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domingo, 7 de junho de 2009

O VELHO FRY E A LINHA ITAICI - CAMPINAS

Eliana Belo Silva (1)

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras? (Bertold Brecht)


A construção de uma ferrovia tem início quando o caminho planejado é devidamente preparado, na maior parte das vezes com terraplanagem para nivelar o terreno, de modo a deixá-lo com o mínimo de variação de altitude e curvas. Isso para ficar devidamente adequado para suportar a linha, que é composta, na maior parte das vezes, por dois trilhos de aço dispostos paralelamente(2), fixados por pregos em dormentes de madeira (3), que ficam sobre um leito de cascalhos.

Geralmente a linha principal fica entre dois municípios e pode ou não se estender em vários ramais para outros locais próximos, como fazendas, usinas, indústrias, vilarejos. A ferrovia então forma uma pista ladeada por certa extensão de terra, mas que também é composta de pontes, viadutos e túneis, que variam de tamanho e forma conforme as características de relevo e incidência de rios, lagoas, e outros obstáculos naturais a serem transpostos.

Mas por trás dessa descrição puramente técnica existem aqueles que quase sempre ficam à margem da História, esquecidos em uma estação qualquer, pouco citados após tanta labuta: os construtores! Quase sempre invisíveis, são excluídos da memória ferroviária, que comumente direciona os holofotes para a história da evolução tecnológica das locomotivas, vagões e carros. Não são lembrados, não são homenageados. São ignorados, aliás, como quase todos os trabalhadores de todas as histórias.

Poucos relatos temos daqueles que construíram o mundo ferroviário com suas próprias mãos e ao contemplarmos a grandeza e o martírio das linhas férreas que cicatrizaram nosso território desde o final do século XIX, é mais do que justo descrever um pouco sobre uma pequena parcela desses anônimos. Por isso aqui destaco a figura do Velho Fry, um homem que juntamente com o trabalho de sua equipe, teve importância considerável na construção de parte da malha ferroviária que esteve operante em Indaiatuba, construindo a linha entre Itaici e Campinas, incluindo todas as estruturas, as estações e as casas da turma.

Mr. Howell Lewis Fry, carinhosamente conhecido como o Velho Fry (4), nasceu nos Estados Unidos, na cidade de Amelia Courthose no estado da Virgínia, em outubro de 1885. Veio para o Brasil onde trabalhou como engenheiro civil em várias obras, podendo ser considerado um desbravador, muitas vezes abrindo picadas em mata virgem. Uma de suas obras foi a construção desse ramal, incluindo a Estação Ferroviária da Helvetia. Trabalhando aqui na região, conheceu Elisabeth Dobner em Campinas, com que se casou em 1915.

A obra da linha Itaici-Campinas com 33 quilômetros, teve início em 1912 e terminou em 1914. Era formada pelas seguintes estações, apresentadas pela ordem da linha: logo depois de Itaici havia a (1) parada de Francisco Quirino e depois a estação da colônia (2) Helvetia, que recebia o mesmo nome. Depois vinham (3) Descampado, (4) Sete Quedas, a estação do (5) Quilômetro 177 e finalmente, (6) Campinas.

A estação Francisco Quirino era uma construção pequena, e por isso é mais conveniente chamá-la de parada; atualmente não existe mais. A estação da Helvetia começou a embarcar passageiros em 1913, mas foi oficialmente inaugurada em 1914; por ela saíam as sacas de café plantadas pelos imigrantes suíços, que até hoje preservam o local que neste ano foi reformado e transformado em Centro Cultural. Descampado foi uma parada que ficava próxima ao Aeroporto de Viracopos, mas precisamente do outro lado da pista, onde funcionava a Singer, inclusive utilizada por antigos operários que usavam a linha como meio de transporte para chegar até essa indústria. Feliz daquele que pôde trabalhar na Singer em seus áureos tempos!

A estação de Sete Quedas foi aberta em 1914, em terras da fazenda do mesmo nome, uma das maiores da região. Já a estação do Quilômetro 177 era um posto telegráfico onde não havia uma estação ou parada propriamente dita, mas sim um pátio e algumas casas ferroviárias. Os antigos moradores chamavam o local de "Chave da Pompéia", em homenagem ao bairro de sítios que ali havia.

