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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Felícia

texto de Eliana Belo Silva
originalmente publicado na revista Imediata Opinião de junho de 2010


Felícia é uma personagem da História de Indaiatuba.

Uma personagem quase condenada ao anonimato eterno, pois não foi política, não foi magistrada, nem rica, nem fútil esposa de empresário com a face exageradamente botocada estampada quinzenalmente em colunas sociais. Foi uma escrava, escrava negra que labutou nessa terra, quando ainda existiam fartos campos de indaiás.

Foi graças ao esforço de um de seus descendentes, o professor de História Aparecido Messias Paula Leite de Barros, o Cido, que a história dessa mulher saiu da esfera íntima da memória oral de sua família e foi publicada no livro “Malungo – Identidade Entre os Cativos”.

Como tantos outros negros sequestrados na África, Felícia era uma criança livre e vivia em uma comunidade onde a divisão do trabalho era baseada no sexo e na idade: homens caçavam, pescavam e faziam os demais trabalhos pesados, enquanto que as mulheres cuidavam dos filhos, olhavam a plantação ainda rudimentar, cozinhavam; os velhos ensinavam – e sua sabedoria era respeitada! – e crianças aprendiam. As tarefas eram designadas por uma autoridade que não liderava pela força, mas sim pelo carisma.

A rotina foi interrompida quando uma tribo rival tocaiou a aldeia e capturou um grupo, entregando-o aos “comerciantes” de um dos negócios mais lucrativos da época: o tráfico negreiro. Era relativamente fácil capturar negros na África, inclusive em sociedades com organização mais complexa da qual habitava Felícia: era só viciar tribos inimigas com pinga. Quando estavam totalmente dependentes, a nefasta proposta era posta na mesa pelos brancos traficantes: “_ Eu te dou armas, você me entrega seus inimigos, eu te dou a pinga.” Simples assim. Milhões de negros foram capturados e mandados para trabalhar forçadamente na América em troca do sustento dos viciados, que eram negros também! Ou você achava que eram os brancos que entravam em território hostil para fazer a captura?

Felícia foi uma das que foram arrastadas para aquele navio negreiro, sob chutes e pontapés. Junto com ela, outros jovens e crianças foram acorrentados junto com adultos que possuíam funções especializadas em suas sociedades de origem: engenheiros, médicos, sacerdotes, professores, reis, rainhas; todos reduzidos à mercadoria que seria vendida por peso e valorizada conforme a brancura dos dentes. Até a chegada ao porto onde seriam expostos em vitrines humanas, o inferno se materializava: todos eram acorrentados nos porões dos navios e praticamente só sairiam dali se morressem; então seu corpo alimentaria o rastro de sangue do tumbeiro, perseguido avidamente por tubarões sequencialmente alimentados com corpos ali atirados, sem ao menos uma oração. Os que sobreviviam ficavam imersos em um esgoto humano que crescia dia a dia, com piolhos, sarna, feridas em putrefação. Famintos e sedentos não tinham a menor noção do que acontecia, do que estaria por vir.

Felícia desembarcou na Bahia e ali recebeu esse nome. A partir da data, seu nome original foi esquecido e sua nova identidade foi a que sobreviveu na história oral da família do professor Cido, passada de geração a geração. De lá, veio a pé com outros escravos e foi comprada por um fazendeiro aqui de Indaiatuba. Com aproximadamente 40 anos, após um romance com um escravo de nome Isaque Fonseca, teve seu único filho, que dela foi tirado à força e mandado para outra fazenda, do mesmo senhor. Dizem que foi por castigo, “_ Para dobrar sua altivez”.

Após a Abolição, Felícia procurou seu filho de fazenda em fazenda até reconhecer - em um menino de aproximadamente dez anos - os traços de seu irmão, o qual vira pela última vez paralisado de medo, com os olhos arregalados, logo após sua captura. Em seguida morou e trabalhou no pequeno centro urbano de Indaiatuba, na atual rua Bernardino de Campos, onde criou seu filho Juvenal, que por sua vez casou-se com Brígida e teve muitos filhos. Com o passar dos anos, a triste vida de Felícia a transformou em uma pessoa muito amarga, até com fama de feiticeira pelo poder de suas rezas e chás.

Idosa com mais de 90 anos, faleceu Felícia, provavelmente lembrando - em sua agonia terminal - dos tempos em que corria livremente pelas savanas africanas. Deixou em Indaiatuba muitos netos e bisnetos, muitos deles atualmente morando e trabalhando em nossa terra, que agora – com muita propriedade - eles também chamam de “sua”.

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