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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Professora de Indaiatuba aborda Educação e seus desafios em Livro

texto de Luciene Santos Telli,
originalmente publicado no Jornal Votura de 7 de maio de 2010


Segundo autora, cursos de formação são muito teóricos e não preparam professor para ‘enfrentar’ uma sala de aula


A história da Educação pública brasileira é marcada por avanços, retrocessos, insucessos, conquistas e um conjunto de leis, reformas, normas e outros aparatos legais que modelaram o atual sistema educacional. Essa trajetória que ajuda a entender a Educação no presente é narrada no livro “História e Cotidiano na Formação Docente: Desafios da Prática Pedagógica”, da pedagoga, historiadora e professora da rede municipal de ensino de Indaiatuba, Silvane Rodrigues Leite Alves (foto ao lado).

Silvane, 40 anos, 19 de magistério, é mestre em Educação, na área de História, Filosofia e Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp). Professora do Ensino Fundamental na rede, leciona também em escola particular e é tutora do EAD (Ensino à Distância) na graduação de Pedagogia da Facinter (Faculdade Internacional de Curitiba). O livro foi escrito a convite da Facinter, depois que a coordenação da Faculdade tomou conhecimento da dissertação de mestrado de Silvane, feita em 2007, e que aborda a instrução pública no Estado de São Paulo e em particular como ela se desenvolveu em Indaiatuba.

A pedido da Facinter, Silvane abordou a história sem se aprofundar sobre a questão na cidade, como fez na dissertação. O motivo é que o livro, que tem previsão de lançamento entre junho e julho, pela Editora Ibpex, da Facinter, será distribuído para os alunos do curso superior de Pedagogia à distância da Faculdade, em vários pontos do país. Serão 1 mil exemplares.

Voltado a futuros professores, ele não só fornece informações históricas sobre a Educação, embora o capítulo destinado a este tópico seja um dos mais interessantes e baseado na dissertação, rica em detalhes. Ele também reflete sobre a herança educacional brasileira no século XX e seus projetos inacabados e outros grandiosos esquecidos na gaveta. Silvane cita como exemplos o projeto do segundo professor na sala de aula (do governo do Estado) e o ideal de uma classe com no máximo 30 alunos. “Na prática, essas coisas não acontecem. O professores estão esperando até hoje o professor auxiliar e em várias escolas as classes estão abarrotadas”, diz Silvane.

Os que são e os que estão

No terceiro capítulo o livro trata dos princípios pedagógicos do currículo da formação de professores, questiona a má-formação existente e enaltece os profissionais que conseguem fazer a diferença na escola pública apesar das dificuldades. “Eu tinha um professor na Pedagogia que falava que existem dois tipos de professores: os que ‘são’ e o que ‘estão’. Os que ‘são’ querem fazer a diferença. O segundo tipo está assim por uma imposição de mercado, afinal, é uma área em que não falta trabalho”, observa a autora. No capítulo final, ela apresenta práticas educativas que deram certo e podem ajudar em sala de aula.

Oferecer uma visão prática da profissão aos futuros professores é um dos principais objetivos do livro, segundo Silvane. “Todos os cursos que formam professores são muito teóricos e não ensinam o que fazer com uma sala de 39 alunos”, diz. Ela lembra que o currículo de Pedagogia prevê 300 horas de estágio, mas alunos que trabalham o dia todo, caso da maioria, não conseguem cumprir esta carga horária. Silvane fez estágio de 2 meses, muito pouco para lidar com o que encontraria pela frente. “Você não está preparado para indisciplina, para o aluno que não tem pai nem mãe, para o aluno envolvido com drogas, que vem de uma família desestruturada. (Por isso) os cursos deveriam ser mais práticos do que teóricos”, defende a autora.

