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terça-feira, 24 de novembro de 2015

REMINISCÊNCIA DE UMA INDAIATUBANA

Reminiscência de uma Indaiatubana
Conceição Aparecida Garcia Brossi (2008)

Nasci em Indaiatuba, em 1932, ano em que ocorreu a Revolução Constitucionalista, e que perdemos o tão lembrado Voluntário João dos Santos, na esquina da Rua Dom José com a Rua Candelária, uma quadra abaixo da Matriz, que infelizmente já foi demolida. Neta de Cesar Zoppi e Teodora Cerqueira Zoppi - avôs maternos - e Miguel Fernandes Garcia e Carmen Trugilo Garcia - avôs paternos. Filha de Miguel Fernandes Garcia Filho e Duília Zoppi Garcia.

Passados dois ou três anos, nos mudamos para a casa dos meus avós paternos, ali na praça D. Pedro II, conhecida como Praça do Randolfo, na esquina da Rua 15 de Novembro com a Rua 11 de Junho.

Logo depois nos mudamos para a Rua 24 de Maio, onde a cidade terminava. De um lado duas ou três casas e em frente, do outro lado, havia somente campo.

Papai era ferroviário e por ser a sede da ferrovia localizada em Itu, tivemos que nos mudar para lá, onde moramos por três anos.

Estava com oito anos quando voltamos para a minha Indaiatuba, passando minha família a morar na Rua 5 de Julho, onde havia poucas casas com muitas árvores frutíferas, principalmente uma frutinha silvestre chamada guabiroba. Eu e uma prima com quem sempre brincava, gostávamos de ficar no pomar. Um dia colhemos um belo canecão cheio delas, subimos numa mangueira, comemos tanta guabiroba que até passamos mal.

Às vezes íamos ao campo onde hoje funciona o Shopping Jaraguá, antes uma fiação de algodão, o famoso Cotonifício que empregou muita gente, inclusive eu. Quando avistávamos aquelas palmerinhas, corríamos para lá. Hum! Que felicidade quando achávamos o cacho de cocos, uma delícia!

Corríamos para casa a fim de quebrá-los e saboreá-los. E quando chegava a hora de ir para a escola... o querido Randolfo, que saudade!

Minha primeira professora, D. Helena de Campos Camargo, nos ensinava tudo: ler, escrever, bordar, e artesanato para os meninos. No final do ano então, aquela exposição tão linda, a cidade toda prestigiava.

Por falar em escola, mamãe contava que o Randolfo Moreira Fernandes foi o primeiro professor oficial de Indaiatuba e que foi casado com uma de suas tias. No dia do casamento, procurando a noiva, acharam-na brincando de casinha e boneca embaixo de um pé de café. Tinha apenas 12 anos.
Como papai era ferroviário, nos mudamos para o largo da estação de trem.

Conheci aí uma pessoa maravilhosa que se tornou minha melhor amiga, Rosita, que infelizmente já partiu deste mundo.

No domingo, íamos pra matinê no cinema do Padre Rizzo, pároco da nossa querida Matriz Candelária. À noite, tão bom que era! Passeávamos na roda da praça. Moças de um lado e rapazes de outro, e o alto falante tocando músicas de sucesso. 

(padre Vicente Rizzo - em imagem feita em Romaria)

O casarão da Prefeitura no centro da praça, ruas todas de terra, não havia preconceitos. Todos passeavam felizes, brancos, negros, ricos, pobres, todos se divertiam, se misturavam. Uns flertando, outros namorando, tudo tão bom!

Lá pelo ano de 1950, chegava a primeira televisão na cidade. Havia uma loja de aparelhos eletrodomésticos cujo proprietário trouxe a primeira televisão. Foi um acontecimento inédito. O pessoal ficava vendo televisão no meio da 15 de Novembro quase na esquina da Bernadino de Campos, em frente à loja Nicolau, hoje farmácia Drogal.

Quando morria uma pessoa, levavam-na à igreja para a benção do corpo. Assim que o enterro saía, o sino dobrava aquele toque muito triste até se perder na Rua Candelária. Todos sabiam que alguém havia falecido. Lembro-me dos meus avós César e Teodora quando morreram, foi tudo tão triste, eu tinha 12 anos.

Indaiatuba era famosa por seu clima saudável: água pura e cristalina, e o ar puríssimo! As pessoas de fora, com problemas de saúde, vinham para cá a fim de se tratarem.

