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domingo, 2 de agosto de 2009

Padre Armando Cardoso de Itaici

Terça-feira, dia 04 de agosto, seria aniversário de nascimento do padre jesuíta Armando Eugênio Cardoso, que viveu muitos anos em Itaici.
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Para lembrar do padre Cardoso, registro que o vereador Hélio Ribeiro fez uma justa homenagem póstuma ao jesuíta, através do projeto de lei número 92 de 2009, no qual denomina Padre Armando Eugênio Cardoso SJ a área verde localizada na quadra J do condomínio denominado Sítios de Recreio Jardins de Itaici.
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Para saber mais sobre o padre Cardoso leia: http://www.itaici.org.br/eve_aconteceu_bibliotecardoso.htm
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Leia também o texto abaixo, que escrevi após ouvir do padre Cardoso suas memórias sobre a história do Mosteiro de Itaici.
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PEQUENA HISTÓRIA DA VILA KOSTKA
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texto de Eliana Belo feito em 1985, com relato oral do Padre Armando Cardoso *

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Vila Kostka é um conjunto formado por uma grande igreja, oito capelas, várias salas para reuniões, biblioteca, refeitório, sarcógrafo, um pequeno museu, copa, cozinha, frigorífico e quartos para acomodar aproximadamente 500 pessoas, entre outros aposentos, todos dispostos harmoniosamente entre jardins cuidados com esmero. Está localizada no bairro de Itaici, em Indaiatuba – SP. O local é conhecido, nacionalmente, por ser a sede do encontro anual da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; mas para muitos é conhecido mesmo apenas como um centro de espiritualidade onde há cursos, encontros e retiros.


Naquela primavera de 1985 tive o privilégio de entrar nesse complexo tranqüilo e acolhedor e conhecer cada compartimento em companhia do Irmão Kimura e do Padre Cardoso, que atenciosamente discorreu sobre a história do local, discurso que tento escrever abaixo, da forma mais fiel possível, muito embora saiba que essas linhas não transmitirão as emoções dispostas em sua fala e principalmente em seus olhos.
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“O nome Kostka refere-se ao patrono da Casa: São Estanislau Kostka que nasceu em 1550 na Polônia e faleceu muito jovem, com apenas 18 anos, em Roma. De família rica e influente, o noviço jesuíta, muito devoto de Nossa Senhora, foi canonizado pela Igreja e é o padroeiro dos jovens seminaristas por representar o rompimento com os privilégios garantidos pela nobreza e a busca de uma sociedade fraterna e justa, nos moldes do cristianismo.”




. “Já a palavra Itaici é de origem tupi e pode ser decomposto de duas formas: Itá-y-cy ou Itá-ycy. A primeira significaria mãe ou fonte (CY) do rio (Y) da pedra (ITÁ). A segunda se interpretaria fileira (YCY) de pedra (ITÁ). Não se sabe desde quanto o local era habitado pelos índios, mas pela geografia pode-se concluir que há muito tempo. Isso porque o local está em um vale formado pelo Rio Jundiaí que nasce na Serra do Japi e deságua no Rio Tietê. Sendo os tupis um grupo que subsistia principalmente da caça, pesca e agricultura rudimentar, o vale representaria um local atrativo e adequado para sua subsistência.”

“No tempo do Brasil - Império o local era uma enorme propriedade rural denominada Fazenda Taipas pertencente a João Tibiriçá, presidente da província de São Paulo. Em 1860 as terras e a casa-grande da fazenda foram adquiridas pelo Internato São Luiz de Itu (que funcionava no atual prédio do exército) para ser um sanatório de doentes e ao mesmo tempo local de retiro para os jovens seminaristas que, por virem do Brasil inteiro e na impossibilidade de extensas viagens, ficavam na sede da fazenda durante as férias. Era um período tranqüilo, o Rio Jundiaí era muito limpo e com muitos peixes, tomava-se banho lá. Na mata dos arredores apareciam jaguatiricas e onças. Dos primeiros habitantes da terra, esses primeiros jesuítas que ficavam no local encontraram pedras lascadas que serviam de machado aos índios.”

