavalcanti, foi entregue à biblioteca do Mosteiro de São Bento, na capital.

O caminho obscuro traçado pelo manuscrito até o espólio de Dom José é, sem dúvida, repleto de hiatos. A começar pela morte do bispo. Pois, como se sabe, José Piconne, capitão então com mais de quarenta anos de experiência na travessia do Atlântico pela linha de Gênova, mas que, segundo testemunham, tinha a aparência suja de um pirata vestido pela marinha, dormia no instante em que o grande impacto levou a embarcação a pique. Tendo ouvido o estrondo e reconhecido rapidamente o naufrágio, foi um dos primeiros a se lançar no mar, abandonando tripulação e passageiros e sendo levado a salvo para a prisão em Cartagena. Uma bela imagem do momento do incidente pode ser vista na tela do pintor Benedito Calixto, terminada um ano após o naufrágio. Nela, figuram em primeiro plano Dom José acompanhado de outros três prelados em oração, enquanto ao fundo homens e mulheres correm afoitos e abandonam o navio. As feições e a calma aparente de Dom José destoam claramente da vertigem e do clamor embutido inclusive no rosto dos seus companheiros. José de Camargo está ereto e mira o horizonte, enquanto a sua volta, um deles empunha um salva-vidas e os outros dois, ajoelhados, ou olham clementes o bispo, ou abandonam-se completamente em profunda oração. Destoa também das feições serenas do bispo o suposto tripulante que, segundo se diz, lhe havia tirado o salva-vidas e facilitado a sua morte curiosamente no momento da benção dos aflitos que se lançavam no mar. Assim como, na pintura de Calixto, não deixa de encerrar algum mistério o livro de bruços no convés, ao lado deles, a ponto de ser destruído pelas vagas que invadem o navio.

Quem tenha lido com atenção os relatos sobre o naufrágio e considera a explosão das caldeiras e os 200 corpos desaparecidos, que logo desanimaram outras buscas pelos pertences a bordo, entende que mesmo a materialidade do poema é suspeita de adulteração. Se, por um lado, não resta dúvida de que a descoberta do manuscrito teria a mesma data da chegada do corpo do bispo no porto de Santos, por outro, há quem diga que sua autoria seja duvidosa. No entanto, o reconhecido talento de Dom José como orador sacro e grande autor de homilias, a despeito de sua pouca ou nenhuma vocação para a poesia clássica e secular, colocam em xeque a possibilidade de o bispo ter uma vida noturna ou uma obra invisível, mesmo sendo ele admirador da poesia latina. Já o marquês de Cavalcanti, quem acompanhou o corpo do bispo até o Brasil, era conhecido somente pelo único e limitado talento de saber se emprumar em nobres uniformes. Nem mesmo as notas anônimas nas margens do manuscrito são de grande importância, pois trata somente de confirmar a irregularidade dos decassílabos e a frouxidão de sua sintaxe. Em todo caso, a descoberta, no verso do manuscrito, de um comentário escrito a lápis e quase todo rasurado, mas que ainda nos deixa ler com certo espanto uma ou outra palavra, a que tudo indica, forjada pelo próprio bispo, é até agora a única pista para a atribuição da autoria destes versos:

[...] ainda que de execução mais ou menos torpe, sem dúvida esta peça remonta aos princípios de fundação do antigo arraial de Cocaes e não poderia se tratar de outro pastor senão daquele que foi abençoado por N. S. Candelária que concedeu-lhe o hábito de pastorear palavras [...]

Para o leitor desavisado, é possível dizer que o documento está quase todo perdido. Não se consegue recuperar o que estaria por baixo das rasuras e das manchas deixadas pelas águas, pelo tempo e pelas condições em que este frágil manuscrito viajou até o presente. Nem mesmo é possível averiguar se as referências feitas por Dom José são de algum valor, apesar do tom categórico do provável primeiro leitor desta écloga, pois sequer o nome de José da Costa é mencionado. A ação das vagas sobre o manuscrito deram-lhe tanto o estatuto de objeto diáfano que, hoje, todo ele, o poema, o comentário e as notas na margem valem mais pela aparência de um palimpsesto exótico, do que pelo seu valor de verdade.

A isto se soma a falta de pesquisa concreta sobre a vida e as obras de José da Costa. A infinita dificuldade em comprovar a autoria do poema e, além disso, entender o percurso deste manuscrito através de quatro séculos, nos levaria a dizer até mesmo que o devoto e o bispo são a mesma pessoa. Em tempos imemoriais, José da Costa se aniquila nas águas que banharam o nascimento desta cidade e séculos depois é encontrado na costa da Espanha, irreconhecível e de batina. É logo enviado para o Brasil num ataúde hermeticamente fechado, sendo recebido como Dom José pela alta camada social de Santos, o alto clero e a massa popular. Desse modo, o poema nunca saíra da costura secreta de sua túnica, estaria registrado na mesma caderneta que José da Costa empunhou em seus últimos dias e que acabou arruinada pelo sal e pelas vagas. Se a natureza desta hipótese parece imprópria, através de delicadas dobras no tempo ela nos traz o poema, seja ele escrito agora ou nas margens do Votura, saudando a máxima de que o mar devolve os seus barcos, mas não sofre coisa morta:

[...]
após c’o cetro recolher rebanhos,
dos céus cautela e frio a tarde toma,
a grei me cerca, nem de mim se peja,
de pé me ponho em direção às águas
e enxergo a Virgem, que me avista e logo
os sinos, se há vagar, se dobram surdos:
longe dos ventos dorme sobre os campos

[...]
1 Rascunhos de duas ou três homilias e um modelo de carta decreto para canonização.


.....oooooOooooo.....
 
 

Cerca de um ano após a morte de Dom José,  Benedito Calixto produziu em 1907 este óleo sobre tela, com 160 x 222 cm, denominado Naufrágio do Sírio, e que é preservado no acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo, na capital paulista.




 
O conteúdo deste post é uma ficção onde dois "personagens" de nossa História são referenciados: Dom José de Camargo Barros e José da Costa.

Segundo relatos orais, José da Costa foi o fundador de Indaiatuba. Esse "relato oral" carece de fontes documentadas, sendo que alguns historiadores chegam a afirmar que é um mito.


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