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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Lembranças do Randolfo e de Arnaldo

Por Edgard Steffen

“Esperança e Glória” (Hope and Glory) excelente filme do diretor John  Boormann, conta a história de uma família londrina durante a 2ª Grande Guerra Mundial, pela ótica de um menino de 9 a 10 anos. A ação ocorre em meio aos bombardeios de Londres e mostra as modificações  psico-sociais, a influência  da guerra  sobre o comportamento e os valores da família, as adaptações das pessoas ao dia a dia da conflagração, os bombardeios de Londres, as reações do menino, os brinquedos e brincadeiras em meio aos destroços e o fim antológico: a alegria das  crianças quando descobrem que sua escola havia sido destruída num  bombardeio. 

Para mim esse filme teve um sabor todo especial: o menino-personagem da história teria quase a mesma idade que eu tivera durante o conflito; levei a vantagem de estar a milhares de quilômetros daqueles acontecimentos e a mais parecida com o bombardeio que vivenciei foram os rojões e morteiros que escaparam sobre o telhado de nossa casa, no centro de Indaiatuba, São Paulo, quando o partido político a que meu pai pertencia perdeu a eleição de 1934. 

Se uma hipotética bomba (a imaginação de criança não tem limites...) caísse sobre o Grupo Escolar “Randolfo Moreira Fernandes”, eu e meus colegas certamente choraríamos em vez de ter a esfuziante alegria das crianças do filme.

          
O “Randolfo” era, para minha geração, o “Grupo Novo”. 

Recém inaugurado, pelos seus corredores e salas circulavam figuras emblemáticas como “seu” Eulálio Rosa Cruz (diretor), “seuCarlos Tanclér (porteiro) e as professoras como a terna Hosana, a  rígida Francisca (Yaiá) ao lado de Yolanda (minha irmã), Silvia, Áurea, Maria José (Zezé), Helena, Alice e outras esquecidas nos meandros de minha memória.

Exerciam, com dignidade, a missão de ensinar tanto letras, contas, geografia, história quanto cidadania. A todas se dedicava o respeito de chamá-las pelo prenome acrescido do título “professora” ou pelo popular (mas respeitoso) “Dona”. Jamais poderíamos imaginar que, um dia, professores viriam a ser tratadas pelo “Tia”. 

Esse qualificativo – aparentemente carinhoso – sem o prenome ou sobrenome, coloca-as na vala comum da impessoalidade, como vem acontecendo desde a década de 80. 

Explanado meu protesto contra a impessoalidade de tio, onde hoje é nome de escola estadual, esteve pouco tempo em Indaiatuba, porém graças à personalidade, à capacidade de impor disciplina aliada à didática eficiente, sua figura viria permanecer indelével na memória dos que foram seus alunos. 

Ex-jogador de futebol, carreira interrompida por lesão do menisco, não dava aulas de educação física; substituía- as por jogo de futebol, no campo do “Primavera”, localizado nas vizinhanças do grupo escolar

Com seus próprios recursos comprou uma bola oficial de couro - bola de “capotão” era objeto de desejo para quase 100% dos meninos que jogavam futebol na rua e tia...voltemos ao “Randolfo”.

Um jovem destacava-se no contexto: Professor Arnaldo Rossi. Vindo de Pedreira com bolas de meia ou de borracha – e formou um time completo. Todos participavam da aula de futebol e os mais craques eram escalados no time principal, também uniformizado pelo mestre Arnaldo. O ovo de Colombo para fazer aquele grupo de meninos (alguns retardatários já em plena puberdade), pouco afeitos ao estudo, interessarem-se pelas aulas de aritmética, linguagem, geografia e história, constituía-se em medida extremamente eficaz: o castigo para os preguiçosos e para os indisciplinados era não participar dos treinos e jogos. 

Fez milagres! 

Repetentes contumazes puderam participar da fotografia comemorativa da turma de 1941. 

A maioria dos formados  seguiu suas vidas sem que o futebol fosse parte principal de suas vidas. Alguns daqueles jogadores-mirim, Bebé (Abel Von Ah), Waldir (Bicanca), Sanã, entre outros, viriam fazer parte do glorioso E.C.Primavera e de outros clubes de futebol profissional. 

Laércio Milani, o grande goleiro do Palmeiras, do Santos e da Seleção Paulista provavelmente jogou no time do Randolfo, antes da Portuguesa Santista descobri-lo no “Primavera” e introduzi-lo no futebol profissional.

Para aqueles meninos e moços da turma de 1941, o professor futebolista era um ídolo. Num tempo em que as aulas de ginástica no curso primário mais pareciam brincadeiras de roda, coisa de meninas brincando nas ruas, aquele professor – alto, magro, elegante em seus ternos claros – ensinava a classe a se posicionar em campo, chutar de trivela, bater certo na pelota para aumentar a velocidade e aprimorar a direção da bola. 

Chegava a tirar seu paletó e mostrar, na prática, como se fazia. 

Lembro-me de um desses dias em que, entusiasmado, bateu bola mais vezes do  que a prudência recomendava; com fácies de dor, levantou a barra da calça para avaliação do estrago. Os alunos que estavam perto, puderam ver o inchaço que se formou naquele joelho que frustrara a carreira do futebolista (centeralfo, se não me trai a memória) para dar vez ao mestre dos alunos difíceis. 

[Mais de] Sessenta e três anos passados, sua memória continua viva, respeitada e reverenciada.
           
Modestamente, este é o objetivo desta crônica.

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