“Em 1917 o Internato São Luiz de Itu mudou-se para São Paulo, desta vez como externato, e a sede da Fazenda Taipas, até hoje preservada, passou a funcionar apenas como local de encontros religiosos periódicos, sendo zelada por administradores contratados até 1950, quando foi doada para o Seminário Jesuíta de Nova Friburgo (RJ).”

“A partir deste ano o Irmão Larranaga (1) com aproximadamente 100 pessoas (irmãos, padres e jovens noviços) começou a liderar, como mestre-de-obras, a construção do atual conglomerado que forma a Vila Kostka, chamado carinhosamente na época de “Casa Nova”: igreja, capelas, três alas de dormitórios com mais de 100 metros cada uma, refeitório e salas de reunião. Durante a construção, todos moravam na agora “antiga” sede da fazendo enquanto edificavam – bem próximo a ela - o projeto cuja inspiração arquitetônica veio da Universidade Rural do Rio de Janeiro e demorou 12 anos para ser terminado.




"O material usado na construção era beneficiado no próprio local, basicamente de forma artesanal. Os irmãos, seminaristas e padres da casa tinham vários e diferentes ofícios, trabalhavam em diferentes funções na olaria, oficina de ferragens e carpintaria. Muitos ladrilhos, azulejos e tijolos foram feitos no próprio local. O sustento advinha da própria fazenda, de uma agricultura e pecuária de subsistência, prática ainda presente nos dias atuais quando ainda se cria bois, porcos e galinhas e cultiva-se um pequeno pomar.”
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“Foi a partir dessa época que muitos seminaristas estudaram na Vila em regime de internato, em um curso que era composto pelas seguintes fases: (1) após o secundário, fazia-se o noviciado durante 2 anos; (2) em seguida era o curso de Letras, que durava 2 anos; (3) a faculdade de Filosofia por 3 anos e o (4) curso de Magistério também por 3 anos, para só então (4) estudar Teologia por 4 anos. As disciplinas eram variadas: Literatura, Grego, Latim, Hebraico, Moral, Dogma, Direito Canônico. Para perder a timidez e romper a disciplina composta por silêncio, estudo e oração, algumas vezes os jovens seminaristas eram incentivados a representar o conteúdo estudado através da dramatização. Em algumas ocasiões as peças de teatro eram apresentadas para a comunidade de Indaiatuba, à benfeitores e demais convidados, principalmente no Natal. Nesta época em que muitos noviços tinham a Casa Nova como seu lar, parte da produção de leite, carne, legumes e frutas eram vendidos na região para reverter benefícios para a sobrevivência, manutenção e ampliação da construção trabalhosamente erguida em privilegiado espaço entre o total de 40 alqueires da propriedade.”
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“No ano de 1954 comemorou-se o quarto centenário da fundação da Cidade de São Paulo. Por essa e nesta ocasião os padres jesuítas solicitaram verbas para o Governo do Estado de São Paulo com a finalidade e investir na construção da nova casa. O argumento foi justificadamente forte: a própria aniversariante havia surgido em torno do primeiro colégio do Padre José de Anchieta e o próprio Palácio do Governo era dos jesuítas que o deixaram na época em que foram expulsos pelo Marquês de Pombal (2). Com o auxílio governamental, primeiramente cedido por Lucas Nogueira Garcez e seus sucessores Jânio Quadros (1955-1959) e Carlos A. A. Carvalho Pinto (1959-1964) e com a colaboração da comunidade, que fazia doações e dava esmolas a Casa Nova foi terminada em estilo colonial.”
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“A partir de 1972, com a Crise das Vocações os noviços jesuítas passaram a fazer o seminário em um local menor em Campinas e Itaici foi transformada em uma Casa de Retiros. Os padres da época prepararam-se para as novas funções e alguns foram fazer cursos especiais de orientação de retiro em Roma, Paris e Bruxelas. Resumidamente, o processo de retiro é composto pelas seguintes atividades: leitura, reflexão, oração. Também há conferências, meditações, estudos de textos bíblicos e outras atividades, conforme os grupos de retirantes. Esses grupos também são variados: desde reuniões maiores como a dos Bispos do Brasil, reuniões de jovens, de casais, de família e mesmo reuniões ecumênicas entre católicos, evangélicos e outros crentes. Grupos de outros países também já foram recebidos: Chile, Bolívia e Uruguai entre outros. A composição formada pelos vários quartos que eram dos seminaristas, pequenos, simples, apenas com uma cama e um pequeno crucifixo, auxiliou a nova função da casa: retirantes possuem o conforto, acolhimento e privacidade adequados”.