Ela conta que foi aprendendo, no dia a dia, a lidar com as diversas situações impostas pelas realidades em sala de aula. Descobriu, por exemplo, que a leitura de um texto no início da aula acalmava os alunos. E que entra turma, sai turma, é preciso se adaptar a uma nova dinâmica. A cada geração, mudam alunos e mudam pais. Os da atualidade, por exemplo, estão mais críticos, e se os filhos têm problemas na escola, atribuem parte da culpa ao professor. Alguns até deixam de enxergar a parcela de culpa que cabe aos filhos, para prejuízo do educador.

Nunca foi fácil

“O professor não deve ser ingênuo. Deve ter consciência de que a profissão não é fácil, mas que ele não pode desistir”, enfatiza a autora. Segundo ela, a contribuição que o livro dá é para que os professores não desanimem da missão que abraçaram, de educar, ‘porque problemas vão existir sempre’. “Quando você estuda a história da Educação, vê que nunca foi fácil”, argumenta Silvane. “Mas se o que se quer é uma escola mais humana e alunos disciplinados, atitudes que levem a isso têm que partir do professor também”, observa a autora, que defende que ‘a formação continuada, tanto prática quanto teórica, tem que ser constante’.


Historiadora se aprofundou na história da educação na cidade


Para a dissertação de mestrado, que abrange o período que vai de 1854 a 1930, foram quase 12 anos de pesquisas, 9 deles enquanto Silvane trabalhava na Fundação Pró-Memória de Indaiatuba (de 1994 a 2003). Outras fontes foram o Arquivo do Estado, em São Paulo, e o Museu Republicano do Estado, em Itu.

Mas foi no Pró-Memória que a historiadora/professora descobriu situações curiosas, como a da formação do primeiro grupo escolar em Indaiatuba. Ela explica que, embora a cidade, então Vila, fosse pouco representativa no contexto estadual, tinha políticos influentes, que conseguiram que o Estado autorizasse a instalação de um grupo escolar aqui em 1895. A cidade foi a primeira, fora da capital, a receber um grupo escolar, um fato de grande importância para a época. O grupo escolar, como Silvane pôde comprovar por meio de documentos históricos, tinha quatro classes divididas por séries e estrutura administrativa e pedagógica. Um avanço para uma cidade onde a Educação era restrita a pouquíssimas escolas isoladas, com alunos de diversas idades juntos numa mesma sala.

O grupo foi dissolvido (extinto) em 1897, por ação do grupo político contrário ao major Alfredo Camargo Fonseca e que disputava, com o grupo político do major, o poder na cidade. Fonseca era o intendente da Vila em 1895 – o cargo foi o que corresponde hoje ao de prefeito. O fato – a instalação de um grupo escolar local – lhe dava visibilidade política, o que o políticos que lhe eram contrários lutaram para minar. Até o nome do grupo escolar pode ter contribuído para sua extinção: ele recebeu o nome do Major Fonseca, para “ciumeira” geral de seus adversários políticos.

Professor Randolpho Moreira Fernandes e seus alunos em 1880


O episódio não está no atual livro de Silvane, mas demonstra claramente como os interesses políticos e da elite econômica prevaleceram na história da Educação no país.

A pesquisadora lembra que, mesmo com o ideal republicano de que a população precisava ser escolarizada – a maioria era analfabeta -, o objetivo da recém instituída República no Brasil, que lançaria as bases para o ensino público gratuito no país, não era a educação plena de todos. Embora visasse a escolarização dos “cidadãos”, só era considerado cidadão naquela época aquele que comprovasse ter uma boa renda, ou seja, uma minoria burguesa interessada em comandar o país. Ser alfabetizado também era um dos critérios para se ter direito ao voto, daí o interesse para que alguns poucos tivessem acesso a escola pública.

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Créditos das imagens:
Foto de Silvane de Luciene Santos Telli/EKN
Foto antiga: reprodução de imagem que está na dissertação de Silvane, publicada no Jornal Votura. A original é de propriedade do Arquivo da Fundação Pró-Memória, de 1880, com o professor Randolpho Moreira Fernandes ao centro.

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