Segundo Ralph Mennucci Giesbrecht (5) “essa linha foi construída para integrar as linhas da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS) e da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (CMEF) Mogiana. Na visão de Percival Farquhar (6), que tinha a concessão da Sorocabana, 39% da Paulista e 20% da Mogiana, isso facilitaria o escoamento de mercadorias da Mogiana até Jundiaí, evitando a baldeação com a Companhia Paulista de Estradas de Ferro em Campinas (fazendo apenas a baldeação em Jundiaí), o que - em teoria - baratearia os seus custos”. E ainda: “ com o mesmo objetivo da linha Itaici-Campinas, Farquhar fez as ligações de Baldeação, Guatapará e Pontal entre a Paulista e a Mogiana”.

Este trecho, com essas obras, foi construído arduamente. Naquele tempo a terra era nivelada no muque, com carrinhos de duas rodas puxados por burros ou em galeotas empurradas por um ou dos operários. Os homens trabalhavam de sol a sol, com suas cantinas de água, certamente abastecidas no rio Capivari - Mirim. Cortavam árvores, desmatavam e enfrentavam animais, principalmente cobras e insetos. Manejavam pás e picaretas por horas a fio, quebrando pedras para o preparo do leito. Erguiam as construções. Acampavam nos arredores após roçar o mato e por um tempo ali plantavam e caçavam, até que os trilhos por eles acentados avançavam até a próxima área.

Trilhos que carregaram muita riqueza plantada pelos camponeses da região, pelos colonos da Helvetia, principalmente o café, até o porto de Santos.

Trilhos que transportaram produção, pessoas, sonhos, vidas... Mas como diz o poeta que compõe e canta, o mesmo trem da chegada é o da partida e um dia a linha tão arduamente construída foi-se esvaindo. No caso da estação da Helvetia, o último passageiro embarcou em 1976 e o caminho foi sendo desativado aos poucos, até que no final da década de 1980 essa estação fechou definitivamente suas portas.


Bar da Estação de Itaici em 1945.
cessão: Isolete Anadão Estevam de Araújo (a menina da foto)


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(1) Colaborou para a elaboração desse texto Ralph Mennucci Giesbrecht, sobrinho bisneto de Howell Lewis Fry e mantenedor do site www.estacoesferroviarias.com.br. Colaborou também Wanderley Duck. Texto originalmente publicado no livro "Um olhar sobre Indaiatuba 2", da Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, 2008. (2) A ferrovia com dois trilhos são caminhos de via única, geralmente equipados com desvios ao longe do trajeto. Porém há ferrovias com mais vias, onde os trens podem trafegar simultaneamente. (3) Dormentes também podem ser de concreto ou aço e geralmente distam aproximadamente 50 cm um do outro.

(4) Informações sobre a biografia de Howell Lewis Fry foram retiradas do livro “A Conquista da Serra do Mar”, de Rubens R. Habitzreuter.
(5) GIESBRECHT, Ralph Mennucci – Mensagem eletrônica recebida [mensagem pessoal] por elianabelo@terra.com.br em 03/11/2008.
(6) Percival Farquhar nasceu em Iorque, 1864 e faleceu em Nova Iorque, 4 de agosto de 1953) foi um empresário estadunidense, cuja atuação na América Latina é alvo de constantes polêmicas.Nascido numa abastada família quacre da Pensilvânia, completou seus estudos na Universidade de Yale, um dos centros da elite estadunidense, onde se formou em Engenharia. Foi vice-presidente da Atlantic Coast Electric Railway Co. e da Staten Island Electric Railway Co., que controlavam o serviço de bondes em Nova Iorque. Foi também sócio e diretor da Companhia de Electricidade de Cuba e sócio e vice-presidente da Guatemala Railway. Entre outros negócios que montou e dirigiu, explorou negócios em Cuba e na América Central. Teve ferrovias e minas na Rússia e negociou pessoalmente com Lenin.

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