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terça-feira, 4 de março de 2014

O Crime do Poço - Capítulo 13

Capítulo XIII– Premonição e Busca
Depois do relógio da matriz Nossa Senhora da Candelária ter anunciado meio-dia[1], quando o assunto já borbulhava, Antônio N., fingindo nada tendo a ver com o assunto, dirigiu-se com três colegas, Domingos Gazinhato, ferreiro, 29 anos, casado, e seu concunhado Ambrósio Lizoni, 35 anos, comerciante e Arthur Tomazi, 23 anos, negociante, para uma fazenda próxima, da Dona Escolástica Bicudo.  Domingos e Ambrósio caçavam passarinhos pelo caminho, com duas espingardinhas. Logo após a chegada deles, que foram até ali para comer melancias e esperar a hora passar, chegou Adão. Como era de se esperar, ali também o assunto emergiu.  
Adão disse que tinha feito negócio com ele, que era um moço bem jovem, de dezessete anos, e que trazia muito dinheiro consigo. Mas que, além disso, nada sabia e calou-se, cabisbaixo, não participando mais da conversa.
Domingos Gazinhato mostrou sua surpresa ao tomar conhecimento da idade, dizendo que com dezessete anos, ele era nada mais do que uma criança; mas que achava que ele deveria ter se engraçado com alguma mulher, com ela estando em qualquer parte naquela hora.
Antônio respondeu que... “Uma pessoa de dezessete anos já é um homem que sabe tratar de seus negócios, e não uma criança.”
Domingos Gazinhato encerrou a conversa teimando que sim, que achava sim, que ele era apenas uma criança. E sem notar nenhuma apreensão, arrependimento ou tristeza nos dois algozes, Domingos Gazinhato prolongou ainda o assunto, lançando na conversa a possibilidade de ter havido roubo seguido de morte, uma vez que, como dissera Adão, o menino tinha muito dinheiro.
Nessa hora Antônio N. disse que "...as conversas sobre o moço lhe arrepiavam o corpo e achava impossível que houvesse gente capaz de matar Domênico de Lucca nesta cidade”. Esperaram a chuva passar e foram embora.
 
Prédio da Cadeia e Câmara – Onde hoje há uma fonte luminosa, na Praça Prudente de Moraes
Foto do acervo do Arquivo Público Municipal de Indaiatuba – Coleção Antonio da Cunha Penna
Fundação Pró-Memória de Indaiatuba
 