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“As reuniões de bispos passaram a ser constantes desde 1968, por regiões ou por dioceses. Mas uma vez por ano reúnem-se todos os bispos do Brasil: é a CNBB, que entre bispos, padres, assistentes e leigos chegam a somar 300 pessoas. Essa reunião nacional é sempre previamente planejada. Uma pauta é elaborada e várias discussões são feitas. Assuntos específicos das dioceses também podem estar na pauta, como por exemplo, na ocasião em que o Bispo do Araguaia propôs a discussão sobre a questão da terra. Por algumas vezes e por determinados assuntos alguns especialistas como cientistas sociais, psicólogos, sociólogos e até políticos são convidados para o grupo de discussão. A sistemática é quase sempre a mesma: após a discussão em grupos, todos vão para o plenário para exposição geral das conclusões. Dali, após votação, sai resoluções objetivas e nítidas preferencialmente com unanimidade. São sempre questões sociais de relevância para o momento histórico. Discutem também sobre a Campanha da Fraternidade e muitas vezes o produto final de algumas discussões é enviado para os governos.”
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“É através das pensões dos retirantes que a Casa de Retiro de Itaici passou a se manter, muito embora a granja, a criação de bois e porcos e o pomar continuem sendo geradores de recursos. Na década de 70 parte do patrimônio foi vendido e a renda também é revertida para a manutenção da casa que recebe retirantes por vários dias, por fins - de semana, para dias de orações. A Casa conta com mais de 30 funcionários com funções diversas, principalmente limpeza, manutenção, copa e cozinha. Há 6 padres e 8 irmãos que residem este ano(3) na Vila e que dividem entre si várias tarefas, de acordo com as aptidões de cada um. Cuidado especial recebe o jardim, disposto estrategicamente entre os prédios: o volume e a beleza das plantas destacam ainda mais o silêncio do local. Apenas pássaros e borboletas aparecem, às vezes mas insistentemente, rompendo o isolamento do local que pode ser contemplado através de caminhos que convidam à meditação, a paz e a busca dos verdadeiros valores do cristianismo”.
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* Padre Armando Cardoso nasceu em 04/08/1906 e faleceu em 19/09/2002.

.(1) Passados 4 anos do relato descrito neste texto, o Irmão Larranaga, em 1989 e com 78 anos, concluiu a edificação do novo “Auditório Rainha dos Apóstolos” que acomoda 645 pessoas e onde são executadas as atuais reuniões da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
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(2) Os jesuítas foram expulsos pelo Marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal de 1750 a 1777, a quem boa parte da historiografia classifica como “déspota esclarecido”, e que praticou, durante os 27 anos que governou, a mais completa concentração do poder por parte do estado que Portugal até então conheceu. Por ser autoritário e centralizador, não suportava e influência da Companhia de Jesus. Conforme o historiador Charles Boxer, “Pombal não admitia nenhuma tirania além da sua”.
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(3) 1985. Já em 2006 (quando esse texto foi publicado pela primeira vez) a Casa contava com mais de 70 funcionários e abriga as comunidades dos Padres Jesuítas e das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus
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Veja também:
http://www.itaici.org.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Kostka
http://luiztrigo.blogspot.com/search?q=Itaici
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Um comentário:

  1. Justa homenagem a este grande sacerdote que viveu até os últimos dias dedicado aos estudos e à oração. Um homem culto, um homem santo.

    \o/ Gentil

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