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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

João Tibiriçá Piratininga no Rotary de Indaiatuba



Para quem nunca foi em uma das reuniões do Rotary, ou também para quem não conhece, é muito comum que nas festivas um dos rotaryanos falem sobre assuntos relacionados à sua profissião, formação ou especialidade, rotina que faz dos encontros também eventos culturais.

Não foi diferente no dia 18 p.p. , data em que o convidado Sr. Milton Ottoni, do Rotary de Itu esteve em Indaiatuba com outros ituanos e discorreu palavras sobre a nossa história regional, mais especificamente sobre um notável personagem do nosso passado: João Tibiriçá Piratininga.


Sr. Milton Ottoni em 18 de outubro de 2010
crédito da imagem: Boanerges Gonçalves

O Sr. Milton é empresário, dono da Editora Ottoni, localizada em Itu. Ele gosta muito de história regional e além de conhecer muitos fatos, pessoas e outros itens, é um grande incentivador de publicações a respeito da história, memória e patrimônio da região.

Abaixo transcrevo o discurso do Sr. Milton, texto que nós dá a oportunidade de conhecer ou relembrar sobre João Tibiriçá Piratininga:

"Afinal, por tradição, quem visita leva o orador da noite. Por isso, e só por isso, estou aqui.

Pretendo fazer uma abordagem diferente, pouco praticada, buscando preencher um, sei lá, um dever dos Rotary’s, qual seja, o de reconhecer o valor dos ícones da comunidade.

Escolhi para falar sobre João Tibiriçá Piratininga, grande cidadão ituano/indaiatubano que viveu, e como viveu, nos finais do século XIX.

Dois motivos me levaram a essa escolha:

1- Foi, sem dúvida, um dos maiores nomes que habitou o planalto paulista do alto médio Tietê; e

2- Tive a felicidade de recebê-lo como patrono quando do meu ingresso ao Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Sorocaba, em decorrência do que travei conhecimento com sua biografia.

Ensina-nos o pesquisador ituano Ignaldo Lepsch que nascido João de Almeida Prado Filho, primogênito de João de Almeida Prado Junior, que por sua vez foi o 5º filho do Capitão-mor de Itu João de Almeida Prado e de sua 1ª mulher D. Anna de Almeida Pedroso, esta filha do Ajudante João de Almeida Pedroso e de D. Izabel Caetano do Pilar, que se casaram em Sorocaba a 06/fevereiro/1770, neta paterna de João de Almeida Pedroso, “o Ruivo” e de D. Gertrudes Ribeiro de Sampaio Botelho, esta neta materna do Sargento-Mor de Sorocaba Antonio Loureiro da Silva, de Vallongo, Portugal, e de D. Anna de Almeida Leme, de Sorocaba.

Mostramos, amigos, nessa pequena Genealogia as raízes sorocabanas do nosso homenageado.

O primeiro a adotar o apelido Tibiriçá Piratininga foi o pai de nosso patrono, que, quando estudante em Coimbra, Portugal, recebeu de colegas o apelido, por ter nascido nesta parte nobre de nosso território, o Planalto de Piratininga, onde viveu e reinou o Cacique Tibiriçá.

Pesquisa junto a descendentes e familiares diretos e remotos, contesta esta tese, dizendo ter o mesmo inventado o apelido, ele próprio, para poder viver incógnito em suas andanças pela Europa, nesses tempos de estudante.

Seu filho, nosso homenageado, natural de Itu, nasceu a 7 de agosto de 1829, em território que hoje pertence a Indaiatuba.

E foi com o apelido de João Tibiriçá Piratininga que após algum tempo de estudo em Coimbra, transferiu-se para Paris, França, onde completou seus estudos em Geologia e Mineralogia. Estudou também Física e Química e participou de Congressos sobre Ciências Naturais, enquanto esteve no Velho Mundo. Foi, ainda, um costumeiro visitador de museus e coleções de acervos mineralógicos.

Quando de sua permanência em Paris, presenciou ao vivo, o desenrolar da revolução republicana de 1848, inclusive as verdadeiras batalhas urbanas entre o povo e as tropas leais ao rei. Acreditam os historiadores que esse tenha sido o momento mais forte a influenciar a instalação das idéias de liberdade em seu espírito. Idéias essas que aflorariam, em seu esplendor maior, três décadas à frente.

Já no Brasil, em 1856, com pleno domínio dos mais avançados conhecimentos técnicos da época, buscou colocá-los em prática. Fundou em Itu o Instituto do Novo Mundo buscando a divulgação dos conhecimentos europeus, aplicando-os num avançado programa de ação. Dedicou-se também à lavoura nas fazendas “Ressaca”, em Mogi-Mirim e “Pimenta”, em Indaiatuba. Teve também importante atuação na fundação e desenvolvimento da Estação Agronômica de Campinas.

Inovador, trouxe da Europa, como nos diz Roberto Machado Carvalho:

“moderno equipamento destinado às usinas de açúcar. Tratava-se de material e maquinário estudados conforme os planos de reputado engenheiro, para proceder à fabricação de açúcar de cana com maior aproveitamento de sacarose e obtenção de um produto acabado de melhor qualidade. Em fase de crise que ameaçava atingir o açúcar e deslocava as culturas canavieiras em favor do café, impunha-se aprimorar o processo de fabricação, sob pena de os escassos proventos agora proporcionados pelos métodos rotineiros do passado virem a prejudicar a rentabilidade do produto”. Dessa forma, “caldeira, fornalha, tubulagem, cubas metálicas, eixos, cilindros de ferro, rodas e engrenagens pesadíssimas e de grande volume seguiram para Itu”, ou melhor para Indaiatuba."