Enquanto isso, Modesto foi a cadeia onde encontrou o delegado Firmino e o prefeito da cidade, Major Alfredo.
Foi formalizar a queixa.
Conforme redigiu o escrivão Luiz Teixeira, o Sr. Antônio Lelário declarou que havia estado com Domênico de Lucca no dia 04 e também no dia seguinte, quando tomaram o trem e saíram juntos em viagem até Rio das Pedras, onde ele desceu. No percurso, Domênico contara que viria para Indaiatuba a chamado de um negociante, para comprar milho.
Com base nos fatos e nas notícias, que corriam como vento no povoado, o delegado aceitou a queixa de Modesto de Lucca. Ordenou que naquela hora fossem sondar o poço localizado no quintal da venda de Adão R., indiciando-o para depor:
"... chegando ao meu conhecimento por queixa do cidadão Modesto de Lucca, que seu filho Domênico (...) desapareceu misteriosamente sem que se saiba o rumo que tomou e podendo haver no caso algum crime à apurar [uma vez que o desaparecido] trazia dinheiro consigo e tomando as declarações de Antônio Lelário que aqui [no prédio da cadeia] se acha em segredo presente, digo procedente o desentupimento do poço...”
Nesse ínterim, Antônio N. caminhou até na rua Candelária, esquina com o largo da Cadeia. Precisava espairecer e ali no local para onde fora, onde era a venda de José Balomiro, talvez conseguisse esquecer o que se no passara seu desagradável encontro com o pai do menino e talvez ainda respirar e serenar um pouco. Doce ilusão, pois a culpa estava dentro de si e qualquer fato ou pessoa o remeteria ao crime, uma vez que não se falava em outro assunto na até então pacata cidadezinha, atenta que estava com os últimos acontecimentos.
Na venda de José estava seu cunhado Nicola Ferrari e Domingos Gazinhato, todos os três do lado de fora, espreitando o que acontecia há poucos metros dali, na casa de Adão, onde as autoridades observavam ou planejavam alguma coisa... Algo referente a um poço. Desconheciam que tinham ido buscar o suspeito para ser preso.
Naquele momento chegou a venda o funcionário público Cornélio Inácio Ribeiro, 29 anos, casado, natural de Cabreúva, para pagar uma conta da Câmara no valor de 12:000$000 (doze mil réis). Como não sabia o que estava acontecendo na casa de Adão, Cornélio perguntou e o assunto emergiu, cada qual dando seus ruidosos pareceres, até que, para sobressalto de todos, Antônio gritou que parassem com o falatório. Que ele estava "... nervoso por pensar num crime tão horroroso, e que por isto não podia comer, nem tomar café.” Sem-graça, o grupo calou-se, pouco entendendo o surto. E para dispersar a muda inquietação que se instalou, Domingos brincou, respondendo: “[pois] eu estou muito fresco...” e entraram para o café.
Adão R. foi imediatamente levado para a cadeia, sob a suspeita de ter tido parte importante no desaparecimento do moço.  Sua detenção transformou o zum-zum-zum que percorria a cidade em verdadeira polvorosa: é que quando alguém ia preso, o sino da cadeia anunciava a detenção para todos.
- “Bem que percebi que as prateleiras da venda dele, antes tão vazias, estão agora cheia de ofertas...” Esse era o comentário geral, depois da “entrega” feita pelas sonoras e escancaradas badaladas.
Interrogado, protestou sua inocência e alegou não saber nada. Admitiu ter visto e falado “num daqueles dias” com Domênico, mas não sabia mais “nada, nada”, além disso.  
Já para sua mãe, que morava com o pai na colônia da Fazenda Bicudo, Adão confessou o crime. Em seu depoimento, a ela contou que no dia 12 de dezembro estava na calçada em frente a casa do carpinteiro Hugo quando, tomada por um susto, vira seu filho subindo a rua Candelária acompanhado por um soldado. Naquele momento perguntou ao filho o que significava aquilo. Ao que ele respondeu: "- que estava perdido... [porque] ...matamos um e atiramos no poço.” O soldado, sem ouvir o que fora dito, não se deteve, continuando a levar o suspeito disciplinadamente para a cadeia, deixando a mãe atordoada, sem querer aceitar a confissão que acabara de ouvir. Sua vida já era terrivelmente marcada por uma triste lembrança de outro assassinato, cometido pelo seu pai, Giovane Cavalieri. Apaixonado e amante de uma mulher casada de nome Regina, cego pela paixão e para atender seu pedido, havia assassinado em Banholo, Mantova, na Itália, o marido dela, um rico comerciante. Mas agora... O filho... Como suportaria a dor?
Naquela noite o delegado resolveu manter Adão preso, que protestava insistentemente nada saber sobre o assunto. Decidiu também que, na manhã seguinte, faria pessoalmente uma vistoria na casa do suspeito, especialmente no poço do quintal.
Enquanto isso o Sr. Modesto voltou para o hotel de Dona Meritá. A mulher emocionava-se ao falar de Domenico para o pai. Referia-se a ele como uma criatura afável, alegre e cordial, extrovertido e bem falante. “Ele era bondoso, acariciava a filhinha, lhe dera presentes”. E desatou em soluços.
“- Ele não voltou mais depois que saiu na tarde do dia cinco, prometendo voltar para o jantar. Tudo o que é dele está aqui... o Senhor pode ver.”
            O pai explodiu em soluços. Olhou para o leito arrumado com limpos lençóis e o pressentimento tomou força, invadindo e aterrando seu coração. Relembrou o sonho que tivera, pareceu ver ali o filho Domênico.
            - Dove ´sta Domênico? Dove ´sta Domênico? Dio Mio!
            A mulher chorava ao lado. Fora seus olhos que mais de perto acompanharam o trajeto final de Domênico, seus últimos instantes de vida, quando ele se afastaram alourado e belo, com seu chapéu acinzentado, na rua Candelária.
 



[1]  As informações deste capítulo são advindas dos autos do processo

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