Uns se hospedavam na casa de parentes, outros em hotel, e os mais abastados nos apartamentos do Hospital Augusto de Oliveira Camargo.

Também pudera: a cidade era coberta de verde, com árvores frondosas; principalmente mangueiras em quase todos os quintais.

Na avenida Presidente Vargas não havia uma só casa, somente um imenso bosque de eucaliptos.
Atrás da Matriz Candelária, onde hoje é o salão Paroquial, havia um pequeno bosque de eucaliptos gigantes.

O ar que se respirava era puro e com um perfume delicioso.


Pessoas populares que fizeram história.

Delegado Gravatinha
Certa vez, chegou aqui um novo delegado. O nome dele ninguém sabia. Para todo mundo era o Gravatinha. Razão do apelido: usava sempre gravata borboleta. Era bravo, sisudo, autoritário, com ele não tinha moleza não. Ele mesmo fazia a ronda na cidade.  Depois das 10 horas, qualquer pessoa que encontrasse na rua ou praça, numa roda de amigos conversando ou um casal de namorados, ele se aproximava e logo ia mandando que se recolhessem!
Uma vez - não me lembro se foi véspera de ano novo ou sábado de Aleluia - enfim, era um dia de festa. Ia passando das dez horas, fazendo a ronda costumeira, intimou vários casais de namorados que ainda namoravam no portão, que o acompanhassem até a delegacia: e gente séria, de boa família.
Apesar da valentia, comentavam que ele não passava em frente à funerária naquele tempo em que expunham os caixões e urnas na vitrine. Se tivéssemos agora delegados como ele, seria muito bom.

Olga
Muitos casais namoravam encostados na parede do cine Santo Antônio, ou na outra parte do jardim, depois prefeitura, hoje Sapataria São Vicente. Quando tudo estava bem, lá surgia a Olga e seus meninos (filhos) de família tradicional e muito conhecida, pedindo dinheiro. Era alcoólatra, mas muito culta, falava muito bem, mas quando estava bêbada...!
Quando os namorados viam-na chegando, já tratavam de por a mão no bolso para lhe dar alguma moeda. Se lhe dessem algum trocado, agradecia; se não, escutassem os palavrões que ela disparava.

Lioneza
Lioneza, outra mulher popular que também bebia. Quando entrava na padaria do Denny ou em algum bar, davam-lhe algo: pão-doce, doce, bebida; se não, era só palavrão e gestos obscenos. Todo mundo fugia dela.

Aparecido
Aparecido não era um negro de rua. Vivia com sua mãe no bairro Santa Cruz, do outro lado da cidade. Um belo dia, ele apareceu com os pés cheios de bicho. Naquele tempo era comum pegar bicho de pé, andavam sempre descalços.
O que mamãe fez? Recolheu-o no quintal e mandou que se sentasse, pegou uma bacia com água, uma agulha, limpou, tirou todos os bichos, desinfetou tudo sem luvas, sem nojo, sem nada.
Essa cena de amor ao próximo deixou a mim e a minha irmã Isabel emocionadas. E fez tudo sem interesse algum, pois era um pobre coitado sem eira nem beira. Não como faz muita gente. Toma lá da cá.
Mamãe foi maravilhosa e muito caridosa. Guardamos por toda vida esse gesto de amor, esse exemplo.

Dito de Jeró
Dito de Jeró era um negro muito popular, toda a cidade também o conhecia. Todo o dia bem cedo lá estava sentado na porta da Matriz. Era o primeiro cristão a adentrar à Igreja. Logo que a missa começava, já se punha a fazer o sinal da cruz. Quem não o conhecia, fazia caçoada.
O tempo todo se benzia até sair da Igreja. Era um negro sério, esquisito, que a nós, meninada, inspirava medo. Mas não fazia mal a ninguém. Pobre Dito de Jeró!

Por tudo que estou narrando guardo muitas lembranças, muitas saudades da minha velha Indaiatuba.
Não foi à toa que Acrísio de Camargo e Nabor Pires Camargo, os autores do Hino Indaiatubano, afirmam nesse trecho:


Embora o teu campo já não seja
Tão vasto e florente
Tua alma sombria ainda tem
Encanto e poesia.
Te amo, minha querida...
Indaiatuba!
         

         

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