Este procedimento, simples para nossos dias, mostra, na época, arrojo e grande disposição para a atualização técnica de nossa nascente agro-indústria.

Nessa altura, alguns anos após sua volta da Europa, já era conhecido e respeitado nos meios empresarial e cultural da Província de São Paulo, quando espontaneamente ingressou na política, ao que tudo indica, com o objetivo maior de contribuir de forma eficaz e dinâmica para a implantação da República em nosso país.

O historiador Roberto Machado Carvalho, que estudou profundamente o movimento republicano, destaca João Tibiriçá Piratininga como “o maior propagandista do regime republicano em Itu” e na Província, sem ter sido escritor.

Sua atuação mais importante estaria por acontecer quando, junto com seu primo José de Vasconcellos de Almeida Prado, foi um dos organizadores da “Convenção Republicana de Itu de 1873”. Nela participou como membro da delegação de Indaiatuba.

Seu trabalho não se restringe ao evento maior. Ele destacou-se como o maior propagandista do movimento convencional e não parou em abril de 1873, pelo contrário, continuou muito ativo no Partido Republicano Paulista, agora, já, em toda a província.

É sempre bom lembrar que no dia marcado para a Convenção (a data fora escolhida porque “na véspera, 17.04.1873 ocorreria na próspera e rica cidade de Itu a inauguração da linha férrea, atraindo para a “fidelíssima cidade” a presença de enorme número de visitantes), em sua casa, na praça Pe. Miguel, centro de Itu, durante o dia foi feita uma reunião prévia, preparatória à grande sessão noturna, que teria lugar no casarão de Carlos de Vasconcellos de Almeida Prado, atual Museu Republicano de Itu.

Instalada a memorável reunião de Itu, foi o nosso homenageado escolhido seu presidente, pois entendiam os convencionais que o mesmo devesse ser homem idôneo, culto, firme nos seus procedimentos e acima de tudo integrado ao objetivo maior que era o de implantar novo regime político no país.

A reunião de Itu trouxe como resultado imediato o fortalecimento do Clube Republicano de Itu cujo presidente era João Tibiriçá Piratininga que tinha como secretário João Tobias de Aguiar.

Em seguida ocorreu a constituição e fundação do Partido Republicano Paulista, e, inúmeros desdobramentos políticos que levariam à República.

E, amigos, é ainda muito bom lembrar que João Tibiriçá Piratininga, em 15 de dezembro de 1887, na Grande Assembléia dos Agricultores da Província, propunha a emancipação imediata e incondicional dos escravos, mostrando mais uma vez seu apego as idéias de liberdade e o quanto era “um homem a frente de seu tempo”.

Entretanto, João Tibiriçá, tão ativo, sempre apegado ao “FAZER”, não aparece em nenhum momento como escritor, aliás, Odilon Nogueira de Mattos nos lembra que:

“não são comuns, ao contrário são até bem raros na bibliografia brasileira os escritos de fazendeiros. Mesmo quando ocupando cargos públicos ou exercendo profissões liberais, dotados portanto, de excelente lastro cultural, nossos homens de fazenda quase nada escreviam sobre assuntos agrícolas, que tivesse significado permanente”.

João Tibiriçá Piratininga teve um só filho, Jorge Tibiriçá, que viveu atuação política destacada no Estado de São Paulo nos primeiros tempos republicanos.


Crédito da Imagem: Almanak Admnistrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro


Nosso homenageado faleceu em pleno inverno europeu a 1 de dezembro de 1888, sem ver instalada a República no Brasil, seu grande sonho.

Para encerrar queremos lembrar que Indaiatuba perpetua sua memória com a criação da comenda “Medalha João Tibiriçá Piratininga” com a qual privilegia os seus filhos ilustres e Itu perpetua sua memória mantendo no Museu Republicano rico acervo sobre este grande homem e no cemitério da cidade, um belo túmulo, verdadeiro monumento, doado pelo Jornal “A Província de São Paulo” onde em bronze, se lê a notícia conforme publicada em 02/12/1888.

“Faleceu em Paris, o Sr. João Tibiriçá, um dos membros mais proeminentes do Partido Republicano Paulista e uma das inteligências mais esclarecidas da geração passada. Dele se pode dizer que era paulista dos antigos, paulista de velha têmpera. Não teve solução de continuidade a sua longa vida de cidadão exemplar e de chefe de família, que foi sempre apontada como modelo. Não se sabia curvar aquele caráter altivo, integérrimo; mas aquele brando coração sempre se moveu piedoso em presença de uma desgraça a socorrer, de um infortúnio a minorar.
... a Província de São Paulo chora um dos seus filhos mais ilustres.
... à beira do túmulo que se abre para tragar esta personalidade gigantesca, este vulto verdadeiramente talhado à romana, descobrimo-nos cheio de respeito e com o peito ralado de saudades. Que descanse em paz o grande lutador”.

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