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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Nada é para sempre.


                                                                                                                                          Fernando Stein

Indaiatuba não é conservadora e nem tem vocação para manter os móveis, imóveis e objetos que marcaram os acontecimentos mais expressivos.

Por uma razão muito simples: as ondas migratórias dominaram a cidade e ela passou a abraçar o presente com vigor, com os olhos voltados para o futuro, sem referências no passado.

Basta olharmos um pouco para trás, no seu passado escasso e escondido, para percebermos que dele pouco restou
.
As sedes que a administração municipal já teve, por exemplo, onde as questões sobre o destino da cidade foram discutidas e decididas, desaparecem sem deixar vestígio.

Com a criação da cidade de Indaiatuba pela Lei Paulista nº 12 de 24 de março de 1859, e a eleição dos primeiros vereadores, a Câmara Municipal de Indaiatuba sentiu necessidade de ter a sua sede própria para as reuniões dos representantes da nova unidade urbana. Não convinha mais se reunirem nas casas dos próprios vereadores.

Em 1869 a Câmara Municipal (que também desempenhava as funções executivas) comprou finalmente um prédio na rua Pedro de Toledo para sua sede, e ali passou a funcionar. O prédio ficava à esquerda de quem sobe a rua Pedro de Toledo, entre as ruas Augusto de Oliveira Camargo e Sete de Setembro.

Mas esse primeiro prédio que abrigou a Câmara Municipal foi demolido; no local, hoje (1) só existe um grande terreno baldio, onde se preparam os alicerces para a construção de um prédio de apartamentos, não restando nenhum vestígio do passado.

No início do século passado, já na República, a Intendência (que desempenhava as funções executivas na administração da cidade) passou em novo prédio construído no centro da Praça Prudente de Morais. Ali funcionava também a Câmara de Vereadores e a Cadeia Pública.

Antigo prédio da Câmara (na frente) e Cadeia (no fundo)


Mas esse prédio, de uma arquitetura singular, também foi demolido, em 1963, pelo próprio prefeito municipal da época. No seu lugar, uma daquelas decantadas “fontes luminosas”, inutilidades de época, que brotaram nas praças centrais de tantas cidade interioranas.


fonte luminosa


Assim, a Administração e a Câmara Municipal foram transferidas provisoriamente para um salão alugado, localizado na rua Bernardino de Campos, entre as ruas Candelária e Pedro Gonçalves, e ali funcionaram pouco mais de três anos.

Mas esse imóvel também foi demolido. Foi demolido e reconstruído, recebendo o nº 360, ao lado do Clube 9 de Julho.

A prefeitura e a Câmara Municipal passaram a funcionar na praça Prudente de Morais, nº 155, em prédio inaugurado em 17 de dezembro de 1966, na esquina da rua Cerqueira César com a rua 15 de Novembro.

Passaram-se 36 anos! Inúmeros prefeitos ali cumpriram seus mandatos, nesse período.

Mas nada é pra sempre!

O prédio tornou-se obsoleto em meio à fúria progressista, ao desenvolvimento urbano acelerado, às modernas exigências de um novo tempo.

E Prefeitura e Câmara se mudam novamente, em épocas diferentes. E a velha “Brasilinha”, como então era conhecida por alguns, não foi ao chão, mas foi completamente desfigurada por reformas radicais, em 2003, para ceder lugar à avalanche comercial que dominou o centro urbano. Hoje não passa de uma vistosa sapataria, sob nº 837.

36 anos! Passei-os todos lá, subindo diariamente aquela escadaria estreita que ligava o pavimento térreo ao superior, com seus degraus e seu guarda-corpo revestidos de granilite.

Vi-me obrigado a, de saída, organizar, em poucos meses, uma biblioteca pública, sem nunca ter me preparado para essa tarefa.

Depois, quantos projetos! Quantos sonhos e deveres administrados por mais de três décadas, em meio a uma burocracia incipiente que foi se alastrando.

Mas nada é pra sempre!

O que sobrou? 

O que ficou? 

Alguém se lembra?

Quase tudo se transformou em fumaça, que aos poucos se esvaziou da mente de todos, e periclitou na minha memória.

Quase tudo foi varrido pela ânsia do futuro, pelas novas ondas presente.

Bem visível mesmo, restou o cálice gigante e altaneiro da Vila Avaí (2)no ponto mais alto da cidade.

O novo paço, plantado no outro lado do córrego do Barnabé, também terá seu tempo. Muito longo, com certeza, mas seus dias também estão contados, porque nada é pra sempre!

Os próprios administradores do Município sempre se esforçam no sentido de apagar as pegadas de seus antecessores, na tentativa de realçar os seus próprios feitos.

O resgate do passado, por tudo isso, é uma tarefa hercúlea e inglória. É como a garimpagem de uma mina exaurida.

Porque a cultura que predomina nesta urbe não tem qualquer parentesco com as lições do passado, e poucos, muito poucos se interessam em preservar os vestígios de ontem, pois a grande maioria abdicou de seu passado e veio para cá fazer futuro.

Por isso mesmo temos uma comunidade sem marcos, sem memória, sem raízes, onde ninguém conhece, pois somos como uma correnteza que segue sempre em frente, onde quase não há espaço nem tempo para evocação das tradições de outras épocas.

Tudo porque, na nossa realidade, vale relembrar: nada é pra sempre!




1.        Este texto foi escrito em 2006.


2.       O autor refere-se ao Reservatório Elevado da Vila Avaí, que abastece a Zona Norte do município, com captação de água do Rio Capivari-Mirim, Represa Cupini e Represa Morungaba, sob operação do SAAE – Serviço Autônomo de Água e Esgotos de Indaiatuba.

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