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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pedro Gonçalves Meira - Reflexões sobre o "fundador oficial" de Indaiatuba


Eliana Belo Silva
Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DE INDAIÁ

Até onde a documentação histórica conhecida até hoje nos aponta, foi o latifundiário escravocrata Tenente Pedro Gonçalves Meira, dono da fazenda açucareira Pau Preto, que idealizou, já em 1793, a construção de uma capela nos limites de sua propriedade na paragem de “Indayatuva”, doando um pedaço dessas suas terras ao padre Joaquim Gomes Escobar, para constituição de seu patrimônio sacerdotal e também para que fosse capelão da então chamada Capela de Nossa Senhora da Conceição; planejamento que não vingou, pois o padre Escobar foi nomeado para a freguesia de Lages antes da viabilização.

Antes desse documento, conhece-se apenas um outro registro que cita Indaiatuba, de 1768, uma lista militar de “Indaiatyba” feita pelo governador da então província de São Paulo, que nos leva a concluir que havia vários “fogos” no pequeno arraial, (onde morava certo José da Costa) caso contrário, uma lista (mesmo que pequena) não seria viável. Indaiatuba era, então, um bairro rural de Itu, que pela condição de acesso – cruzamento de rota entre Itu e São Carlos (Campinas), tropeiros paravam para descansar e provavelmente reabastecer -  mesmo que de maneira rudimentar, uma vez que o quadro urbano era de escassez para aglomerados urbanos até muito maiores do que era a então também chamada Vila de Cocaes, nome advindo da abundância das palmeiras de indaiá.

Certo Pedro Gonçalves Meira foi registrado pelo cronista Francisco Nardy Filho que conta ter sido este procurador da Câmara da então Villa de Ytu em 1740, tendo, neste ano, solicitado uma casa para onde as vítimas de uma forte epidemia de bexiga (muito comum na época) fossem isolados. Esse Pedro Gonçalves Meira é o mesmo que fora casado com Maria Simões e que tiveram o filho Jeronymo Gonçalves Meira em 1692. Cerca de 100 anos separam esse primeiro do qual queremos referenciar como "fundador oficial de Indaiatuba", o tenente Pedro Gonçalves Meira, que foi batizado em 1743 e que se casou com Ana de Campos Penteado em 1776, irmão de Joaquim Gonçalves Bicudo, que já havia casado com com Maria de Campos Penteado em 1775 (dois irmãos casados com duas irmãs). O primeiro é avô do segundo.

É provável que a fazenda Pau Preto do Tenente Pedro Gonçalves Meira fizesse limites com esse arraial, que segundo a lenda, teria nascido de dissidentes, ou melhor, sobreviventes do suposto povoado Votura, quase dizimado por uma epidemia de varíola (que aguarda pesquisas arqueológicas para comprovação de autenticidade), por sua vez fundado pelo lendário (pelo menos até agora lendário) José da Costa às margens do Ribeirão Votura (atual Córrego do Caldeira ou ainda Córrego do Barnabé) - nesses tempos remotos também chamado de Ribeirão Indaiatuba.

Não se pode deixar de citar que, segundo fontes também documentadas, o proprietário da Sesmaria de Cocaes, uma subdivisão da Capitania Hereditária de São Vicente, era Joaquim Gonçalves Bicudo, irmão de Pedro Gonçalves Meira. O filho dele, João de Campos Bicudo – procurado por inúmeros fazendeiros da época pelas habilidades em agrimensura e mecânica, foi o responsável por fazer o arruamento das ruas de Indaiatuba no entorno da capela que seu pai construíra, a Capela de Cocaes. Por essa razão as ruas mais antigas de Indaiatuba apresentam delineamento e larguras iguais: elas foram planejadas.

Voltando à lenda (talvez ainda lenda), essa capela teria sido inicialmente construída pelo até agora “mítico” José da Costa. Seguindo as pistas, nesta época Pedro Gonçalves morava em Campinas, de onde saiu desgostoso - após brigar com um padre por causa da construção do primeiro sobrado daquela cidade, ao lado da igreja - e veio morar em Indaiatuba, ocupando por aqui o “primeiro carro de passeio puxado a quatro burros”.

Sem tantas suposições e com mais certeza podemos afirmar que o tenente Pedro Gonçalves Meira escolheu cuidar melhor da capela do arraial (construída pelo até agora mítico José da Costa ou pelo seu irmão Joaquim ou pelos dois?) com muitos propósitos, a começar pelo próprio local em que foi erigida. Em primeiro lugar, reforcemos a afirmação que o lugar da capela, surgiu antes da instituição da capela pelo nível de sociabilidade, pelo movimento de tropeiros, pelos povoadores já citados: um cruzamento de rotas, uma passagem obrigatória onde, pelas condições de acesso, já existiam “fogos”.

Em 1792, pouco antes de Pedro Gonçalves planejar a doação de parte de seu patrimônio para construir a capela para o padre Escobar (que aconteceu em 1793) - havia sido aberta a primeira estrada provincial entre Itu e Campinas, ou seja, embora outros caminhos houvessem, sob responsabilidade da Câmara Municipal de Itu e mesmo dos fazendeiros - estradinhas particulares arranhando suas propriedades para escoar suas produções - esse patrimônio público demarcava a presença de uma nova realidade em um espaço onde até agora as relações de poder eram demarcadas exclusivamente entre os latifundiários, sendo ele um dos mais proeminentes deles.

Documentos da Cúria Metropolitana de Campinas pesquisados por Nilson Cardoso de Carvalho contam o que fez o tenente Pedro Gonçalves Meira, ao edificar (ou reformar?) e instituir e doar patrimônio para a capela onde hoje é a Matriz Nossa Senhora da Candelária de Indaiatuba, no ponto mais alto da paisagem da região: ele inseriu ao então arraial - agora margeado por uma estrada provincial, de acordo com as circunscrições eclesiásticas do período, em uma categoria onde ele pudesse ser reconhecido como administrador/patrono ou padroeiro do local - na categoria de arraial com capela curada.

Isso era muito comum no Brasil, desde o período Colonial até a Proclamação da República, onde o reconhecimento oficial de um povoado implicava a integração dos poderes do Estado e da Igreja: se existisse uma capela com um patrimônio, onde celebrações eram realizadas regularmente, este local era chamado Capela Curada ou Curato.

Com o aumento da população no entorno de ‘sua’ capela curada seria, ele, o Tenente Pedro Gonçalves - quem pediria à Assembleia Provincial à instalação da Freguesia (na época, sinônimo de paróquia).

O PRESTÍGIO DE UM TENENTE CURADOR DE UMA CAPELA

                As capelas eram a materialização do poder e das riquezas dos Senhores e desde os primeiros engenhos coloniais a presença de uma, nem se fosse um oratório, era obrigatória. Como tantos outros Senhores, Pedro Gonçalves Meira empenhou-se em erigir a capela e associar seu nome ao empreendimento. Como instituidor (e sua família) ele era reconhecido pelo Bispo e pela Coroa, obtendo vários privilégios do padroado local, além do prestígio e posição de destaque nos arredores. Por lei, ele passou a ter direito de controlar os rendimentos da capela e, no caso de necessidade ou de pobreza (que ele mesmo avaliaria, nessa tal qualidade de patrono) de fazer uso dos rendimentos da capela, servindo esta, dessa maneira, de reserva material. Um capital simbólico também lhe foi agregado: ele e sua família passaram a ter assentos especiais nos cultos e à precedência em cerimônias e procissões e, quando mortos, teriam jazigos perpétuos na capela. Pedro Gonçalves Meira está sepultado na Matriz Nossa Senhora da Candelária, como patrono da capela, foi honrado em vida e gganhou direito às preces rezadas em seu nome.

                A capela curada de Nossa Senhora da Candelária transformou-se em Freguesia no dia 9 de dezembro de 1830. Ser uma freguesia significa que Indaiatuba passou a ter uma paróquia, com um pároco residente. Na década de 1970, por uma iniciativa do Rotary Clube de Indaiatuba, após um longo confronto, essa data do “nascimento” da igreja Nossa Senhora da Candelária como “paróquia” foi escolhida como sendo também o “nascimento” do aniversário de Indaiatuba.

Assim, principalmente por influência do pesquisador Nilson Cardoso de Carvalho, com base nos documentos até então por ele pesquisados e divulgados, Pedro Gonçalves Meira é o “fundador oficial de Indaiatuba” por ter curado essa igreja. José da Costa e Joaquim Gonçalves Bicudo, por hora, aguardam mais estudos para ganharem mais visibilidade nessa história, ou perderem de uma vez por todas.

Afinal, a História é de quem se apropria dela.

Quem quer contar outra?




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